As Ruas Antigas do Rio de Janeiro: Cais do Valongo

Sigamos com a nossa investigação sobre as ruas do Rio de Janeiro em 1822! Nesta parte, analisaremos a terceira seção da planta da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, elaborada por Debret em 1835. O objetivo é identificar os locais onde viviam as pessoas escravizadas, com destaque para a região do Cais do Valongo.

Para conferir as outras partes, acesse aqui: (Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6)

Rua da Lagoa da Sentinela

A Lagoa da Sentinela, também conhecida como Lagoa de Capueiruçu, localizava-se no antigo caminho que ligava Mataporcos, antes chamado de Bairro Estácio, ao Engenho Velho.

A localização exata de sua existência correspondia ao ponto de interseção das Ruas Matacavalos, atualmente Rua Riachuelo, e Rua do Conde, que hoje é conhecida como Frei Caneca, em proximidade significativa ao Bairro do Catumbi.

Para fins de referência, pode-se afirmar que a lagoa se encontrava adjacente ao Morro do Senado, o qual foi desmantelado no início do século XX.

Rua de Matacavalos

A Rua de Mata-cavalos, atualmente conhecida como Riachuelo, localiza-se no centro do Rio de Janeiro e se estende da atual Rua Frei Caneca até os Arcos da Lapa. A etimologia do nome “Mata-cavalos” remonta à presença de atoleiros que dificultavam a passagem, resultando em desgaste para os animais, os quais, em algumas ocorrências, sucumbiam e eram obrigados a ser sacrificados.

Alternativamente, o nome poderia fazer referência às árvores designadas como “mata-cavalos”, que eram abundantes na região. Em 1865, a denominação foi alterada para Riachuelo, em homenagem à batalha naval homônima, ocorrida durante a Guerra do Paraguai. Ao longo do século XIX, essa rua abrigou indivíduos da elite econômico-social da Corte do Rio de Janeiro.

A Primeira Favela do Brasil

Sempre houve no Brasil regiões empobrecidas com assentamentos e comunidades quilombolas onde famílias em situação de extrema pobreza viviam em condições precárias; isso muito antes de 1897, quando os combatentes de Canudos se estabeleceram no Morro do Livramento.

No entanto, o primeiro local a ser oficialmente designado como favela foi a área conhecida como Morro do Livramento.

A história das favelas começa com o fim da Guerra de Canudos, após o Governo Brasileiro prometer aos combatentes da guerra que, caso vencessem, teriam direito a uma propriedade.

Após vencerem a guerra, eles foram então até o Ministério da Guerra, que na época ficava em frente ao Campo de Santana, atual Praça da República, cobrar o que o governo havia prometido.

Nota: O prédio na imagem (em frente ao Campo de Santana) foi construído na época de Getúlio Vargas

Porém, não receberam nenhuma forma de propriedade do governo, o que os levou a procurar um local onde pudessem permanecer até que suas casas fossem disponibilizadas, algo que nunca ocorreu. Esses combatentes estabeleceram-se no Morro do Livramento, onde a ocupação inicial restringia-se a algumas construções precárias. Os primeiros moradores eram oriundos do antigo cortiço Cabeça de Porco, que havia sido demolido meses antes.

Primeiras casas no morroErguidas no sopé, no estilo das construções de Canudos, predominantemente de alvenaria, com paredes caiadas e telhados de madeira.
Ocupação principal dos habitantesTrabalhadores de uma pedreira no morro, que funcionou até 1968.
Desabamento na pedreiraOcorreu em 1968, vitimando 36 pessoas.
Tentativa de desocupação do morro (1904)Prefeitura do Rio de Janeiro tentou desocupar o morro da Favela.
Impacto da Revolta da VacinaA revolta suspendeu a reintegração de posse do morro em 1904.

O Conceito de Favela

Favela é uma planta que possui “favos” e foi encontrada na região de Canudos, onde havia um morro que continha uma grande quantidade dessa vegetação, chamado “Morro da Favela”. Diante das semelhanças com o “Morro da Providência”, o local passou a ser denominado Morro da Favela.

Origem da palavra “favela”Deriva da Guerra de Canudos (1896-1897), um conflito entre o Exército brasileiro e seguidores de Antônio Conselheiro.
Local de origem do nomeMorro chamado Favela, em Canudos, que recebeu o nome devido à planta local Jatropha phyllacantha (mandioca-brava).
Relação com o Rio de JaneiroApós a guerra, soldados se estabeleceram no Morro da Providência, que passou a ser chamado de Morro da Favela.
Uso posterior do termo “favela”Tornou-se designação para assentamentos urbanos informais e precários em morros e outras áreas da cidade.

O Cortiço Cabeça de Porco

Antes do surgimento das favelas como as conhecemos atualmente, o cortiço representava a forma de habitação considerada “típica” das populações menos favorecidas, que em grande parte foram afetadas por uma abolição da escravatura desprovida de políticas efetivas para a integração da população de negros livres ao mercado de trabalho e à vida urbana digna.

O Cabeça de Porco foi o cortiço mais emblemático da história do Rio de Janeiro. Sua queda representa o símbolo definitivo da transformação do urbanismo nas grandes metrópoles do país, que, na época, almejava o reconhecimento como um centro moderno do Novo Mundo.

A elite brasileira buscava a validação de seus pares europeus para reafirmar a ideia de um país civilizado, superando o legado bárbaro de sua condição de ex-colônia. O Cabeça de Porco era o obstáculo que precisava ser removido para que esse processo se iniciasse de forma inequívoca.

Definição de cortiçosEstalagens com casebres e quartos pequenos, habitadas por pessoas muito pobres, como proletários e marginalizados.
Impactos da abolição da escravaturaNegros libertos sem políticas de integração ficaram marginalizados no mercado de trabalho e nas moradias.
Visão das elitesCortiços representavam o medo da união de negros libertos e proletários revoltados contra a exploração.
Perseguição às habitaçõesJustificada por preconceitos de raça e classe, mascarados como preocupações com modernidade e higiene pública.
Reformas urbanas no Rio de JaneiroInspiradas na Belle Époque europeia (1870-1922); busca por “modernização” à custa de negros e pobres.
Expulsão dos cortiços do centroEliminação dos cortiços forçou a ocupação dos morros, restringindo o acesso à cidade para os pobres e negros.
Resistência nos cortiçosMoradores se uniam para lutar por direitos e ajudar escravizados a conquistar a liberdade.
Objetivos das elites com o fim dos cortiçosDesarticular movimentos sociais, abrir espaço para a “modernização” e enfraquecer a solidariedade popular.

Sendo o maior cortiço da cidade, envolto em rumores sobre a origem de seu proprietário, o Cabeça de Porco enfrentava ameaças mensais da polícia e das autoridades sanitárias, que buscavam incessantemente sua desaprovação.

Entretanto, nenhuma pressão do município ou do estado se mostrava suficiente para desmantelar a imponente estrutura do cortiço. A situação começou a mudar com a chegada de Cândido Barata Ribeiro, médico baiano que obteve seu título de doutor em 1877, com a tese intitulada “Quais as medidas sanitárias que devem ser aconselhadas para impedir o desenvolvimento e propagação da febre amarela na cidade do Rio de Janeiro”.

Nesta obra, ele propõe diversas medidas para enfrentar a crise sanitária do país, destacando a erradicação dos cortiços, que, conforme um excerto citado por Chalhoub, era um espaço caracterizado por “miséria andrajosa e repugnante, que faz da ociosidade um trono”.

Localização do CortiçoPróximo à estação ferroviária Central do Brasil, na região portuária do Rio de Janeiro.
Origem do nomeO nome Cabeça de Porco era uma ironia, pois os donos das chácaras grandes e suntuosas que existiam na época colocavam estátuas de leão em suas portas, para demonstrar poder e riqueza. Então, os menos abastados botaram na porta do cortiço uma cabeça de porco, mas de verdade.
EstruturaFormado por sobrados subdivididos em diversos quartos; funcionava como um pequeno bairro.
ProprietáriosPopulação associava o cortiço ao conde d’Eu (marido da princesa Isabel), mas documentos indicam múltiplos proprietários.
Tentativas de desativação– Diversas tentativas durante o Império.
– Em 1891, a construção do túnel João Ricardo foi impedida pelo cortiço.
Demolição finalEm 1893, o prefeito Barata Ribeiro ordenou a sua eliminação, possibilitando o início das obras do túnel.
Capacidade e lendasAcreditava-se que até 4 mil pessoas moraram no cortiço ao mesmo tempo, embora não haja registros definitivos.

O Morro da Providência

Após a abolição da escravidão, no final dos anos 1880, os ex-escravos no Brasil enfrentavam a marginalização devido ao “embranquecimento” promovido pelo governo que incentivava a imigração europeia.

Sem valorização como força de trabalho e sem condições adequadas, muitos migraram para os morros do Rio de Janeiro, onde começaram a surgir as favelas. No Morro da Providência, cujo nome era associado à divindade, já que as pessoas esperavam uma providência divina, algo que pudesse intervir em suas vidas de maneira positiva, cresciam também os cortiços.

O Cortiço na Obra de Aluísio Azevedo

Os cortiços eram grandes casarões transformados em habitações de aluguel devido à falta de recursos dos proprietários.

O cortiço Cabeça de Porco, presente na obra de Aluísio de Azevedo, era uma imensa construção no Rio de Janeiro, próximo a uma pedreira, onde seus moradores viviam e trabalhavam.

Pertencente a João Romão, um homem ganancioso que controlava uma venda e a pedreira, o cortiço apresenta um monopólio na região.

A obra de Azevedo retrata fielmente a realidade dos cortiços dos anos 1890, com uma abordagem naturalista que destaca a vida cotidiana e a condição social da época.

Personagens como João Romão, o português Jerônimo e a mestiça Rita Baiana refletem os tipos sociais da época, proporcionando um olhar sobre a sociedade daquele tempo.

O Morador Ilustre

Em 1839, nasceu no Morro, então conhecido como do Livramento, uma figura proeminente que permanece um motivo de orgulho para os seus habitantes: Machado de Assis. Em sua obra Memórias póstumas de Brás Cubas, ele menciona a paisagem do morro em sua época: “… o morro estava ainda nu de habitações, salvo o velho palacete do alto, onde era a capela…”. De fato, registros históricos confirmam que, até 1840, não havia habitações visíveis no Morro da Providência.

Dados do morro na época de Machado de Assis
LocalizaçãoBairro da Gamboa, Zona Portuária do Rio de Janeiro, I Região Administrativa.
Limites– Norte: Cemitério dos Ingleses.
– Sul: Pedra Lisa.
– Oeste: Vila Portuária.
– Leste: Ladeiras do Barroso e do Faria.
Histórico de ocupaçãoComeçou no século XVII, durante a expansão da cidade do Rio de Janeiro.
Nomes anteriores do morro– Valongo: Nome original, derivado da instalação de uma capela em 1670 (Nossa Senhora do Livramento).
– Livramento: Nome associado à capela construída na Chácara de João Caieiro.
Atividades no século XVIII (1770)Base para armadores, traficantes de escravos, pescadores e embarcadiços.
Comércio de escravosO Valongo abrigou o principal comércio de escravos na região, com o “Depósito de mercadorias negras”.
Importância históricaReconhecido como a mais antiga favela do Rio de Janeiro.

A Importância do Morro da Providência para o Carnaval

O Morro da Providência exerceu uma influência significativa sobre a vida cultural da cidade a partir do século XX.

Blocos carnavalescos e escolas de samba, compostos por residentes e visitantes do Morro, integravam os desfiles carnavalescos da época, contribuindo para a valorização e a expressão da cultura local, que conquistava, a cada ano, um número crescente de apoiadores e relevância na cidade.

Na imagem, casa da tia Dodô da Portela, nascida Maria das Dores Alves Rodrigues, foi uma figura icônica no samba carioca. Nascida em 1920, ela começou sua carreira na Portela como porta-bandeira em 1935 e desempenhou essa função até 1966, contribuindo para 21 campeonatos da escola. Além disso, foi presidente da Ala das Damas e participou ativamente da vida da escola até sua morte em 2015, aos 95 anos.

O Morro da Favela estabeleceu-se como um dos mais renomados redutos dos sambistas. O Buraco Quente, área sob a designação de Cruzeiro na Providência, era considerado por muitos como o último bastião dos malandros nos anos 1930.

Dada a sua relevância, tornou-se o tema de composições de sambistas notórios, como o icônico Dodô, além de servir como inspiração para escolas de samba na década de 1940.

Diversos blocos carnavalescos, como “Fala Meu Louro”, “Bloco do Barroso” e “Fique Firme”, emergiram na Providência.

Os habitantes acreditam que a Escola de Samba Vizinha Faladeira, fundada na Providência em 1923, é a primeira escola de samba do Rio de Janeiro.

Em sua maioria, os moradores consideram São Jorge e São Cosme e Damião como santos protetores do Morro. Ao longo de suas ruas e becos, numerosos oratórios foram erigidos e são mantidos pelos residentes. A devoção a São Jorge é uma tradição consolidada.

Cais do Valongo

O Cais do Valongo, localizado no Rio de Janeiro, foi o principal porto de entrada de africanos escravizados no Brasil e nas Américas. O Brasil recebeu mais de quatro milhões de escravos, durante os mais de três séculos de duração do regime escravagista.

Pelo Cais do Valongo, na região portuária da cidade, passaram cerca de um milhão de africanos somente em 40 anos, o que o tornou o maior porto receptor de escravos do mundo.

Em 9 de julho de 2017, o local passou a integrar Lista do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

A inclusão nessa Lista reconhece o valor excepcional da memória da violência da escravidão e a resistência dos africanos e seus descendentes, ressaltando as responsabilidades históricas do Brasil, além da contribuição cultural, econômica e social dos negros ao Brasil e à América.

Revelado, em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, que abrange uma área de cinco milhões de metros quadrados, o Cais foi construído em 1811 pela Intendência Geral de Polícia da Corte do Rio de Janeiro.

O objetivo era retirar da Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados que eram levados para as plantações de café, fumo e açúcar do interior do Estado e de outras regiões do Brasil.

Os que ficavam na capital, geralmente eram os escravos domésticos ou aqueles usados como força de trabalho nas obras públicas. 

Em 2012, a prefeitura do Rio de janeiro acatou a sugestão das Organizações dos Movimentos Negros e, em julho do mesmo ano, transformou o espaço em monumento preservado e aberto à visitação pública.

O Cais do Valongo passou a integrar o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana, que estabelece marcos da cultura afro-brasileira na região portuária, ao lado do Jardim Suspenso do Valongo, Largo do Depósito, Pedra do Sal, Centro Cultural José Bonifácio e Cemitério dos Pretos Novos. 

Fonte: IPHAN

Antes da construção do Cais do Valongo, os escravizados desembarcavam na Praia do Peixe, que atualmente é conhecida como Praça XV, no centro do Rio de Janeiro. Eles eram negociados na Rua Direita, hoje chamada de Rua Primeiro de Março

Período HistóricoSéculo XVIII para XIX: países como Portugal, França, Inglaterra e Holanda começaram a proibir o comércio de escravos (Portugal continuou ativo por mais tempo).
Construção do Cais do ValongoConstruído em 1811 no Rio de Janeiro, durante a chegada da corte de Dom João VI em 1808. Foi uma obra estatal voltada para receber escravizados.
Mudanças na CidadeConstruções feitas por Dom João VI: Jardim Botânico, Fábrica de Pólvora, Observatório Nacional, Museu Real (atual Museu Nacional).
Importância do Valongo– Recebeu cerca de 1 milhão de africanos escravizados entre 1780 e 1830. – Único vestígio material da chegada de escravizados às Américas. – Tornou-se Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 2017.
Rua do ValongoAtual Rua Camerino, era o centro do comércio de escravos. Africanos eram vendidos em armazéns controlados, muitas vezes, por ciganos.
Leis Relacionadas– Lei Feijó (1831): proibia a importação de escravizados, mas não foi cumprida. – Lei Eusébio de Queirós (1850): proibiu definitivamente o tráfico de africanos.
Transformações no Cais– 1842: Cais do Valongo substituído pelo Cais da Imperatriz para receber Dona Teresa Cristina. – Reformas de Pereira Passos sobrepuseram outras estruturas ao Valongo.
Abolição da EscravidãoLei Áurea (1888): fim da escravidão no Brasil após pressões sociais e econômicas, mas sem indenização aos proprietários de escravos.
Legado da Escravidão– Racismo estrutural. – Memória coletiva ainda subestimada. – Reflexões importantes sobre preconceito racial e violência histórica contra negros.
Comparações HistóricasAssim como o Holocausto e o colonialismo no Congo Belga, a escravidão é uma tragédia histórica que merece mais atenção e reflexão.

Largo de São Francisco da Prainha

Em 14 de novembro de 1883, o subdelegado da freguesia de Santa Rita, na cidade do Rio de Janeiro, efetuou uma prisão em massa em uma casa de cômodos no Largo da Prainha, alegando que ali se encontrava um zungú.

Os zungús, muito comuns no século XIX, eram pontos de encontro de trabalhadores negros escravizados ou libertos, que se reuniam para comer, batucar ou praticar sua religião, sendo de grande importância para a sobrevivência cultural e religiosa dos negros.

Um zungú é uma casa dividida em pequenos compartimentos, frequentemente em mau estado de conservação ou insalubre, que serve de habitação coletiva para a população pobre. Também pode se referir a uma hospedaria de baixa categoria ou a uma situação de perturbação da ordem, como um alvoroço ou tumulto

No entanto, aquele zungú também era formado por homens brancos, incluindo estrangeiros, revelando o papel desses espaços coletivos nas trocas culturais que ocorriam na cidade entre o final do século XIX e o início do XX, principalmente entre imigrantes portugueses e a população negra.

Quase todos os 33 homens presos nesse dia trabalhavam no porto. Nessa época, o Largo de São Francisco da Prainha era conhecido como ponto de encontro dos portuários.

Esses trabalhadores, que no início do século XX se organizariam em sindicatos fortes e combativos como a União Operária dos Estivadores e a Sociedade de Resistência dos Trabalhadores em Trapiche e Café, eram em sua maioria negros.

Frequentemente enfrentavam a ação repressiva da truculenta polícia republicana, que não raro os prendia por vadiagem enquanto esperavam uma chamada para o trabalho na estiva.

Localizado no Bairro da Saúde, na zona portuária, e mais especificamente na Rua Sacadura Cabral, onde também está a Praça Mauá, o Largo de São Francisco da Prainha recebe esse nome pela proximidade com a Igreja de São Francisco da Prainha.

Até fins do século XIX, havia ali uma pequena praia – a Prainha – que começa a ser aterrada nesse momento e também sofre transformações com a modernização do porto, entre 1904 e 1910.

Toda região da Prainha tinham “má fama”. O medo que despertava associava-se, principalmente, à forte presença negra na região.

Foi também nessa mesma área que, no século XVIII, encontravam-se o mercado de escravos do Valongo e a Cadeia do Aljube, onde eram aprisionados os escravizados acusados de crimes e os quilombolas.

No início do século XX esta memória e a imagem negativa da região ainda eram muito fortes. O temor que o local despertava nas elites foi expresso nas crônicas de João do Rio, que se referiu à Saúde como “o bairro onde o assassinato é natural” e apontou que a Prainha, à noite, “causava uma impressão de susto”.

Nota: A antiga Cadeia do Aljube ficava localizada na antiga Rua do Aljube, que hoje é conhecida como Rua Acre, entre as ruas do Ourives e Camerino, no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro

Mercado de Escravos do Valongo

O mercado do Valongo, no Rio Janeiro, era o grande entreposto de escravos para a Corte e as províncias do Sudeste brasileiro (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo).

Criado em meados do século XVIII, funcionou na rua do mesmo nome (hoje rua Camerino) até 1831, quando foi aprovado um projeto de lei que abolia formalmente o tráfico de escravos africanos para o Brasil.

Chegado o navio negreiro da África, os traficantes providenciavam a licença para o desembarque dos escravos, o seu registro e pagamento dos direitos sobre sua entrada no país. Os escravizados eram, então, conduzidos para o mercado do Valongo onde havia uns 50 estabelecimentos tendo, cada um deles, de 300 a 400 cativos.

Os escravos eram lavados e, em geral, vacinados contra “bexigas” (varíola). O governo imperial exigia que todo escravo fosse vacinado na chegada.

A vacina era gratuita e sua aplicação valorizava a mercadoria. Como os negros chegavam muito magros e debilitados, os mercadores tinham a preocupação de alimentá-los.

A prática da “engorda” era estratégia para aumentar o valor da venda. Forneciam duas refeições ao dia, constituída de pirão, angu de fubá, carne-seca, bacon e feijão preto.  

Davam-lhes também frutas frescas, como laranjas e bananas, para evitar o escorbuto ou “mal-de-luanda” que o negro trazia do navio negreiro.

Na imagem, um homem negro procura comida no lixo da Rua Camerino (foto de 2024)

As vendas podiam ser por “peça” (individual) ou por lote de escravos. Os cativos tinham os cabelos raspados e apenas um pedaço de pano para cobrir o corpo ou nem isso sendo exibidos completamente nus para uma “melhor inspeção” dos compradores. Estes inspecionavam meticulosamente as “´peças” apalpando músculos, seios, sexo, dentes à vista de todos.

Fonte: studhistoria

A Pedra do Sal

Contigua ao Largo da Prainha, está a Pedra do Sal. Local de descarregamento de sal, entre outros gêneros, desde o século XVI, a Pedra do Sal ficou conhecida como reduto de músicos negros, que entraram para história como precursores do samba e dos ranchos carnavalescos.

Foi o caso de Hilário Jovino, que morou nos arredores da Pedra do Sal e fundou, no final do XIX, o primeiro rancho carnavalesco que se tem notícia: o Rei de Ouros. O Lalau de Ouro, como era conhecido, trabalhou no cais do porto ao lado de sambistas famosos como João da Baiana e Elói Antero Dias – o Mano Elói. Estes, além das atividades carnavalescas, participaram ativamente nos sindicatos portuários. 

NomeInformação Resumida
Hilário Jovino Ferreira (Lalau de Ouro)Nascimento: 21/10/1855 (Bahia). – Falecimento: 01/03/1933 (Rio de Janeiro). – Compositor, letrista, agitador cultural, pioneiro do samba e primeiro carnavalesco. – Criador do rancho “Rei de Ouros”, introduzindo o enredo, instrumentos de cordas e sopro, e o casal mestre-sala e porta-bandeira.
João Machado Guedes (João da Baiana)Nascimento: 17/05/1887 (Rio de Janeiro). – Falecimento: 12/01/1974 (Rio de Janeiro). – Compositor, cantor, passista e instrumentista, reconhecido como pioneiro do samba em vários aspectos.
Elói Antero Dias (Mano Elói)Nascimento: 02/05/1888 (Resende, RJ). – Falecimento: 10/03/1971 (Rio de Janeiro). – Cantor, multi-instrumentista, compositor de samba, pai de santo, camelô, estivador, dirigente de carnaval e líder sindical.

Em fins de século XIX e início do XX, trabalho, atuação política e diversão se encontravam na zona portuária e era bastante comum que trabalhadores sindicalizados, muitas vezes dirigentes sindicais, estivessem também à frente das associações carnavalescas, como nos casos de Cypriano José de Oliveira, Antenor dos Santos, Horácio de Souza Moreira e o próprio Mano Elói – que mais tarde fundaria a Escola de Samba Império Serrano.

Origem do Nome da Pedra do salLocal onde o sal importado de Portugal era descarregado por escravizados africanos.
ConstruçãoDegraus talhados na pedra pelos próprios negros.
Importância CulturalLocal de fundação dos primeiros ranchos carnavalescos, afoxés e pontos ritualísticos na segunda metade do século XIX.
Rodas de SambaSambistas estivadores se reuniam para rodas de samba nas casas das tias baianas após o trabalho.
Frequentadores FamososGrandes nomes da música, como Pixinguinha, frequentaram o local.
Atividades AtuaisA Pedra do Sal ainda recebe rodas de samba e eventos culturais.

Cemitério dos Pretos Novos

Um sítio arqueológico foi descoberto no número 36 da Rua Pedro Ernesto no ano de 1996, quando os moradores de uma casa realizavam uma reforma na residência. Durante as escavações, foram encontrados milhares de fragmentos de ossos humanos misturados.

Embaixo da estrutura do prédio havia um cemitério secular de negros vindos da África que, doentes, morriam antes de serem comercializados. Com o objetivo de manter vivo este capítulo da história do país, o local foi transformado em sítio arqueológico e, mais tarde, em Centro Cultural.

No meio deste espaço (de 50 braças) havia um monte de terra da qual, aqui e acolá, saíam restos de cadáveres descobertos pela chuva”. G. W. Freireyss (descrição do local feita pelo viajante alemão que foi testemunha ocular do cemitério).

“O cemitério destinava-se ao sepultamento dos pretos novos, isto é, dos escravos que morriam após a entrada dos navios na Baía de Guanabara ou imediatamente depois do desembarque, antes de serem vendidos.

Ele funcionou de 1772 a 1830, no Valongo, faixa do litoral carioca que ia da Prainha à Gamboa.

Funcionara antes no Largo de Santa Rita, em plena cidade, próximo de onde também se localizava o mercado de escravos recém-chegados.

O vice-rei, Marquês do Lavradio, diante dos enormes inconvenientes da localização inicial, ordenou que mercado e cemitério fossem transferidos para o Valongo, área então localizada fora dos limites da cidade.

O Valongo entrou, então, para a história da cidade como um local de horrores. Nele, os escravos que sobreviviam à viagem transatlântica recebiam o passaporte para a senzala. Os que não sobreviviam tinham seus corpos submetidos a enterro degradante. Para todos, era o cenário tétrico do comércio de carne humana.”

Tia Ciata e a História do Samba

A Pedra do Sal foi constantemente associada à história do samba carioca. Tia Ciata, cuja casa ficou conhecida como reduto de sambistas, referia-se à Pedra do Sal como ponto de referência para os negros que deixavam a Bahia rumo ao Rio no pós-abolição.

O ambiente festeiro e religioso do lugar marcou a experiência daqueles que frequentavam o local. O sambista Heitor dos Prazeres deu à região uma definição que ficou na memória da cidade: “Era a Pequena África no Rio de Janeiro”.

O apelido, embora não dê conta da diversidade étnico-racial e cultural da região, resiste nos dias de hoje. No Rio de Janeiro, a Pedra do Sal é o coração da Pequena África e a memória ligada às manifestações culturais e religiosas dos negros permanece viva.

Nome CompletoHilária Batista de Almeida (conhecida como Tia Ciata).
Período de VidaViveu na segunda metade do século XIX.
Importância CulturalFigura essencial na criação e difusão do samba no Brasil.
Atuação ReligiosaMãe de santo.
ResidênciaMorava na Praça Onze, no Rio de Janeiro.
Contribuição ao SambaRecebia músicos em sua casa e promovia rodas de samba, mesmo em um período em que o gênero era proibido.
Marco HistóricoQuintal de sua casa é considerado o local de origem do primeiro samba gravado, “Pelo Telefone”, de Donga.

Nascida em 13 de janeiro de 1854, no Recôncavo Baiano, Tia Ciata foi iniciada na Irmandade da Boa Morte, associação afro-católica que cultuava os orixás e a ancestralidade africana.

Aos 22 anos, em 1876, mudou-se para o Rio de Janeiro com uma filha, levando o samba de roda e conhecimentos sobre ervas e cultos afro-brasileiros. Casou-se com João Baptista da Silva, funcionário público, com quem teve 14 filhos.

No Rio, residiu em locais marcantes, como a Pedra do Sal e a Rua General Câmara, estabelecendo-se definitivamente na Praça Onze, na Cidade Nova, reduto de negros alforriados e imigrantes, apelidado por Heitor dos Prazeres de “Pequena África”. Lá, sua casa tornou-se o “berço do samba”, recebendo músicos como Pixinguinha, Donga e João da Baiana.

A Praça Onze original foi demolida na década de 1940 para dar lugar à construção da Avenida Presidente Vargas. Hoje, a área da Praça Onze é ocupada pela estação de metrô Praça Onze e pela própria avenida.

Ialorixá de Oxum, quituteira e sambista, Tia Ciata era respeitada tanto no candomblé quanto na música.

Apesar da perseguição ao samba, ela não era importunada pela polícia, devido às suas boas relações, principalmente após ter curado o ferimento do Presidente Venceslau Brás.

Sua casa foi palco da criação de “Pelo Telefone”, primeiro samba gravado, lançado em 1916. Tia Ciata faleceu em 10 de abril de 1924, aos 70 anos, reconhecida como uma das figuras mais importantes para a cultura afro-brasileira e o samba.

A Praça XI

A Praça Onze surgiu na mesma época da chegada de Dom João VI ao Rio de Janeiro, em 1808. Inicialmente designada como Rocio Pequeno, tratava-se de uma área roçada que, em várias cidades portuguesas, com frequência se convertia na Praça Central.

Depois, recebeu o nome de Praça Onze em homenagem à vitória brasileira na Batalha do Riachuelo, em 11 de junho de 1865, durante a Guerra do Paraguai.

Porém, a história da Praça Onze mudaria com a chegada de Tia Ciata, uma mulher extraordinária.

A Praça Onze foi destruída em 1940 para a construção da Avenida Presidente Vargas. Antes disso, o local havia se tornado cosmopolita, recebendo imigrantes judeus, italianos e espanhóis, além de manter a forte presença negra e baiana.

Destruição da Praça OnzeEm 1940, foi demolida para dar lugar à Avenida Presidente Vargas. Antes disso, era um local cosmopolita, abrigando negros, baianos e imigrantes (judeus, italianos, espanhóis).
Figura de Tia CiataUma das primeiras “baianas cariocas”, sambista, quituteira e ialorixá. Dedicava seus quitutes aos orixás e os vendia em tabuleiros, popularizando essa tradição.
Proteção políticaConquistou proteção policial devido a suas habilidades como curandeira, curando uma ferida do presidente Venceslau Brás.
Legado culturalFaleceu em 1924, sendo central na formação do samba. Sua casa foi berço do samba, e ela possivelmente inspirou a criação da ala das baianas nas escolas de samba.

Itinerário de Chegada e Locais de Convivência dos Escravizados no Rio de Janeiro

Após meses de viagem em condições deploráveis nos porões dos navios, os negros chegavam à alfândega, situada no edifício que atualmente abriga o Centro Cultural Banco do Brasil, onde eram identificados e registrados para o pagamento de impostos.

Na imagem em preto e branco, “Débarquement” (O desembarque), que integra o livro Viagem pitoresca através do Brasil, de 1835, o pintor alemão Johann Moritz Rugendas representa uma cena de desembarque de africanos após a travessia do Atlântico.

Em sequência, eram reembarcados para um período de oito dias em regime de isolamento, inicialmente realizado em ilhas adjacentes à cidade e, posteriormente, em um lazareto situado em um bairro afastado do centro. Apenas após esse período, eram direcionados ao mercado do Valongo, onde eram expostos e vendidos, a fim de suprir com mão de obra forçada as províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

Subindo até a Rua Camerino, donde ainda existem vários casarões com três andares, sendo o térreo utilizado como mercado de escravos. Na outra margem esquerda de quem chega ao cais do Valongo, localiza-se um largo conhecido como “Largo de São Francisco da Prainha”; neste espaço, havia os zungus, muito comuns no século XIX, que serviam como pontos de encontro para trabalhadores negros escravizados ou libertos, que se reuniam para compartilhar refeições, tocar instrumentos e praticar sua religião, desempenhando um papel crucial na preservação cultural e religiosa da população negra.

Contígua ao Largo da Prainha, encontra-se a Pedra do Sal. Este local, que serviu como ponto de descarregamento de sal e outros produtos desde o século XVI, tornou-se notório como um reduto de músicos afro-brasileiros, que são reconhecidos na história como os precursores do samba e dos ranchos carnavalescos.

Na margem oposta, agora à direita do Cais do Valongo, havia um cemitério destinado aos negros, onde eram sepultados os recém-chegados, ou seja, os escravos que faleciam após a chegada dos navios na Baía de Guanabara ou logo após o desembarque, antes de serem vendidos.

Bizarrices Desumanas da Escravidão no Brasil

1752Carta de Dom José IOrdenou apuração de queixas de oficiais da Câmara sobre o trânsito de escravizados pela alfândega.
1808Carta de Paulo Fernandes VianaProibiu o trânsito a pé de escravizados entre a alfândega e o Valongo; transporte passou a ser feito por mar, com quarentena nas ilhas das Enxadas ou Bom Jesus.
Termo usado“Descarga”O desembarque de escravizados era chamado de “descarga”, evidenciando a desumanização total dos indivíduos.
1811Construção de sanatório no Morro da SaúdeCriaram uma área de quarentena para escravizados “doentes”se limparem” antes de serem vendidos no Cais do Valongo.
1831Chegada de 700 escravizados ao Rio de JaneiroApesar das crescentes restrições internacionais ao tráfico de escravizados, desembarques ainda ocorriam em grande escala.

A Cidade do Samba

Localizada no bairro da Gamboa, no Rio de Janeiro, a Cidade do Samba Joãosinho Trinta é um complexo de barracões onde as escolas de samba do Grupo Especial preparam suas alegorias e fantasias para o Carnaval.

Inaugurada em 2006, a Cidade do Samba foi projetada para integrar a arquitetura dos armazéns do cais do porto e fomentar a indústria do carnaval e do turismo.

Este local é significativo, pois está situado na região onde o samba nasceu, um gênero musical criado e desenvolvido por pessoas negras que desempenharam um papel crucial na cultura brasileira.

Entre as figuras importantes na criação do samba, destacam-se Tia Ciata, uma das matriarcas do samba, que organizava rodas de samba em sua casa, e Donga, compositor do primeiro samba registrado, “Pelo Telefone”.

Além deles, Machado de Assis, embora mais conhecido como escritor e fundador da Academia Brasileira de Letras, também foi uma figura importante na cultura afro-brasileira e morador do Morro do Livramento.

FIM

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