O Rio Janeiro em 1822: R. Direita, R. dos Ciganos

Esta é a continuação do estudo sobre a evolução do tecido urbano da cidade do Rio de Janeiro no século XIX, caso não tenha visto a primeira parte, veja aqui.

O Campo de Santana

O fundamento da existência do Campo de Santana, vasto espaço situado no coração do Rio de Janeiro, decorre da tradição portuguesa de reservar grandes áreas abertas para celebrações monárquicas. Essa concepção urbanística lusitana previa a construção de estruturas temporárias destinadas a eventos, exercícios militares e festividades religiosas — no caso do espaço, à Igreja de Santana (demolida em 1855).

Parte ampliada do Campo de Santana ⬇️

Uma outra pintura da mesma época, desta vez da perspectiva do Morro do Livramento:

O Desaparecimento de três Vias: Rua do Sabão, Rua São Pedro e Rua de São Joaquim

Rua dos Ciganos

A atual Rua da Constituição era chamada Rua dos Ciganos.

A Rua, muito movimentada na época, foi citada em obras literárias. Machado de Assis usou a via como cenário em trechos de dois contos (Confissões de uma Viúva Moça, de 1869, e A Mulher de Preto, lançado em 1869), além de um romance: A Mão e a Luva, publicado no ano de 1874.

No ano de 1760, o rei Dom José I de Portugal decretou que os ciganos residentes no Rio de Janeiro deveriam ser restritos a habitar uma única rua. Esta determinação evidenciou um profundo caráter excludente, refletindo os preconceitos da época, dado que a população cigana se encontrava dispersa por várias regiões, não apenas no Rio, mas em quase todo o território nacional.

No Rio de Janeiro, os ciganos estabeleceram-se entre o Campo de Santana, o Valongo e o Campo dos Ciganos, hoje conhecido como Praça Tiradentes. Eles desempenhavam um papel no mercado de escravos, ofereciam leituras de sorte através das linhas das mãos, e exerciam ofícios como ferreiros, latoeiros e ourives, além de se envolverem no comércio de cavalos.

Rua Direita

A história da Rua Direita começa com uma capela erguida em homenagem à Nossa Senhora do Ó, localizada às margens do mar, no trajeto que liga o Morro do Castelo ao Morro de São Bento. A identidade do autor responsável por sua construção permanece envolta em mistério, sendo que a presença dos frades carmelitas na região é reconhecida a partir de aproximadamente 1590.

Esta capela constituiu um significativo marco na evolução da principal via do Rio de Janeiro até o século XIX — a antiga Rua Direita. Segundo o historiador Brasil Gerson, a denominação da rua não reflete apenas sua configuração linear, mas sim a facilidade de deslocamento dos colonizadores entre os morros.

Posteriormente, foi construído o Convento do Carmo, adjacente à capela, que, ao deteriorar-se com o tempo, deu origem à igreja de Nossa Senhora do Carmo.

A igreja do Carmo, conforme ilustrado na imagem a seguir, é apresentada sob uma perspectiva lateral esquerda.

Transição da Rua Direita

Com relação à figura antiga, não existe mais o passadiço que ligava o Paço Real ao Convento do Carmo, muito menos o Morro do Castelo, que foi demolido em 1921 como parte de um projeto de modernização urbana em 1922.

Os Passadiços do Rio Antigo

Os passadiços foram concebidos para interligar o Paço Imperial ao Convento do Carmo, o Paço ao edifício da Cadeia Velha e o Convento do Carmo à Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Durante sua estada no convento dos carmelitas, a Rainha Maria I utilizou um passadiço improvisado que atravessava a Rua Direita, hoje conhecida como Primeiro de Março. Os religiosos que previamente habitavam este convento foram transferidos urgentemente para o seminário da Lapa.

No interior do convento, foram estabelecidas a cozinha, as oficinas e a chamada Real Ucharia, que servia como despensa para os suprimentos da corte.

A igreja adjacente, a Igreja do Carmo, foi convertida em Capela Real. As edificações próximas, como a Casa da Câmara e a cadeia pública, também foram ligadas ao Paço por meio de um passadiço, destinado a acomodar as criadas reais.

Morros Demolidos

No centro do Rio de Janeiro, alguns morros históricos foram demolidos ao longo dos anos. Os mais notáveis são:

  1. Morro do Castelo: Demolido em 1921 para abrir espaço para a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil.
  2. Morro de Santo Antônio: Parcialmente demolido na década de 1950 para a construção de novas vias e edifícios.

Paço Imperial

A Rua Direita estabeleceu-se, desde o início da colonização do Rio de Janeiro, como a via primária da cidade. O primeiro comerciante a se fixar nessa rua implementou um açougue e um trapiche, cuja função era a pesagem do açúcar, um dos produtos mais relevantes da colônia.

Com o passar do tempo, a localidade foi agraciada com a edificação da Casa dos Governadores – atualmente conhecida como Paço Imperial – construída pelo Conde de Bobadela, além da construção de duas igrejas: a de Santa Cruz dos Militares e a da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmo.

Conde de Bobadela

Gomes Freire de Andrade, o 1º Conde de Bobadela, foi um nobre, militar e administrador colonial português. Nascido em 1685, ele serviu como governador e capitão-general do Rio de Janeiro de 1733 a 1763.

Durante seu governo, ele realizou várias obras importantes, como a construção do Aqueduto da Carioca e do Paço dos Governadores, além de promover a construção de conventos e fortificações.

Ele também teve um papel significativo na administração das Minas Gerais e na defesa do território brasileiro contra invasões

A Construção do Paço

O Paço Imperial é uma edificação que remonta ao período do Brasil Colônia, servindo como residência dos vice-reis do Brasil. Além disso, abrigava a Casa da Moeda, onde o ouro extraído de Minas Gerais era fundido antes de ser enviado para Portugal.

Este local foi o primeiro ponto de assentamento de Dom João VI e da família real portuguesa no Brasil, antes de se transferirem para a Quinta da Boa Vista e, posteriormente, para Botafogo.

Foi no Paço Imperial que Dom Pedro I declarou sua decisão de permanecer no Brasil, além de ser o local em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea.

Na praça em frente ao Paço Imperial, foi erguido o Balcão da Aclamação, onde Dom João VI foi aclamado rei de Portugal, Brasil e Algarves.

Ademais, foi nesse mesmo espaço que Dom Pedro II foi proclamado imperador do Brasil em 1831, após a abdicação de seu pai, Dom Pedro I.

Atualmente, o Paço Imperial é um importante centro cultural.

1733Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, solicita ao rei D. João V permissão para construir a Casa de Governo.
1738-1743Início da construção do edifício, projetado por José Fernandes Pinto Alpoim. Casa dos Governadores inaugurada em 1743.
1763Transferência da sede do Vice-Reino do Brasil de Salvador para o Rio de Janeiro. O prédio passa a ser o Paço dos Vice-Reis.
1808Com a chegada da família real portuguesa, o edifício torna-se o Paço Real. Adaptações incluem um novo andar e a Sala do Trono.
1818Aclamação de D. João VI como rei de Portugal, Brasil e Algarves. Construção da Varanda para a cerimônia.
1822D. Pedro I decide permanecer no Brasil (“Dia do Fico”) no Paço Imperial.
1822-1831Coroação de D. Pedro I como Imperador do Brasil ocorre na Varanda.
1840Coroação de D. Pedro II como Imperador do Brasil.
1840sDecoração em estuque no Pátio dos Arqueiros e adição de uma platibanda na fachada.
1888Princesa Isabel assina a Lei Áurea no Paço Imperial, abolindo a escravidão no Brasil.
1889Proclamação da República. Família imperial deixa o Paço Imperial e o Brasil.

Convento e Igreja do Carmo

A origem da igreja remonta à Ermida de Nossa Senhora do Ó, erigida pelos beneditinos nas margens da praia nas proximidades do Morro do Castelo, que constitui o núcleo original da cidade. Com a chegada dos carmelitas em 1590, a capela foi ocupada por eles, e alguns anos depois, em 1619, foi iniciada a construção do convento.

O edifício retangular ainda preservado é somente uma fração do complexo original. No que se refere à arquitetura, o rés-do-chão e o primeiro sobrado pertencem ao estilo seiscentista, caracterizados por vãos em verga reta.

O segundo sobrado, de um período posterior ao século XVIII, é anterior a 1760 e possivelmente contemporâneo ao sobrado dos Teles de Meneses, ambos apresentando janelas rasgadas, com balcão e arco abatido, adornados com sobreverga. O acesso ao pátio do convento era feito através de um amplo vão em arco pleno.

Este Convento do Carmo também serviu como residência da Dona Maria I de Portugal.

Localizado em frente ao Paço Imperial, o convento é uma das construções mais antigas do Rio de Janeiro, representando um marco significativo do período colonial.

A fundação do Convento do Carmo se iniciou com o Frei Pedro Vianna, que, após estabelecer o convento na cidade de Santos em 1589, deslocou-se com outros carmelitas ao Rio de Janeiro.

Os frades receberam, como doação, a Capela de Nossa Senhora do Ó, além de algumas braças de terra nas imediações da Praia de Nossa Senhora do Ó, atualmente conhecida como Praça XV.

Durante as primeiras décadas do século XVII, os carmelitas deram início à construção do seu convento no terreno adjacente à capela, que ao longo do tempo passou por diversas intervenções e reformas. A pequena capela foi substituída pela igreja conventual, cuja construção começou em 1761.

Com a chegada da corte portuguesa em 1808, o convento foi requisitado para abrigar a rainha D. Maria I e seu cortejo. Neste contexto, os carmelitas perderam a sua igreja, a qual foi convertida em Capela Real e Sé do Reino, devido à sua proximidade com o Paço Real, antigo palácio dos vice-reis e breve residência de D. João VI.

Parte 3 aqui

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