As Ruas Demolidas do Rio de Janeiro no Século XIX

Esta é a continuação da pesquisa sobre as ruas antigas do Rio de Janeiro, se não viu a 2ª parte, veja aqui.

Nesta seção, usaremos este mapa:

A Rua do Hospício

Em 1822, a atual Rua Buenos Aires, no centro do Rio de Janeiro, era conhecida como Rua “do Hospício” ou “Rua do Alecrim”. Apesar do nome, não havia nenhum hospício na região. A fama da rua veio da antiga Igreja do Hospício, que possuía uma capela e um albergue e tinha vista para a Rua Buenos Aires.

Lembremos que, segundo os historiadores, hospício no Século XIX era o mesmo que albergue ou hospital.

Essa tal “Rua do Hospício”, não ficou famosa somente por abrigar pessoas com problemas psiquiátricos, havia lá vários estabelecimentos que vendiam produtos estranhos, ou contrabandeados, tal como uma “travessa do tranco” carioca.

Por volta de 1860, funcionou na Rua a empresa de materiais fecais de Mesquita & Moreira.

Eles limpavam as latrinas e urinóis caseiros antes da instalação do sistema de esgoto da cidade. A sujeira recolhida era jogada no mar da praia de Santa Luzia ou do Flamengo.

em 1859, foi aberta na Rua a Mútua, estabelecimento que vendia seguro de vida para escravos. Em 1880, inaugurou-se na Rua do Hospício a primeira organização de professores do Brasil: o Grêmio dos Professores; o que faz todo sentido surgir em uma rua com esse nome.

No ano de 1905, foi estabelecida na Rua a Liga Metropolitana de Futebol, que continuou a operar no local. Esta organização assemelhava-se à Ferj da época e contava com clubes de renome, como America, Bangu, Botafogo e Fluminense, entre outros. Os regulamentos dessa entidade pareciam ser mais simples e compreensíveis.

Em 1915, a Rua passou a ser denominada Buenos Aires, em uma homenagem à capital da Argentina.

No entanto, em 1935, a via recebeu um significativo epíteto: Rua Jornalística. Nesse local, estavam situados importantes jornais da época, como A Manhã, O Popular e A Tarde.

Para fechar com chave de ouro, teve uma associação de padeiros anarquistas na Rua do Hospício! Imagina só: os trabalhadores protestando com “baguetes na mão?

A Rua Senhor dos Passos (SAARA)

A rua recebeu esse nome devido à Igreja Nossa Senhora do Terço e Senhor dos Passos.

Essa pequena igreja foi concebida como uma ermida dedicada ao Senhor dos Passos, erguida no Rio de Janeiro em 1737.

A devoção ao ‘Senhor dos Passos’ teve sua origem em Jerusalém durante o período das Cruzadas, quando peregrinos e cavaleiros realizavam um percurso em oração, relembrando o caminho que Jesus Cristo percorreu em sua Paixão.

Esse trajeto começava no local de sua condenação, no pretório de Pilatos, e, com diversos pontos de parada, estendia-se até o Calvário e o Santo Sepulcro – assim surgiu a Via Sacra, delineada pelos ‘Passos da Paixão’.

Em Portugal e no Brasil, as imagens do Senhor dos Passos representam Jesus carregando sua cruz, e normalmente são levadas em procissão nas cerimônias da Semana Santa.

A partir do final do século XVIII, a pequena ermida carioca passou por uma reforma, ocasião em que foi aumentada e embelezada, já de acordo com a variação estilística tendente ao neoclássico, em vigor na época.

No ano de 1842, foi fundada no local uma ordem terceira, dedicada a Nossa Senhora do Terço, e desde então a igreja passou também a ser conhecida por esse nome.

Atualmente, o pequeno templo é um oásis na região conhecida como ‘Saara’, um dos mais movimentados redutos de comércio popular da cidade.

Em 1962, foi estabelecida no Rio de Janeiro a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega (SAARA).

A SAARA é reconhecida por sua diversidade étnica, composta por comerciantes portugueses, imigrantes provenientes do Oriente Médio e da Europa Central, além de comunidades chinesas e coreanas.

Este local é emblemático na cidade, evidenciando sua relevância cultural e econômica. A área é delimitada pela Avenida Presidente Vargas, Praça Tiradentes, Campo de Santana e Rua dos Andradas.

Rua da Alfândega

Existia no século XVII uma rua com o nome de Caminho do Capueruçu, que se originou de um caminho que ia da orla marítima até a Lagoa da Sentinela, que era um posto de guarda e vigilância contra ataques de indígenas que existiam nas proximidades da atual Praça da República.

A Alfândega foi conhecida por outros nomes ao longo de sua história. Adotou a nomenclatura atual em 1716, ano em que se deu a instalação da Repartição da Alfândega, situada nas proximidades da orla, que configurava um dos extremos da Rua, conforme relata o historiador Maurício Santos.

A Repartição da Alfândega transformou-se na principal porta de entrada para muitos estrangeiros que chegavam ao Rio de Janeiro.

O fluxo de indivíduos oriundos de outros países aumentou consideravelmente a partir de 1808, em decorrência do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas.

Nessa época, muitos ingleses chegaram ao Rio de Janeiro e se instalaram na Rua da Alfândega.

Posteriormente, instalaram-se os sírios e os libaneses. O povo os chamava de “turcos”, pois tanto a Síria quanto o Líbano estavam sob domínio da Turquia.

A maioria das pessoas que chegavam à Rua da Alfândega era comerciante. Por isso, a região foi tomando a forma que tem atualmente. Além de ingleses e “turcos”, um crescente número de coreanos e chineses vem se instalando na área que hoje em dia é conhecida como Saara.

Antes de ser uma via praticamente comercial, a Rua da Alfândega era habitada por nobres. Salvador Correia de Sá e Benevides, governador do Rio de Janeiro, e Dom José de Barros Alarcão, primeiro bispo a tomar posse na cidade, moravam lá.

A presença de comerciantes pobres, de negros livres, mestiços, caboclos e ciganos incomodava a elite, que passou, aos poucos, a se mudar da Rua da Alfândega.

Tiradentes e a Rua da Alfândega

Segundo Maurício Santos, a igreja dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens, que fica na Rua Alfândega, tem uma ligação forte com Tiradentes e a Inconfidência Mineira. Inácia Gertrudes de Almeida era uma das fieis da igreja e tinha uma filha que estava com uma ferida na perna que não melhorava nunca.

Vários tratamentos foram feitos e o problema não acabava. Tiradentes, que estava no Rio e tinha muitos conhecimentos de medicina, ajudou a curar a menina.

O inconfidente ficou amigo de Inácia e quando precisou fugir da caça que a Coroa fez contra ele e seus companheiros, pediu para que a amiga lhe desse abrigo.

Ela falou com seu compadre, Domingos Fernandes da Cruz, que morava na Rua dos Latoeiros (atual Gonçalves Dias), para esconder Tiradentes.

E foi justo na casa de Domingos que Tiradentes foi preso. Inácia, sua filha, Domingos e o padre Inácio Nogueira (da Igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens), foram presos como cúmplices, mas soltos alguns meses depois, por falta de provas.

Além disso, a primeira companhia de seguro e a primeira de comercialização de gás nasceram na Rua. Isso sem contar que Francisco Manoel da Silva, que era músico e caixeiro em uma das lojas da Rua da Alfândega, compôs, em 1831, a música que originou o hino nacional brasileiro.

A Rua do Sabão

A Rua do Sabão não existe mais. Ela foi destruída no começo da década de 40 para dar lugar à Avenida Presidente Vargas, via importante que liga o Centro à Zona Norte do Rio de Janeiro.

Antes disso, ela era o ponto de encontro da literatura brasileira. Lá, românticos e realistas, parnasianos e simbolistas, frequentavam a Livraria do Martins, e de lá iam se acotovelar para comer a feijoada bem servida e barata do restaurante G. Lobo.

Em 1924, Manuel Bandeira eternizou a ruinha dos escritores e boêmios em um poema. Sua origem remonta ao séc XVII, um caminho que se estendia da praia aos campos da cidade, atravessando alagados. Antes de ser Rua do Sabão, devido ao armazém de sabão alí instalado ainda nos tempos coloniais, foi Caminho para a Candelária

A Rua São Joaquim

Foi uma das ruas do Rio de Janeiro que desapareceu em 1944, durante o período do Estado Novo, em decorrência da construção da avenida Presidente Vargas, um projeto de modernização promovido pelo governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954). Naquela época, havia uma concepção segundo a qual solucionar os problemas da cidade implicava resolver suas questões de tráfego.

Havia nessa rua uma igreja barroca, já tombada na época, que foi demolida, a Igreja de São Pedro dos Clérigos.

Rua Frei Caneca/Rua do Conde

A antiga Rua Mata-Porcos, atualmente denominada Estácio de Sá, tinha seu início na então conhecida Rua do Conde d’Eu, que depois foi renomeada para Frei Caneca, logo após a proclamação da República.

Esse logradouro histórico se estende até o Largo do Estácio, cuja denominação também homenageia o fundador da cidade.

Este largo teve grande relevância no passado, especialmente quando abrigava a Pasmaceira, um local que reunia e atraiu entusiastas de lutas de galo de diversas partes da cidade.

A partir do início do século XVIII, o percurso do centro da cidade até São Cristóvão, Tijuca (antigo Engenho Velho) e Andaraí Pequeno incluía a Rua Riachuelo, que era referida como Mata-Cavalos.

O trajeto continuava pela Estrada Mata-Porcos e chegava ao espaço conhecido como Mata-Porcos, hoje identificado como Largo do Estácio, ou o antigo Largo de Mata-Porcos.

Até a primeira metade do século XX, o Largo do Estácio era o ponto de entroncamento mais frequentemente utilizado para a ligação entre o Centro e a Zona Norte. Com a construção de amplas vias que passaram pela Praça da Bandeira (Avenida Radial Oeste), essa área tornou-se a principal via conectiva.

Quem Foi Frei Caneca?

Nome completoJoaquim da Silva Rabelo
Conhecido comoFrei Caneca
Data de nascimento1779
Local de nascimentoRecife, Pernambuco
ProfissãoReligioso, político, jornalista
Movimentos envolvidosRevolução Pernambucana (1817), Confederação do Equador (1824)
Objetivos dos movimentosIndependência do Brasil e formação de uma república
Ideias defendidasLiberais e republicanas
Atuação como jornalistaPeriódico “Typhis Pernambucano”
Data de execução1825
Motivo da execuçãoParticipação em movimentos revolucionários

Rua Visconde do Rio Branco

Em tempos remotos, a via conhecida como Caminho Novo foi posteriormente batizada de Rua Nova do Conde, em homenagem ao Conde da Cunha, primeiro vice-rei do Brasil.

Mais tarde, recebeu o nome de rua do Conde d’Eu, em homenagem ao marido da princesa Isabel.

Atualmente, essa via compreende as atuais ruas Frei Caneca, desde a rua Estácio de Sá até a praça da República, que era o antigo campo da Aclamação, e Visconde do Rio Branco, que se estende até a praça Tiradentes, anteriormente conhecida como praça da Constituição, localizadas no Centro da cidade do Rio de Janeiro.

Nota: Como o conteúdo ficou bastante extenso, continuaremos em uma próxima publicação…

FIM

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