O conteúdo a seguir é um resumo expositivo do livro Dez Anos no Brasil, do mercenário alemão Carl Seidler, escrito no ano de 1835, período do Primeiro Reinado no Brasil.
Estamos no ano de 1828, e nesta parte do livro, Seidler e os soldados estrangeiros (alemães, irlandeses) foram enviados para o sul do Brasil como punição pela sua participação na Revolta das Milícias no Rio de Janeiro.

Essa foi a pena imposta aos soldados estrangeiros, suavizada pela condição racial.
Os generais, ao enviá-los, tinham como objetivo fortalecer os pelotões do exército imperial, os quais estavam mobilizados em virtude da iminente guerra contra a Argentina pela posse da Província Cisplatina.
Entretanto, ao chegarem ao sul do Brasil, descobriram que a guerra já havia terminado, após a assinatura de um tratado de paz entre o Brasil e as Províncias Unidas, resultando na formação do Uruguai.
Seidler abordará o interesse da Inglaterra em comprar a ilha de Santa Catarina, atualmente conhecida como Florianópolis, para utilizá-la como um ponto estratégico de parada entre a Índia e a África.
Relato da Chegada em Florianópolis

“É verdade que, no continente em frente à ilha, a pobreza pode, em geral, ser considerável, mas de modo algum se pode afirmar o mesmo da ilha (Florianópolis).
Ninguém entende isso melhor, e ninguém reconhece mais o verdadeiro valor da ilha do que os especuladores ingleses, que, na estatística moderna, assumem o papel de um Judas eternamente errante.
Que indescritíveis esforços tem empreendido o astuto e dissimulado governo do Brasil para ocultar a ilha de Santa Catarina no mapa mundial. O governo inglês não hesitou em oferecer por ela muitos milhões, e, com grande disposição, o principal negociador do Brasil, D. Pedro I, teria cedido a preciosa ilha, não fosse pela manifestação do povo brasileiro.

É certo que os benefícios que a Inglaterra colheria com a posse dessa ilha seriam imensos, mas igualmente grande seria o prejuízo para o Brasil.
Se já hoje o império é inundado de mercadorias inglesas a ponto de impedir o desenvolvimento de qualquer indústria nacional, o que não ocorreria se esses especuladores fincassem pé dentro do próprio território imperial?
Hoje em dia, os navios ingleses que seguem para as Índias frequentemente fazem escala no Rio de Janeiro, onde reabastecem água e víveres, pagando taxas portuárias e impostos ao Estado.
Caso possuíssem a ilha de Santa Catarina, esses navios, em vez disso, poderiam seguir diretamente para lá, onde teriam liberdade para desembarcar mercadorias e carregar novas. De fato, para os ingleses, seria inestimável possuir um território bem no centro da América do Sul, com um porto capaz de abrigar boa parte de sua frota.

No entanto, apesar de, até então, os brasileiros terem sido alvo das artimanhas inglesas, têm mostrado suficiente discernimento para compreender o enorme prejuízo que resultaria da perda de Santa Catarina.
Em especial, José Bonifácio de Andrada, tutor do jovem imperador D. Pedro II, então com nove anos de idade, escreveu uma obra esclarecedora para alertar seus compatriotas sobre essa questão crucial.
Por convenções ou recursos financeiros, por astúcia ou malícia, essa ilha, tão privilegiada em localização e riqueza natural, jamais será incorporada à Inglaterra.
O uso de armas, em qualquer circunstância, prejudicaria consideravelmente os interesses comerciais desse país, uma vez que os milhões em prata e ouro que, anualmente, deixam o Rio de Janeiro, a Baía e Pernambuco para enriquecer os cofres de negociantes ingleses, passariam a permanecer no Brasil ou seguiriam outro destino.

Apesar de todas as intrigas e articulações, portanto, nesse ponto, até mesmo o mais hábil dos governos terá que aceitar o fracasso de seus planos diante da determinação de uma nação, frequentemente olhada com desdém pelos ingleses.
Recordando-me que, repetidas vezes, deixei de mencionar um ponto essencial: ainda tenho muito a dizer sobre os ingleses residentes no Brasil e sua influência sobre o Império. Para manter o tom espontâneo, vou registrá-lo agora, à medida que as palavras surgirem.
A Zorra Inglesa no Brasil
Assim como em sua terra natal, os ingleses também cultivam aqui o hábito peculiar de, ao final do dia, “encherem a cara” com generosas doses de vinho do Porto. Com frequência, são vistos cambaleando pelas ruas da cidade, de forma quase cômica, apoiando-se nas paredes com ambas as mãos para manter o equilíbrio.

A polícia do Rio tem ordens para prender os ébrios e levá-los a um posto de guarda, onde possam recuperar-se pelo sono. Contudo, raramente essa ordem é aplicada a um desses “gentlemen” sem que antes se pergunte sobre sua nacionalidade.
Ao ouvir a resposta “sim, sou inglês”, o comandante da patrulha tira respeitosamente o chapéu e se afasta, em silêncio e com deferência. Assim se passam as coisas também nas câmaras, nos passeios e nos edifícios públicos: a insolência da velha Inglaterra predomina em toda parte.
Os brasileiros deram uma prova ainda mais marcante da fraqueza inglesa nesse aspecto durante minha estada em Florianópolis. O governo inglês havia equipado um grande navio para realizar a pesca de baleias nas costas da Patagônia.

Infelizmente, o comando foi confiado a um homem que, embora talvez tenha sido um bom marinheiro em outros tempos, entregou-se tanto ao vício da embriaguez que, em breve, perdeu o respeito de seus subordinados — algo essencial para sua função — e também o próprio discernimento, sendo forçado a delegar completamente sua autoridade ao imediato.
Este, sendo ainda muito jovem e inexperiente, naturalmente não possuía o respeito necessário por parte dos marinheiros, e, em pouco tempo, confirmou-se o antigo ditado: ‘tal capitão, tais marinheiros.’ Havia pouco zelo pela fragata, e a gestão a bordo parecia preocupar-se apenas com a bebida.
Quando chegaram à altura de Santa Catarina, a bordo reinava tal desordem e a disciplina se encontrava tão dissolvida que, ao enfrentarem uma súbita tempestade, o navio precisou buscar abrigo no porto com urgência. Infelizmente, apenas o capitão conhecia bem a entrada, mas seu estado de delirium tremens havia alcançado o limite da insanidade, e nenhum outro tripulante tinha familiaridade com a região.

Nessa situação crítica, resolveram içar a bandeira de socorro e, após bordejarem diante do porto, aguardaram que alguém viesse em auxílio. No entanto, devido ao mau tempo, ninguém se atreveu a enfrentar o mar de imediato.
Finalmente, um comerciante inglês estabelecido na cidade do Desterro, que, como muitos de sua classe, fora outrora capitão de navio, ofereceu-se espontaneamente para resgatar a fragata.
Acompanhado de alguns homens destemidos, embarcou em uma chalupa, alcançou o navio com sucesso, apresentou-se aos marinheiros disposto a assumir o comando e, sem incidentes, conduziu a embarcação até o porto.
Exonerou o comandante e o enviou a um hospital, onde este viria a falecer pouco depois, e despediu os marinheiros rebeldes. Em seguida, tomou posse dos documentos do navio, de uma soma considerável em dinheiro e de todos os objetos de valor que encontrou a bordo, abandonando calmamente a embarcação ancorada no porto.

Não demorou para que o embaixador inglês no Rio de Janeiro soubesse de todo o ocorrido e exigisse que o negociante devolvesse os itens roubados e o dinheiro. O negociante, no entanto, negou firmemente ter tomado qualquer coisa e atribuiu toda a culpa ao capitão falecido, que já não podia defender-se.
A maioria dos marinheiros havia sido subornada e não depôs contra o ousado ladrão. O único testemunho do imediato não era prova suficiente; segundo as leis brasileiras, o astuto comerciante foi absolvido.
No entanto, o embaixador insistiu de forma enérgica pela entrega do criminoso, mas não foi atendido, pois, de maneira astuta e apressada, ele se naturalizou cidadão brasileiro por uma quantia insignificante, o que fez com que tivesse que ser julgado conforme as leis do país.

Assim, a Inglaterra não conseguia encontrar nenhuma maneira de agir contra o ousado ladrão, nem por meio do direito nem pela justiça. Diante disso, um brigue inglês ancorado no porto do Rio recebeu ordens para zarpar em direção a Santa Catarina, com a missão de capturar o comerciante inglês, vivo ou morto, e levá-lo para a Inglaterra, onde seria julgado de acordo com a lei inglesa.
O brigue chegou e logo o comerciante inglês recebeu um convite muito cortês para embarcar e prestar esclarecimentos, segundo lhe informaram, sobre questões sem importância.
| Tipo de embarcação | Brigue |
| Mastros | Dois mastros; o mastro da proa é mais alto que o da popa |
| Vela | Velas dispostas para boa manobrabilidade |
| Uso | Transporte de mercadorias e pessoas, atividades militares e patrulhamento naval |
| Época de uso | Principalmente nos séculos XVIII e XIX |
| Vantagens | Leve e ágil, adequada para navegar em diversas condições e realizar manobras rápidas |

Ele estava prestes a cair na armadilha quando um amigo o alertou sobre o perigo e aconselhou que, por ora, ele abandonasse a casa e se retirasse para o interior da ilha, em vez de se expor ao risco de que o brigue o levasse para a terra da “força grã-britânica”.
Essa advertência impressionou o astuto comerciante, que havia realizado um negócio tão lucrativo, e ele decidiu seguir o conselho do amigo.
Bem armado e acompanhado por uma numerosa equipe de criados, ele partiu naquela mesma tarde a cavalo, como um déspota triunfante, e foi alugar uma residência no interior da ilha, para aguardar a partida do navio inimigo.
Era realmente o momento certo para tomar essa decisão, pois naquela mesma noite marinheiros ingleses cercaram sua casa na cidade e a arrombaram violentamente.

Durante aproximadamente dois meses, procurei por eles incansavelmente. Nesse período, os oficiais e marinheiros entregavam-se a excessos. Caminhavam bêbados pelas ruas, insultando indiscriminadamente e sem qualquer consideração a todos os transeuntes.
Em particular, os pobres negros que vendiam doces, feitos por eles ou adquiridos, sofriam muito com esse grupo desenfreado.
Muitas vezes, os marinheiros embriagados destruíam as barracas ou estouravam os limões de cera, cheios de água de cheiro, que costumam ser vendidos durante o Carnaval, e depois se recusavam a pagar os prejuízos.

As infelizes escravas tinham que expiar dolorosamente a culpa desses bandidos, especialmente se tinham donos específicos, como era o caso mais comum, que as mandavam ser espancadas nas costas e em outras partes do corpo.
E se, em algum momento, a patrulha apanhava um desses vagabundos noturnos, bastava que ele assobiasse um pouco para que o comandante do navio, alertado, reclamasse sua liberdade, e o temeroso presidente da província imediatamente atendesse ao pedido.

A bordo, os castigos eram leves ou inexistentes. Assim, os pacíficos habitantes não tinham outra opção a não ser se defender, reagindo à violência com mais violência, o que, como é fácil imaginar, resultou em diversos conflitos.
Certa vez, em pleno dia, doze marinheiros assaltaram uma menina negra de quatorze anos, que estava vendendo suas mercadorias na rua. Como ela se recusou a atender às suas insistências, eles arrancaram o saiote que usava e, embriagados, destruíram tudo o que ela carregava.
Implorando e chorando, ela pedia uma compensação, garantindo que seria brutalmente espancada se não entregasse cada centavo ao seu senhor. No entanto, a resposta do grupo foi simplesmente risos.

Essa cena revoltante atraiu muitas pessoas, que, murmurando, expressavam sua justa indignação, mas não se atreviam a atacar os marinheiros, armados com cacetes.
Então, três soldados do 14.º Batalhão de Caçadores, da Bahia, apareceram e exigiram de forma firme que os ingleses indenizassem imediatamente a menina negra.
A princípio, os marinheiros sorriram diante da ameaça, mas depois partiram para agredir os soldados brutalmente. Diante da superioridade numérica dos marinheiros, os soldados foram forçados a recuar. Eles correram para o quartel próximo e logo voltaram em número dobrado, desafiando os adversários.

Imediatamente, os ingleses saíram da venda armados com seus cacetes e, enfurecidos, atacaram os cavaleirescos baianos.
No entanto, em poucos minutos, quatro deles caíram no chão, ensanguentados e com profundas facadas, e apenas a rápida fuga salvou os outros da vingança dos soldados brasileiros.
Dois dos feridos morreram pouco depois, enquanto os outros dois, com grande dificuldade, conseguiram ser salvos, mas não se recuperaram completamente; um deles perdeu a mão direita, que foi decepada por um golpe de lâmina afiada e ficou como troféu no sanguinolento campo de batalha.

Na investigação que se seguiu, foi impossível identificar os assassinos, pois, entre todas as pessoas que testemunharam a cena, ninguém quis delatar; todos estavam solidariamente com os agredidos.
Desde aquela ocasião, foi severamente proibido aos marinheiros ingleses desembarcarem, e pouco depois o brigue levantou âncora e navegou de volta para o Rio, sem ter conseguido o que desejava.
O comerciante pirata retornou tranquilamente para sua casa e, ao que parece, ainda vive em paz na cidade de Desterro, desfrutando sossegadamente de seu ousado roubo.
Quando o odiado navio saiu do porto, todos os brasileiros, profundamente supersticiosos, repetidamente fizeram o sinal da cruz e ainda o despediram com mil protestos e maldições.”
FIM