O Rio de Janeiro em 1822: Batalhão de Infantaria e Igreja de Santana

O conteúdo a seguir traz uma pesquisa historiográfica sobre a paisagem do Rio de Janeiro em 1822. Vamos explorar como o tecido urbano da cidade evoluiu, conhecer a origem dos nomes de ruas e as figuras que os inspiraram, além das funções e localizações de ruas, praças, igrejas e prédios que existiam ou ainda permanecem.

Também vamos analisar documentos históricos, mapas antigos, registros da época, aquarelas, relatos de viajantes e obras literárias para recriar o cenário urbano daquele tempo.

Introdução

Em 1822, o Brasil declarou sua independência de Portugal, marcando o fim de mais de três séculos de domínio colonial.

O evento mais significativo desse período foi o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro, quando Dom Pedro I Proclamou a Independência às margens do riacho Ipiranga.

1822 também viu a formação do Império do Brasil, com Dom Pedro I como seu primeiro imperador.

Segundo Laurentino Gomes, em seu livro “1822”, no ano de sua independência, o Brasil tinha, de fato, tudo para dar errado. De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços.

Era uma população pobre e carente de tudo, que vivia à margem de qualquer oportunidade em uma economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro. O medo de uma rebelião dos cativos assombrava a minoria branca.

O Rio de Janeiro, em 1822, era a capital do Brasil e desempenhou um papel crucial na independência do país.

A cidade foi o cenário de importantes eventos políticos e sociais, incluindo a aclamação de Dom Pedro I como imperador.

O Rio de Janeiro era um centro de poder e influência, com uma sociedade marcada por contrastes entre a opulência da elite e as dificuldades enfrentadas pela população escravizada.

A cidade também era um ponto estratégico para o comércio e a navegação, contribuindo para o desenvolvimento econômico da região.

O Rio de Janeiro Antigo

Nesta pesquisa, analisaremos esse mapa do Século XIX:

Campo de Santana, Atual Praça da República

Comecemos pela parte central deste mapa, que é o Campo de Santana. Conforme mencionado por Maria Fernanda Bicalho em sua obra “A Cidade e o Império”, a área que abrange o Campo de Santana servia como um importante ponto de refúgio para negros fugitivos e desertores.

Na imagem do capítulo, uma montagem mostra o Campo de Santana no mapa, uma pintura da época e uma foto atual do Google Earth.

Não é à toa que, nesse espaço, diversas irmandades católicas compostas por pardos, negros livres e escravizados escolheram construir suas capelas e igrejas.

Nota: Em frente à praça: Batalhão do Exército, antiga caserna de infantaria

Em 1821, Dom João VI criou (Decreto sem número) o Comando das Armas da Corte e da Província do Rio de Janeiro.

Estabelecido no Campo de Santana, no período inicial do século XIX, o aquartelamento do Comando de Armas da Corte presenciou importantes passagens da História do Brasil, onde participaram suas tropas subordinadas.

Destacam-se: A Aclamação de Dom João VI como Rei de Portugal; a Aclamação de Dom Pedro I, como Imperador do Brasil, já no Brasil independente, o que levou à mudança do nome daquela região de Campo de Santana para o de Campo da Aclamação; e a revolta das tropas que se reuniram no Campo de Santana, ocasionando a abdicação de Dom Pedro I, no dia 7 de abril de 1831.

Leia também: A Revolta das Tropas aqui

Na avenida em frente à praça, entre as duas ruas, existe hoje um panteão com os restos mortais de Duque de Caxias:

Duque de Caxias, nascido Luís Alves de Lima e Silva, foi um destacado militar e político brasileiro, conhecido por pacificar revoltas internas e liderar as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai. Ele é o Patrono do Exército Brasileiro. No entanto, suas ações também foram marcadas por repressão violenta e apoio ao regime monárquico, o que gerou críticas.

A Demolição da Igreja de Santana

A igreja de Santana foi construída em 1735 no antigo Campo de Santana, por decreto de Dom João VI. Essa área era anteriormente chamada de “Campo da Cidade” e, depois, “Campo de São Domingos”. Foi provavelmente essa igreja que fez o local ser rebatizado como Campo de Santana, atual Praça da República.

Atualmente, a Praça da República está bastante modificada. O local onde ficava a igreja, hoje, está o prédio da Estação Central do Brasil. Em 1855, após a demolição da Igreja de Santana, construiu-se uma estação de trem denominada Estação Dom Pedro II.

Essa linha férrea uniu as províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, facilitando o comércio de café e leite.

A estação originalmente conhecida como Estação Dom Pedro II teve seu nome alterado para Central do Brasil em 1975, após a extinção da antiga companhia ferroviária Estrada de Ferro Central do Brasil.

No começo do século XIX, o amplo terreno ao redor da igreja era palco de festividades como a Folia do Divino Espírito Santo, com danças, fogos de artifício, leilões de prendas e as famosas “cavalhadas”.

Também havia quermesses e festas religiosas que começavam no Sábado de Aleluia e se prolongavam por vários dias.

Na imagem referente, uma pintura da estação já construída.

O “Detran” de Carroças

Nas proximidades da igreja, existia uma espécie de “Detran” para cocheiros e condutores de tílburis, que realizavam exames de habilitação.

Pode parecer estranho, mas acidentes fatais envolvendo carroças e cavalos eram comuns. Dom Pedro I chegou a cair 36 vezes do cavalo e virou uma carroça com a Imperatriz Consorte, Dona Amélia. Na ocasião, a Imperatriz saiu com pequenas escoriações, enquanto Dom Pedro quebrou algumas costelas.

É interessante notar que, mesmo na época de Dom João VI e D. Pedro I, era necessário habilitação para conduzir veículos de transporte puxados por cavalos. O condutor precisava saber atrelar o animal, garantir a segurança do veículo e estar preparado para emergências, como caso os cavalos se assustassem.

Carroças Populares da Época

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VeículoDescriçãoPeríodo de UsoDetalhes Específicos
ChaiseUm veículo comum no tempo de D. João VI.Início do século XIXUtilizado principalmente pela nobreza e elite.
TílburiVeículo com duas rodas, puxado por um cavalo, rápido e prático.Surgiu em 1818 e chegou ao Rio por volta de 1830.Levava até dois passageiros e era muito utilizado por profissionais como médicos e advogados.

A Reconstrução

A antiga Igreja de Santana, localizada no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, foi demolida em 1855 para dar lugar à construção da estação de trem Dom Pedro II. A igreja foi reconstruída em outro local em 1939, em um projeto de reconstrução realizado por Ângelo Alberto Murgel.

Quermesses Organizadas Pela Igreja de Santana no Século XIX

Debret descreveu uma festa de Folia do Divino em 1820. Em sua pintura, podemos ver um grupo de jovens brincalhões, bem-humorados, tocando violão, pandeiro, triângulo metálico e também um tambor.

Na cena retratada, o grupo alegre escolta um porta-bandeira, cujo chapéu, é ricamente enfeitado de flores e fitas. Esse chapéu se assemelha ao dos demais membros, mas de forma mais modesta.

Esses rapazes percorrem as ruas da cidade cantando quadrinhas e versos ajustados ao motivo religioso.

Eles passam pelos fiéis, que sustentam o trono do Imperador do Espírito Santo, representado por um menino de 8 a 12 anos. Vários irmãos pedintes antecedem e seguem o menino, arrecadando doações para a irmandade.

Descrição do Menino (Imperador do Espírito Santo): Este menino segue o grupo comedidamente, a alguns passos de distância. Ele dá a mão a um dos irmãos da confraria que o acompanha.

Durante a semana anterior à festa de Pentecostes, realiza-se essa coleta festiva e chamativa, destinada a estimular a generosidade dos fiéis e caridosos.

Principal destaque da festaO menino
Trajes principaisCasaca vermelha e calça da mesma cor
Acessórios do trajeColete branco bordado a cores
ArmaEspada presa ao cinto
Calçados e meiasMeias de seda branca e sapatos com fivela de ouro
CabeloBem arrumado
Outros itensSacola
IdentificaçãoCrachá pendente do pescoço
Detalhes do cracháCustódia dourada com uma pomba prateada no centro

O Episódio do Macaco e do Porta-Bandeira
Um episódio curioso e cômico foi registrado por Debret durante a festa: a luta do porta-bandeira contra um macaco, que tentava arrancar a bandeira do mastro.

Na cena retratada, Debret capturou apenas os momentos iniciais do confronto. Segundo ele, momentos depois, o macaco começou a puxar com força o pano do estandarte, enquanto o porta-bandeira resistia ferozmente.

O combate burlesco acabou trazendo momentos cômicos para quem presenciava a cena. Embora deslocada do foco religioso, essa situação não atrapalhou o êxito da coleta de donativos.

Debret

Jean-Baptiste Debret foi um pintor, desenhista e professor francês, nascido em 1768 e falecido em 1848.

Ele integrou a Missão Artística Francesa que veio ao Brasil em 1816, a convite da Coroa Portuguesa. Debret é conhecido por suas obras que documentam a vida cotidiana, a natureza e a sociedade brasileira do início do século XIX.

As Imagens da Época

Imagem de 1817

A primeira imagem é uma aquarela do pintor austríaco Thomas Ender, feita durante sua passagem pelo Brasil em 1817-1818.

  • No primeiro plano, vemos mulheres carregando mercadorias na cabeça, provavelmente para venda.
  • Alguns homens, aparentemente tropeiros, caminham pela área.
  • Ao fundo, animais pastam livres, e vemos o chafariz do Campo de Santana.

A igreja, demolida posteriormente, foi substituída pela Estação Pedro II, cuja construção passou por modificações ao longo do tempo.

Imagem de 1851

A segunda imagem é uma pintura de José dos Reis Carvalho, representando a igreja durante a Festa do Divino em 1851.

  • A igreja aparece com melhorias na estrutura, em seu auge antes da demolição.
  • Há barracas de quermesses ao redor, vendendo doces, salgados e bebidas, com o intuito de arrecadar fundos para a paróquia.
  • A bandeira da Festa do Divino é visível em um dos mastros.

Ficha Técnica

Século XVIIConstrução de uma igreja em homenagem a Santa Ana no local, dando origem ao nome “Campo de Santana”.
1818Inauguração de um chafariz com 22 bicas, abastecido pelas águas do rio Andaraí. O campo começou a ser chamado de “Campo das Lavadeiras” devido ao uso do espaço pelas lavadeiras.
1822Passou a se chamar “Campo da Aclamação” após a aclamação de Dom Pedro I como Imperador.
1854A igreja original foi demolida para a construção da estrada de ferro Dom Pedro I.
1871Aprovação de um projeto de embelezamento do campo pela Câmara Municipal, elaborado por um naturalista.
1889Após a Proclamação da República, o local passou a ser chamado “Praça da República”.
Século XVIIIÁrea utilizada como depósito de dejetos urbanos e chamada de “Rosso”.
Século XIXTransformação em área habitável: surgimento de chácaras, instalação de quartel militar por Dom João VI e construção de edificações ao redor.
Até século XXO campo permaneceu descampado, com vegetação rasteira e sem arborização significativa.

PARTE 2 AQUI

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