Sobre o Autor
Jairo César de Siqueira nasceu em 31 de agosto de 1908, em São José dos Campos. Estudou no Grupo Escolar Olímpio Catão e foi seminarista em Taubaté. Dedicou-se aos estudos de contabilidade e farmácia, atuou como funcionário público no Tesouro do Estado e foi colunista do jornal Correio Joseense, escrevendo sobre São José dos Campos.

Também foi professor na Faculdade de Filosofia da cidade e ocupou a cadeira nº 12 da Academia Joseense de Letras. Recebeu o título de comendador e foi homenageado com as medalhas Primavera “MMDC” e “Cassiano Ricardo”.
O trecho a seguir foi retirado da obra “Nossa Cidade de São José dos Campos”, escrita pelo professor Jairo César Siqueira, onde ele resgata as histórias, crônicas, memórias e o folclore de São José dos Campos, no período compreendido entre 1917 e 1930.
A Cidade no Meu Tempo de Menino – 1925
Ela dormia ao sol de dezembro numa modorra que se prolongava desde o meio-dia até as três horas da tarde no verão. As ruas sempre vazias apresentavam desolador aspecto de abandono.
O sol reverberava e das camadas da areia fina que cobria as ruas um calor insuportável envolvia a cidade inteira. De espaço a espaço algum carro solitário levantava nuvens de poeira e de fumaça, quando era um automóvel barulhento que quebrava o silêncio que embalava a cidade adormecida.

Andorinhas em bandos, nas tardes sem vento, ocupavam os fios e os postes de onde arriscavam voos alegres no azul do espaço, chilreando docemente para não perturbar a cidade sonolenta. Era assim a nossa cidade.
Quieta, sossegada e preguiçosa, só despertava do torpor de todos os dias quando chegava o domingo. Nesse dia, desde a madrugada, começavam a circular pelas ruas tropas carregadas de cargueiros com gêneros que seriam vendidos no Mercado Municipal reconstruído, o mais recente melhoramento da comunidade.
Também desde cedo chegavam os carros de bois vindos da zona rural, que entravam no centro da cidade galgando as ladeiras que protegiam a principal área comercial, e subiam pela encosta do Lavapés, pela entrada do Serimbura, pela Rua Paraibuna, pela ladeira do Matadouro ou pela Rua Paraíba, o único caminho para a Mantiqueira.
Vinham cheios de alguma coisa: jacás com galinha e patos, abóboras e morangas, carás e mandioca, mangaritos, frutas e legumes, verduras e milho verde, cereais e farinhas, rapaduras e talhadas, ou simplesmente traziam lenha.

O povo da cidade parava para ver as famílias que vinham da roça em carros cobertos por mantas de couro cru, puxados por juntas de bois, acompanhados por cavaleiros, e então reparava-se que todos tinham a alegre expressão de quem chegava para uma festa.
E era mesmo uma festa para aquela gente simples vir da roça aos domingos, para assistir piedosamente a missa domingueira e depois se esparramar pelas ruas do Mercado, do Fogo, De Trás e Direita, em busca de lojas onde se abasteciam de chitas, morins, algodãozinho e brins cáqui, linhas de coser, grampos, pregadores e alfinetes de gancho, sabonetes (“Flor-da-Índia”) e demais utilidades, para, em seguida, invadir as farmácias em busca de purgas e mézinhas onde sempre entrava a famosa composição de maná-sene-e-rosa, pomadas para frieiras, queimaduras e mijações, ou na procura de homeopatias com pedidos encabeçados pela beladona, acônito e alho-sativum.
Em seguida pediam águas-de-cheiro, pacotinhos de alvaiade, magnésia, sal-de-frutas, pedra-ume, noz-moscada ou vaselina com ou sem cheiro.

Somente depois de visitadas as boticas, os roceiros buscavam os armazéns para o sortimento de arame farpado e liso, cordas para cacimbas e laços, quartas de sal grosso para o gado e moído para a cozinha, açúcar preto, mascavo ou cristalizado, e em seguida pediam anilinas para tingir panos tecidos em casa, em teares herdados de avós, usando fibras de algodão nativo.
O resto dos pedidos nos armazéns era assunto para os homens: enxofre, salitre e formicida para a pólvora caseira e para matar saúvas; chumbos “Paula Souza” do grosso e do fino; facas “Sorocabanas”, canivetes “Solingen”, “Rogers” ou “Corneta”; enxadas, cavadeiras e pás, machados e torqueses.
Nunca se esqueciam da carne-seca nem do querosene marca “Jacaré” em latas de 20 litros. Ainda compravam um mundo de coisas indispensáveis na roça.
Era costume antes das compras nos armazéns, executarem o ritual tradicional do “mata bicho”. O chefe da família pedia um martelo de pinga e era o primeiro a degustar o explosivo líquido. Passava o copo ao filho mais velho, que bebia um gole e dava o copo a outro irmão, e este a outro, até que o patriarca molhava o dedo indicador da mão direita na bebida e dava-o ao menino de colo para chupar — “é prá não espantar as bichas” — dizia convicto. Só então pedia nova rodada e outro martelo de pinga com capilé ou groselha para atender a parte feminina da família e as crianças.

Quando faziam as compras procediam sempre como se fosse uma cerimônia especial. Escolhiam a mercadoria, perguntavam o preço, consultavam todos os elementos adultos da família e afinal mandavam cortar ou pesar o artigo, e na hora de fazer o pagamento tiravam de algum lugar das suas vestes enormes lenços ramados e coloridos, que desamarravam de muitos nós, e do recesso extraiam um dinheiro que era contado, recontado cuidadosamente, e faziam o pagamento.
Recebiam o troco e o amarravam no lenço com os mesmos inumeráveis nós, mostrando nas feições uma atenção de quem cumpria um ritual. É que o dinheiro para o trabalhador do campo sempre teve um valor muito mais acentuado do que para a gente da cidade porque muito mais difícil de ser ganho e, principalmente, porque quase todos da família cooperavam para sua conquista. Dinheiro ganho com tanto sacrifício tinha que ser gasto com bastante usura e extremos cuidados.
Muitos roceiros nunca deixavam de fazer uma visita semanal ao cemitério local, onde vertiam sentidas lágrimas de saudade em memória de entes queridos e só então se preparavam para a viagem da volta.
Para eles o domingo havia terminado e já faziam planos para o domingo seguinte.

No crepúsculo, os rapazes e as moças da cidade iniciavam o passeio dominical pela Rua Direita, num vai-e-vem sem pressa, entre o Largo da Matriz e o Largo da Cadeia, com parada obrigatória no Jardim da Preguiça. Quando a noite caía, num domingo de tempo firme, o Jardim apresentava um ajuntamento de atenta multidão girando em torno do coreto, dentro do qual a Banda Musical São Benedito fazia retretas semanais com programas alegres de dobrados, maxixes e ragtimes, enquanto a mocidade namoriscava entre sorrisos e com expressões de felicidade.
Era assim a cidade no meu tempo de menino. Ingênua e romântica. As senhoras não saíam das suas casas e os chefes de famílias costumavam se encontrar com amigos em conversas intermináveis nos botequins ou nas esquinas das ruas centrais, enquanto os cavalheiros da nata social tinham preferência para encontros no Bar e Confeitaria XV, de propriedade do simpático Chico Frade, ou na Farmácia do Manezinho Ricardo, ou ainda no salão de entrada do Hotel Baptista, no Largo da Matriz.
No “footing” da Rua Direita só os noivos andavam de braços dados. Os namorados e aqueles que só “tiravam linha” apenas trocavam olhares cheios de promessas quando se cruzavam. As moças faziam grupos, chamados de “ranchos”, e os rapazes formavam turmas, com a maioria em pé, na beira das calçadas, apreciando o movimento. A sociedade ainda não permitia que os simples namorados “tomassem o bonde”, isto é, que andassem de braços dados. Só os noivos e os casados podiam fazê-lo.

Numa pequena loja que vendia artigos musicais arranjaram um alto-falante e um locutor muito inspirado e de boa voz tinha nas noites de cada domingo um programa chamado “Correio Sentimental”, onde irradiava poesias e recados para os namorados, e nos intervalos um gramofone tocava valsas vienenses com orquestras alemãs.
Quando o relógio da torre da Matriz batia 10 horas da noite já não havia gente nas ruas principais e, raramente, se encontrava algum pedestre não só no centro comercial como em qualquer rua da cidade, o que só acontecia em casos de emergência ou de festas.
A cidade dormia o sono pesado das comunidades sem problemas, sem tumultos, sem excesso de população, sem poluição, sem guardas e sem marginais. Os que povoavam nossas ruas eram os gatos e os seresteiros, ambos quebrando o silêncio com sentidas serenatas.
Os que estavam recolhidos e com insônia cobriam suas cabeças com cobertores quando escutavam o rasquear das corujas “cortando mortalha” sobre os telhados, e muitas mãos buscavam rosários para cortar o agouro.
Galos de todas as espécies trocavam mensagens que paravam à meia-noite e recomeçavam na aurora.
O domingo havia terminado e a cidade adormecia…
Questionário
- Como o autor descreve a cidade de São José dos Campos nas tardes de verão de 1925?
- Quais elementos presentes no primeiro trecho ajudam a transmitir a ideia de uma cidade calma, silenciosa e pouco movimentada?
- Segundo o autor, em que dia da semana a cidade despertava de sua rotina tranquila?
- Por que o domingo provocava uma transformação no cotidiano da cidade?
- De onde vinham os carros de bois que chegavam ao centro da cidade?
- Quais produtos trazidos da zona rural eram comercializados ou transportados pelos roceiros?
- Qual era a importância do Mercado Municipal para a movimentação da cidade aos domingos?
- Além de realizar compras, qual atividade religiosa fazia parte da rotina dominical das famílias que vinham da zona rural?
- Quais tipos de produtos os moradores da zona rural procuravam nas lojas e farmácias da cidade?
- O texto menciona diversos medicamentos e produtos utilizados naquela época. O que essas informações revelam sobre os hábitos cotidianos e os cuidados com a saúde da população?
- Que produtos e ferramentas destinados ao trabalho rural eram comprados pelos roceiros nos armazéns?
- Explique, de acordo com o texto, o que era o ritual chamado “mata bicho”.
- Como as famílias realizavam o pagamento de suas compras?
- Por que, segundo o autor, o dinheiro possuía um valor especialmente significativo para os trabalhadores do campo?
- Qual era a relação entre o trabalho familiar e a obtenção do dinheiro entre as famílias da zona rural?
- Que costume alguns roceiros mantinham antes de iniciar a viagem de volta para casa?
- Como era o passeio dominical dos jovens da cidade ao entardecer?
- Quais locais da cidade faziam parte do percurso desse passeio?
- Que papel desempenhava a Banda Musical São Benedito nas noites de domingo?
- O que o autor quer dizer quando caracteriza a cidade de sua infância como “ingênua e romântica”?
- Onde os homens costumavam se reunir para conversar?
- O que era o “footing” da Rua Direita e qual era sua importância para a sociabilidade dos jovens?
- De acordo com os costumes sociais da época, quem podia andar de braços dados publicamente?
- O que significava a expressão “tiravam linha” no contexto dos relacionamentos amorosos descritos pelo autor?
- Como as moças e os rapazes se organizavam durante os passeios pela cidade?
- O que o costume de proibir simples namorados de andar de braços dados revela sobre a sociedade da década de 1920?
- O que era o programa “Correio Sentimental” e qual era sua função nas noites de domingo?
- Que tipo de música era tocada pelo gramofone durante os intervalos do programa?
- O que acontecia com o movimento das ruas quando o relógio da torre da Matriz marcava dez horas da noite?
- Quem, segundo o autor, ainda podia ser encontrado nas ruas durante a madrugada?
- Qual crença popular estava relacionada ao som das corujas “cortando mortalha”?
- Por que algumas pessoas buscavam rosários ao ouvir as corujas durante a noite?
- Como o autor descreve o encerramento do domingo e o retorno da cidade à tranquilidade?
- Compare a movimentação da cidade durante os dias comuns com a movimentação observada aos domingos.
- Identifique no texto três exemplos de costumes que praticamente desapareceram ou se transformaram na sociedade atual.
- Quais diferenças podem ser percebidas entre a vida das pessoas da zona rural e a vida dos moradores da área urbana?
- De que maneira o comércio, a religião e o lazer se encontravam relacionados na rotina dominical descrita pelo autor?
- O texto apresenta diversas referências a ruas, praças, estabelecimentos e outros espaços da antiga São José dos Campos. Qual é a importância dessas referências para a preservação da memória histórica da cidade?
- O relato foi escrito a partir das lembranças da infância do autor. Por que um texto de memória pode ser utilizado como fonte para compreender a história de uma cidade?
- Considerando que a obra registra a vida joseense entre 1917 e 1930, quais transformações você imagina que São José dos Campos sofreu desde o período descrito pelo autor?
- Escolha uma passagem do texto que, em sua opinião, melhor representa a São José dos Campos de 1925 e explique sua escolha.
- O autor apresenta uma visão predominantemente nostálgica da cidade de sua infância. Quais palavras, expressões ou descrições ajudam a construir essa sensação de nostalgia?
- A frase final afirma: “O domingo havia terminado e a cidade adormecia.” Que relação essa frase estabelece com o início da narrativa, em que a cidade também é apresentada como adormecida?
- A partir do texto, descreva como seria um domingo completo em São José dos Campos no ano de 1925, desde a madrugada até a noite.
- Produção textual: Imagine que você pudesse caminhar pelas ruas de São José dos Campos em 1925. Escreva um pequeno relato contando o que você veria, ouviria e faria durante um domingo na cidade.
FIM
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