Essa é a segunda parte do resumo expositivo do livro Dez Anos no Brasil, do mercenário alemão Carl Seidler, escrito no ano de 1835. Se não leu a primeira parte, leia aqui!

Seidler continua narrando os eventos do ano de 1828; porém, nesta parte do livro, ele faz um apontamento acerca da presença de americanos na costa brasileira e apresenta suas considerações sobre a Guerra Cisplatina.
A Costa Brasileira no Início do Século XIX
De acordo com o mercenário, a marinha do Brasil, nesse período, mostrava-se vulnerável, uma vez que o país havia recém-declarado sua independência e não possuía mais o auxílio marítimo lusitano.
Tendo isso em vista, a Marinha Argentina, sob o comando do Almirante irlandês William Brown, estava causando considerável destruição na costa brasileira, capturando navios e se apropriando de grandes somas de dinheiro destinadas ao pagamento dos soldados estacionados em Montevidéu (Guerra Cisplatina).
Relatos indicam que os comandantes das embarcações de guerra da época, responsáveis pela proteção dos comboios, sentiam uma profunda apreensão apenas ao ouvirem o nome do almirante William Brown.
| Nome completo | William Brown |
| Nome em espanhol | Guillermo Brown |
| Nascimento | 22 de junho de 1777, Foxford, Irlanda |
| Falecimento | 3 de março de 1857, Buenos Aires, Argentina |
| Religião | Católico |
| Ocupação | Almirante e militar |
| Conflitos | Guerra de Independência da Argentina, Guerra da Cisplatina, Guerras civis argentinas |
| Contribuição | Primeiro almirante da Armada Argentina, defensor do comércio no Rio da Prata |
| Infância | Emigrou para os EUA e, após ficar órfão, tornou-se grumete em um navio norte-americano |
Outro grupo que se aproveitou da vulnerabilidade do Brasil foi os corsários norte-americanos, que direcionaram astutamente sua atenção para a guerra naval.
Reconhecendo que, com um pouco de sorte, poderiam obter bons lucros, conseguiam cartas de corso em Buenos Aires a preços favoráveis, equipavam seus navios e, em pouco tempo, tornavam-se mais prejudiciais ao comércio marítimo do império do Brasil do que toda a esquadra da Argentina reunida.
| Carta de Corso | Descrição |
|---|---|
| Definição | Documento oficial emitido por um governo que autorizava ataques a navios e povoados inimigos. |
| Objetivo | Financiar guerras, prejudicar o comércio inimigo e enriquecer o Estado e os corsários. |
| Beneficiários | Estado emissor, corsários e, em menor escala, a população em geral. |
| Requisitos | Autorização do governo, navio equipado e tripulação. |
| Ações permitidas | Atacar navios inimigos, capturar cargas e tripulantes, invadir portos. |
| Divisão dos lucros | Parte para o governo, parte para o corsário. |
| Fim | Abolissão pela Declaração de Paris em 1856. |
| Consequências | Estimulou a pirataria, financiou guerras, prejudicou o comércio marítimo. |

Diante da inação do governo brasileiro, os corsários americanos licenciados por Buenos Aires passaram a praticar a pirataria de forma aberta, e frequentemente desapareciam navios brasileiros que, segundo todas as evidências, não podiam ter naufragado, pois não eram mais vistos nem mencionados.
Os comerciantes dos portos mais importantes, como os do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, só se arriscavam a despachar seus navios para o sul sob uma bandeira estrangeira, e ainda assim, era crucial ter o acompanhamento de uma robusta escolta de canhoneiras.
É compreensível o quanto isso prejudicava o comércio, causando a ruína de muitos comerciantes pela perda de suas embarcações. Ademais, as escassas naves capturadas pela frota brasileira eram mínimas se comparadas às numerosas apreendidas quase todos os dias pelos navios adversários.

Não apenas os particulares sofriam, mas o governo também enfrentava grandes prejuízos em decorrência dessa infeliz guerra naval, já que a aplicação da lei às capturas era rara, e os comandantes dos navios brasileiros, em geral, ficavam com a maior parte dos bens, sem a devida distribuição.
Todas as medidas para coibir tais fraudes pareciam ineficazes, pois, diante dos poderes conferidos aos capitães de navios, nenhum subordinado se atreveria a apresentar queixa contra eles ao governo injusto.

Por outro lado, os poucos navios que os brasileiros capturavam por violação do bloqueio na boca do Rio da Prata, geralmente pertencentes a ingleses, franceses ou norte-americanos, eram rapidamente reclamados pelos respectivos embaixadores.
Apesar de todas as considerações, o Brasil era obrigado a pagar as indenizações que os capitães exigiam por seus navios e cargas.
Mesmo que as finanças do império ainda não estivessem arruinadas, agora elas inevitavelmente se tornariam insustentáveis.
A incursão do Marechal Braun na Cisplatina trouxe uma nova esperança para o Brasil em relação ao sucesso nessa guerra especulativa, pois o general Lavalleja rapidamente retirou suas tropas para Serro Largo, onde se preparariam para o inverno.

Enquanto isso, o almirante Brown, com sua pequena flotilha, abandonou as costas do Rio Grande e começou a navegar aleatoriamente pelas costas setentrionais do Brasil em busca de saques.
A cidade mencionada, e possivelmente toda a província de São Pedro do Sul, poderia ter caído nas mãos do inimigo se não fosse a audácia do marechal Braun nessa operação.
No entanto, isso ainda não era suficiente para dissipar o receio dos brasileiros e desmobilizar a oposição; a pressão para estabelecer a paz com a Argentina era tão intensa que, eventualmente, o Imperador se viu obrigado a ceder, mesmo contra sua vontade.
Não confunda, Braun com Brown
| Marechal Guilherme Augusto Braun | Detalhes |
|---|---|
| Origem | Alemão |
| Carreira Militar | Vasta experiência em campanhas europeias |
| Chegada ao Brasil | Início do século XIX |
| Papel na Guerra da Cisplatina | Comandante de tropas brasileiras, contribuiu para os sucessos brasileiros |
| Ferimentos | Perda de um braço em combate naval |
| Legado | Um dos mais destacados militares brasileiros da época, inspirou outros soldados |
| Qualidades | Habilidades estratégicas e táticas, coragem, liderança, lealdade |
Comparando-os
| Característica | Marechal Guilherme Augusto Braun | Almirante William Brown |
|---|---|---|
| Origem | Alemanha | Irlanda |
| Força Armada | Exército Brasileiro | Marinha Argentina |
| Papel na Guerra | Comandante de tropas terrestres | Comandante naval |
| Contribuições | Vitórias em batalhas terrestres, liderança inspiradora | Vitórias navais, defesa da Cisplatina |
| Legado | Um dos mais destacados militares brasileiros | Herói nacional argentino |

| Conflito | Guerra entre Brasil e Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina), de 1825 a 1828 |
| Principal Consequência | Independência da Cisplatina, que se tornou a República Oriental do Uruguai |
| Termos do Acordo | |
| – Independência da Cisplatina | Reconhecimento da independência da Cisplatina, separando-a do Brasil e da Argentina |
| – Fim das Hostilidades | Brasil e Argentina concordaram em encerrar o conflito e estabelecer relações pacíficas |
| – Renúncia às Pretensões Territoriais | Ambos os países renunciaram a qualquer reivindicação sobre a Cisplatina |
| Consequências do Acordo | |
| – Criação do Uruguai | A Cisplatina passou a ser chamada de República Oriental do Uruguai |
| – Custos para o Brasil | Alto custo financeiro e em vidas humanas, além de enfraquecimento do Império Brasileiro |
| – Fracasso dos Objetivos Argentinos | Argentina não conseguiu anexar a Cisplatina |
| Resumo | O acordo de paz estabeleceu um novo país, o Uruguai, e redefiniu as relações diplomáticas entre Brasil e Argentina |
| Tópicos para Exploração | Causas da guerra, principais batalhas, impactos políticos e econômicos, papel de Dom Pedro I |
Acordo de Paz entre Brasil e Argentina

Com o término da guerra, a Inglaterra atingiu seu objetivo de adquirir, como uma potência mediadora, grande influência sobre a República do Uruguai.
O bloqueio na foz do Rio da Prata foi levantado, permitindo o comércio seguro com Buenos Aires, e o Brasil teve que aceitar uma paz que, concretizada somente pela intervenção inglesa, demonstrava sua vulnerabilidade. O embaixador inglês, vitorioso, assistia sua obra exitosa.
Brasil e Buenos Aires desperdiçaram grandes quantias neste jogo ambicioso de interesses, sem ganhar vantagens.

A crença ingênua de que a Cisplatina, assolada por conflitos internos entre facções políticas, não se sustentaria independentemente e acabaria por voltar ao domínio de um dos dois rivais, se dissipou rapidamente. Em breve, apesar de certas turbulências internas, a Cisplatina formou um governo estável.
Somente a Inglaterra e os Estados Unidos lucraram com a guerra, especialmente os americanos, devido aos muitos corsários que assolavam as costas brasileiras, autorizados por Buenos Aires a capturar navios mercantes do Brasil, e também pela venda de diversos navios de guerra que Dom Pedro adquiriu impulsivamente.
Entre esses navios estava a fragata “Isabel”, considerada à época o mais belo navio brasileiro.
É lamentável que, mesmo com os bons estaleiros no Rio de Janeiro e na Bahia, o Brasil não conseguisse construir sequer um navio em condições; parte dessa falha se devia ao governo, que não sabia valorizar nem aproveitar os talentos de seus poucos bons construtores navais.

Para os Estados Unidos, no fim, era indiferente qual dos beligerantes venceria, desde que seus interesses permanecessem intactos.
Pouco importava que transações secretas pudessem levar à ruína do Império ou da República, desde que seus lucros aumentassem.
A América do Norte representa um modelo de república, pois todo modelo exige recursos antes de atingir seus objetivos, e uma república não pode ser empobrecida.
Como prova de que o governo dos Estados Unidos sempre seguia o princípio de que “os fins justificam os meios” e para ilustrar como essa república, tão exaltada por seu senso de justiça, muitas vezes se deixa levar pela cobiça, mencionarei um fato que, acredito, comprovará amplamente a veracidade de minha afirmação.
O Esquema dos Estados Unidos

No final de 1830, D. Pedro, acompanhado de sua segunda esposa, empreendeu uma viagem à província de Minas Gerais, com o objetivo de, por meio de sua presença pessoal, conter os focos de descontentamento e rebelião que ocasionalmente se manifestavam na região.
Além disso, buscava incentivar seus partidários a redobrarem seus esforços, entre os quais considerava poder contar com todos os portugueses natos.
No Rio de Janeiro, era voz corrente e unânime que essa viagem não tinha outro objetivo senão a completa derrocada da Constituição, para a qual o Imperador contaria com o apoio dos mineiros.
Durante a viagem, a imperatriz deu falta de uma joia de valor inestimável; imediatamente, todos os recursos foram mobilizados para localizar o audacioso ladrão, e as suspeitas recaíram sobre um alemão da criadagem da imperatriz, pois ele havia desaparecido secretamente no dia seguinte ao furto.

Iniciou-se uma busca por ele, mas o suspeito conseguiu chegar ao Rio de Janeiro antes de ser capturado e se escondeu em uma das tabernas alemãs da cidade.
Apesar dos intensos esforços da polícia, não conseguiram capturá-lo; finalmente, porém, as autoridades confirmaram que ele havia escapado há poucos dias para a América do Norte em um navio daquela nacionalidade.
O governo brasileiro, sem demora, entrou em contato com o governo norte-americano, solicitando a restituição da joia e a entrega do fugitivo.

Por sorte, o navio que transportava essa correspondência chegou ao destino alguns dias antes da embarcação que levava o ladrão e a joia, o que tornava fácil a apreensão, podendo ocorrer ainda antes do desembarque.
O ladrão enriquecido, de fato, não demorou a chegar aos Estados Unidos. Contudo, em vez de capturá-lo de imediato, permitiram que ele avançasse cerca de 40 léguas para o interior e só então o perseguiram, capturando-o e levando-o em triunfo para Nova York. Somente após esse fato o governo norte-americano respondeu ao governo brasileiro, afirmando o seguinte:
“Ao governo brasileiro: acusamos o recebimento de sua comunicação sobre a prisão de um contrabandista em posse de pedras preciosas, incluindo uma joia que parece corresponder à roubada da Imperatriz. Conforme nossas leis, o condenado deve pagar ao tesouro sete vezes o valor das mercadorias contrabandeadas; como o prisioneiro não possui tal valor, solicitamos que o governo brasileiro arque com seis vezes o valor estimado das pedras para que a joia seja devolvida. Quanto à entrega do criminoso, ele deverá cumprir aqui a pena de contrabando antes de qualquer decisão sobre sua extradição.”

Por mais que essa atitude republicana tenha causado alvoroço na capital imperial, e por mais que Dom Pedro I tenha se irritado com tal resposta, não havia o que fazer: os norte-americanos mantiveram a joia até hoje, e o ladrão, após alguns meses em uma casa de correção, recebeu um pequeno auxílio financeiro para a viagem e um passaporte para o “mundo vasto”.

Aliás, ninguém negará que os norte-americanos têm grande habilidade para enganar e subtrair bens, especialmente quem já teve a oportunidade de observá-los de perto, em qualquer lugar que não o próprio país.
Entre os homens de classes inferiores, era comum que, enquanto vagavam pelo Rio de Janeiro, se apropriassem de pequenos objetos, como relógios, anéis, broches, bolsas, roupas e lenços; os das classes superiores, por sua vez, agiam em escala maior.
Por exemplo, nos navios de qualquer nação europeia, era raro que os documentos não estivessem em ordem; já entre os americanos, no entanto, disputas e processos eram frequentes.
Suas declarações para o cálculo de impostos quase nunca estavam corretas, e quando o governo brasileiro tentava agir legalmente contra os infratores, estes recebiam a proteção do ministro americano, que, em resposta, ameaçava com represálias e até guerra. Diante da fragilidade do Brasil, essas ameaças quase sempre eram atendidas.

Os comerciantes norte-americanos estabelecidos no Rio de Janeiro e no Rio Grande também não agiam de forma mais íntegra do que os capitães desses navios, e era comum que respondessem a processos por falsificação.
Um senhor respeitável, tanto por sua posição social quanto por seu caráter, que viveu muitos anos no Novo Mundo e conheceu esse povo sob vários aspectos, costumava dizer-me:
“Se você colocar um objeto de valor, ainda que modesto, debaixo de uma forca e ameaçar um americano com enforcamento imediato caso toque no objeto, ele, acreditando-se seguro, não deixará de se apoderar dele.”
Ele citava diversos episódios que testemunhara, o que me levou a considerar seu julgamento sobre os norte-americanos como bastante preciso nesse ponto.

Outra crítica que se pode fazer a eles é o desprezo por todos os que não nasceram nos Estados Unidos, tratando-os de modo inferior.
É verdade que quase todos os imigrantes chegam ao país com poucos recursos, muitas vezes ainda endividados pelos custos da viagem, levando apenas a esperança de ali encontrarem prosperidade.
Mas não consigo entender a razão de se menosprezar alguém que, para melhorar sua condição e a de sua família, se lança numa viagem tão incerta, apesar dos riscos.

Para concluir este breve episódio, acuso ainda os norte-americanos de tratarem com muito menos consideração e mais desprezo os descendentes de pais alemães, seus concidadãos adotivos, do que os de origem inglesa — uma atitude contraditória que desafia qualquer senso de justiça, já que, nestes estados livres, os ingleses, antigos opressores da liberdade americana, deveriam ser mais desprezados que estimados.
E, se esse respeito fosse fruto de magnanimidade dos americanos, no sentido de esquecerem o passado, deveriam ao menos agir com nobreza suficiente para conceder os mesmos direitos e a mesma consideração a todos, de maneira imparcial.
FIM
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