Três Dias de Terror No R. de Janeiro Imperial – Parte 1

A história que você vai ler possui várias versões, e a que vou narrar foi retirada do livro Dez Anos no Brasil, do mercenário suíço-alemão Carl Seidler, que a redigiu em 1835. O conteúdo será dividido em dois, sendo a 1.ª parte a do contexto, e a 2.ª a história dos três dias de terror no Rio de Janeiro.

Carl Seidler e a Crise do Primeiro Reinado

Carl Seidler foi um oficial e aventureiro alemão que viveu no Brasil entre 1825 e 1835, período que marcou o auge e a queda de Dom Pedro I. Ao contrário de outros cronistas da época, Seidler chegou ao país como mercenário, integrando o Corpo de Estrangeiros do Exército Imperial.

Sua experiência mais dramática ocorreu em 1828, quando ele não apenas testemunhou, mas participou ativamente da Revolta dos Mercenários no Rio de Janeiro.

O motim, motivado por soldos atrasados e castigos corporais, mergulhou a capital em dias de caos e violência urbana. Anos mais tarde, de volta à Europa, ele registrou essas memórias no livro “Dez Anos no Brasil”, uma obra ácida e repleta de críticas contundentes à sociedade brasileira, à administração imperial e às condições militares da época.

O Conflito

O conflito teve início com a insatisfação dos soldados europeus em razão dos meses de soldo atrasado, consequência da escassez de recursos financeiros do Império.

Essa situação culminou em uma guerra brutal entre os nativos brasileiros e os estrangeiros. Durante três dias, intensos tiroteios e ataques ocorreram, evidenciando a selvageria que caracteriza um dos períodos mais sombrios do século XIX no Brasil.

Mercenário Europeus no Brasil

Nossa história começa com a Declaração de Independência do Brasil, que levou Dom Pedro I, sob a orientação de José Bonifácio, a contratar mercenários europeus para garantir a soberania do país e proteger a nação recém-criada contra os ataques de soldados portugueses presentes no Brasil, ainda leais a Portugal.

Somam-se a esse cenário os boatos sobre a mobilização de tropas portuguesas para retomar a colônia brasileira, além da possível declaração de guerra pelas províncias argentinas no contexto da disputa pela Província Cisplatina (atual Uruguai), que se espalharam pelas ruas do Rio de Janeiro, aumentando ainda mais as tensões no país.

Boatos de mobilização de tropas portuguesasCirculavam boatos de que tropas lusitanas estavam se mobilizando para atacar o Brasil.
Apoio de províncias do nordeste à MetrópoleAlgumas províncias do nordeste declararam apoio à Metrópole europeia.
Iminência de conflito armado com as Províncias Unidas do Rio da PrataHavia uma iminente possibilidade de conflito armado com as Províncias Unidas do Rio da Prata (Argentina).

Um outro fator crucial para a decisão de contratar mercenários foi a desconfiança de Dom Pedro em relação aos soldados portugueses. Para garantir sua segurança oficial, tornou-se essencial ter uma guarda neutra na Quinta da Boa Vista, sua residência oficial.

Além disso, havia uma dificuldade em recrutar soldados no Brasil, principalmente após a adoção pelo governo português dos conceitos dos “Artigos de Guerra do conde Lippe”, que eram um conjunto de regulamentos militares que estabeleciam castigos corporais pesados para qualquer leve transgressão.

Artigos de Guerra do conde Lippe
Contexto históricoDesenvolvido durante a Guerra dos Sete Anos.
Conteúdo principalIncluía diretrizes rigorosas sobre a disciplina militar.
Objetivo das diretrizesManter a ordem e a eficiência das tropas.
Tipo de puniçõesPunições severas aplicadas para garantir a disciplina e a obediência entre os soldados.

Segundo relatos da época, a dificuldade do exército brasileiro em recrutar novos soldados era tão grande que eles chegavam a recrutá-los à força.

Eles organizavam folguedos para atrair os rapazes mais jovens, sendo os vagabundos e delinquentes os alvos preferidos, que muitas vezes eram acorrentados como escravos e levados até o “Libambo” no Rio de Janeiro.

Dom Pedro I aproveitou o fim das guerras napoleônicas, que havia deixado milhares de soldados europeus desempregados, e optou pela contratação de mercenários experientes em combate, uma vez que os soldados brasileiros não eram tão profissionais em comparação aos europeus.

FolguedosManifestações culturais populares que combinam elementos de dança, música, teatro e brincadeiras. São parte do folclore brasileiro e variam por região. Exemplos: Bumba Meu Boi, Maracatu, Reisado e Cavalo Marinho.
Contexto dos FolguedosRealizados em festas e celebrações, com raízes religiosas ou comemorativas.
Limbabo/LibamboFerramenta de contenção usada no Brasil escravocrata, feita de ferro e presa ao pescoço dos escravos. Incluía uma haste longa para evitar fugas e controlar o movimento dos escravizados.

No entanto, a legislação dos países europeus proibia a emigração de ex-combatentes por questões de segurança nacional.

Assim, as autoridades brasileiras encontraram um jeitinho brasileiro para driblar essa proibição: misturar colonos e ex-combatentes nos navios, já que os colonos eram autorizados a emigrar.

Para cada grupo de ex-combatentes contratados, deveria haver algumas famílias de colonos.

Para a Marinha Imperial brasileira, foram recrutados marinheiros de origem inglesa. O Exército, inicialmente, buscou a contratação de mercenários franceses e suíços, reconhecidos, na época, como soldados disciplinados.

Contudo, devido à escassez de recursos financeiros, tal contratação foi inviável. Alguns colonos suíços, residentes em Nova Friburgo, optaram por abandonar suas atividades agrícolas em troca de um salário fixo no Exército Imperial.

Ademais, a tentativa de negociação com mercenários austríacos foi frustrada, uma vez que o sogro de D. Pedro I, o Imperador da Áustria, impôs obstáculos à proposta.

Outras tentativas de alistamento de cossacos russos também não obtiveram sucesso.

Por fim, houve uma orientação para o recrutamento de alemães em uma germânia que ainda não era unificada. Pode-se afirmar, portanto, que a imigração alemã para o Brasil está intrinsecamente ligada à organização militar do País.

Soldados Alemães no Brasil

Georg Anton von Schäffer foi um médico bávaro encarregado pelo governo brasileiro de recrutar soldados alemães para o Exército Imperial, visando fortalecer as forças militares do Brasil após a independência.

Em sua missão, Schäffer conseguiu atrair soldados e colonos germânicos, especialmente em uma Alemanha ainda não unificada, contribuindo diretamente para a formação dos primeiros contingentes estrangeiros no Exército brasileiro e incentivando a imigração alemã para o país.

O território germânico naquela época era composto por 39 Estados, organizados em distintos reinos, ducados e cidades livres.

Os alemães recrutados por Schäffer incluíam mercenários e colonos, sendo estes últimos utilizados para ocultar a contratação de ex-combatentes, prática esta proibida pelas leis internacionais.

Os ex-combatentes seriam custeados pelo governo brasileiro, prestariam serviço por um período de 6 anos recebendo um salário, e ao final do serviço militar, teriam direito a terras para cultivo.

Os governantes alemães estavam relutantes em permitir que os ex-combatentes deixassem o país, mas Schäffer propôs um acordo estratégico que beneficiaria ambas as partes. E assim, criminosos, desempregados e mendigos foram enviados ao Brasil.

Essa negociação resultou no esvaziamento de uma prisão em Mecklenburg, onde os detentos foram enviados ao Brasil a bordo do navio Germânia, aliviando a pressão social na Alemanha e promovendo uma solução para os problemas locais.

Ordem Cronológica dos Eventos

Criação do Regimento de Estrangeiros8 de janeiro de 1823Unidade militar formada por mercenários estrangeiros, incluindo alemães, irlandeses e suíços, para reforçar o Exército Imperial.
Chegada dos primeiros colonos a Nova Friburgo3 de maio de 1824342 colonos alemães foram enviados para a colônia suíça de Nova Friburgo.
Total de navios recebidosAté 182927 navios trouxeram ex-combatentes e colonos alemães ao Brasil.
Destinos dos alemães1823-18293.000 para colônias, 4.000 para o serviço militar, 1.000 com destino desconhecido.
Idade média dos ex-combatentesA idade média era de 26 anos.
Suborno para condição de colonoMuitos ex-combatentes pagaram suborno para serem liberados do serviço militar e se estabelecerem como colonos.

Os soldados alemães foram chamados “Mercenários do Imperador”, e, mesmo alguns homens que vieram com suas famílias na condição de colonos, foram obrigados a servir nas Forças Armadas. O Regimento de Estrangeiros ganhou uma proporção tão grande que o Ministro da Guerra alertou D. Pedro I quanto ao perigo representado por uma grande unidade de mercenários no Exército. O Regimento de Estrangeiros foi dividido em:

Batalhão de GranadeirosUnidade de elite destinada a missões de choque e proteção da família imperial.Escolhidos homens altos, fortes e de boa aparência para a guarda do Palácio de São Cristóvão e a segurança do Imperador e sua família.Guardava o Palácio de São Cristóvão e protegia a família imperial.
Batalhão de CaçadoresConhecido como “Batalhão do Diabo” devido ao comportamento de seus membros, causavam desordens, sendo temido por negros e donos de bodegas.Soldados envolvidos em brigas, provocavam arruaças e eram conhecidos pelo temperamento indisciplinado; no entanto, tinham a simpatia de D. Pedro I.Enviado por D. Pedro I para acabar com a Confederação do Equador, reprimindo a rebelião em Pernambuco.

De acordo com as fontes históricas presentes no livro “Os Mercenários do Imperador”, de Juvêncio Saldanha Lemos, essa era a localização das instalações dos soldados estrangeiros:

Quartel da Praia VermelhaInsalubre, infestado por ratos, mosquitos, escorpiões e bichos-do-pé. Na fortaleza, as baratas roíam as fardas dos soldados.
Quartel dos BarbonosCondições precárias semelhantes, com falta de higiene e presença de pragas, contribuindo para a deterioração da saúde e do ânimo dos mercenários.
Mosteiro de São BentoUtilizado também para abrigar os mercenários, apresentando as mesmas condições insalubres dos demais locais.
Situação nos QuartéisMinguadas refeições de baixa qualidade, doenças como febre amarela, somadas aos maus-tratos de oficiais. A rotina incluía taponas, bordoadas, cachaços, palmatórias, cipoada, chicotadas e pranchadas. Castigos aplicados na frente da tropa, acompanhados de banda de música tocando para abafar os gritos dos castigados.
Exemplo de CastigosUm mercenário alemão foi condenado a 800 chicotadas, aguentando 500 antes de sucumbir. Conforme relato de Schlichthorst, as costas dos mercenários eram consideradas o “pasto da chibata brasileira.”

Continua… Parte 2 AQUI

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