Três Dias de Terror no Rio de Janeiro Imperial (Parte 2: Relato)

O conteúdo a seguir é um resumo expositivo de um trecho do livro Dez Anos no Brasil, de Carl Seidler, escrito em 1835. Històricamente, o livro se destaca como um documento significativo para a compreensão do contexto do início do século XIX no Brasil Imperial.

No entanto, algumas opiniões e visões de mundo do autor são inaceitáveis em 2024 e, se fossem publicadas, diante disso, os textos foram cuidadosamente atenuados, mantendo somente as crônicas da época.

Revolta das Tropas Segundo Carl Seidler

O governo brasileiro, representado por Georg Anton von Schäffer, responsável por recrutar colonos e soldados e dar início ao projeto de embranquecimento do Brasil, fez promessas exageradas em Hamburgo e Bremen aos soldados dos batalhões estrangeiros, especialmente alemães.

Essas promessas não foram cumpridas no Brasil, o que acabou exacerbando os ânimos desses mercenários arianos no Rio de Janeiro.

Ficha Técnica: Schäffer

NomeGeorg Anton von Schäffer (também conhecido como Jorge Antônio von Schäffer ou Major Schäffer)
Data de nascimento7 de janeiro de 1779
Local de nascimentoMünnerstadt, Eleitorado do Palatinato
Data de falecimento1836
Local de falecimentoJacarandá
ProfissãoMédico, negociante e militar
Atividades principaisRecrutou colonos e militares alemães para o Império do Brasil; tentou conquistar o Havaí para o Império Russo

A princípio, soldados europeus de diversas nacionalidades integravam esses batalhões, principalmente franceses e suíços; entretanto, o temperamento rebelde desses militares motivou o governo brasileiro a recrutar mercenários alemães, os quais se esperava maior subordinação e obediência.

Os soldados alemães, porém, pareciam se comportar de forma diferente no Brasil em comparação com sua disciplinada terra natal. (Talvez a teoria das cadeias esvaziadas por Schäffer explique esse comportamento.)

Em algumas ocasiões, os soldados alemães cometeram excessos que levaram Dom Pedro a buscar uma alternativa: contratar três mil soldados irlandeses, nos quais provavelmente via uma perspectiva mais submissa, segundo Seidler, “devido à mentalidade católica dos irlandeses”.

Para realizar o recrutamento, D. Pedro confiou a tarefa ao coronel William Cotter, um homem que, em termos de escrúpulos, não era mais moralmente exigente que o major Schaffer.

Cotter cumpriu a missão de maneira pontual, trazendo exatamente o número solicitado de recrutas, mas sem dar atenção ao caráter dos homens que trazia. Ele se limitou a transferi-los de suas úmidas e pantanosas terras da Irlanda para as exuberantes terras brasileiras, com o objetivo de atender ao imperador.

Quem Foi William Cotter

William CotterMercenário anglo-brasileiro
Guerra PeninsularLutou contra Napoleão
1816Vinda ao BrasilIntegrou o 4º Batalhão de Caçadores como major
1826Corpo de EstrangeirosPassou a comandar o 3º Batalhão de Granadeiros
1827Missão de recrutamento na IrlandaEnviado à Irlanda para recrutar mercenários
1828Retorno ao Brasil com recrutasRetornou com 2.700 pessoas, incluindo famílias
1828Colônia de Santa Januária (Bahia)Parte dos recrutas que recusaram servir no exército foi enviada a Taperoá, onde fundaram a colônia de Santa Januária, que teve curta duração
1828Revolta dos MercenáriosParte dos recrutas irlandeses que ingressaram no exército brasileiro participou posteriormente da Revolta dos Mercenários

Segundo Seidler, quem conhecia a Irlanda e seus habitantes na época, reconheceriam que esses homens não permaneceriam por muito tempo subjugados sob o rigoroso domínio que lhes seria imposto em uma terra estrangeira e hostil, ainda mais considerando que as promessas feitas não seriam sequer parcialmente cumpridas.

Assim, opuseram-se a prestar serviço militar, afirmando que não haviam se comprometido a se tornarem soldados, mas sim colonos, e que qualquer tentativa de coerção resultaria em uma reação contundente.

Sir Robert Gordon, então embaixador inglês na corte do Rio de Janeiro, defendeu rigorosamente seus compatriotas, afirmando ao governo brasileiro que aqueles homens, livres súditos de Sua Majestade Britânica, não podiam ser compelidos a se alistar, uma vez que não haviam concordado com os supostos contratos do coronel Cotter.

Em seguida, buscou-se persuadir os irlandeses a se juntarem às forças armadas, oferecendo um soldo diário de um xelim, ração dobrada e a eliminação do castigo corporal.

Assim, 400 homens aceitaram a proposta, enquanto os demais ignoraram as ofertas, frequentemente visitando seus compatriotas fardados para escarnecer ou, ao menos, obter um copo de aguardente.

Inadvertidamente, esses soldados irlandeses foram incorporados ao 3.º Batalhão de Granadeiros alemães, que na época estava com seu efetivo bastante reduzido, sob o comando do coronel Cotter e aquartelados no campo de S. Ana.

NomeSir Robert Gordon
Data de nascimento1791
Data de falecimento8 de outubro de 1847
FamíliaFilho de George Gordon, Lord Haddo; irmão do 4º Conde de Aberdeen
EducaçãoSt John’s College, Cambridge
Cargo no BrasilEnviado Extraordinário ao Brasil (1826-1828)
Contribuição principal no BrasilNegociou o Tratado Britânico-Brasileiro de 1826, abordando comércio e questões sobre escravidão
Outros cargosEnviado ao Império Otomano (1828-1831) e à Áustria (1841-1847)

O 4.º Batalhão de Caçadores

O comandante do batalhão era um irlandês, o major William Cotter, que, naturalmente, favorecia seus conterrâneos, embora a maioria dos oficiais e sargentos fosse alemã.

Essa mistura de nacionalidades, aliada ao fato de que os soldados mais antigos recebiam apenas metade do salário dos mais novos, levou a um tratamento desigual.

Como resultado, era inegável que os soldados alemães começassem a manifestar hostilidade. Caso não tivessem iniciado uma revolta de imediato, foi devido à sua percepção do descontentamento generalizado nas outras tropas estrangeiras.

Estavam cientes de que essa insatisfação era uma constante entre os demais, optando, assim, por aguardar o momento propício para se unirem a um levante, em vez de agir isoladamente.

O 28.º Batalhão de Caçadores, que os brasileiros denominavam Batalhão do Diabo, estava a esse tempo na Praia Vermelha, onde também se alojava a maior parte dos colonos irlandeses; o 2.º Batalhão de Granadeiros encontrava-se numa caserna perto da quinta imperial em São Cristóvão.

A rebelião

Foi Gusmão, um granadeiro do Exército, quem primeiro encontrou um motivo para levantar a bandeira da rebelião, e tudo aconteceu de forma acidental. Depois que os sinos tocaram a Ave Maria, um soldado alemão do batalhão se deparou com um oficial brasileiro e não lhe fez continência, já que as leis locais dispensavam esse cumprimento após o pôr do sol.

Expressão“Depois que os sinos tocaram Ave Maria”
SignificadoIndicava o período noturno, após o pôr do sol, quando os sinos das igrejas tocavam a oração da Ave Maria. Este toque marcava o fim das atividades diárias e o momento de recolhimento e reflexão para os fiéis católicos.
Contexto CulturalNo Brasil do século 18, o toque dos sinos ao entardecer era uma tradição amplamente respeitada, que simbolizava um momento de pausa, oração e devoção.
Status LegalEmbora não fosse uma lei, essa prática era culturalmente significativa e seguida pela sociedade.
Poder da Igreja CatólicaA Igreja Católica tinha grande influência sobre o Estado, desempenhando funções além das espirituais.
Atribuições da IgrejaA Igreja era responsável pelo registro de nascimentos, casamentos e óbitos, bem como pela educação, através de escolas e universidades fundadas por ordens religiosas, como os jesuítas.
Influência sobre a CulturaA Igreja tinha um papel ativo na evangelização dos indígenas e na imposição de valores e normas cristãs, muitas vezes disseminando a cultura europeia nas colônias.
Ação da InquisiçãoEmbora menos intensa no Brasil, a Inquisição era uma parte das atribuições da Igreja, encarregando-se de casos de heresia e feitiçaria, fortalecendo sua autoridade sobre aspectos morais e religiosos da sociedade.

Após a resposta do granadeiro, o oficial confrontou-o de maneira agressiva, questionando se ele não conhecia suas obrigações. O soldado, que seguia a ordem do capitão de engenheiros, respondeu:

‘Sei muito bem que deveria ter feito continência, mas não o vi; além disso, já tocou Ave Maria, então, tecnicamente, não sou obrigado a isso.’

O oficial, irado, declarou: ‘Irei instruí-lo sobre qual é o seu dever!’ Em seguida, relatou ao major Drago, comandante do 2º Batalhão de Granadeiros, acrescentando várias distorções à narrativa.

O major, sem ouvir a versão do soldado, tomou a decisão de aplicar 25 chibatadas, que ocorreriam publicamente no dia seguinte, durante a parada.

NomeMajor Francisco Pedro Drago
NacionalidadePortuguês
CargoOficial de um dos batalhões de Granadeiros; Fiscal do batalhão (subcomandante)
Ano do evento1828
LocalRio de Janeiro
Responsável pelo eventoEstopim da Revolta dos Mercenários
AcontecimentosImpôs um castigo severo a um soldado que trabalhava no Paço Imperial
O castigo desencadeou a revolta entre os mercenários
Tentou executar castigos considerados injustos
Fugiu após a rebelião
Foi perseguido e teve sua casa queimada

A notícia sobre essa punição injusta se disseminou rapidamente entre os outros batalhões. Dado que o granadeiro era amplamente reconhecido como um homem de conduta exemplar e gozava de grande estima por parte de seu oficial francês, a indignação entre os soldados intensificou-se.

Essa situação serviu como um impulso inicial para a revolta, como se um raio tivesse atingido um barril de pólvora.

No dia seguinte, estava prevista a aplicação do castigo, e soldados de todos os outros batalhões estrangeiros, incluindo os irlandeses, compareceram para testemunhar a injustiça ou, caso o 2º Batalhão se revoltasse, oferecer apoio.

O soldado condenado foi levado ao quadrado, onde Drago, que não sem razão era conhecido como ‘dragão’, ordenou que ele tirasse a farda. No entanto, o soldado se recusou firmemente, alegando em voz alta que a punição era injusta e pedindo um conselho de guerra.

O major Drago, então, mandou que os tambores retirassem à força a blusa do soldado rebelde, mas eles hesitaram, assustados pela grande quantidade de pessoas presentes. Enquanto isso, o condenado, em um discurso empolgado, incitava seus camaradas a ajudá-lo.

A multidão mostrava expressões de raiva e descontentamento, e um murmúrio crescente, semelhante ao som distante de um trovão, percorreu todo o quadrado. Furioso, Drago decidiu aumentar a punição de 25 para 125 chibatadas. Nesse momento, apareceu o capitão de engenheiros, que era o superior do soldado, aumentando ainda mais a tensão da situação.

O capitão alertou energicamente o major sobre a injustiça que estava prestes a cometer e pediu que lhe entregasse o soldado. Assustado, Drago concordou rapidamente, mas já era tarde: a multidão amotinada o cercou.

Colocado em grave perigo, ele decidiu fugir, assim como outros heróis da história, como Eneias. Drago se considerou afortunado por conseguir chegar a sua casa, antes que seus perseguidores o alcançassem.

Assim que entrou, os soldados forçaram as portas e, com dificuldade, ele conseguiu escapar pulando pela janela para o jardim e fugindo para mais longe.

Enquanto isso, a multidão gritava: ‘Mata o cão português! Mata esse canalha!’ As portas da casa foram arrombadas, e a massa revoltada invadiu o quarto do major, que, felizmente, já não estava mais lá.

Para aliviar o furor e o desejo de vingança, a multidão depredou a casa sem piedade. Com gritos selvagens, quebraram os móveis, e até os animais que estavam no pátio foram mortos como forma de retaliar pela injustiça do dono. Assim, de repente e sem qualquer aviso prévio, a rebelião se tornou ostensiva.

Após destruírem completamente a residência do major Drago, o 2º Batalhão de Granadeiros dirigiu-se ao Paço de São Cristóvão, onde exigiu que o imperador punisse severamente o major Drago.

Além disso, pediram que fosse concedido por escrito um compromisso de engajamento de três anos, além de igualar o salário e o tratamento ao que os soldados irlandeses recebiam.

No início, D. Pedro não estava disposto a negociar e criticou os amotinados de maneira severa e raivosa. No entanto, a confiança que as tropas alemãs tinham nele estava irrevogavelmente perdida, e elas exigiam satisfação com mais determinação do que apenas pediam.

Alguns soldados até ameaçaram usar a força para conseguir o que queriam, e tiros de fuzil mostraram que a situação era séria. Finalmente, os soldados conseguiram o que desejavam: por ordem imperial, o major Drago foi preso e levado para a Ilha das Cobras. Essa decisão parecia mais uma forma de protegê-lo da ira dos inimigos do que de puni-lo.

Foi uma imprudência mandar prender também o corajoso capitão de engenheiros que o defendeu na fortaleza, o que levou os soldados a exigirem sua libertação de forma tumultuada. Nesse contexto, também surgiu um forte sentimento de hostilidade nacional.

Os alemães utilizaram a oportunidade para sanar a frustração acumulada em relação às suas expectativas em relação aos brasileiros.

Sem pensar nas consequências, eles disparavam de suas posições, atingindo transeuntes na estrada de Minas Gerais. Até mesmo mulas, cavalos, bois e seus condutores não eram poupados.

Apesar disso, o governo não tomou medidas para conter a revolta no primeiro dia, talvez pensando que, sem resistência, ela acabaria por si mesma.

Além disso, talvez acreditassem que a situação não era grave, já que nenhum oficial havia se envolvido e consideravam essa massa descontrolada como insignificante. No entanto, o dia seguinte revelou que um grande perigo ameaçava o Rio de Janeiro.

Os soldados informaram ao 28º Batalhão de Caçadores, que estava de prontidão, estacionado na Fortaleza da Praia Vermelha, atento à revolta que havia se iniciado, e aguardando os planos subsequentes. Sem hesitar, o 28º Batalhão decidiu aliar-se ao 2º Batalhão de Granadeiros, seguindo o exemplo dos colonos irlandeses.

O primeiro ato trágico que ocorreu nesse forte foi o assassinato do major Tiola, um italiano. Ele havia conquistado o ódio de seus subordinados devido ao seu histórico de crueldades, extorsões e zombarias.

Ficha Técnica: Major Tiola

NacionalidadeItaliano
CargoOficial do Exército Imperial Brasileiro
Período de ServiçoInício do século XIX
Principais Acontecimentos– Comando: Serviu como comandante de batalhões de mercenários no Brasil.
– Crueldade: Conhecido por sua severidade e crueldade, o que lhe rendeu muitos inimigos entre os soldados.
– Revolta dos Mercenários: Foi assassinado durante a Revolta dos Mercenários em 1828, no Rio de Janeiro, devido ao ódio que seus subordinados tinham por ele.
Eventos Notáveis– Castigos Severos: Impôs punições extremamente severas, como o caso de um soldado que recebeu 800 chibatadas, levando à morte do soldado.
– Assassinato: Foi morto por seus próprios soldados durante a revolta, como resultado de sua crueldade e extorsões.

A Morte do Major Tiola

Um exemplo de suas atrocidades foi quando se disse que ele mandou castigar um soldado com 800 chibatadas por uma infração considerada insignificante, enquanto o batalhão estava sob seu comando em Pernambuco.

O soldado aguentou 500 chibatadas, mas, em um momento de desespero, ficou fora de controle, rompeu a formação e se jogou no mar. Alguns negros que estavam por perto conseguiram resgatá-lo, mas já era tarde; o pobre homem havia sucumbido a uma congestão cerebral.

Ao saber disso, Tiola ordenou que o corpo do soldado fosse trazido de volta à formação. Com a espada desembainhada e tomado por uma fúria selvagem, ele mandou que os tambores aplicassem as 300 pancadas restantes ao cadáver.

Havia muitos rumores sobre o major Tiola, e muitos deles provavelmente eram verdadeiros. Era bem conhecido que, para satisfazer seus próprios interesses, ele frequentemente desviava dinheiro do batalhão.

Assim, quando surgiu a oportunidade de se livrar desse tirano, os soldados enfurecidos não hesitaram em agir e começaram a procurá-lo por toda a fortaleza.

Desconfiado do que o aguardava, Tiola se vestiu com roupas civis na tentativa de escapar da Praia Vermelha sem ser visto. No entanto, ele foi reconhecido e atacado com pedras por um grupo furioso.

Ele ainda teria tido a chance de se salvar se o oficial que comandava a guarda tivesse decidido intervir. Esse oficial, que já havia sido ofendido pelo major em uma ocasião anterior, não parecia disposto a ajudá-lo.

Ao invés de impedir os soldados com suas baionetas, ele respondeu friamente a Tiola, que estava desesperado e implorava por socorro:

“Tenho ordens para não deixar ninguém sair da fortaleza.”

Nesse momento, Tiola foi agarrado por vários soldados, atacado com pedras e espancado com pedaços de madeira. A fúria da multidão só aumentava, e seu corpo foi horrivelmente mutilado antes que jogassem o cadáver aos pés de sua esposa, que desmaiou ao ver a cena.

O sinal para a revolta geral foi dado. As tropas, unidas aos colonos irlandeses, saíram do quartel da Praia Vermelha e começaram a saquear os estabelecimentos comerciais nas proximidades.

O governo, no entanto, permaneceu totalmente inerte, permitindo que os soldados roubassem e matassem à vontade. A maioria dos oficiais do 28.º Batalhão fugiu logo no primeiro dia, o que deixou os soldados ainda mais descontrolados.

A tensão no forte aumentava, e na capital a situação se tornava crítica. Era esperado a qualquer momento que os batalhões de estrangeiros se unissem e atacassem a cidade. Prevendo esse cenário, muitos civis começaram a se armar e a preparar seus escravos para o conflito.

Alguns oficiais do 28.º Batalhão e do 2.º de Granadeiros, confiantes em seu prestígio, tentaram restaurar a ordem, mas foram recebidos com pedras pelos irlandeses e tiros dos soldados alemães, que atacavam seus próprios superiores. Isso deixou claro que a única maneira de resolver a situação seria pela força.

O coronel Dell’Hoste, que era italiano e acreditava ter boas relações com os soldados alemães, tentou intervir como mediador durante o tumulto.

No entanto, ele foi ignorado e, para sua humilhação, foi forçado a usar um avental e levado à cozinha do batalhão, onde teve que comer uma ração de soldado, apesar de sua resistência.

“Prove a comida que você nos dá”, diziam, enquanto empurravam um prato repleto de feijão preto e arroz quase cru, forçando-o a engolir a ração até o último pedaço, usando coronhadas como forma de pressão.

Dia Sangrento

Após essas cenas de vandalismo, o sol finalmente surgiu no terceiro dia, mais intenso e sanguinolento para os habitantes da capital brasileira do que nos dois dias anteriores.

O 3º Batalhão de Granadeiros, composto em partes por alemães e irlandeses, estava aquartelado no Campo de Sant’Ana (atualmente conhecido como Campo da Honra) e se preparava para apoiar os revoltosos.

Armados com pólvora e chumbo que haviam saqueado de depósitos, e sob efeito de bebidas alcoólicas, esse grupo em estado de confusão se tornava extremamente perigoso para a cidade.

Ao irromper pelos portões do quartel, começaram a lançar uma chuva de pedras sobre os espectadores, que revidaram na mesma intensidade.

Contudo, os irlandeses, apesar de suas boas habilidades de tiro, perceberam que estavam em desvantagem numérica e decidiram voltar para o quartel em busca de mais armas.

Juntando-se aos alemães, que antes não consideravam como aliados, começaram a disparar com fúria contra os brasileiros. As balas certeiras não erraram seus alvos; em todas as direções, a multidão em pânico se dispersava, correndo desesperadamente em busca de abrigo nas ruas mais próximas.

No entanto, a fúria assassina dos soldados os seguia de perto. A lembrança dos muitos companheiros que haviam sido traiçoeiramente assassinados pelos brasileiros inflamava tanto os alemães quanto os irlandeses, levando-os a uma ira extrema.

Sem piedade, derrubavam qualquer adversário que conseguissem alcançar. Nem o grito triunfante de “viva os estrangeiros” era capaz de salvar alguém da morte; até mesmo uma criança no berço não estava segura naquele dia.

Alguns dos mais ousados se aventuraram nas ruas mais movimentadas da capital, armados com pistolas, facas e espadas, como se fossem bandidos italianos, matando sem hesitação o primeiro brasileiro que cruzasse seu caminho.

Diversos oficiais, especialmente um capitão e um ajudante do 2º Batalhão de Granadeiros, foram atacados por esse bando amotinado e tratados de forma horrenda, em especial o capitão.

Diante da situação, o governo finalmente percebeu a necessidade urgente de tomar medidas sérias para evitar uma verdadeira guerrilha e proteger a cidade e seus habitantes de maiores violências.

Mesmo assim, os rebeldes foram tratados com certa brandura; a única ação tomada foi enviar alguns oficiais como mediadores, na esperança de resolver a situação de forma amigável. Contudo, a resposta que recebiam em geral eram pedras e tiros, e os emissários voltavam aliviados por terem conseguido escapar ilesos.

Até mesmo o conde do Rio Pardo, que na época era ajudante geral do Imperador e inspetor de todas as tropas estrangeiras, foi alvo de vaias e insultos. Para escapar da perseguição dos irlandeses, ele teve que fugir.

Nome completoDom Diogo Martim de Sousa Teles de Meneses
Nome comumDom Diogo de Sousa
TítuloPrimeiro Conde do Rio Pardo
Data de nascimento17 de maio de 1755
Data de falecimento12 de julho de 1829
FormaçãoDoutorado em Matemática na Universidade de Coimbra (1789)
Carreira militarCavalaria no exército português
Capitão-geral de Moçambique1793 a 1798
Capitão-geral do MaranhãoA partir de 1798
Retorno a Portugal1808
Data de posse9 de outubro de 1809

Medidas foram finalmente tomadas para lidar com a situação; no entanto, os batalhões estrangeiros, bem armados com pólvora, chumbo, víveres e bebidas, temiam pouco os fracos batalhões de infantaria e os escassos canhões posicionados nas rotas para São Cristóvão, Campo de Santana e Praia Vermelha.

Nesse terceiro dia, continuaram a disparar contra seus adversários de forma intensa, especialmente em frente ao quartel do 3º Batalhão de Granadeiros, no Campo da Honra, onde a luta era tão feroz que revelava a profunda hostilidade entre os grupos.

Os negros, enfurecidos, mataram os infelizes alemães e irlandeses que haviam ferido, e embora seus adversários também não mostrassem misericórdia, eram relativamente mais humanos, pois matavam os inimigos de forma imediata, sem torturá-los.

O contrário ocorreu com os brasileiros, cujos atos de brutalidade ficaram evidentes nos numerosos cadáveres horrivelmente mutilados que foram encontrados nas ruas da cidade.

Entre os que sucumbiram ao ódio e à violência das facções naquele dia, havia um homem de Brunswick que teve o nariz, as orelhas e outras partes do corpo cortadas e penduradas em um cordão ao redor do pescoço.

Os irlandeses, que claramente se uniram à revolta mais para saquear do que para defender seus direitos, logo abandonaram os alemães. Em vez de lutar ao lado de seus aliados brasileiros, se lançaram ao saque dos botecos e vendas, embriagando-se a ponto de perderem a consciência.

Já em estado de vulnerabilidade, eram mortos sem piedade nas ruas pelos negros, que haviam sido armados com facas.

O conde de Rio Pardo, percebendo que não conseguiria nada pacificamente, decidiu disparar algumas balas de lanterna sobre as cabeças dos rebeldes. No entanto, os poucos soldados restantes do 3º Batalhão de Granadeiros não se intimidaram e responderam com tiros e pedradas.

Eles riam dos tiros que não atingiam ninguém e, em grupo, saíram do quartel com as baionetas armadas, atacando a tropa brasileira que há horas estava posicionada no Campo de São Ana.

NomeBalas de Lanterna
Período de UsoSéculo 19, especialmente durante a Guerra do Paraguai (1864-1870)
Função PrincipalMunição incendiária utilizada para iluminar o campo de batalha e sinalizar posições ou alvos
ComposiçãoProjéteis com pólvora misturada a substâncias incendiárias, que produziam um efeito luminoso ao serem disparados
Uso TáticoAuxiliava em operações noturnas, permitindo visibilidade mínima e desorientando o inimigo com o efeito visual
LimitaçõesAlcance e eficiência limitados; usado como recurso complementar em situações específicas de baixa visibilidade

Um único soldado alemão teve coragem de avançar até duas peças de artilharia brasileiras. Ele conseguiu assustar os artilheiros da primeira, mas, ao se voltar para a segunda, foi atingido e desintegrado por um disparo.

Seria excessivo mencionar aqui cada ato individual de coragem ou ousadia imprudente. O fato é que os alemães lutaram bravamente pela defesa de seus direitos, enquanto os irlandeses, que não tinham motivos para estar descontentes com o que lhes era oferecido, se juntaram à luta movidos pela vontade de desordem, roubo e pilhagem, agindo de forma covarde.

Alguns disparos de lanterna foram bem direcionados, mas a infantaria brasileira, finalmente, conseguiu repelir os amotinados de volta para seu quartel. Lá, eles se trancaram cuidadosamente e continuaram a atirar contra os inimigos pelas janelas.

O estrondo da artilharia, o galope dos cavaleiros, os gritos das índias, o lamento dos negros e a visão dos muitos feridos que, como espectros, cambaleavam pela cidade mostravam claramente aos habitantes da capital o grande perigo que enfrentavam.

Cada um deles tentava se proteger da melhor maneira possível, com uma resignação desesperada, para defender seus bens.

Apesar da desordem generalizada, o 2º Batalhão de Granadeiros mantinha uma forte guarda de voluntários no palácio imperial, preparado para proteger o Imperador em caso de necessidade, ciente de que a revolta era mais direcionada contra o governo do que contra D. Pedro.

Nesse contexto, surgiu a notícia de que o 2º Batalhão de Granadeiros e o 28º de Caçadores estavam prestes a marchar em direção à cidade, com o objetivo de se unir às tropas estacionadas no Campo de Sant’Ana.

Isso colocou o governo em uma situação de profunda incerteza e perplexidade.

Em primeiro lugar, porque não dispunham de forças adequadas para enfrentar essa massa resoluta; em segundo lugar, porque a luta, que até então se caracterizava por sua irregularidade, estava a um passo de se transformar em uma batalha organizada, especialmente com a informação de que vários oficiais de confiança dos soldados conduziram os revoltosos.

Eles planejavam tomar o palácio de São Cristóvão, onde se encontravam os canhões, e manter o imperador sob custódia até o desfecho da revolta.

O susto causado pela notícia foi tão grande que afetou não apenas a população do Rio, mas também a corte imperial.

Em resposta, decidiram apressadamente pedir ajuda aos almirantes que comandavam os numerosos navios franceses e ingleses estacionados no porto. Ambos, franceses e ingleses, prontamente se ofereceram para desembarcar contingentes de soldados da marinha, prontos para ajudar contra os revoltosos, caso fosse necessário.

Cerca de 1.000 homens dessa força provisória avançaram em direção a São Cristóvão com a missão de desarmar o 2º Batalhão de Granadeiros.

Esse batalhão, já sem munição e exausto após três dias de esforço e bebida, encontrou uma quantidade superior de tropas europeias bem organizadas. Não foi difícil para essas forças forçar o batalhão a se render e depor as armas, sob a promessa de anistia.

Embora os franceses tenham recebido ordens para desarmar os alemães, havia uma falta de entendimento entre eles e os brasileiros, especialmente com os negros, que naquele momento se reuniam em grande número, curiosos com a situação.

Com poderes limitados para agir contra os europeus, os negros não dispararam, mesmo quando o 2º Batalhão de Granadeiros ainda atirava contra os brasileiros.

Qualquer morador que não respondesse imediatamente e de forma satisfatória ao grito de “quem vem lá?” era sumariamente fuzilado pelos soldados da marinha francesa.

Os ingleses, que tinham ordens apenas para proteger o Imperador e não se envolver no conflito, permaneceram como observadores silenciosos da cena.

Tipo de auxílio solicitadoAjuda dos almirantes dos navios franceses e ingleses
Número de soldados desembarcadosAproximadamente 1.000 soldados da marinha
Objetivo da força europeiaDesarmar o 2º Batalhão de Granadeiros
Estado do 2º Batalhão de GranadeirosSem munição e exausto após três dias de esforço e bebedeira
Situação das tropas europeiasBem organizadas e em maior número
Resultado do confrontoForçou o 2º Batalhão a capitular sob promessa de anistia
Desarmamento dos alemãesOrdenado pelos franceses, mas sem harmonia com brasileiros e negros
Reação dos negrosNão dispararam, mesmo sob provocação do 2º Batalhão
Comportamento dos soldados francesesFuzilavam moradores que não respondessem ao chamado
Comportamento dos soldados inglesesObservadores silenciosos, apenas protegendo o Imperador

Dessa forma, o 2º Batalhão de Granadeiros foi desarmado sem que houvesse a necessidade de medidas de força contra eles. Essa rendição facilitou a submissão do 3º Batalhão, que se entregou rapidamente após receber a notícia do ocorrido.

O 28º Batalhão também se reorganizou rapidamente, mas as autoridades não ousaram desarmá-lo, possivelmente por temer que, com o apoio dos colonos estacionados na Praia Vermelha, pudesse reagir.

Essa reação poderia ter consequências desastrosas, dada a boa posição da fortaleza.

Para evitar a presença do chamado “Batalhão do Diabo” — muito odiado no Rio de Janeiro por seus excessos anteriores —, foi dada a ordem para que se juntasse ao exército que combatia na Cisplatina.

Assim, a revolta foi controlada, e o governo apressou-se a formar uma comissão para identificar os líderes do movimento.

No entanto, foi descoberto que não havia nenhum plano organizado; a insatisfação resultou principalmente da desigualdade no tratamento dos alemães e irlandeses, além das várias promessas feitas aos estrangeiros que não foram cumpridas.

O conselho de guerra condenou à morte um soldado responsável pela morte do ajudante do 2º Batalhão de Granadeiros, enquanto outros foram sentenciados a trabalho forçado por tempo indeterminado. Com o tempo, essas penas foram atenuadas, e após dois ou três anos, muitos desses indivíduos eram vistos passeando livremente pelas ruas da capital.

Desarmamento do 2º BatalhãoAconteceu sem medidas de força
Submissão do 3º BatalhãoAconteceu rapidamente após a notícia do 2º Batalhão
Situação do 28º BatalhãoNão foi desarmado por temor a uma reação com apoio dos colonos da Praia Vermelha
“Batalhão do Diabo”Muito odiado no Rio de Janeiro por seus excessos anteriores
Destinação do “Batalhão do Diabo”Enviado para se juntar ao exército que combatia na Cisplatina
Resultado da revoltaControlada e levou à formação de uma comissão para identificar líderes
Causa da insatisfaçãoDesigualdade no tratamento de alemães e irlandeses e promessas não cumpridas
Sentença do conselho de guerraUm soldado condenado à morte; outros a trabalho forçado perpétuo
Atuação dos condenadosPenas atenuadas; após 2 ou 3 anos, eram vistos livres nas ruas da capital

Os irlandeses, que demonstraram ser ineficazes no serviço militar brasileiro e foram considerados os principais responsáveis pela revolta, foram rapidamente reembarcados e repatriados. Enquanto isso, o 28º Batalhão de Caçadores desembarcou em Santa Catarina e começou a avançar por terra em direção a Porto Alegre.

FIM

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