O conteúdo a seguir reúne trechos de uma pesquisa sobre a questão sanitária no Brasil durante o século XIX. O texto foi organizado em formato expositivo, com o objetivo de apresentar as informações de forma clara e acessível.
As informações aqui reunidas foram extraídas das seguintes obras: 1822 e Escravidão – Volume 3, de Laurentino Gomes; Dom Pedro: A História não Contada, de Paulo Rezzutti; Dez Anos no Brasil, de Carl Seidler; Os Diários de Maria Graham; e Racismo Brasileiro: Uma História da Formação do País, de Inaê Lopes dos Santos.
Doenças no Século XIX
Em 1822, o conhecimento sobre doenças e higiene era bastante limitado. A medicina estava em desenvolvimento, e a maioria das práticas e conceitos que hoje consideramos essenciais não existiam.
As doenças geralmente eram atribuídas a desequilíbrios dos “humores” do corpo, uma teoria que remontava à medicina hipocrática, e os tratamentos geralmente incluíam sangria, superstição, e o uso de ervas e remédios tradicionais.
Na medicina hipocrática, a teoria dos humores era aplicada para diagnosticar e tratar doenças com base no equilíbrio dos quatro humores: Sangue, fleuma, bile amarela e bile negra.
Os médicos (curandeiros) na época acreditavam que a saúde dependia da harmonia entre esses fluidos, e qualquer desequilíbrio causava doenças.
Na Grécia antiga, os pitagóricos viam o mundo formado por quatro elementos, ligados a qualidades opostas.
Essa visão deu origem à teoria hipocrática dos quatro humores: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra, cuja harmonia mantinha a saúde; o desequilíbrio causava doenças.
Galeno associou os humores aos temperamentos humanos, influenciando a medicina por mais de dois mil anos.
Nota: Cláudio Galeno (129 d.C. – 217 d.C.) foi um proeminente médico e filósofo romano de origem grega. Ele revitalizou e expandiu a Teoria dos Humores, originalmente criada por Hipócrates. Suas ideias dominaram a ciência médica ocidental por mais de 1.300 anos.
Humor
Alimentos Recomendados
Propriedades dos Alimentos
Objetivo da Dieta
Sanguíneo
Carnes, vinho
Quentes e úmidos
Estimular a vitalidade
Fleumático
Especiarias, alimentos picantes
Quentes e secos
Reduzir o excesso de fleuma
Bile Amarela
Vegetais, frutas
Frios e úmidos
Acalmar o excesso de bile amarela
Bile Negra
Grãos, alimentos assados
Quentes e secos
Equilibrar a bile negra
Os tratamentos eram voltados para restaurar esse equilíbrio, utilizando práticas como:
Tratamento
Finalidade
Sangrias
Remover o excesso de sangue ou outros fluidos do corpo.
Purgantes e eméticos
Eliminar substâncias consideradas “ruins”, como toxinas e humores desequilibrados.
Dietas específicas
Ajustar a alimentação para influenciar e equilibrar os humores corporais.
Banhos e exercícios
Promover a harmonia corporal e estimular o equilíbrio natural dos humores.
A Medicina no Século XIX
Durante o Brasil Colonial, não havia mulheres oficialmente reconhecidas como médicas no sentido acadêmico ou institucional. A medicina formal era uma profissão masculina, exercida por médicos formados na Europa — geralmente em universidades como Coimbra ou Salamanca — e por cirurgiões licenciados.
As mulheres eram excluídas dessas formações e do exercício legal da medicina.
porém, isso não significa que elas não atuassem na área da saúde. Pelo contrário:
Vire o celular para ver a tabela
Grupo
Atuação
Características
Parteiras
Cuidados com o parto e com a saúde das mulheres.
Eram figuras fundamentais nas comunidades, especialmente onde não havia acesso a médicos.
Curandeiras e Benzedeiras
Tratamento de doenças com saberes tradicionais, ervas e rituais.
Muitas tinham origem indígena ou africana e uniam práticas medicinais e espirituais.
Mulheres Curandeiras (em geral)
Acumulavam conhecimento empírico e eram procuradas por suas habilidades de cura.
Atuam especialmente em áreas rurais; muitas vezes perseguidas ou desacreditadas pelas autoridades coloniais por não seguirem a medicina oficial.
Essas práticas femininas eram vistas com desconfiança pela medicina oficial, e em alguns casos, associadas à feitiçaria ou superstição. Ainda assim, elas foram essenciais para o cuidado cotidiano da população, especialmente onde não havia médicos disponíveis.
ASituação Higiênica no Brasil e a Fisicatura-mor
A falta de médicos lustrados nas universidades europeias abria oportunidades para barbeiros, sangradores e curandeiros afirmarem-se no tratamento das enfermidades.
Prometiam curar muito mais do que os males do corpo, dando jeito para o que a medicina tradicional já havia desenganado.
Isso fazia com que conquistassem a admiração e medo da população e também a desconfiança das autoridades. O físico-mor e seus delegados eram responsáveis, no Brasil, pelo controle da medicina exercida por diferentes curadores, como físicos, cirurgiões, barbeiros, sangradores e parteiras.
Cabia-lhes ainda fiscalizar as boticas e o comércio de drogas, devendo inspecionar periodicamente o estado de conservação dos estabelecimentos e dos medicamentos vendidos, bem como os preços praticados.
Os comissários do físico-mor também constituíam juntas perante as quais prestavam exames os candidatos à carta de habilitação para o exercício da medicina e, em sua ausência, as Câmaras Municipais nomeavam seus integrantes. Feito o exame prático e de conhecimentos sobre medicina, os resultados eram enviados ao físico-mor em Lisboa para concessão ou não da carta de habilitação.
Apesar disso, a vigilância foi bastante precária nas primeiras décadas da colonização.
Às enormes distâncias entre as cidades e vilas somava-se a escassez de profissionais, o que muitas vezes forçava as Câmaras do Senado, os corregedores e capitães-generais das capitanias a exercerem eles mesmos a fiscalização do exercício das artes médicas e cirúrgicas.
Os cargos de físico-mor e cirurgião-mor foram extintos em 17 de junho de 1782, com o surgimento da Junta do Protomedicato, que passou a exercer tais competências por meio de seus delegados, cuja autoridade estendia-se ao Reino e domínios.
Com a criação da junta, centralizaram-se em um único órgão atribuições que antes eram desempenhadas tanto pelo físico-mor quanto pelo cirurgião-mor.
No entanto, com a vinda da corte portuguesa para o Brasil, em 1808, foram restabelecidas os cargos de físico-mor e cirurgião-mor. Ainda que na prática suas atribuições já estivessem sendo desempenhadas pelos cargos recém-criados, a Real Junta do Protomedicato foi oficialmente extinta somente pelo alvará de 7 de janeiro de 1809.
Abolida a junta, o alvará de 23 de novembro de 1808 conferiu regulamento para o exercício das atividades do cirurgião-mor e do físico-mor, dispondo ainda sobre sua jurisdição, que se estenderia aos reinos de Portugal e Algarves por meio de seus delegados.
O alvará mandava observar os regimentos de 25 de fevereiro de 1521 e de 12 de dezembro de 1631, além de instituir o cargo de delegado comissário do físico-mor e cirurgião-mor.
Os delegados teriam jurisdição privativa sobre os assuntos de saúde e higiene, em conformidade com o regimento de 16 de maio de 1744. No tocante à parte civil e criminal, deveria ser executado o estabelecido nos parágrafos 7º ao 11º do alvará de 1521.
Os processos de competência do físico-mor e do cirurgião-mor deveriam ser remetidos à Corte para julgamento, tornando-se nula a apelação ou agravo para qualquer autoridade administrativa ou judicial.
O alvará de 22 de janeiro de 1810 deu outro regimento aos delegados do físico-mor, redefinindo suas competências e jurisdição.
Segundo este ato, o juiz comissário delegado deveria ser médico formado em Coimbra ou em outra universidade que viesse a ser criada no Reino.
Como um juízo privativo para os assuntos relacionados do exercício de medicina, deveria possuir um escrivão, dois visitadores examinadores que fossem boticários aprovados, um meirinho e seu escrivão.
A Fisicatura-Mor exercia diversas atribuições, como fiscalizar as boticas e lojas de drogas; visitar, nas alfândegas, todas as boticas e drogas que viessem de fora, assim como as que estivessem nos navios que iriam partir; fazer devassa do exercício da medicina; examinar e licenciar boticários; e proceder ao exame de boticários e médicos estrangeiros.
Nota: O meirinho era um magistrado responsável por aplicar e fiscalizar a Justiça, especialmente nas terras senhoriais. O título de meirinho-mor referia-se ao representante do Rei de Portugal encarregado da justiça e administração nas comarcas, função que depois seria chamada de corregedor. Durante a Idade Média, os meirinhos atuavam como oficiais de justiça, executando prisões, citações, penhoras e mandados. No Brasil do século XVI, os capitães-mores também exerciam funções de meirinho, como retratado na figura de Leonardo Pataca, personagem do romance Memórias de um Sargento de Milícias.
Sobre a Profissão de Médico no período Colonial e Imperial
Para exercer a função de barbeiro-sangrador, era necessário obter uma autorização específica concedida pela fisicatura mor. O processo para obtenção dessa autorização envolvia a realização de exames teóricos e práticos.
No exame, o candidato precisava demonstrar conhecimento detalhado sobre o corpo humano, especialmente no que se referia às veias passíveis de sangria.
Era exigido o domínio sobre as 42 veias que podiam ser sangradas: 18 localizadas na cabeça, 12 nos braços e 12 nos pés.
O candidato deveria, por exemplo, explicar que as veias situadas atrás das orelhas eram utilizadas para tratar catarros antigos e feridas na cabeça, enquanto a veia localizada sob a língua (conhecida como “sego”) era indicada para o alívio de dores de garganta.
O exame era rigoroso, mas aqueles que demonstravam conhecimento suficiente eram aprovados e, assim, autorizados a exercer a prática.
No caso específico do uso de ervas e plantas medicinais encontradas nas lojas desses profissionais, estas eram utilizadas na preparação de “mesinhas” — remédios caseiros e naturais.
Contudo, havia uma limitação formal para barbeiros-sangradores: sua atuação estava restrita à prática de sangrias e deitar ventosas, não sendo permitido receitar medicamentos.
Entretanto, havia exceções. Alguns profissionais acumulavam outras autorizações. Era o caso daqueles que, além de sangradores, também eram curandeiros oficialmente reconhecidos. Esses tinham permissão legal para aplicar em seus pacientes diversos tratamentos naturais, como tisanas (infusões), unguentos e cataplasmas. A comprovação dessa autorização adicional poderia ser verificada por documentos ou registros junto às autoridades da saúde da época.
FAQ Fictícia
Resposta
É necessário ter autorização para ser barbeiro-sangrador?
Sim, com autorização específica da Fisicatura-Mor.
Essa autorização exige exames?
Sim, os candidatos devem ser examinados pela Fisicatura.
O que se exige nos exames?
Conhecimento das 42 veias para sangria: 18 na cabeça, 12 nos braços e 12 nos pés.
Por que é importante conhecer essas veias?
Cada veia tem uso terapêutico, como curar catarros ou dores de garganta.
Barbeiros-sangradores podem receitar ervas ou remédios?
Não, só podem realizar sangrias e aplicar ventosas.
E as ervas que eles vendem em suas lojas?
Podem ser usadas se o profissional também for curandeiro autorizado.
O que um curandeiro autorizado pode aplicar?
Tisanas, unguentos, cataplasmas, entre outros preparados fitoterápicos.
Como saber se o profissional tem autorização de curandeiro?
A autorização pode ser verificada nos registros da Fisicatura-Mor ou da administração local.
O texto abaixo é um desenvolvimento do que já foi dito anteriomente…
A Fisicatura-Mor e a Hierarquia da Saúde no Rio de Janeiro
Com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, diversos órgãos burocráticos e administrativos foram transferidos para o Rio de Janeiro, transformando a cidade no centro político e institucional do Império.
Entre esses órgãos, alguns foram simplesmente deslocados de Portugal, enquanto outros foram recriados ou reorganizados em território brasileiro. É o caso da Física-Mor do Reino — também chamada de Fisicatura-Mor.
A Fisicatura-Mor era o órgão responsável por normatizar, regulamentar e fiscalizar tudo o que dizia respeito à saúde pública.
Sua autoridade abrangia não apenas o controle sanitário e médico, mas também o licenciamento e a supervisão das chamadas “artes de curar”, isto é, todas as práticas relacionadas ao tratamento de doenças e à promoção da saúde.
Dentro dessa estrutura oficial, estabeleceu-se uma hierarquia profissional rígida. No topo encontrava-se o médico, considerado o profissional com mais prestígio e prerrogativas.
Abaixo dele situavam-se outros agentes da cura, como os cirurgiões, e, mais abaixo ainda, os curandeiros, sangradores e parteiras.
Estes últimos exerciam funções fundamentais no cotidiano da população, mas ocupavam posições marginalizadas dentro do ponto de vista oficial e científico da época.
Essa hierarquia revelava não apenas a organização formal das profissões da saúde, mas também as tensões entre o saber acadêmico europeu e os saberes populares ou tradicionais, frequentemente praticados por pessoas negras, indígenas, mulheres ou indivíduos sem formação universitária.
A Sangria: Prática Médica e Estratégia Social
A sangria foi um tratamento médico amplamente utilizado por quase dois mil anos, baseado na teoria dos humores corporais, segundo a qual era necessário equilibrar substâncias como o sangue para manter a saúde.
Realizada por meio de cortes, uso de sanguessugas ou flebotomia, a sangria foi comum até o século XIX, especialmente na Europa e nas colônias.
Apesar de, em raros casos, reduzir temporariamente a pressão arterial, sua aplicação geralmente era prejudicial, pois era feita sem diagnósticos precisos. Com o avanço da medicina, a prática foi abandonada, sendo atualmente usada apenas em situações muito específicas.
Durante o período colonial, a execução da sangria era prescrita por médicos e cirurgiões, mas frequentemente realizada por escravizados e libertos — muitos deles africanos ou seus descendentes.
Embora fosse um ofício socialmente marginalizado, a prática da sangria também representava uma oportunidade: alguns escravizados aprendiam a técnica por orientação de seus senhores e atuavam como escravos de ganho, prestando serviços nas ruas em troca de pagamento. Ao acumular pecúlio, esses profissionais podiam comprar sua liberdade, fazendo da sangria não apenas uma prática médica, mas uma estratégia de ascensão social.
O que Significava “Curar das bichas” na época colonial?
Na medicina popular do período colonial, especialmente entre sangradores e curandeiros, “deixar bichas” era uma prática terapêutica que consistia na aplicação de sanguessugas (também chamadas de “bichas”) sobre o corpo do paciente para remover o “sangue ruim” ou aliviar inflamações, dores e inchaços.
Essa técnica estava ligada à antiga teoria dos humores corporais, herdada da medicina greco-romana, segundo a qual o equilíbrio entre sangue, fleuma e bílis era essencial para a saúde.
Quando se acreditava que havia excesso de sangue ou “impurezas”, usava-se a sangria — e as sanguessugas eram um método menos invasivo do que o uso de lancetas.
A prática era comum entre:
Grupo / Prática
Descrição
Barbeiros-sangradores
Atuavam como terapeutas populares, realizando sangrias, aplicação de ventosas e outros procedimentos acessíveis.
Curandeiros
Combinavam saberes africanos, indígenas e europeus, utilizando ervas, rezas e práticas tradicionais de cura.
Populações pobres
Sem acesso à medicina oficial, recorriam a barbeiros, curandeiros e práticas populares para tratar doenças.
Uso de bichas (sanguessugas)
Cercado de rituais simbólicos e crenças populares, sendo associado à expulsão de “males espirituais” ou “energias negativas”.
Religiosidade, Medo e Perseguição nas Práticas Africanas no Brasil Colonial
Nós vivemos numa sociedade laica e, por isso, muitas vezes esquecemos do papel central que a religião desempenhava no passado. Durante muitos séculos, as horas do dia não eram marcadas por relógios, mas pelos sinos das igrejas. Era ao som dos sinos — e também do disparo de um canhão, por exemplo, na Ilha das Cobras — que a cidade acordava.
Os serviços urbanos também dependiam desses sons religiosos. As negras que vendiam pão de ló ou os negros que ofereciam água nas ruas esperavam o toque do sino para começar sua atividade.
Havia uma profunda relação entre o cotidiano e o sagrado. As pessoas não bocejavam sem antes fazer o sinal da cruz, pois temiam que o demônio pudesse entrar por suas bocas.
Ao meio-dia, esse cuidado se intensificava, pois se acreditava que o demônio se soltava nesse momento. Às seis horas da tarde, era comum ver pessoas postadas diante de igrejas para rezar as Ave-Marias.
Era um universo profundamente banhado pela religiosidade. Hoje, nos afastamos disso e muitas vezes não compreendemos mais o significado simbólico dessas práticas.
No entanto, naquele clima de fé absoluta, em que o bem e o mal eram considerados realidades concretas e o demônio tinha um “endereço” possível, qualquer pessoa ser curada por meio de um calundu — prática associada a elementos mágicos e religiosos africanos — gerava reações imediatas e intensas.
Quando se fala em calundu, as descrições são marcadas por preconceito e pela visão branca e colonial sobre a religiosidade africana. Trata-se de cultos com dança, música, batuques, tambores, atabaques — manifestações que carregavam expressividade espiritual e comunitária. Porém, eram vistas pelas autoridades coloniais como formas de feitiçaria.
Essas práticas religiosas africanas eram criminalizadas na colônia, tanto pelas Ordenações Filipinas (o código civil da época) quanto pelos tribunais eclesiásticos.
Nota: As Ordenações Filipinas foram um conjunto de leis promulgadas em 1603 que organizaram o sistema jurídico de Portugal e do Brasil colonial. Regulavam questões civis, criminais e administrativas, previam punições severas e permaneceram como base do direito brasileiro até serem gradualmente substituídas por leis nacionais no século XIX.
Feitiçaria, adivinhações, pactos com o diabo, adoração demoníaca e outras manifestações consideradas “mágicas” eram severamente punidas — muitas vezes com a pena de morte.
Desde o início da escravidão, criou-se uma aura de mistério em torno dos africanos. Havia o medo de que soubessem manipular espíritos ou venenos e de que fossem, portanto, perigosos. Associava-se o conhecimento que eles possuíam — tanto o sobrenatural quanto o domínio de ervas e substâncias — à bruxaria e ao envenenamento.
Assim, ao longo de todo o período colonial, os africanos e seus descendentes foram constantemente associados à prática de feitiçaria e magia, sendo alvo de perseguição e punições severas.
Esse medo enraizado no imaginário colonial reforçou não apenas o controle social, mas também a demonização de saberes tradicionais profundamente enraizados em suas culturas de origem.
A Medicina do Mal e a Morte de Dom João VI
Os dois maiores interessados no desaparecimento de Dom João VI eram sua mulher, a rainha Carlota Joaquina, que contra ele ensaiara inúmeras conspirações fracassadas, e o filho mais novo do casal, príncipe D. Miguel, o segundo na linha sucessória do trono e que já uma vez tentara um golpe malsucedido contra o pai.
Em conversa com o embaixador britânico Wiliam Court, dois meses mais tarde, a própria rainha reforçaria os boatos ao dizer que o marido havia sido “envenenado pelos bandidos que o cercavam”.
Deu até a composição da substância utilizada para matá-lo: um composto de arsênico chamado água-tofana.
Nota: Água Tofana era um veneno à base de arsênico, criado na Sicília no século XVII. Era usado para matar maridos abusivos por mulheres italianas que se sentiam presas em seus casamentos.
A Medicina no Mundo no Século XIX
Em 1822, a medicina ainda estava em um estágio relativamente primitivo em comparação com os padrões modernos. Aqui estão alguns pontos importantes sobre o estado da medicina naquela época:
Edward Jenner foi um médico britânico nascido em 17 de maio de 1749, em Berkeley, Inglaterra. Ele é conhecido como o “pai da imunologia” por sua descoberta revolucionária da vacina contra a varíola em 1796. Jenner observou que as ordenhadoras de vacas, que frequentemente contraíam uma forma mais branda da doença chamada varíola bovina, pareciam estar protegidas contra a varíola humana.
Ele realizou um experimento ousado, inoculando um menino de oito anos, James Phipps, com o pus das lesões de uma leiteira infectada com varíola bovina. Posteriormente, ele expôs o garoto ao vírus da varíola humana, e o menino não desenvolveu a doença. Esse foi o início do conceito de vacinação, derivado da palavra “vaca” em latim.
Jenner faleceu em 26 de janeiro de 1823
Em 1832, foram criados os primeiros conselhos de higiene nos principais países europeus como França e Inglaterra. O arquiteto do sanitarismo foi Chadwick que, nesse mesmo ano, foi nomeado para a Royal Comission on the Poor Law.
O poder público, então, por volta de 1866, implementou medidas elementares como construção de redes de esgotos, abastecimento de água potável, utilização de desinfetantes e recolhimento do lixo nas grandes aglomerações urbanas.
Pasteur e as Bases da Imunoterapia
Louis Pasteur (1822–1895) foi um cientista francês cujas descobertas revolucionaram a microbiologia e a medicina. Ele desenvolveu a teoria germinal das doenças, provando que microrganismos são responsáveis por infecções.
Criou o processo de pasteurização para evitar a contaminação de alimentos e bebidas, como o leite. Pasteur também desenvolveu vacinas contra a raiva e o antraz, além de ter contribuído para a fermentação e a refutação da teoria da geração espontânea.
Seu trabalho influenciou profundamente a saúde pública e os métodos de prevenção de doenças.
Vire o celular para ver a tabela
Ano
Feito Científico de Pasteur
1848
Descobriu a quiralidade molecular, demonstrando que compostos orgânicos podem ter diferentes formas espaciais.
1857
Desenvolveu a teoria da fermentação microbiana, provando que microrganismos são responsáveis pela fermentação.
1861
Refutou a teoria da geração espontânea, demonstrando que a vida surge de outros microrganismos.
1863–1865
Criou a pasteurização, um processo de aquecimento de líquidos (como leite e vinho) para matar microrganismos e evitar deterioração.
1865–1870
Investigou doenças que afetavam a indústria da seda e descobriu que eram causadas por microrganismos, propondo medidas de controle.
1877–1881
Desenvolveu a teoria germinal das doenças infecciosas, provando que microrganismos são os causadores de enfermidades.
1881
Criou a vacina contra o antraz, testada com sucesso em ovelhas, demonstrando que a imunização funcionava em animais.
1885
Desenvolveu a vacina contra a raiva, salvando o menino Joseph Meister, o primeiro humano tratado com sucesso contra a doença.
1888
Fundou o Instituto Pasteur, um centro de pesquisa dedicado a doenças infecciosas e imunização.
Métodos de Enfraquecimento de Microrganismos Usados Por Louis Pasteur Para Criar Vacinas
Doença
Microrganismo
Método de Enfraquecimento
Ano
Cólera aviária
Pasteurella multocida
Exposição ao ar por semanas
1880
Antraz
Bacillus anthracis
Uso de calor e produtos químicos
1881
Raiva
Vírus da raiva
Secagem de tecidos nervosos infectados
1885
Notas Sobre as Práticas Médicas do Século XIX
Tratamentos comuns
Incluíam sangrias, uso de ventosas e purgantes. Eram frequentemente ineficazes e, em alguns casos, prejudiciais à saúde dos pacientes.
Cirurgia
Rudimentar, feita sem anestesia. A dor era intensa, o risco de infecção elevado e muitos pacientes não sobreviviam aos procedimentos.
Doenças e epidemias
Varíola, cólera e febre amarela eram frequentes e letais. A vacinação contra a varíola começava a ser adotada, mas outras vacinas ainda não existiam.
Doenças que Têm Alguma Relação com a Falta de Higiene
Cólera: Está diretamente ligada à falta de saneamento básico e higiene, pois a bactéria Vibrio cholerae se espalha por água e alimentos contaminados com fezes humanas. Ambientes com esgoto a céu aberto e água não tratada aumentam o risco da doença.
Febre Amarela: Embora seja transmitida por mosquitos, a falta de higiene favorece a proliferação do Aedes aegypti, especialmente em locais com água parada, como recipientes descobertos e lixo acumulado.
Varíola: A transmissão ocorre de pessoa para pessoa pelo contato direto e gotículas respiratórias, não sendo tão diretamente ligada à falta de higiene como as outras duas. No entanto, más condições sanitárias podiam facilitar a propagação da doença, especialmente em ambientes superlotados.
A Medicina no Século XIX: Práticas Experimentais e os Limites do Conhecimento Científico
Um curioso artigo (anexo) do Diário do Rio de Janeiro de 1821, apresenta um registro de experiências médicas realizadas em 1818.
Os procedimentos descritos, hoje considerados chocantes, ilustram como a busca por conhecimento no século XIX muitas vezes se dava por métodos que, embora rudimentares e cruéis sob os padrões atuais, eram vistos na época como legítimas tentativas de avanço científico.
Nos experimentos, pombos, galinhas e coelhos foram utilizados para observar os efeitos de lesões cerebrais provocadas intencionalmente, com o uso de pregos inseridos no crânio dos animais.
Em alguns casos, após o ferimento, aplicava-se um bálsamo no local da lesão e, segundo o relato, os animais apresentavam sinais de recuperação, exceto por sequelas como a perda da visão de um olho.
Essas práticas, que hoje causam estranhamento, refletiam um período em que o conhecimento sobre anatomia, fisiologia e neurologia ainda era limitado.
A experimentação direta — muitas vezes sem critérios éticos definidos — era uma das poucas formas disponíveis para tentar compreender os efeitos de traumas no corpo e testar possíveis tratamentos.
Embora o método e a ausência de compaixão pelos animais sejam difíceis de aceitar sob a ótica contemporânea, é importante considerar o contexto histórico. A ciência médica ainda estava em construção, e os parâmetros éticos que regem a pesquisa científica atualmente só começaram a se consolidar bem mais tarde.
Esse tipo de documento oferece um retrato vívido das práticas médicas do passado, permitindo não apenas compreender o percurso histórico da medicina, mas também refletir sobre o progresso científico e os valores que o acompanham.
Tênia
Um outro artigo publicado no jornal do ano de 1821 indicava a administração de leite de éguas como uma forma de tratamento contra a tênia, observando resultados favoráveis, conforme os testes realizados.
Higiene no Século XIX
Práticas de Higiene: A higiene pessoal e pública não era bem compreendida. Banhos regulares não eram comuns, e a limpeza das cidades era precária. A relação entre higiene e saúde só começou a ser mais amplamente reconhecida no final do século XIX.
A noção de assepsia surgiria no final do século XIX. “On the antiseptic principle in the pratice of surgery”, publicado em 1867 na revista Lancet, marcou o início de uma verdadeira revolução na prática cirúrgica, ao descrever como se impedia que microrganismos causassem as infecções tão frequentemente responsáveis pelo insucesso das intervenções.
A falta de conhecimento sobre a transmissão de doenças e a ausência de políticas públicas eficazes para promover a saúde e a higiene também agravavam o quadro. As práticas de higiene pessoal eram limitadas, e o acesso a sabão e outros produtos de limpeza era restrito, especialmente entre as classes mais pobres.
A medicina da época ainda estava longe das descobertas que viriam a revolucionar a saúde pública e a higiene, como a descoberta dos germes e a invenção dos antibióticos.
Saneamento Básico: O saneamento era rudimentar, com esgoto frequentemente despejado nas ruas ou em rios próximos, contribuindo para a propagação de doenças. Essas limitações no conhecimento e nas práticas de saúde refletiam o estado da medicina e da ciência na época.
Ano
Evento / Descoberta
Cientista / Médico
1847
Descobriu que lavar as mãos com solução de hipoclorito de cálcio reduzia infecções puerperais.
Ignaz Semmelweis
1861
Publicou seus estudos sobre a importância da higiene, mas foi rejeitado pela comunidade médica.
Ignaz Semmelweis
1867
Introduziu o uso de ácido carbólico (fenol) para desinfecção de instrumentos e feridas cirúrgicas, reduzindo infecções pós-operatórias.
Joseph Lister
1870–1880
A teoria microbiana das doenças (Pasteur e Koch) levou à aceitação e adoção da assepsia nos hospitais.
Louis Pasteur e Robert Koch
Situação Sanitária no Brasil
Durante o século XIX, a higiene no Brasil era bastante precária, especialmente nas áreas urbanas. As cidades cresciam rapidamente devido à urbanização e ao fluxo de pessoas, incluindo imigrantes, mas a infraestrutura não acompanhava esse crescimento. As condições de saneamento básico eram deficientes, com falta de sistemas adequados de esgoto e abastecimento de água potável. Isso contribuía para a proliferação de doenças, como febre amarela, varíola, cólera e tuberculose, que assolavam a população.
Até mesmo autoridades como o Conde de Resende e Dom Fernando Portugal pouco fizeram para melhorar a situação sanitária do Brasil. O Conde dos Arcos teve um governo breve. Em 1808, com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, a cidade pouco mudou.
José Luís de Castro
2.º Conde de Resende
Relevância
Foi Almirante de Portugal e o 13º vice-rei do Brasil por onze anos, de 4 de junho de 1790 a 14 de outubro de 1801.
Nascimento / Morte
Lisboa, 19 de agosto de 1744 – Lisboa, 23 de março de 1819
Títulos e cargos
2.º Conde de Resende, Almirante de Portugal, Vice‑Rei do Brasil (1790–1801)
Principais ações
Julgamento da Conjuração Mineira (execução de Tiradentes), implantação dos Correios e iluminação pública no Rio com óleo de baleia
Caráter e postura
Político rígido, impopular, desconfiava de intelectuais e maçons, fechou sociedades literárias
Legado
Figura histórica polêmica; seu governo marcou a repressão política colonial e modernizações administrativas no Brasil
Fernando I de Portugal
Resumo
Reinado
1367–1383, último rei da dinastia de Borgonha
Apelidos
O Formoso, o Inconstante
Conflitos
Três guerras mal-sucedidas contra Castela
Aliança
Tratado com a Inglaterra em 1373
Reformas
Lei das Sesmarias e estímulo à agricultura e navegação
Obras
Muralhas fernandinas em Lisboa e Porto
Sucessão
Sem herdeiro homem; causou a Crise de 1383–1385
Túmulo
Museu do Carmo, Lisboa (originalmente em Santarém)
Dom Marcos de Noronha e Brito, 8.º Conde
Marcos de Noronha e Brito
8.º Conde dos Arcos
Nascimento e morte
Lisboa, 7/7/1771 – Lisboa, 6/5/1828
Vice‑Rei do Brasil
1806–1808, último vice‑rei antes da transferência da corte
Governo da Bahia
1810–1818, modernizou a administração provincial
Contribuições culturais
Fundou tipografia, jornal “Idade d’Ouro”, biblioteca pública e teatro em Salvador
Educação
Implantação de cadeiras públicas de ensino básico e curso superior de cirurgia e anatomia em 1815
Repressão à revolta
Liderou a repressão violenta à Revolução Pernambucana de 1817
Cargo ministerial no RJ
Ministro da Marinha e Ultramar após retorno da corte; combatia contrabando e burocracia
Destituição no Brasil
Removido após o Dia do Fico por descontentamento militar e político
O tifo, a varíola e outras doenças malignas estavam enraizadas na população. O número de mortes era alarmante, mas os relatórios enviados à Metrópole mencionavam pouco sobre essas epidemias, evidenciando a negligência com a saúde pública.
Nota: O tifo é uma infecção causada por bactérias do gênero Rickettsia, geralmente transmitida por piolhos ou pulgas infectadas. Os principais sintomas incluem febre alta, dor de cabeça, manchas na pele e mal-estar geral. É mais comum em áreas com condições de higiene precárias. O tratamento é feito com antibióticos, como a doxiciclina, e a prevenção envolve cuidados com higiene e controle de vetores. O tratamento com doxiciclina para o tifo epidêmico deve durar no mínimo 7 dias, sendo estendido conforme a resposta clínica do paciente.
Epidemias
Doenças como varíola, febre amarela e malária eram comuns no século XIX. A população daquela época acreditava que a contaminação se devia a miasmas (ares contaminados).
Os tratamentos habituais incluíam sangrias, purgantes, quinino (no caso da malária) e o isolamento dos doentes.
A varíola, ou bexigas, como era denominada na época, era transmitida através de gotículas respiratórias e pelo contato com lesões ou objetos contaminados; por outro lado, a malária e a febre amarela eram transmitidas por mosquitos que infestavam o Brasil nessa época — Veja uma tabela:
Tabela Comparativa: Malária x Febre Amarela
Critério
Malária
Febre Amarela
Agente causador
Plasmodium (protozoário)
Vírus da febre amarela (família Flaviviridae)
Transmissor
Mosquito Anopheles
Mosquito Aedes aegypti (urbano) ou Haemagogus (silvestre)
Sintomas iniciais
Febre alta, calafrios, dor de cabeça, suor, cansaço
Febre alta, dor de cabeça, calafrios, náuseas, vômitos
Efeitos no corpo
Afeta fígado, baço, sangue (causa anemia), e sistema nervoso
Afeta fígado (icterícia), rins e vasos sanguíneos
Sinais graves
Convulsões, coma, falência de órgãos, anemia severa
Alta mortalidade se não tratada, surtos em áreas endêmicas
Letal em formas graves, surtos urbanos e silvestres
Forma de contágio
Picada de mosquito infectado (não há transmissão direta entre pessoas)
Picada de mosquito infectado (não há transmissão direta entre pessoas)
Prevenção
Controle de mosquitos, uso de repelente, medicação preventiva
Vacinação, controle de mosquitos, repelente
Tratamento
Antimaláricos (como cloroquina, artemisinina)
Não há tratamento específico – suporte clínico intensivo
Vacina disponível?
Não para todas as formas (pesquisas em andamento)
Sim (dose única protege por toda a vida)
Doenças que Causaram Surtos ou Epidemias no Brasil no Século XIX
Doença
Ano de Controle/Erradicação
Método de Controle
Varíola
— Ano de erradicação: 1980 – A vacinação foi introduzida no Brasil em 1804, mas a doença continuou a causar epidemias, especialmente no século XIX. — Década de 1830-1840: Vacinação compulsória para crianças e adultos, em algumas localidades. — Curiosidade: Em 1811, A Igreja do Rosário de São Benedito, no centro do RJ, que era a Sé do RJ, sediou uma vacinação contra a varíola promovida por Dom João VI. A vacinação ocorria de quarta à sábado.
Vacinação global (o RJ passou por um surto no século XIX)
Peste Bubônica (peste negra)
— Ano de erradicação: 1940 – (a doença chegou no brasil em 1899 em Santos. Criaram o Butantan)
Antibióticos
Febre Amarela Urbana
Erradicação:1950 – A febre amarela foi registrada no Brasil desde o século XVII. No entanto, a primeira grande epidemia, que causou grande impacto, ocorreu no Rio de Janeiro entre 1849 e 1850. O vírus chegou primeiro a Salvador, em setembro de 1849, a bordo de um navio americano que tinha feito escalas em ilhas infectadas do Caribe.
Vacinação (sus oferece) A vacina contra a febre amarela faz parte do Calendário Nacional de Vacinação do SUS e está disponível gratuitamente para a população. Ela é recomendada para pessoas a partir de 9 meses até 60 anos de idade, especialmente para quem mora ou viaja para áreas de risco.
Poliomielite
Erradicação: 1988 – A poliomielite começou a se propagar no Brasil no início do século XX, com a primeira descrição de um surto registrado em 1911.
Campanhas de vacinação (SUS)
Lepra (Hanseníase)
Erradicação: 1981 – A lepra, ou hanseníase como é mais conhecida no Brasil, surgiu no país com a chegada dos colonizadores portugueses. Os primeiros casos foram observados no Rio de Janeiro em 1600.
Tratamento medicamentoso SUS – manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, perda de sensibilidade, fraqueza muscular e até deformidades em casos mais avançados. A transmissão ocorre principalmente pelo contato prolongado com secreções respiratórias de uma pessoa infectada
Raiva Humana
Não foi erradicada, porém, em 1885, aconteceu um marco histórico na medicina: Louis Pasteur realizou o primeiro teste bem-sucedido da vacina contra a raiva em humanos
Vacina e soro antirrábico SUS – os animais geralmente se vacinam atualmente
Tuberculose
Erradicação: 1944 – A tuberculose, uma doença infecciosa causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis, já era conhecida e presente no Brasil desde antes da colonização europeia, com relatos de sua ocorrência no século XVIII.
Antibióticos (Oferecida no SUS ao nascer. A tuberculose já era conhecida e presente no Brasil desde antes da colonização europeia, com relatos de sua ocorrência no século XVIII. A tuberculose é transmitida pelo ar, por meio da inalação de gotículas de saliva expelidas por uma pessoa doente (com a forma pulmonar ativa), ao falar, tossir, cuspir, etc. Os principais sintomas da tuberculose pulmonar incluem tosse persistente por mais de três semanas (com ou sem catarro), febre baixa geralmente no fim do dia, suor noturno excessivo, cansaço, fraqueza, falta de apetite, emagrecimento e, em casos mais graves, presença de sangue no escarro.
Cólera
Erradicação: 1960 – A cólera surgiu no Brasil em 1855, com a terceira pandemia global da doença. Ela foi trazida por navios vindos de Portugal e atingiu inicialmente o Pará, espalhando-se rapidamente para outras cidades litorâneas, incluindo o Rio de Janeiro. A doença causou milhares de mortes nos principais portos do Império.
Terapia de reidratação (trata-se com soro caseira; contamina-se por falta de saneamento)
Escorbuto
O escorbuto, doença causada pela deficiência de vitamina C, surgiu no Brasil e em todo o mundo durante a época das grandes navegações, principalmente entre os séculos XVI e XVIII.
Alimentação equilibrada (vitamina C)
Febre tifoide
A febre tifoide já era reconhecida e diagnosticada no Brasil desde o século XIX, com registros de casos em 1851, de acordo com a Biblioteca Virtual em Saúde Adolpho Lutz. A identificação do bacilo causador da doença, a Salmonella Typhi, ocorreu em 1880 por Karl Joseph Eberth, conforme a Biblioteca Virtual em Saúde Adolpho Lutz.
A febre tifoide é tratada com antibióticos, como ciprofloxacino ou azitromicina, e exige hidratação e repouso. Os principais sintomas são febre alta e prolongada, dor de cabeça, mal-estar, dor abdominal, diarreia ou prisão de ventre, e, às vezes, manchas rosadas no tronco. A febre tifoide é transmitida pela ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes ou urina de pessoas infectadas pela bactéria Salmonella typhi. A transmissão está ligada a más condições de higiene e saneamento.
Doença/Condição
Motivo de Inexistência ou Raridade no Século XVIII
HIV/AIDS
Vírus identificado apenas no século XX
COVID-19
SARS-CoV-2 surgiu apenas em 2019
Diabetes tipo 2, obesidade e doenças cardiovasculares
Menor incidência devido ao estilo de vida e dieta diferentes
Doenças causadas por poluição
Poluição industrial ainda não era significativa
Cânceres associados à longevidade
Expectativa de vida curta dificultava o desenvolvimento de certos cânceres
Tabela com as doenças que podem ser tratadas com remédios e os principais medicamentos usados no tratamento de cada uma:
Doxiciclina, Azitromicina (associado à reidratação)
Escorbuto
Carencial
Suplemento de vitamina C (ácido ascórbico)
Febre Tifoide
Bacteriana
Ciprofloxacino, Azitromicina, Ceftriaxona
Entre os vírus mencionados, as vacinas que protegem contra cepas ou serotipos antigos incluem:
Doença
Eficácia da Vacina
Varíola
Eficaz contra todas as cepas conhecidas, contribuindo para sua erradicação global.
Poliomielite
As vacinas oral e injetável protegem contra os três sorotipos, incluindo os erradicados.
Raiva Humana
Eficaz contra todas as cepas conhecidas do vírus da raiva.
Doenças comuns no século XIX sem vacina no SUS atualmente
Doença
O que causa (sintomas principais)
Como se contamina
Tratamento atual
Varíola
Febre alta, dor no corpo, erupções com pus na pele
Contato direto com secreções ou objetos contaminados
Não há tratamento específico. Cuidados de suporte. Erradicada.
Febre amarela urbana
Febre alta, dor muscular, vômitos, pele amarelada (icterícia)
Picada do mosquito Aedes aegypti
Suporte clínico (hidratação, analgésicos). Prevenção é essencial.
Tifo exantemático
Febre alta, dor de cabeça, manchas na pele
Piolhos infectados (transmissão por vetores)
Antibióticos como doxiciclina
Peste bubônica
Febre, ínguas dolorosas (bubões), calafrios
Picada de pulgas de ratos infectados
Antibióticos como estreptomicina, doxiciclina
Cólera
Diarreia intensa (tipo “água de arroz”), vômitos, desidratação rápida
Ingestão de água ou alimentos contaminados com a bactéria V. cholerae
Hidratação oral/venosa, antibióticos em casos graves (azitromicina)
Febre tifóide
Febre contínua, dor abdominal, diarreia ou constipação, delírio
Ingestão de água/alimentos contaminados por Salmonella typhi
Antibióticos como ciprofloxacino ou ceftriaxona
Implicações das Doenças e Vacinas no Século XIX
Tabela resumo com as 6 doenças do século XIX cujas vacinas não estão no calendário de vacinação do SUS hoje, incluindo o que elas causam, como se contaminam e quais são os tratamentos disponíveis hoje:
Doença
O que causa (sintomas principais)
Como se contamina
Tratamento atual
Varíola
Febre alta, dor no corpo, erupções com pus na pele
Contato direto com secreções ou objetos contaminados
Não há tratamento específico. Cuidados de suporte. Erradicada.
Febre amarela urbana
Febre alta, dor muscular, vômitos, pele amarelada (icterícia)
Picada do mosquito Aedes aegypti
Suporte clínico (hidratação, analgésicos). Prevenção é essencial.
Tifo exantemático
Febre alta, dor de cabeça, manchas na pele
Piolhos infectados (transmissão por vetores)
Antibióticos como doxiciclina
Peste bubônica
Febre, ínguas dolorosas (bubões), calafrios
Picada de pulgas de ratos infectados
Antibióticos como estreptomicina, doxiciclina
Cólera
Diarreia intensa (tipo “água de arroz”), vômitos, desidratação rápida
Ingestão de água ou alimentos contaminados com a bactéria V. cholerae
Hidratação oral/venosa, antibióticos em casos graves (azitromicina)
Febre tifóide
Febre contínua, dor abdominal, diarreia ou constipação, delírio
Ingestão de água/alimentos contaminados por Salmonella typhi
Antibióticos como ciprofloxacino ou ceftriaxona
Doença
Causa (Agente Etiológico)
Origem/Transmissão
Contaminação
Esquistossomose – A esquistossomose chegou ao Brasil com a escravidão africana, pois os escravos que eram trazidos do continente africano já eram portadores da doença. A transmissão da esquistossomose no Brasil teve início quando os escravos se estabeleceram em áreas onde existiam os caramujos (planorbídeos), que são os hospedeiros intermediários do parasita.
Schistosoma mansoni (verme) A esquistossomose é uma doença parasitária transmitida pelo contato com água contaminada por caramujos infectados. Causa coceira, febre, dor abdominal e aumento do fígado ou baço.
Contato com água contaminada por caramujos infectados
Penetração das larvas pela pele ao nadar ou pisar em água contaminada
Ancilostomíase – A Ancilostomíase, conhecida como “doença do amarelão”, foi identificada e reconhecida no Brasil, como um problema de saúde pública, a partir do início do século XX. Monteiro Lobato popularizou a doença em 1918, através do personagem Jeca Tatu, associando-a à indolência.
Ancylostoma duodenale e Necator americanus (vermes)
Solo contaminado por fezes contendo larvas do verme
Penetração das larvas pela pele (principalmente ao andar descalço)
Malária – A malária chegou ao Brasil provavelmente com a chegada dos navios portugueses durante a colonização, entre os séculos XVI e XIX, e com o tráfico negreiro. A principal espécime de Plasmodium que causa malária no Brasil é o Plasmodium vivax, que deve ter chegado com as primeiras migrações humanas vindas da Ásia e Oceania há 25 mil a 10 mil anos.
Plasmodium spp. (protozoário)
Picada do mosquito Anopheles infectado
Inoculação do parasita diretamente no sangue pela picada do mosquito
Tirando a varíola (que não tem tratamento específico), as outras 5 doenças listadas são tratáveis com medicamentos, especialmente com antibióticos ou suporte clínico adequado.
Tratamento Das Doenças do Século XIX (exceto varíola)
Doença
Medicamento(s)
Tempo médio de tratamento
Observações
Febre amarela urbana
Sem antibiótico específico. Suporte: soro, analgésicos.
1 a 2 semanas (recuperação natural)
Sem cura específica. Casos graves podem precisar de internação em UTI.
Tifo exantemático
Doxiciclina (ou tetraciclina)
7 a 10 dias
Melhora geralmente nas primeiras 48h. Pode ser usada dose única em alguns casos.
Peste bubônica
Estreptomicina ou doxiciclina, gentamicina
10 a 14 dias
Deve iniciar o mais rápido possível. Internação pode ser necessária.
Cólera
Reposição de líquidos + azitromicina (ou doxiciclina)
1 a 5 dias (antibiótico); hidratação contínua
Antibióticos encurtam duração da doença. Hidratação é prioridade absoluta.
Febre tifóide
Ciprofloxacino ou ceftriaxona
7 a 14 dias
Casos leves podem ser tratados em casa. Formas graves exigem antibiótico injetável.
Nota Importante
Descrição
Tempo de tratamento variável
Depende da gravidade da doença e da resposta individual do paciente.
Risco da automedicação
Antibióticos devem ser usados apenas com prescrição e acompanhamento médico.
Resistência bacteriana
É uma preocupação crescente, especialmente no tratamento da febre tifóide.
Outras doenças, como febre amarela e cólera, possuem vacinas que oferecem proteção contra cepas específicas, mas podem não cobrir todas as variantes ou serotipos.
Tabela: Ervas Medicinais de Origem Indígena e Seus Usos
No século XIX, ao contrário da medicina maluca dos europeus, os indígenas brasileiros possuíam amplo conhecimento sobre remédios naturais, fruto de séculos de convivência com a natureza. Esse saber era muitas vezes mais eficaz que os métodos europeus da época, baseados em práticas rudimentares como sangrias. Muitos naturalistas reconheceram e registraram o valor desses conhecimentos tradicionais.
Erva Medicinal
Nome Científico
Uso Tradicional
Aroeira
Schinus terebinthifolius
Tratamento de inflamações e infecções urinárias
Bacaba
Oenocarpus bacaba
Rica em antioxidantes, usada para consumo alimentar e medicinal
Boldo
Plectranthus barbatus
Alívio de problemas digestivos e hepáticos
Carqueja
Baccharis trimera
Tratamento de problemas digestivos e como anti-inflamatório
Catuaba
Trichilia catigua
Afrodisíaco natural e estimulante do sistema nervoso central
Guaco
Mikania glomerata
Expectorante, usado para problemas respiratórios
Jaborandi
Pilocarpus microphyllus
Estimula a salivação e é usado na produção de colírios
Maracujá
Passiflora incarnata
Calmante e sedativo natural
Pariparoba
Hyptis pectinata
Usada para problemas digestivos e como anti-inflamatório
Quebra-pedra
Phyllanthus niruri
Diurético e utilizado para problemas renais
Sálvia
Salvia officinalis
Propriedades antissépticas e digestivas
Unha-de-gato
Uncaria tomentosa
Anti-inflamatório e fortalecedor do sistema imunológico
Varíola
Foi provavelmente a doença que mais matou os seres humanos. Os humanos atuais não são vacinados contra a varíola porque a doença foi oficialmente erradicada em 1980 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A erradicação foi possível graças a uma campanha global de vacinação em massa. Como o vírus da varíola não possui reservatórios animais e depende exclusivamente de humanos para se propagar, a vacinação em larga escala eliminou a necessidade de imunizar as gerações seguintes.
A varíola é contraída pelo “contato direto com pessoas infectadas”, principalmente por meio de gotículas respiratórias expelidas ao falar, tossir ou espirrar. Também pode ser transmitida pelo “contato com objetos contaminados”, como roupas e lençóis, e, em alguns casos, por crostas das lesões na pele.
Além disso, a vacinação contra a varíola pode causar efeitos colaterais graves em algumas pessoas, o que torna desnecessário correr esse risco em um mundo onde a doença não está mais presente.
No entanto, a vacina ainda é mantida em estoques estratégicos para casos de emergência, como um possível uso do vírus como arma biológica.
A doença era historicamente referida no século XIX como “bexigas”. O risco de mortalidade associado a esta doença girava em torno de 30%, sendo ainda mais elevado entre os bebês. Os indivíduos afetados frequentemente exibiam cicatrizes na pele, semelhante àquelas que Dom Pedro I apresentava (também causadas por varíola), além da doença incidir em casos de cegueira.
Os sintomas iniciais da varíola eram febres e vômitos, seguidos por úlceras na boca e erupções cutâneas que evoluíam para bolhas com depressão central. Essas bolhas formavam crostas e deixavam cicatrizes.
A transmissão ocorria pelo contato direto ou com objetos contaminados. A prevenção era feita com a vacina, e alguns antivirais podiam ser usados após a infecção.
A origem da varíola é desconhecida, mas há evidências da doença em múmias egípcias do século III. Ao longo da História, ocorreram surtos frequentes. No século XVIII, cerca de 400 mil pessoas morriam anualmente na Europa, e um terço dos casos resultava em cegueira.
Entre as vítimas, estavam monarcas e uma rainha consorte. No século XX, a varíola causou entre 300 e 500 milhões de mortes, e em 1967 ainda registrava 15 milhões de casos por ano. (é muito fácil julgar o povo por procurar explicações etéreas e concluir que eles eram enganados ou não tinham conhecimento)
Origem do vírus
Possivelmente derivado de vírus que infectavam roedores e se adaptaram ao ser humano.
Egito Antigo (≈ 1500 a.C.)
Múmias como a de Ramsés V exibem lesões semelhantes às causadas pela varíola.
Índia e China (≈ 1000 a.C.)
Escritos antigos relatam sintomas típicos da varíola e práticas de variolização como forma primitiva de imunização.
Roma e Grécia (Século II d.C.)
A “Peste Antonina” pode ter sido um surto de varíola, causando milhões de mortes no Império Romano.
Séculos XV–XVIII
Durante as grandes navegações, a varíola se espalhou pelas Américas, dizimando populações indígenas sem imunidade ao vírus.
Vacinação e erradicação (1980)
A vacinação foi um marco na medicina e levou à erradicação da varíola, confirmada oficialmente pela OMS em 1980.
Medidas complementares
Melhoria na higiene, no saneamento básico e o uso de medicina tradicional (plantas medicinais) ajudaram no combate à doença ao longo da história.
A varíola causou epidemias mortíferas ao longo da história. Possivelmente surgiu na Índia e foi descrita na Ásia e na África antes da era cristã.
É apontada como a provável causa da epidemia de Atenas em 430 a.C., que matou um terço da população e contribuiu para o declínio da cidade.
A doença era desconhecida na época e desapareceu, mas ressurgiu nos séculos II e III, dizimando populações não imunes no Império Romano, como mais tarde ocorreu na América.
Alguns historiadores, como William McNeil, sugerem que a queda da população romana devido a doenças como varíola, sarampo e varicela enfraqueceu o Império, levando à adoção de leis que fixavam profissões por hereditariedade e forçavam agricultores à servidão, contribuindo para o feudalismo.
A escassez populacional permitiu a ocupação de terras pelos povos germânicos, inicialmente com a aceitação dos romanos, preocupados com a queda de arrecadação.
Após essa época, a varíola tornou-se frequente na Europa, afetando principalmente crianças.
Em 2016, vestígios do vírus foram encontrados em uma múmia infantil da Lituânia, datada de 1654.
A fixação das profissões por hereditariedade foi uma tentativa do Império Romano de lidar com a crise populacional causada por epidemias como varíola e sarampo. Com menos pessoas disponíveis para trabalhar, o governo impôs leis que obrigavam os filhos a seguir as mesmas profissões dos pais.
Isso significava que um camponês, por exemplo, não poderia deixar sua terra nem mudar de trabalho, assim como um ferreiro ou um soldado.
Esse sistema enfraqueceu o Império porque reduziu a mobilidade social e econômica. Muitos trabalhadores perderam o interesse em melhorar suas condições, pois estavam presos a uma ocupação determinada.
Além disso, os agricultores, forçados à servidão, acabaram se tornando uma classe dependente dos grandes proprietários de terra, o que fortaleceu a estrutura rural e descentralizada que mais tarde daria origem ao feudalismo.
Ao mesmo tempo, a população reduzida levou os romanos a permitir que povos germânicos ocupassem terras dentro do Império. No início, isso foi visto como uma solução para repovoar regiões e manter a arrecadação de impostos, mas com o tempo, esses povos começaram a formar seus próprios territórios e desafiavam a autoridade romana, acelerando a queda do Império no Ocidente.
Praga Antonina
Epidemias como a “Praga Antonina” (165-180 d.C.) e a “Praga de Cipriano” (249-262 d.C.), possivelmente causadas pela varíola, enfraqueceram o Império Romano.
Elas reduziram a população, afetaram a economia, desorganizaram o exército e agravaram crises políticas, tornando Roma mais vulnerável a invasões e ao colapso.
Nota: A Peste Antonina, ou peste dos Antoninos, foi uma epidemia que assolou o Império Romano entre os anos 165 e 180 d.C., iniciando durante o cerco de Selêucia. Provocou febre, erupções cutâneas e diarreia, conforme descrito por Galeno, e causou a morte de milhões, incluindo possivelmente os imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio. A doença atingiu todo o império e devastou o exército romano. Há hipóteses de que sua origem tenha sido a China, e ela teve impactos duradouros na cultura, política e relações internacionais de Roma.
Peste Antonina
(165–180 d.C.)
Período
165 a 180 d.C.
Região afetada
Todo o Império Romano (e possivelmente além)
Possível origem
China (segundo registros da Dinastia Han)
Sintomas
Febre, erupções cutâneas, diarreia
Mortes estimadas
Mais de 5 milhões; até 2 mil por dia em Roma
Taxa de mortalidade
Cerca de 25% entre os infectados
Impactos principais
Morte de soldados, enfraquecimento do exército e possível morte de imperadores
Abalo demográfico, militar e cultural no império; possível impacto nas relações indo-romanas
Nota: A Peste de Cipriano foi uma pandemia que atingiu o Império Romano entre cerca de 249 e 270 d.C., durante a Crise do Terceiro Século. Provavelmente causada por varíola ou sarampo, sua origem exata é incerta, sendo atribuída por autores antigos à Etiópia. Recebeu esse nome porque o bispo Cipriano de Cartago a descreveu. A praga devastou cidades como Roma e Alexandria, matou milhares por dia e causou grandes perdas demográficas, afetando a agricultura, o exército e possivelmente contribuindo para a expansão do cristianismo.
Peste de Cipriano
Descrição
Período
Cerca de 249 a 270 d.C.
Possível causa
Varíola ou sarampo
Origem suspeita
Etiópia (segundo autores antigos)
Nome
Deriva do bispo Cipriano de Cartago, que a descreveu por volta de 250
Principais cidades afetadas
Roma, Alexandria e outras grandes cidades do império
Mortes estimadas
Até 5.000 pessoas por dia em Roma
Impactos
Queda na mão de obra agrícola e militar; morte do imperador Cláudio II
Consequência sociocultural
Pode ter favorecido a expansão do cristianismo no interior do império
A varíola, trazida da Europa por Colombo, foi responsável pela dizimação das populações nativas da América, especialmente no Brasil, onde foi registrada pela primeira vez em 1563, na Ilha de Itaparica.
Junto com outras doenças como sarampo e varicela, ela destruiu civilizações indígenas, como os Astecas e Incas.
Acredita-se que a varíola tenha sido deliberadamente introduzida pelos exércitos de Hernán Cortés e Francisco Pizarro, facilitando a conquista dos Incas, já que a doença matou o imperador e seus sucessores antes da chegada dos espanhóis, gerando uma guerra civil que enfraqueceu o Império.
Nota: Hernán Cortés (1485‑1547), fidalgo espanhol, abandonou os estudos e partiu para o Novo Mundo, onde participou da conquista de Cuba antes de liderar a expedição ao México em 1519. Com cerca de 500 espanhóis, fundou Veracruz, formou alianças com povos indígenas como os tlaxcaltecas, e avançou sobre Tenochtitlán, inicialmente pacífico, mas após prender Montezuma e massacrar em Cholula, enfrentou a rebelião da “Noite Triste”. Reagrupado, cercou a capital asteca, explorou a varíola como fator decisivo, e conquistou a cidade em 1521, encerrando o Império Asteca. Nomeado primeiro governador da Nova Espanha e marquês de Oaxaca, foi destituído em 1528, voltou à Espanha e morreu empobrecido em 1547.
Hernán Cortés
Detalhes
Nascimento e Morte
Medellín (Espanha), 1485 – Castilleja de la Cuesta, 2 dez 1547
Expedição ao México
Chegou em 1519 com 500 espanhóis e fundou Veracruz
Alianças indígenas
Tlaxcaltecas e totonacas apoiaram-na contra os astecas
Eventos marcantes
Massacre em Cholula, prisão de Montezuma, “Noite Triste”, cerco e queda de Tenochtitlán (1521)
Governança colonial
Primeiro governador da Nova Espanha; título de marquês de Oaxaca; destituído em 1528
Legado
Fim do Império Asteca, estabelecimento da colonização espanhola na América e figura controversa, alvo de acusações de violência e abuso
Nota: Francisco Pizarro González (c. 1476–1541), nascido em Trujillo (Espanha), foi o conquistador do Império Inca, liderando expedições que culminaram na captura do imperador Atahualpa em 1532 e na tomada de Cusco. Em 1535, fundou a cidade de Lima, que se tornou a capital do Vice‑Reino do Peru. Seu domínio se consolidou com a execução de Atahualpa, expulsão de Diego de Almagro e estabelecimento da administração colonial. Foi assassinado em 1541 por partidários de Almagro e hoje é uma figura controvertida, reconhecida tanto por sua ambição e legado quanto por sua violência.
Francisco Pizarro
Descrição Resumida
Nascimento / Morte
c. 1476 em Trujillo (Espanha) – assassinado em Lima, 26 jun 1541
Expedições iniciais
Participou da descoberta do Pacífico (1513); iniciou expedições ao Peru entre 1524 e 1526
Conquista Inca
Capturou Atahualpa em Cajamarca (1532), conquistou Cusco (1533)
Fundação de Lima
Estabeleceu a cidade, chamada “Cidade dos Reis”, em 18 jan 1535
Disputa com Almagro
Executou Almagro em 1538; foi assassinado em 1541 pelos seguidores deste
Legado
Consolidou o domínio espanhol no Peru; figura controversa, marcada por violência e colonialismo
Continuando…
Só foi possível eliminar a varíola porque os seres humanos são os únicos hospedeiros, só há um sorotipo (logo a imunização protege contra 100% dos casos), e a vaccínia é eficaz e como vírus vivo que invade ainda que debilmente células, provoca resposta imunitária vigorosa. Além disso a vacina é barata e estável.
No entanto, com o aquecimento global, cadáveres de pessoas mortas em regiões com gelo pode ressuscitar vírus adormecidos, entre eles VARÍOLA, ou mesmo uma gripe fraca da época dos nossos tataravós, os quais nós não temos resistência.
Com a invasão dos europeus no continente americano, a população indígena foi dizimada por doenças, incluindo aquelas que nunca haviam tido contato com os europeus, pois as doenças se espalhavam de tribo em tribo.
Estima-se que 90% da população das Américas desapareceu. Isso é tão relevante que apenas cerca de 20% da população indígena chegou a conhecer um europeu, e a maioria nunca teve esse contato.
A queda populacional foi tão drástica que as áreas de plantio ficaram abandonadas, permitindo que as florestas crescessem.
Essa grande redução populacional levou a uma espécie de mini era glacial após o ano de 1500, já que as práticas agrícolas que antes eram realizadas pelos indígenas desapareceram. A população da América foi praticamente extinta, com apenas 10% sobrevivendo.
O impacto disso também afetou o clima global, já que o cultivo agrícola deixou de ser praticado.
Acredita-se que fenômenos semelhantes ocorreram com a conquista de Genghis Khan, cujas campanhas também mataram tantas pessoas que teriam alterado o clima global.
A gripe, por exemplo, matou muitos dos povos originários das Américas, além da varíola. A gripe que atingiu os indígenas provavelmente mataria muitas pessoas hoje também.
O motivo pelo qual os europeus não morriam, ou morriam em menor número, é que os sobreviventes se tornaram resistentes aos vírus.
Quando os europeus chegaram às Américas, eles carregavam esses vírus, que estavam presentes em seus corpos.
Ao entrarem em contato com os nativos, os indígenas eram obliterados por esses vírus, ou seja, morriam rapidamente. Dezenas de milhares de Europeus também morreram aqui.
Por outro lado, os vírus dos nativos não afetaram os europeus. Aparentemente, a única doença que os indígenas transmitiram para a Europa foi a sífilis, mas essa doença demorava a gerar problemas. É importante também considerar o efeito fundador dos nativos das Américas.
Os nativos brasileiros não possuíam uma preparação evolutiva, e assim eles eram mortos. Por outro lado, os europeus morriam aqui, e não conseguiam sobreviver a tempo de levarem os vírus dos indígenas à Europa.
Sobre a Resistência dos Nativos aos Vírus
O efeito fundador dos nativos das Américas foi resultado de três ou quatro grandes migrações, embora a quarta seja debatida.
Pelo menos três irradiações de indígenas chegaram ao continente, ocorrendo há cerca de 40 mil, 35 mil e 30 mil anos, ou um pouco menos. Durante esse tempo, houve milhares de anos de isolamento, intensificado por uma glaciação.
A primeira grande migração, conhecida como radiação ameríndia, pode ter ocorrido há até 40 mil anos, mas certamente há pelo menos 35 mil anos. Na época, a pior fase da última glaciação ainda não havia ocorrido.
Uma segunda migração passou pelo Estreito de Bering e corresponde à radiação na-Dené. Esses grupos ficaram presos nas Américas quando o clima esfriou e congelou o caminho de retorno.
Além do longo período de isolamento dos nativos nas Américas, a geografia do continente – com dois vastos territórios e o Caribe – contribuiu para a baixa variabilidade genética.
Esse efeito fundador limitou a diversidade genética da população indígena, reduzindo as chances de seleção natural para resistência a doenças.
Com menos variação genética, a capacidade de alguns indivíduos resistirem a novas doenças era muito menor.
Um fenômeno semelhante pode ter ocorrido na Austrália, onde populações isoladas também enfrentaram desafios imunológicos.
Isso levanta a questão de como diferentes populações humanas, após milhares de anos de separação, ao entrarem em contato, sofriam com a falta de resistência a novos vírus.
Nota: (ficção científica): Esse mesmo princípio explicaria por que uma civilização avançada vinda de outra galáxia poderia, ao visitar a Terra, ser extremamente vulnerável a nossos microrganismos.
Sintomas da Varíola
O período de incubação médio da varíola é de 12 dias. Após isso, os sintomas surgem de maneira abrupta, sendo marcados pelo surgimento de febre alta, dores de cabeça, dores no corpo, abatimento e calafrios.
Esses sintomas têm uma dura ção de cerca de quatro dias, e, após esse período, a doença progride para a forma mais grave, com redução da febre e surgimento de erupções na pele.”
Breve História da Vacina Contra Varíola
A vacina contra a varíola foi a responsável por erradicar a doença do planeta, pondo fim em anos de mortes e sequelas irreversíveis. A vacina contra a varíola foi criada por Edward Jenner, um médico da Inglaterra.
Jenner observou, em 1789, que pessoas que ordenhavam vacas não contraíam a varíola após adquirirem a varíola bovina. Em 1796, ele extraiu o pus presente em uma lesão de uma pessoa que tinha contraído a varíola bovina e inoculou-o em um menino saudável, o qual adquiriu a doença de forma branda.
Passado algum tempo, Jenner inoculou, no mesmo menino, o material retirado de uma pústula de uma pessoa com varíola humana.
O menino não contraiu a doença, o que significou que ele estava imune a ela. Jenner, então, fez a experiência com outras pessoas, inclusive com o seu próprio filho. Os resultados do experimento foram publicados em 1798.
Nota: A palavra “vacina” vem do latim “vaccinus”, que significa “derivado da vaca” (vacca, em latim).
O termo “vacinação” foi popularizado pelo químico francês Louis Pasteur, que, em homenagem ao trabalho de Jenner, usou o termo para descrever qualquer imunização contra doenças infecciosas.
Cientistas Importantes
A vacinação moderna, como a de Edward Jenner (1796) com o vírus vaccinia, era mais eficaz, pois oferecia proteção sem o risco de causar uma infecção severa, o que levou à substituição da variolização.
A variolização era um método preventivo e não um tratamento para quem já estava infectado. No entanto, havia relatos de que, se feita nos primeiros dias da infecção, poderia resultar em um quadro mais brando da doença.
Por que não funcionava bem para infectados?
Funcionamento da variolização
Induzia uma resposta imunológica antes da exposição ao vírus selvagem.
Limitação da variolização
Ineficaz se a pessoa já estivesse infectada, pois o sistema imunológico não reagiria a tempo.
Período de incubação da varíola
De 7 a 17 dias; quando os sintomas surgiam, a infecção já estava em estágio avançado.
Laurentino GomesE e as Epidemias no Século XIX
“A cidade não mudou. É a mesma. O tifo, a varíola e outras doenças malignas tinham, entretanto, aqui definitivamente plantado tentáculo. Morre-se como não há memória de se morrer tanto, no Brasil. Os relatórios que vão para a Metrópole, porém, falam bem pouco de tais assuntos. Epidemias!
Para sustá-las é praxe, no Brasil, atirar às ruas espessas manadas de bois, varas de porcos, rebanhos de carneiros, esperando-se que a Divindade os fulmine, transferindo para eles a cólera que tanto aos homens prejudica.
Fazem-se preces públicas; as igrejas vivem sempre abertas, os altares dia e noite iluminados. Prometem-se à Divindade custódias de ouro, toneladas de cera, somas em dinheiro, novenas, te-Deuns, capelas…
Ninguém trata de mandar varrer as ruas, distribuir melhor a água, ter mais asseio com o próprio corpo. A linfa da carioca, portadora das mais tremendas infecções, corre a descoberto.
Os animais mortos enchem, entulham a famosa Vala que liga Santo Antônio à Prainha. Cada rua é uma artéria úmida e podre, secando ao sol.
A medicina, cujas relações são ainda as mais cerimoniosas com a higiene, perseguida, vexada pela ignorância dos homens, entra no Brasil, timidamente, com um olho no bispo, outro no vice-rei.
Sobre os males que nos afligem, há teorias edificantes. A do morgado de Mateus de S. Paulo, por exemplo, é a mais curiosa. A cólera é peste: Este abuso esta intemperança nos contínuos relâmpagos que continuamente se vêem cintilar por todos os meses”
Descoberta da Estreptomicina
A estreptomicina foi o primeiro antibiótico eficaz contra doenças causadas por bactérias “mycobacterium”, como a tuberculose. Foi descoberta em 1943 por pesquisadores da “Universidade de Rutgers”, Selman Waksman, Albert Schatz e Elizabeth Bugie.
A estreptomicina foi isolada de um actinomiceto do solo, “streptomyces griseus”. A descoberta foi um marco na medicina, pois até então a tuberculose era uma doença frequentemente fatal.
Paralelo com a Higiene Brasileira no Século XIX
Enquanto a descoberta da estreptomicina no século XX representou um avanço significativo no combate a doenças infecciosas, a situação de higiene no Brasil do século XIX era marcada pela falta de recursos e conhecimento para lidar com essas mesmas doenças.
A estreptomicina simboliza o início de uma era na qual a humanidade começou a ter armas efetivas contra patógenos bacterianos, algo que não estava disponível no século anterior.
No século XIX, o Brasil enfrentava epidemias e um cotidiano marcado pela falta de higiene, o que facilitava a propagação de doenças. A chegada de antibióticos como a estreptomicina, já no século XX, transformou radicalmente o cenário da saúde pública, permitindo o tratamento eficaz de doenças que antes eram mortais.
Essa comparação destaca o contraste entre a limitada compreensão e os recursos do século XIX e os avanços significativos que ocorreram no campo da saúde e higiene no século seguinte.
Inúmeras doenças viajavam com os cativos: escorbuto, varíola, sarampo, malária, febre amarela e tifoide, disenteria, hepatite, anemia e oftalmia (uma infecção contagiosa dos olhos que frequentemente levava à cegueira).
Em 1841, o navio português “Dois de Fevereiro” foi capturado pelo cruzador britânico Fawn ao largo da costa brasileira, na altura de Campos, litoral norte do Rio de Janeiro. Os escravos, arrancados da penumbra dos porões e levados para o convés, foram assim descritos no diário de bordo:
“Os vivos, os moribundos e os mortos amontoados em uma única massa. Alguns desafortunados no mais lamentável estado de varíola, sofrivelmente doentes com oftalmia, alguns completamente cegos, outros, esqueletos vivos, arrastando-se com dificuldade para cima, incapazes de suportarem o peso de seus corpos miseráveis.
Mães com crianças pequenas penduradas em seus peitos, impossibilitadas de darem a elas uma gota de alimento. […] Todos estavam completamente nus. Seus membros apresentavam escoriações por terem permanecido deitados sobre o chão de madeira durante tanto tempo. No compartimento inferior, o mau cheiro era insuportável. Parecia impossível que seres humanos pudessem respirar tal atmosfera e sobreviver.”
Remédios Comuns no Século XIX
Era comum ver nas páginas do rústico Diário do Rio de Janeiro de 1822 anúncios de remédios milagrosos, dentre eles, o da água diamantina, vendida na Botica de Manoel José Ferreira do Rego Vieira, localizada no largo do Rocio, bem em frente ao Real Theatro de São João.
Segundo o texto, essa água mágica teria o poder de restaurar a cor dos cabelos brancos — tudo isso autorizado pelo Conselheiro Físico-Mor do Reino, autoridade médica da época.
Cada “onça” custava 320 réis e já havia sido anunciada em anos anteriores na Gazeta, outro periódico da época. Uma combinação perfeita de tradição, pompa e promessa.
Rhatania e o Combate às Hemorragias no Século XIX
Outro registro do Diário do Rio de Janeiro de 1822, surgere a raiz de Rhatania como tratamento contra as hemorragias astênicas ou passivas.
Segundo o excerto, o respeitado médico Dr. Hurtado afirmava que esse remédio era “mui preferível a todos os adstringentes”. A raiz podia ser administrada de diferentes formas — em cozimento, infusão, ou, mais comumente, por meio de extrato, na dose de “meia oitava até uma”.
A Cicuta
A cicuta (Conium maculatum) é uma planta extremamente venenosa, conhecida desde a Antiguidade. Seu caso mais famoso é o de Sócrates, que foi executado em Atenas no século IV a.C. ao ingerir uma infusão da planta, conforme descrito por Platão. Na Grécia antiga, ela era usada como método “oficial” de execução.
No século XIX, com o avanço da farmacologia, a cicuta passou a ser estudada como possível remédio, usada em extratos como sedativo e antiespasmódico, no tratamento de convulsões, neuralgias e até câncer.
No entanto, sua alta toxicidade e os efeitos colaterais graves tornavam seu uso arriscado e pouco confiável. Intoxicações acidentais eram comuns, o que levou ao seu abandono pela medicina.
Historicamente, a cicuta também foi associada a práticas de feitiçaria, envenenamentos políticos e aparece com frequência na literatura como símbolo de morte lenta e silêncio.
Deixe uma resposta