Era uma vez uma vila humilde do Vale do Paraíba que, de tão insignificante, foi deixada de lado por Dom Pedro durante a sua Viagem da Independência. Entre a tarde de 14 de agosto e a manhã de 7 de setembro de 1822, Dom Pedro percorreu, montado em uma mula, as vilas mais importantes de São Paulo em busca de apoio político antes do marcante 7 de setembro. São José da Parayba, no entanto, não fazia parte do trajeto, pois era considerado um curral pobre e sem relevância.

No dia 22 de agosto de 1822, Dom Pedro chegou a Jacareí, onde se hospedou na casa do capitão-mor Cláudio José Machado. No entanto, a vila de São José da Parayba foi ignorada.
O mundo deu voltas, e em 2025, São José dos Campos, que já não é mais da Parayba, transformou-se na cidade mais rica e tecnologicamente avançada — não só entre as cidades do Vale do Paraíba, mas em todo o Brasil.
Desvendando o Mito da Fundação da Cidade
A origem da cidade de São José dos Campos remonta à segunda metade do século XVI, quando um grupo de indígenas da etnia guaianás, emigrados dos campos de Piratininga, local que deu origem à cidade de São Paulo, formou um núcleo de povoamento chamado São José da Parahyba.
Até 2010, era consenso que o fundador desse núcleo era o padre José de Anchieta (1534 – 1597).
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As historiadoras Maria Aparecida Papali e Valéria Zanetti, contudo, refutaram essa concepção histórica ao apresentarem, no volume III de uma série de livros que narram a história da cidade de São José dos Campos, intitulado “São José dos Campos: História e Cidade”, argumentos que demonstrar que o padre jesuíta não foi o fundador da vila de São José da Parayba.
Ficou curioso para saber quem foi o verdadeiro fundador da cidade? Leia o conteúdo a seguir.
Ao investigar a história da cidade de São José dos Campos, seja nos escritos dos antigos memorialistas ou nos almanaques do início do século XX, encontramos a afirmação de que José de Anchieta é o fundador da cidade.
No entanto, não existem evidências concretas ou documentos que sustentem tal afirmação, e grande parte das convicções atuais baseia-se mais na tradição do que em documentação oficial.
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Sobre a Companhia de Jesus

Sempre houve por parte da Coroa Portuguesa o interesse de povoar a região do Vale do Paraíba. Contudo, o agente desse empreendimento não foi o nobre padre da Companhia de Jesus.
Porém, os jesuítas desempenharam papel central na colonização do Brasil, e também na fundação da cidade de São José dos Campos.
Inseridos no contexto da Contrarreforma, que buscava restaurar a hegemonia da Igreja Católica após a Reforma Protestante, os jesuítas foram enviados como agentes da cristianização no Novo Mundo. Chegaram em 1549 com Tomé de Sousa, promovendo o catequismo entre indígenas e colonos.
Atuaram tanto como aliados da Coroa Portuguesa na organização da colônia quanto como mediadores, ao evitar a dizimação indígena, visando integrá-los como “trabalhadores produtivos”.
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A Fundação de São José dos Campos (segundo memorialistas)
Conforme afirma Eugênio Egas, historiador do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em uma publicação datada de 1925, o núcleo humano primordial que deu origem à cidade de São José teve início na localidade conhecida como Aldeia do Rio Comprido.
Egas, por sua vez, parece ter se inspirado na obra de Azevedo Marques, um político e professor paulista, um dos primeiros a atribuir a Anchieta a responsabilidade pelo povoamento do Rio Comprido, a partir da publicação de Márquez:
“Apontamentos Históricos, Geográficos, Biográficos, Estatísticos e Noticiosos da Província de São Paulo”, em 1879.
Marques sustenta que a Aldeia de São José estaria intrinsecamente relacionada ao núcleo de povoamento de Piratininga, que deu origem à cidade de São Paulo, formado por grupos aldeados que se refugiaram em decorrência do conflito entre portugueses e indígenas.

Esse grupo teria se deslocado pelas matas, alcançando a região do Rio Paraíba por volta do ano de 1564.
Ao longo dos anos, no entanto, autores joseenses famosos como Cassiano Ricardo e Agê Júnior reiteraram que a tradição poderia suprir a falta de documentação, o que comprovaria a fundação da cidade por José de Anchieta.
O Que Foi o Cerco de Piratininga?
O Cerco de Piratininga ocorreu em 9 de julho de 1562, quando uma aliança de indígenas das tribos guarulhos, guaianás e carijós atacou a vila de São Paulo dos Campos de Piratininga, insatisfeitos com a união entre os jesuítas e o cacique Tibiriçá.
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Segundo Azevedo Marques
Em um local não distante do atual assentamento da povoação de São José dos Campos, foi estabelecida, na segunda metade do século XVI (provavelmente em 1564, onde hoje é o bairro do Limoeiro), uma aldeia oriunda da tribo de índios guaianases, que emigraram de Piratininga sob a orientação do Padre José de Anchieta.
Contudo, esse aldeamento foi posteriormente abandonado pelos jesuítas. Entre os anos de 1643 e 1660, eles adquiriram várias terras e, com os índios remanescentes daquele primeiro aldeamento, fundaram novas comunidades em suas propriedades. Assim, teve início a formação da povoação de São José dos Campos.
Quem foi José de Anchieta

José de Anchieta foi um padre jesuíta nascido em Tenerife, que chegou ao Brasil em 1553 com forte missão evangelizadora. Participou da fundação das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, além de criar a primeira gramática da língua tupi.
Destacou-se como dramaturgo, poeta e defensor dos indígenas contra abusos dos colonizadores. Foi canonizado como santo pela Igreja Católica e declarado co-padroeiro do Brasil
O jesuíta passou a ser associado ao Vale do Paraíba e a São José a partir de suas cartas. Ele registrou um conflito no ano de 1561 ocorrido na região do Vale do Paraíba, o que foi considerado uma das primeiras notícias históricas que se tem da região do Vale do Paraíba.
A carta narrada pelo padre José de Anchieta em 30 de julho de 1561, escrita ao provincial da Companhia de Jesus, Diego Laynes, descreve a distância entre a Vila de São Paulo, de onde partiram os colonos e a provável localização da tribo Tamoio, faz uma descrição minuciosa do caminho percorrido pela campanha.
Anchieta narrou ainda como se deu esse confronto, que resultou na morte de três portugueses e de vários índios, dos quais sobraram apenas algumas crianças, levadas posteriormente para a Casa de São Paulo, em Piratininga. O confronto teria ocorrido durante a Semana Santa do ano de 1561.
Segundo o pesquisador Benedito Prezia, o confronto narrado por Anchieta teria ocorrido durante a Semana Santa do ano de 1561, sob o comando de Jorge Moreira, provavelmente onde hoje se localiza a cidade de São José dos Campos.
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A Ocupação do Vale do Paraíba

Jorge Moreira foi o capitão da campanha promovida pelos moradores da Vila de São Paulo para perseguir e matar os índios Tamoios, chamados de gentios do Vale do Paraíba pelos brancos paulistas, contrários a ocupação portuguesa.
Sua participação nesse conflito é comprovada através de uma carta dos Oficiais da Câmara da Vila de São Paulo dirigida à rainha d. Catarina relatando a respeito do conflito.
A contribuição de Jorge Moreira à historiografia sobre a origem da cidade destaca-se pelas informações presentes em sua biografia.
A presença de José de Anchieta limita-se apenas ao papel de intérprete da campanha organizada em 1561 conforme narrativas de época a seguir: “Em 1561, chefiou uma expedição contra os índios do vale do rio Paraíba, na qual Anchieta seguiu como intérprete” (Porchat, 1993: 97-98).

Jorge Moreira era português e chegou a São Vicente em 1545, casando-se com Isabel Velho. Foi povoador de Santo André da Borda do Campo, onde em 1557 exerceu o cargo de almotacel (inspetor de pesos e medidas responsável por fixar preços das mercadorias).
Em 1550, foi um dos promotores da mudança da vila de Santo André para a de São Paulo de Piratininga. Dentre os cargos que exerceu estão os de ouvidor da capitania de São Vicente, juiz ordinário na Câmara da Vila de São Paulo, e em 1575, capitão da vila (Porchat, 1993: 97-98)
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Não há menção nas cartas de José de Anchieta ou dos oficiais da Câmara de São Paulo, sobre a fundação de aldeamentos jesuítas ou coloniais na região de São José.
Após um conflito citado por Anchieta, apenas se relata a transferência de crianças sobreviventes para São Paulo.
Já a carta assinada por Jorge Moreira solicita à rainha d. Catarina o envio de colonos para povoar a capitania e conter ataques indígenas.
Apesar de outros nomes como Manuel de Paiva, Gregório Serrão e o próprio Moreira surgirem na documentação, a associação de Anchieta como fundador da Aldeia de São José parece vir de uma interpretação posterior, registrada num relatório de 1888.
Os Primeiros Núcleos de Povoamento

Segundo Nice Lecocq Müller, o povoamento do Vale do Paraíba é o mais antigo do Estado de São Paulo, com origem no século XVII.
Ao final desse processo, a região contava com três vilas (Taubaté, Jacareí e Guaratinguetá), dois povoados religiosos (Pindamonhangaba e Tremembé) e dois aldeamentos indígenas (Nossa Senhora da Escada e São José).
O início do povoamento se deu com Jacques Félix, morador da vila de São Paulo, que recebeu a primeira sesmaria da região em 1628, concedida pela Condessa de Vimieiro.
No entanto, foi seu neto, também chamado Jacques Félix, quem fundou o primeiro núcleo urbano: a vila de São Francisco das Chagas de Taubaté, em 1645, como parte da exploração aurífera na bacia do rio Paraíba.
A fundação contou com a instalação de um pelourinho por ordem do Capitão Dionísio da Costa, o mesmo que teria concedido as sesmarias que originaram São José dos Campos.
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Fundação da Vila de São José

O ato da transferência de índios Guaianá, promovida pelos padres jesuítas, aparece tanto nas atas da Câmara da Vila de São Paulo do século XVI quanto na carta de José de Anchieta, datada de 1580.
Nesse momento, as aldeias para as quais os indígenas foram levados em 1560 pelos jesuítas receberam as sesmarias.
Considerando, assim, que os primeiros aldeamentos coloniais surgiram por volta de 1560, não é de se estranhar que a década de sessenta do século XVI seja considerada, principalmente pelos memorialistas, como o período no qual teria sido fundada a Aldeia de São José.
O Verdadeiro Fundador
Segundo Fonseca Apud Müller, o primeiro aldeamento que deu origem à cidade, foi um agrupamento de índios estabelecido por jesuítas, em quatro léguas em quadra de terras, doadas em 1642 por João Luiz Mafra, no local onde hoje se encontra o largo da Matriz

Caberia ao Padre Manuel de Leão a iniciativa da “construção de casas de taipas para os índios, começando a ordená-las em quadras” (Fonseca apud Müller, 1969: 19).
Mesmo não apresentando nenhuma documentação histórica que dê embasamento a tal afirmação, Müller cita que a sesmaria que conteria essa doação estaria no Livro 11 de Sesmarias Antigas, arquivado na Tesouraria da Fazenda Nacional no Rio de Janeiro (1969: 19).
Porém, em buscas em acervos, as historiadoras mencionadas no início desse artigo não encontramos vestígios de tais documentos.
Segundo Fonseca: São José da Parayba começou com uma aldeia de poucos povoadores, tendo a sua origem em uma fazenda de gado fundada por padres do Colégio de São Paulo em uns campos situados no lugar a que hoje chamam Aldeia Velha. O administrador desta obra o padre Manuel de Irmão Leão.

Nota: As cidades do Vale do Paraíba com maior proeminência até o século XIX, eram: Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté e Guaratinguetá.
Há uma tese, baseada em documentos da Companhia de Jesus, de que São José dos Campos teve origem em uma fazenda de gado pertencente ao Colégio de São Paulo, localizada entre os atuais municípios de São José dos Campos e Jacareí.
Essa versão é sustentada pelo auto de elevação da aldeia à vila, em 1767, e por registros de 1765 no Arquivo Histórico do Estado de São Paulo. As fazendas de gado jesuíticas eram propriedades destinadas à autossustentação das missões, mas também serviam para gerar renda aos colégios da Companhia de Jesus.

Nota: A região ocupada hoje pela cidade de São José dos Campos era conhecida como Nossa Senhora do Desterro. Com o tempo, o nome Nossa Senhora do Desterro foi sendo substituído por São José, o padroeiro do município. Nossa Senhora do Desterro foi apenas um dos vários nomes dados à cidade de São José dos Campos: Em 1692 chamava-se residência de Paraíba do Sul, dependente do Colégio de S. Paulo, e em 1696 Residência de S. José. A aldeia, após a transferência promovida pelos jesuítas em 1680, ficou conhecida como Aldeia Nova em contraposição ao antigo local que passou a ser conhecido como Aldeia Velha.

Alguns documentos atestam que foi o Padre Manuel de Leão o fundador da vila. Segundo a biografia do padre Belchior de Ponte, escrita pelo padre Manuel da Fonseca: “A aldeia de São José está situada ao norte da cidade de São Paulo, a uma distância de vinte e duas léguas do rio Paraíba.
Ela teve início com poucos povoadores, tendo sua origem em uma fazenda de gado que os padres do Colégio de São Paulo procuraram estabelecer em campos localizados no local hoje conhecido como Aldeia Velha.
Para administrar essa fazenda, foram transferidos alguns casais (famílias) de outras aldeias.
A obra A Vida do Venerável Padre Belchior de Pontes, redigida por Manoel da Fonseca, embora careça de dados precisos acerca do surgimento da Aldeia de São José, é amplamente reconhecida como um documento de crucial importância.

Tal reconhecimento se deve à apresentação de indícios que remetem aos primórdios de São José dos Campos no século XVII, atribuindo ao Padre Manoel de Leão o mérito pela fundação da localidade. Segundo a obra:
“O primeiro responsável pela fundação da Aldeia de São José foi o irmão Leão, uma figura que, com certeza, mereceria ser destacada nesta narrativa, se não estivéssemos tão focados na trajetória do Padre Belchior de Pontes. Com o intuito de estabelecer de forma permanente esta nova residência, o irmão Leão construiu habitações em taipa de pilão para os índios, organizando-as em um formato de quadra — uma estrutura que se mantém visível até os dias atuais, embora com materiais de menor durabilidade, já que tais homens não almejavam construções mais elaboradas.”
Ele também construiu uma igreja, na qual se veneram as imagens de Jesus, Maria e José, representando a peregrinação da Sagrada Família ao Egito para escapar da fúria de Herodes. A aldeia manteve, desde o início, o nome de São José, pois seus moradores veneram esse santo patriarca como seu padroeiro.

PS: A linguagem antiga da citação foi alterada para uma mais atual
Quem foi o Padre Manoel de Leão
Padre Manoel de Leão (1635–1722), natural da cidade do Porto, ingressou na Companhia de Jesus, no Rio de Janeiro, em 1658. Exerceu na Companhia diferentes ofícios como o de sapateiro, enfermeiro (1659) e administrador de fazendas (1663).
Este último ofício foi o que de fato lhe rendeu destaque na Companhia, pois no ano de 1683, Manuel de Leão já se encontrava à frente das fazendas mais remotas de São Paulo, dentre elas a de São José (Leite, 1953: 362).
Nota: Não vou resumir aqui os conflitos entre portugueses e jesuítas. Em suma, os jesuítas foram expulsos do Brasil em 1759 por ordem do marquês de Pombal, que queria enfraquecer o poder da Igreja e centralizar o controle da colônia. As terras e fazendas dos jesuítas, inclusive a fazenda de gado que deu origem à cidade de São José da Parayba, foram transferidas para a administração pública.
Motivo da Mudança para a Região do Banhado

Há indícios de que os índios optavam por localizar suas aldeias em terrenos elevados (Azevedo apud Petrone, 1995: 138).
Da mesma forma, a proximidade de cursos d’água oferecia as condições mínimas para a subsistência do povoado, que sobrevivia da pesca, da caça e da própria prática da agricultura (Petrone, 1995).
Por outro lado, esses cursos d’água também traziam problemas, como as enchentes.
Considerações Finais Sobre José de Anchieta
Segundo Gomes da Silva: Embora diversos estudos, textos, sites e até símbolos, como o brasão oficial do município, apresentem José de Anchieta como o fundador da cidade, um conjunto de informações obtidas a partir dos registros dos jesuítas, cartas, catálogos e biografias do acervo documental da historiografia jesuítica não confirmam essa versão (2009: 78).

Durante muito tempo, acreditou-se que São José dos Campos teria sido fundada por José de Anchieta no século XVI. No entanto, a ausência de documentos confiáveis tornou essa versão questionável.
Pesquisas recentes indicam que o jesuíta Manuel de Leão, e não Anchieta, teria fundado a Aldeia de São José por volta de 1680, ao transferir indígenas para um novo local.
Fontes como Serafim Leite e o padre Manuel da Fonseca reforçam essa hipótese. Assim, a narrativa tradicional foi revista com base em novas evidências documentais.
Por que José de Anchieta não foi o fundador de São José dos Campos:
- Não há registros de Anchieta mencionando a fundação da aldeia.
- Biografias antigas e recentes também não citam esse feito.
- Sua única atuação conhecida na região foi como intérprete em uma campanha contra os tamoios.
- A associação como fundador parece ter surgido apenas em documentos posteriores, como um relatório de 1888.
São José Elevada à Categoria de Vila

Luís António de Sousa Botelho Mourão, 4.º Morgado de Mateus, foi um nobre português nascido em 1722 em Amarante. Filho de uma família aristocrática, herdou prestígio e influência.
Tornou-se o primeiro capitão-general da Capitania de São Paulo em 1765, após a restauração da autonomia da capitania.
Governou por 10 anos (1765–1775), durante os quais promoveu o desenvolvimento urbano e militar da região, elevando diversos povoados à condição de vilas para fortalecer as fronteiras contra os espanhóis.
Sua atuação teve impacto duradouro, incluindo a origem do município de Campo Mourão.
Sua missão era reerguer a capitania, então secundária em relação a Minas Gerais. Uma das primeiras medidas foi elevar diversas aldeias à categoria de vila para aumentar a arrecadação. Em 27 de julho de 1767, a aldeia de São José foi elevada a vila com o nome de São José do Paraíba.
Após a Criação da Vila de São José
| Fato | Descrição |
| Símbolos de emancipação | Foram erguidos o pelourinho e a Câmara Municipal, marcos da nova condição de vila. |
| Impacto inicial da emancipação | A emancipação política não trouxe grandes benefícios imediatos para a população local. |
| Participação indígena | Índios podiam votar, mas eram impedidos de se candidatar à vereança. |
| Poderes da câmara | A Câmara concentrava muitos poderes, inclusive a demarcação de terras. |
| Conflitos e mortes | Houve conflitos e mortes devido à disputa por terras entre a vila de Jacarehy e a nova vila de São José. |
| Ordem cronológica de formação | São José tornou-se vila antes de se tornar freguesia. |
| Economia cafeeira | No início do século XIX, o Vale do Paraíba ainda não era relevante na exportação de café, que começaria por volta de 1830. |
| Atividades econômicas locais | A cidade produzia alimentos e fornecia animais de carga para a região de Minas Gerais. |
| Condições de vida | A vila sofria com pobreza e epidemias, principalmente de hanseníase (lepra), conhecida como “o mal de Lázaro”. Os doentes eram segregados, recebendo roupas e alimentos antes de serem expulsos da vila. |
Em 1767, índios entoaram o Te Deum Laudamus da missa fazia parte da cerimônia de elevação da cidade de São José da Parayba a condição de vila. E só após essa classificação por parte do governo imperial que a vila passava a ter o direito de ter uma câmara municipal, uma cadeia, que de acordo com o costume da época, ficavam embaixo da câmara, bem como era obrigatório ter um frente o pelourinho, coluna onde os escravizados eram castigados.

Em 27 de julho de 1767, ainda antes de se tornar freguesia, a aldeia foi elevada à categoria de vila, com a denominação de São José do Paraíba.
Levantou-se, então, o pelourinho (na atual Rua Vilaça, próximo ao cemitério) e procedeu-se à eleição da Câmara, o que caracterizava a nova condição.
A emancipação à categoria de vila não foi um fator determinante para o desenvolvimento local, já que por muitos anos quase nenhum progresso foi notado.
Nos primeiros séculos, a principal dificuldade para o desenvolvimento da cidade de São José dos Campos era o fato de a Estrada Real passar distante da vila. E foi só em meados do século XIX que São José do Paraíba começou a demonstrar sinais de crescimento econômico, que era devido, em parte, à expressiva produção de algodão durante a década de 1860.

Em 1864 a vila foi elevada à categoria de cidade, e em 1871 recebeu a denominação de São José dos Campos.
Mesmo sem uma participação significativa na produção cafeeira do Vale do Paraíba, São José dos Campos atingiu o auge da produção em 1886.
Naquele momento a cidade já era atendida pela estrada de ferro, que fora inaugurada em 1877.
Hanseníase (Lepra)

Uma ata de 25 da Câmara de São José do Parayba de dezembro de 1809 mostrava que a Vila de andava às voltas com o medo e repulsa causados pela presença de infelizes portadores de hanseníase, existentes em grande número na Capitania de São Paulo, os quais perambulavam de uma Vila para outra, ao encalço de esmolas e caridade.
Quem comprasse alimentos de pessoas com o mal de Lázaro estaria sujeito, segundo determinação da Câmara de SJC, a prisão de 20 dias e multa
| Categoria | Informação |
| Nome da doença | Hanseníase (Lepra) |
| Agente causador | Mycobacterium leprae (bactéria) |
| Transmissão | Contato prolongado com secreções respiratórias de pessoas não tratadas |
| Principais sintomas | Manchas na pele com perda de sensibilidade, dormência, formigamento, nódulos |
| Efeitos no corpo | Danos aos nervos periféricos, deformidades, lesões na pele e olhos |
| Diagnóstico | Clínico + exames de pele (baciloscopia ou biópsia) |
| Tratamento (SUS) | Poliquimioterapia (PQT) gratuita: |
| – Paucibacilar: Rifampicina + Dapsona por 6 meses | |
| – Multibacilar: Rifampicina + Dapsona + Clofazimina por 12 meses | |
| Contágio | Sim, mas cessa após início do tratamento |
| Prevenção | Diagnóstico precoce, tratamento imediato e vacina BCG em contatos próximos |
| Armazenamento – Rifampicina | – Temperatura: 15 °C a 25 °C (ambiente fresco e seco) – Não congelar – Proteger da luz (armazenar em embalagem opaca) – Manter fora do alcance de crianças – Observar validade e aparência do medicamento (não usar se alterado) |
| Importância do tratamento | Cura a doença, evita complicações e interrompe a transmissão |
Alguns Fatos da Época

Em 28 de outubro de 1828, Dom Pedro I promulgou uma lei que estruturava os municípios e, em seu artigo 66, parágrafo 2º, recomendava que as Câmaras Municipais elaborassem normas para a criação de cemitérios fora dos templos religiosos.
A partir disso, iniciou-se o debate sobre a mudança do local de sepultamento, que até então ocorria dentro ou ao redor das igrejas.
Os chamados cemitérios extramuros passaram a ser associados à melhoria da salubridade e à urbanização das cidades, dentro do processo de formação do Estado brasileiro.

Em São José dos Campos, a Câmara tratou do assunto pela primeira vez em 23 de setembro de 1831, quando foi demarcado um novo cemitério fora do templo. — Será criado um cemitério do lado direito da igreja Matriz.
Com a criação das faculdades de medicina no Brasil e da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro em 1829, os debates sobre os riscos dos miasmas cadavéricos se intensificaram.
Muitos médicos passaram a defender a construção de cemitérios fora das áreas urbanas, como medida de saúde pública. Em 9 de fevereiro de 1832, os vereadores de São José decidiram que o cemitério deveria ser demarcado fora da Vila. (contar a estória da mulher do cemitério de Jacareí)
Cotidiano no Século XIX

Em 1871 a cidade recebeu o nome que tem hoje. Andando pelas ruas de São José no século XIX, via-se: Escravos de ganho, de aluguel, libertos e mestiços pobres provavelmente se misturavam nas ruas, na venda de mantimentos, na “feitura de caminhos”, noir e vir da construção diária de um município.
Oficialmente a Igreja de São Benedito, em São José dos Campos-SP, começou a ser construída em 1872, como resultado das esmolas e caixinhas que os escravos levavam pela cidade e zona rural.
Contudo, na história do livro a Igreja será uma capela de pau a pique construída pelos escravos, que inicialmente queriam construí-la na atual praça Cônego Lima e aproximarem ela das casas da cidade, porém o fazendeiro João Ribeiro não autorizou. Essa capela irá cair e por isso eles juntarão dinheiro para reconstruí-la próxima do largo da matriz.
O Poder da Igreja

A Câmara demonstrava preocupação em registrar e controlar os territórios sob domínio da Igreja, e havia indícios de disputas entre a Câmara e o clero, apesar da forte influência da Igreja Católica.
A Câmara buscava separar o poder legislativo do religioso, tentando reduzir a influência da Igreja. Essa tentativa de dissociação estava ligada, principalmente, à disputa por recursos financeiros.
Enquanto a Câmara era responsável pelos impostos, a Igreja arrecadava o dízimo, o que gerava tensão sobre o controle das receitas destinadas às melhorias na Vila.
Um documento da época registra uma resposta de Dom João VI ao Governador da Capitania de São Paulo.

A resposta trata de denúncias contra o Bispo, acusado de exigências e violências na cobrança de licenças para casamentos. As cobranças atingiam principalmente escravizados e indígenas (naturais do país).
Em 27 de setembro de 1810, uma ata relatou a influência do poder eclesiástico no cotidiano das Vilas.
A Igreja proibiu e puniu o uso dos rebuços, vestimenta comum na época. A justificativa da proibição foi a suposta ameaça à moral e aos bons costumes da sociedade.
O episódio revela a forte relação entre os poderes religiosos e civis no controle dos comportamentos sociais. Rebuço é o nome dado a uma vestimenta correspondente a uma capa, usada tanto por homens quanto por mulheres.

Sobretudo, essa proibição, além de controlar costumes, resultava em mais um meio de arrecadações financeiras para a igreja, observando que os “impostos” cobrados como punição eram repassados aos tesoureiros da Santa Casa de Misericórdia dos Lázaros, entidade atrelada à igreja.
O documento também destaca as punições aplicadas a escravizados que desrespeitavam a proibição do uso do rebuço.

A pena para esses homens era de 50 “palmatoadas” aplicadas em público, como forma de exemplo para a sociedade. Justificava-se a punição dizendo que o rebuço permitia esconder objetos e armas, o que colocava os cativos em condição de suspeita criminal.
O controle do vestuário era, assim, uma forma de vigilância e repressão sobre os corpos negros. (era parecido com uma burca cobrindo até a boca e cabeça ao mesmo tempo que era uma capa)
Nota: Um dos caminhos de tropeiros mais usados em São José no século XIX era conhecido como “Aterrados”.
A Polícia no Século XIX
Havia na vila os cargos de: capitão de ordenanças e capitão-mor.
| Sargento-Mor | O cargo de Sargento-Mor é o posto de maior hierarquia administrativa em uma Vila, abaixo do Capitão-Mor. |
| Ordenanças | Ordenanças correspondem a titulações militares, mas não são vinculadas ao exército. Em determinado período, as Ordens Militares delegavam cargos que representavam “status” e títulos de honrarias aos “homens bons”, membros da Câmara Municipal. |
| Nome | Cargos Ocupados | Observações |
| Ignácio de Araújo Ferras | Capitão de Ordenança, Sargento-Mor, Ajudante de Ordenança, Capitão-Mor da Vila de São José do Parahyba | Foi o primeiro Capitão-Mor da Vila de São José do Parahyba. |

O sargento-mor detinha milícias, e o termo miliciano, naquele período, não carregava uma conotação pejorativa. Documentos históricos da Câmara Municipal de São José evidenciam que, na sociedade do século XIX, a saúde constituiu um critério primordial na seleção dos soldados, os quais eram vistos como “homens de bem”.
Esses homens ocupavam cargos de prestígio e recebiam honrarias na Câmara Municipal. A análise desse critério de saúde ao escolher soldados para atuar como milicianos, mostra como as doenças eram parte marcante do cotidiano de todos os grupos sociais.
Segundo Bertolli Filho, a varíola, conhecida como “bexiga”, destacou-se como a enfermidade mais letal durante o período colonial brasileiro. Essa patologia afetou diversos segmentos da população, embora com graus de intensidade distintos. Um dado que surpreende estudiosos da história, especialmente no que tange ao século XIX, é a acusação feita pelos brancos aos negros de serem os responsáveis pela introdução de todas as doenças e epidemias.
Na Tabela, Moradores Importantes de São José do século XIX
| Ano | Pessoa | Cargo / Função | Ação / O que fez |
| 1837 | Capitão Manoel Joaquim de Andrade | Prefeito | Comparecia às sessões da Câmara Municipal, fazia discursos e, nas atas antigas, relatava o estado do município e sugeria medidas de melhoria. |
| 1837 | Joaquim José da Costa Júnior | Vereador / Presidente da sessão | Presidiu algumas sessões, abriu e encerrou os trabalhos, conduziu as votações |
| 1837 | Luiz Antonio da Silva | Vereador | Participou algumas sessões, nomeado membro da comissão de revisão de requerimentos, ofícios e propostas |
| 1837 | Vicente José dos Santos | Vereador | Participou algumas sessões, nomeado membro da comissão de revisão de requerimentos, ofícios e propostas |
| 1837 | Manoel Gonçalves Guimarães | Vereador | Participou algumas sessões, nomeado membro da comissão de revisão de requerimentos, ofícios e propostas |
| 1837 | Jeremias Lopes de Siqueira | Vereador | Participoualgumas sessões |
| 1837 | Adriano José de Araújo | Vereador | Participou algumas sessões |
| 1837 | Claudio José Machado | Vereador | Participou algumas sessões, votou contra a nomeação de Manoel de Almeida Pinto como Procurador, preferindo outro nome |
| 1837 | José Joaquim de Magalhães | Procurador | Nomeado unanimemente como Procurador da Câmara |
| 1837 | Manoel de Almeida Pinto | Procurador substituto (nomeado) | Nomeado por maioria de votos |
| 1837 | Francisco de Paula Pereira | (Indicado por Machado para Procurador) | Não foi nomeado, foi candidato sugerido em voto contrário por Claudio José Machado |
| 1837 | Pedro José de Carvalho | Porteiro | Nomeado unanimemente como Porteiro da Câmara |
| 1837 | Antonio Correa | Ajudante do Porteiro | Nomeado por unanimidade, ajudante essencial para funcionamento do expediente de ofícios da Câmara |
| 1837 | (Juiz Municipal – não nomeado) | Juiz Municipal | Seria oficiado para comparecer e realizar o tombamento dos bens do Conselho |
A Igreja de São Benedito

A Capitania de São Paulo foi marcada pela presença expressiva de confrarias católicas que, ao longo do tempo, definiram seu espaço e se estruturaram como entidades de resistência.
Predominantemente, as irmandades negras paulistas eram devotas de São Benedito, santo protetor dos pobres e dos afrodescendentes.
Neste contexto, a cidade de São José dos Campos testemunhou a formação de duas irmandades negras: a de Nossa Senhora do Rosário, por volta de 1835, e a de São Benedito, cerca de 1850.
Ambas as confrarias começaram seu desenvolvimento durante o período imperial, enfrentando os obstáculos impostos pela escravidão, assim como o restante do país.

De maneira geral, a cidade de São José dos Campos ao longo do período colonial caracterizava-se por haver uma quantia reduzida de escravizados se comparado a outras cidades do Vale do Paraíba.
Segundo Maria Aparecida Papali (1996, p. 124), a maioria dos lavradores possuíam, em média, dez a quinze trabalhadores em suas propriedades, eram raros os senhores que detinham a quantia de trinta escravizados em suas fazendas.
Isso se dá pois o território joseense nunca liderou na quantidade de produção cafeeira ou contou com grandes fazendas dos barões do café.

Nota: O primeiro dicionário da língua portuguesa, mais conhecido como Vocabulário de Bluteau, escrito em 1712, define irmandade como:“Uma sociedade de pessoas que, em virtude de um compromisso e debaixo de uma invocação de algum santo padroeiro, se obrigam a fazer alguns exercícios espirituais.”
As irmandades ou confrarias católicas são de berço europeu, tendo suas primeiras organizações no século XII. Esse agrupamento possui raiz pagã, existindo nas antigas irmandades católicas lusas e de demais regiões do ocidente (Reginaldo, 2018, p. 283).
No século XIII, sob o impacto das crises que assolaram a Europa, as práticas de ajuda mútua e caridade ganharam importância em tais sociedades.
Desse modo, no fim da Idade Média, as irmandades afirmavam-se como organizações atentas aos problemas sociais, assumindo, assim, uma pluralidade de funções (opus. cit., p. 283).
As Irmandades Negras e Suas Estruturas
Constituídas por irmãos leigos — isto é, aqueles que não possuíam necessariamente uma formação católica formal —, as irmandades eram reguladas por estatutos. Tais documentos oficiais formalizavam a fundação das confrarias, estabelecendo diretrizes internas, definição de cargos, processos eleitorais, valor de entrada, anuidades e práticas de assistência mútua, além da organização das festividades e ritos religiosos em devoção ao santo.

Com a colonização europeia e o investimento massivo no tráfico negreiro, surgiu a necessidade de conversão dos povos africanos ao catolicismo. Essa catequização era entendida pelo colonizador como um ato de salvação — segundo Anderson Oliveira (2016, p. 66), a escravização era vista como castigo e dádiva ao mesmo tempo.
Catequização e Hagiografia como Ferramentas de Dominação

A narrativa formulada caracterizava a conversão como um mecanismo para “salvar” os africanos da ignorância espiritual, considerando a imposição religiosa como um ato benéfico.
Para facilitar essa aceitação, recorreu-se à hagiografia — a narrativa da vida dos santos — como um instrumento pedagógico de fé.
Essa prática sustentava a concepção de que a cor da pele era um sinal de castigo divino (não uma condenação eterna), que poderia ser atenuado por meio da devoção religiosa.
Nesse cenário, promovia-se a ideia de que a pele negra simbolizava uma inferioridade espiritual, compensável através de uma vida dedicada à virtude cristã. Santos como Elesbão, Efigênia, Benedito e o preto João Henriques exemplificavam a crença de que a “acidentalidade da cor” não comprometia a essência divina.
Função Social das Irmandades Negras

Segundo Alvaci Mendes da Luz (2022, p. 13), as irmandades negras — compostas por pessoas pretas, livres ou escravizadas — fomentavam coletividade, solidariedade, auxílio mútuo e dignidade nos ritos de passagem, como enterros e compra de alforrias.
Embora semelhantes às irmandades europeias do século XII, foram profundamente marcadas pelo racismo estrutural brasileiro.
Os africanos traficados, arrancados de sociedades baseadas em parentesco, forças da natureza e oralidade, trouxeram consigo memórias e saberes transmitidos oralmente.
Nas “margens de cá do Atlântico”, recriaram sentidos e conexões com a terra natal por meio de ritos, ritmos, músicas e crenças (Nepomuceno, 2016, p. 103).
Galanga: Resistência e Realeza Negra

Um exemplo de resistência negra é Galanga, homem trazido do Congo com sua família durante o tráfico negreiro.
Poliglota e engenhoso, trabalhou em minas de ouro e usou os recursos que encontrava para comprar sua liberdade e a de seus familiares.
Foi coroado Rei do Congo em Ouro Preto, Minas Gerais, tornando-se uma figura central na história oral da resistência afro-brasileira.
Irmandade de São Benedito em São José dos Campos (a partir de 1822)

A Irmandade de São Benedito possui seus primeiros registros em 1835, no Livro de Assentamento, onde também se encontra a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário — ambas negras e atuando na capela do Rosário, localizada na atual Praça Cônego Lima.
Essas irmandades dividiam espaço, celebrações e assembleias. A presença dessas confrarias se relaciona diretamente à exclusão dos negros da Igreja Matriz, forçando-os a formar suas próprias instituições religiosas leigas.
Sobre Nomes e Cargos nas Festas Religiosas

Nas festas religiosas, como a de São Benedito, os eleitos como rei e rainha não eram mais escravizados, pois seus registros nas atas antigas da irmandade de São Benedito aparecem com nome e sobrenome — o que indica certa mobilidade social.
Tradicionalmente, esses cargos são ocupados por pessoas pretas detentoras de saberes ancestrais.
No entanto, a leitura dos nomes nas atas levanta questionamentos sobre a continuidade dessa tradição e o possível apagamento da identidade étnica por meio da herança de sobrenomes de antigos senhores, como no caso de “Antônio, escravo de Coronel João d’Oliveira”.
Outros Aspectos das Irmandades Negras

De maneira geral, as confrarias católicas organizadas pelos pretos destinavam sua devoção a santos como São Benedito, Santa Efigênia, Santo Elesbão e Nossa Senhora do Rosário, todos eles negros com exceção da última.
Por meio da hagiografia, os europeus Ritual da Cabula é um processo religioso de matriz africana criado no Espírito Santo em meados do século XIX.
Hagiografia é o nome dado a contação da história virtuosa dos santos católicos com o objetivo de espalhar a fé cristã ao longo dos processos de catequização europeia.
cristãos estabeleceram uma relação de identificação entre os escravizados e a religião, visando facilitar o processo de conversão ao catolicismo. Desta forma, a narrativa dos santos negros encaixou-se perfeitamente com a realidade de uma camada da sociedade que tinha sua vida marcada diretamente pela sua cor.

Por meio da união do plano material e do plano simbólico das confrarias católicas de pessoas pretas no Brasil é que estas conseguem seu território e a manutenção de sua fé, espalhando-se ao longo do país e formando redes cada vez mais complexas de resistência.
Torna-se válido destacar que mesmo sendo de grandes organizações, essas irmandades se desenvolviam em um país escravocrata, submetendo-as a condições de vulnerabilidade.
Em sua maioria, as irmandades negras eram devotas de São Benedito, santo dos pobres e dos afrodescendentes.
Entre os séculos XVI e XVII, o panteão católico de santos africanos é escasso e advém de uma região específica do continente africano: a Etiópia, o primeiro reino do continente a ser convertido ao catolicismo.
São Benedito

É da Etiópia que vem grande parte das figuras míticas alimentadas pelo cristianismo oriental, como por exemplo a rainha de Sabá, um dos reis magos com nome de Gaspar e a princesa negra esposa de Moisés.
Porém, enquanto santo negro beatificado pela Igreja Católica, São Benedito foi o primeiro. Filho de escravizados negros advindos da Etiópia, Benedito nasceu na Sicília por volta de 1524.
Quando completou dezoito anos, deixou sua ocupação de lavrador e iniciou se na comunidade de franciscanos eremitas perto da Vila de São Filadelfo.
Ocupava cargos considerados inferiores no começo de sua jornada como faxineiro e cozinheiro, mas ascendeu de posição ao longo dos anos por meio de sua forte devoção.
Em 1578, foi eleito superior de sua comunidade, porém faleceu onze anos depois.

Após sua morte, sua fama de santidade espalhou-se e teve testemunhos de milagres atribuídos a seu nome. No ano de 1807 foi canonizado pelo Papa Pio VII, sendo o primeiro negro a tornar-se santo no catolicismo.
A história de Benedito percorreu o mundo e ganhou seu destaque principalmente na Península Ibérica, ou seja, em países como Portugal e Espanha.
A fama de sua narrativa foi enxergada com olhos intencionais pelos países europeus: Por vontade da Ordem Franciscana, há um projeto devocional a seu favor, concebido pela necessidade de evangelização dos escravos negros na Península Ibérica e nas terras de conquista: é um santo negro e para os negros se enquadra perfeitamente”.
FIM
A ideia de ter José de Anchieta como fundandor da cidade soa mais poético.