Histórias de Terror do Primeiro Reinado do Brasil

As três narrativas perturbadoras que se encontram a seguir não são meras lendas, pelo contrário, são relatos verídicos extraídos da obra Dez Anos no Brasil, redigida por Carl Seidler em 1835.

Seidler foi recrutado como mercenário para servir no exército imperial brasileiro, com a incumbência de participar da campanha cisplatina.

Ele chegou ao Rio de Janeiro em 1826 e permaneceu em solo brasileiro até 1835.

Os excertos a seguir descrevem a intensa perseguição enfrentada pelos portugueses após a Declaração de Independência.

Os nativos, como eram chamados os brasileiros, abordavam os portugueses nas ruas e questionavam: “Quem viva?” Caso a resposta não fosse “Dom Pedro”, a pessoa frequentemente era submetida a linchamento.

A Tragédia da Rua de São José

Relato de Carl Seidler sobre um suposto assassinato brutal de um jovem português por marginais que se diziam “pedristas”, isto é, a favor de Dom Pedro, que ilustra a violência urbana do Rio de Janeiro na década de 20 do século XIX.

“Darei um resumo de algumas das trágicas cenas que, de forma aproximada, podem ilustrar a maldade e a vilania com que esses indivíduos agiam dia e noite contra os estrangeiros que residiam no Rio.

Um jovem português, único filho de seus pais e cheio de esperança, um dia se atrasou um pouco em um divertimento e retornava para casa por volta das onze da noite.

Ao chegar à rua de São José, um tanto estreita e escura, cruza-lhe o caminho um homem corpulento, com a intimação: “Quem viva?”. O moço, um pouco esquentado e atordoado pelo vinho do Porto, que no escuro não pôde logo reconhecer o interlocutor, supôs que fosse uma patrulha e respondeu: “Amigo!”

O homem chega mais a ele, levanta o cacetete e repete a pergunta. O português reconhece seu engano e compreende o sentido da intimação.

Mas, como não se julga obrigado a manifestar sua opinião política a um vagabundo, ele também corajosamente levanta sua bengala e reclama em palavras enérgicas que lhe deixe o caminho livre.

Mas o brasileiro sans-culotte desanca o pau e, num momento, os dois se engalfinham. A destreza do moço contrabalança a força do marginal, e a luta parece indecisa; nisso, saltam dois outros da tocaia e, atravessado de cinco facadas traiçoeiras, o moço infeliz tomba sem vida, banhado em sangue.

Em seguida, os patrióticos assassinos ainda tomam o dinheiro, o chapéu e o relógio ao morto e muito calmamente se vão, dizendo: “Um filho do reino de menos!”.”

Nota: Os sans-culottes constituíram uma facção política de destaque durante a Revolução Francesa, representando as classes populares urbanas que rejeitavam as convenções aristocráticas e demandavam transformações sociais e políticas. O termo “sans-culottes” traduz-se literalmente como “sem calças” em francês, simbolizando uma oposição à adoção das vestimentas associadas à elite.

Toda essa cena angustiante ocorreu sob as janelas de um cidadão respeitável, que, no dia seguinte, ainda em estado de horror, relatava o incidente.

Era um brasileiro, mas desviava a culpa para os assassinos; contudo, não teve coragem de ajudar o infeliz, especialmente porque é comum no Rio de Janeiro fechar portas e janelas ao ouvir o grito “assassino!”, de modo que as trevas mais profundas envolvem os crimes perpetrados pelos predadores noturnos.

Além disso, não se tratava apenas de assassinatos de portugueses motivados por roubo ou ódio: com frequência, a expressão “Este é pedrista” funcionava como uma desculpa para vingar ofensas passadas ou para ignorar o rival de forma intencional.

A Vingança de Leucádia

Intriga amorosa que termina em assassinato, expondo traições e vingança em uma relação conflituosa.

Uma mulher de origem nobre do Rio, cuja formação na arte de conquistar os corações dos homens é um mistério, destacava entre seus diversos admiradores um português, que parecia receber dela uma atenção especial.

Um grupo de jovens brasileiros, quase todos abastados em antecedentes, mas carentes em bens materiais, havia há muito submetido-se ao desprezo da altiva Leucádia.

No entanto, o nosso lusitano, não sendo nem jovem nem atraente, mas indiscutivelmente mais rico que todos os seus concorrentes, superou-os através da oferta de presentes abundantes e esplendorosos.

De bom grado ter-lhe-iam deixado o papel principal, de pagador, contanto que uma vez ou outra pudessem representar papel acessório; mas, para isso, o português era demasiado teimoso e ciumento, e impôs à sua leviana Dulcinéia que de futuro afastasse o mais possível da sua casa as assíduas e dispendiosas visitas.

A senhora se opôs energicamente a essa ordem cruel, mas o amado persistiu em sua vontade; nem as lágrimas da bela nem o chilique que ela simulou moveram da teimosia o tirano doméstico nada galante.

Que fazer? Despedir o indelicado e atirar-se aos braços de qualquer dos doces trovadores que lhe assediavam a casa, como se a conquista do castelo tivesse tanta importância como outrora a do Capitólio de Roma ou da fortaleza de Tróia?

Sim, ela o faria; entre os numerosos adoradores, haveria um que merecesse possuir o seu coração sensível.

Num momento, ela passou em revista o seu exército de pretendentes e deveras haviam mais de vinte que, quanto aos atributos exteriores, mereceriam ter feito conquista muito mais importante que a dela.

Mas agora lhe lembrou que, para sustentar o seu luxo e uma vida doméstica desordenada, era necessário dinheiro, e esse dinheiro, de onde tirá-lo?

Foi preciso passar uma nova revista entre os vinte eleitos e—que horror—não havia um único que possuísse mais que dívidas! Que poderia ela, pois, fazer, senão ficar com o lusitano?

E este, com as suas exigências, agora não lhe parecia mais um amado, mas um bárbaro, que queria ser obedecido, sob pena, talvez, de ter que sentir o seu rebenque, ou ter que morrer de fome.

Em tais circunstâncias, a gente obedece à férrea necessidade, embora com íntima revolta, e mormente num meridional o sangue em ebulição sobe ao coração cheio de desejo de vingança e de tormento. Assim sucedeu com a nossa Leucádia: ela jurou entre mil lágrimas que se vingaria de seu amante, fosse como fosse.

Continuando a simular o mesmo amor e dedicação pelo português preferido, ela denunciou aos outros adoradores que ele lhe ordenara de não mais admiti-los em casa.

Não falhou o desejado efeito: os brasileiros investiram contra o português, o amaldiçoaram e juraram que na primeira ocasião lhe dariam uma lição, da qual eternamente se recordaria o estrangeiro incivilizado.

Talvez Leucádia então não suspeitasse que funestas consequências havia de ter a sua maldosa intriga; provavelmente imaginou que se limitariam a escovar devidamente o fato no corpo ao português apaixonado e era isso o que ela desejava; mas com certeza não pensou que lhe tirariam a vida.

O homem pensa. Deus conduz: os brasileiros logo combinaram de escorar o rival numa das suas visitas noturnas à amada e com algumas facadas extinguir-lhe a chama da vida. Assim, sem desconfiar de nada, uma noite o amante preferido se encaminha para a casa de sua querida, descuidado da sorte que o alcançaria nesses passos.

O luar claro, o inimigo de todos os atos obscuros noturnos, ilumina as ruas da capital e ainda mais tranquiliza o homem, tanto que nem percebe os passos rápidos que o seguem e cada vez mais se aproximam.

Nisso, ouve-se de repente o traiçoeiro “quem viva?” e ao mesmo tempo o trespassa violenta dor: uma facada o fere no ombro esquerdo.

Rápido e destro, volta-se o lusitano, erguida a nódosa bengala, e com uma única pancada forte abate o traiçoeiro bandido, mas no mesmo momento cai sobre ele um bando de mascarados.

Em vão ele ainda procura algum tempo para defender-se, já o sangue lhe escorre de três profundos ferimentos: põe-se em fuga e consegue alcançar a casa de sua amada.

Horrorizada, esta grita ante a vista do homem ensanguentado; não lhe ocorre fechar depressa a porta e, quando reconhece a vítima da sua intriga, é tarde: os assassinos entraram e a facadas dão cabo do infeliz.

Soluçando alto, ela se atira sobre o moribundo e em beijos ardentes lhe sorve avidamente o sangue do coração, qual vampiro do ódio, do amor-próprio ofendido, do amor ressuscitado.

Ele a repele convulsivamente, pois reconhece a voz de um dos matadores, ainda tendo o senso suficiente para decifrar todo o enredo da escandalosa cabala; formidável maldição sobre a amante infiel é a última coisa que lhe sai pelos lábios ao expirar.

À família do morto não teriam faltado energia e recursos para aplicar o jus taglionis, não temeria despesas para dar na pista dos autores do crime, mas todos os esforços foram baldados; a arrependida Lais, que temia pela própria vida, nada confessou-se como, naquele tempo, semelhantes assassinatos eram quase diários, e depressa o caso caiu em esquecimento.

A polícia também não podia atrever-se a empreender séria investigação, nem inquirir a sanguissedenta Dulcinéia, pois os seus próprios servidores e agentes costumavam andar envolvidos em casos análogos, mormente quando podiam dar algum proveito.”

A Herança Roubada

A história de uma senhora idosa enganada e roubada por criminosos, com a cumplicidade de autoridades corruptas.

Um outro caso foi o de uma senhora adoentada, idosa, que tivera considerável herança em dinheiro, a qual guardava em sua casa sem dizer nada a ninguém.

Apesar de sua cautela, uns vagabundos farejaram o precioso assado e logo planejaram de subjugar a mulher e apossar-se do dinheiro.

Assim, morando ela no centro da cidade e julgando-se plenamente segura, fazia cálculos sobre os juros de um bom emprego de seu capital.

Certa manhã, apareceu-lhe uma mulher que lhe entrega uma carta anônima na qual a intimam a refugiar-se incontinente na polícia, pois está planejado para aquela noite um assalto em sua casa por um bando de gatunos.

Assustada, ela segue imediatamente o conselho do bem-intencionado informante e três soldados da polícia com um sargento recebem ordem de pernoitar na casa dela.

Pelas três da manhã, realmente, abrem a porta e dois mascarados penetram cautelosamente na casa; depois, abrem também a porta do dormitório da velha e, por meio de pantomimas ameaçadoras, muito compreensíveis, a obrigam a levantar-se e entregar o sabido tesouro.

Trêmula, a senhora conduz os dois gatunos ao quarto contíguo, onde devem estar os algozes, que no mesmo instante, de fato, os cercam e seguram.

Então, um dos mascarados puxa o sargento para um canto e pelas costas da senhora tira a máscara e lhe pergunta em voz cortante:

“Tu me conheces?” Espantado, o sargento recua alguns passos e faz profunda reverência ao mascarado, o qual instantaneamente repõe o disfarce: por ordem do sargento, toda a guarda se retira, deixando a senhora a sós com os dois mascarados, e ela nada mais tem a fazer senão entregar o seu dinheiro.

Não é fácil imaginar ou esperar prova mais impressionante de mais ignóbil administração policial.

Todo o Rio soube da história, que foi mesmo ao conhecimento do imperador, quando este regressou de sua viagem, mas tudo foi em vão.

Devem ter estado envolvidas pessoas importantes, razão por que se julgou melhor abafar a odiosa história: o dinheiro ficou roubado e a pobre mulher conservou apenas o sonho de uma grande herança.

O Despotismo de Dom Pedro I

Contos de abuso de poder pelo imperador, envolvendo violência contra escravizados e cidadãos comuns.

Os moradores do Rio de Janeiro contam que Dom Pedro um dia vira à janela uma bonita menina, que até então gozava de bom conceito. Sem cerimônia, ele avançou a cavalo para a porta da casa dela, apeiou e solicitou aos pais da menina que o deixem a sós com ela.

Como logo se desse a conhecer com palavras altivas, estes se retraíram intimidados e ele induziu a menina, talvez até então inocente, a ceder aos seus desejos.

A coitada não se atreveu a resistir, pois ficou demasiada surpreendida pela subitaneidade da proposta, não pôde atinar com a razão e, quem sabe, esperava além disso brilhante recompensa.

Depois que o imperador se utilizou como quis da fraqueza da desgraçada criatura, perguntou-lhe esta, na esperança de merecer depois do mal cometido pelo menos um título ou uma soma de dinheiro:

— “E agora, o que sou?”

— “Uma p…”

…….. 

O Sr. Kloss, que na verdade também não esteve muito pouco tempo no Brasil, mas é muito preferível ao mencionado Sr. v. Mansfeld, relata em seu livro, à página 50:

O Escravo

“Contaram-me até que Dom Pedro, duas semanas antes de minha chegada, matara incontinente a um negro, porque este, levando pesado fardo à cabeça, cruzando com o imperador e não o reconhecendo por estar em traje burguês, não lhe fizera a devida saudação de rasto (isto é, genuflexão).

‘Pára, demônio!’, gritou o tirano para o preto, puxou a pistola e meteu-lhe uma bala na cabeça.”

Da mesma forma conta o Sr. E. Hoss que, uma feita, num passeio a cavalo, o imperador cruzando com um velho negociante, que não o reconhecera de pronto e que, por causa do aperto, não lhe pudera momentaneamente sair do caminho, o chicoteou na cabeça e na cara até que o pobre homem caiu meio morto do cavalo.

Se bem que não possa depor como testemunha dessas crueldades praticadas por D. Pedro, contudo, comparando-as com algumas outras comprovadas, concluo que é extremamente provável que o Sr. Kloss a nada tenha exagerado.

Fora disso, porém, o seu livro deixa muito a desejar e nem sempre é fiel à verdade. Grande parte dele deve ser considerada ampliação e maior parte ainda como romance.

FIM

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