Lendas de Arapeí

Arapeí, uma joia escondida no Vale Histórico, destaca-se pelas trilhas e pelas lendas de tesouros enterrados. A vila, que já foi um refúgio para degredados, servia de esconderijo para criminosos imperiais, que se abrigavam com seus espólios nas densas florestas e cavernas, escapando das autoridades.

A cidade, que foi considerada “morta” por Monteiro Lobato, hoje ganha um novo fôlego, renascendo com o turismo que valoriza suas lendas e sua cultura.

Leia aqui: Lendas de Bananal

Ficha Técnica

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Localização GeográficaEstado de São Paulo, região do Vale do Paraíba
História e Fundação– Arapeí era um pouso de tropas no Vale Histórico, fundado no século XVIII, a partir da 9ª Sesmaria de Bananal.
– Originalmente, o município chamava-se Alambari, (aquele peixinho cor de prata).
– Em 30 de novembro de 1944, o nome foi alterado para Arapeí, que em tupi significa “rio das baratas”, em referência à sua cor prata.
Desenvolvimento Econômico– Por volta de 1950, com a criação da Via Dutra, a economia da cidade entrou em declínio.
– Desde então, a cidade investiu em turismo e artesanato.
– Em 19 de maio de 1991, Arapeí se desmembrou de Bananal e se tornou uma cidade independente.

A Estrada Real

No século XV, a coroa portuguesa decretou a construção e manutenção de estradas oficiais, designadas ‘Caminhos Reais’.

Toda a produção econômica do reino de Portugal, Brasil e Algarves deveria ser escoada por essas vias, e o propósito dessa instrução Régia era assegurar a arrecadação adequada de impostos.

A primeira região do reino a contar com uma “via Real” foi a ilha da Madeira. No século XVII, durante o período colonial, em virtude da extração de ouro em Minas Gerais, foram edificadas no Brasil Estradas Reais que interligavam Minas à corte do Rio de Janeiro.

Os entroncamentos das estradas que atravessavam São Paulo eram, à época, conhecidos como “Caminho Novo de Piedade”.

Esses atalhos foram estabelecidos com o propósito de suprir as regiões nas quais o ouro era extraído, além de também servirem como rotas alternativas, especialmente quando esse caminho se tornou alvo de bandidos que perpetravam ataques às caravanas de comerciantes de ouro.

Os três caminhos

A Estrada Real era composta por três rotas distintas: o “caminho dos diamantes”, que se estendia de Diamantina a Ouro Preto (azul), o “caminho velho” (vermelho), que em Paraty é conhecido como caminho do ouro, e o “caminho novo” (amarelo), que foi implementado posteriormente como uma iniciativa portuguesa para otimizar a conexão entre o Rio de Janeiro, Ouro Preto e Diamantina.

Caminhos e Descaminhos

Nas ermas décadas do século XVIII, os comerciantes que transitavam pela Estrada Real, fosse para transportar ouro e diamantes até o porto de Paraty, no Rio de Janeiro, ou mantimentos provenientes do Vale do Paraíba, como fumo, cachaça e carne-seca, costumavam manter seus testamentos ou confissões em dia.

O motivo era que atravessar os caminhos da Estrada Real nessa época era uma grande aventura. Mortes de contrabandistas e roubos de cargas acompanhados de assassinatos eram frequentes nessas trilhas.

Os tropeiros andavam sempre armados e, à noite, que era o período mais perigoso, revezavam-se nas rondas pelo acampamento. O mesmo acontecia com os canoeiros, que cruzavam o Rio Paraíba transportando cargas de ouro, sempre escoltadas por capangas armados, geralmente capitães do Mato das fazendas próximas.

O Assalto

Uma antiga lenda de Arapeí narra a história de um grupo de degredados portugueses, liderados por um bandido chamado “Boca de Ouro”, que encontrou um jeito fácil de sobreviver no Novo Mundo: saquear as comitivas de tropeiros que transportavam ouro e outros bens valiosos das cidades históricas de Minas Gerais até a capital do Império, o Rio de Janeiro.

A história conta que Boca de Ouro e seu bando tiveram uma ideia ainda mais audaciosa: em vez de atacar os tropeiros, que levavam apenas cargas modestas, por que não roubar uma casa de registro do ouro, a famosa “casa do quinto”, onde era cobrado o imposto da época?

Esses casarões, geralmente situados no alto da serra, serviam de abrigo para vários soldados do império, que protegiam os cobradores de impostos do rei de Portugal.

Esses postos eram construídos estrategicamente ao longo da Estrada Real. A casa do quinto menos protegida na época, de acordo com Boca de Ouro, ficava em Guaratinguetá, descendo pela Serra dos Pilões.

Dizem que os assaltantes se disfarçaram de soldados do Regimento dos Dragões (como mostra a foto ao lado) e atacaram os soldados de forma traiçoeira.

Segundo a lenda, um dos soldados sobreviveu e conseguiu escapar, o que levou os assaltantes a fugirem às pressas, carregando apenas o que cabia nas mulas: duas grandes caixas cheias de lingotes de ouro.

A Cachoeira do Criminoso

As histórias que resistiram ao tempo e ainda são contadas dizem que, ao chegar em Arapeí, Boca de Ouro e seu bando decidiram esconder o ouro em um lugar de difícil acesso, aguardando que a coroa portuguesa o esquecesse. O local escolhido foi o alto da cachoeira, hoje chamada de “cachoeira do criminoso”.

No entanto, um dos assaltantes teria tentado vender um dos lingotes de ouro em Bananal, sendo descoberto pela guarda do capitão-mor Manoel da Silva Reis.

Os bandidos seriam condenados à forca, mas fizeram um acordo com o capitão-mor: revelariam o paradeiro do ouro em troca de cumprir alguns anos de prisão e, posteriormente, serem enviados em um navio para a África.

As quadrilhas que atuavam na Estrada Real de Minas na época do ciclo do ouro: (VIRE O CELULAR PARA VER A TABELA)

QuadrilhaAtuaçãoCaracterísticasDesfecho
MantiqueiraRegião do Alto da Mantiqueira– Extremamente organizada e chefiada pelo “Montanha”.Desmantelada em 1786 após diligências feitas por Tiradentes.
– Roubava ouro fazendo falsas blitze nas estradas usando fardas roubadas de policiais mortos.
Mão de LuvaRio de Janeiro e Minas Gerais– Contrabandistas, comandados por um chefe que usava luva.Desarticulada pelas tropas do governo de Minas, a pedido do governador Luiz da Cunha Menezes.
– Faziam comércio de ouro e matavam apenas quando atacados.
Vira-SaiaNorte de Minas Gerais (próximo à Serra do Grão Mogol)– Considerados altamente perversos; difíceis de capturar.Grupo se desfez no começo do século XIX e possivelmente migrou para a Bahia.
– Criaram o mito de ter um “pacto com o diabo”.
Sete OrelhasMinas Gerais– Chefiada por Januário Garcia Leal, que portava um colar com sete orelhas humanas como vingança.Integrantes desapareceram no sertão e nunca mais foram vistos.
– Desorganizada e usava formas extremamente cruéis de matar.

A Lenda da Caverna do Alambary

A cidade de Arapeíé é repleta de relatos de tesouros enterrados.

Ainda assim, não há nenhum registro histórico que explique por que os piratas e degredados escolheram esse povoado, tampouco se existe alguma superstição ligada ao nome da cidade, que em tupi-guarani faz referência à cor prateada do rio Alambary.

Esse rio dá nome a uma gruta em Arapeí, conhecida como “Caverna Alambary”, outro lugar famoso por estar associado a tesouros escondidos.

A caverna, localizada no topo da Serra da Bocaina, é cheia de histórias sobre degredados que vagavam pela região em busca de riquezas durante o ciclo do ouro.

Dentro dessa caverna há piscinas naturais, onde, em tempos antigos, a água não chegava às estalactites. Acredita-se que nesses locais estejam enterradas arcas cheias de lingotes de ouro e pedras de diamante.

Histórias contadas pelos antepassados dos moradores de Arapeí mencionam os esconderijos de piratas e bandeirantes nas cavernas de Alambary.

Porém, até hoje ninguém conheceu uma pessoa que tivesse encontrado sequer um lingote de ouro; mesmo assim, a prefeitura da cidade decidiu proibir os turistas de visitarem o local — algo, no mínimo, contraditório.

Cidades Mortas

Arapeí é mencionada por Monteiro Lobato em seu livro “Cidades Mortas”. Os textos do livro, publicados em 1919, foram escritos no período em que Lobato atuou como promotor público em Areias, de 1907 a 1911.

Os contos retratam a decadência das cidades do interior de São Paulo, especialmente no Vale do Paraíba, após o declínio das lavouras de café.

Inspirações Folclóricas

Certas lendas infantis antigas do Vale do Paraíba sugerem qual pode ter sido a inspiração de Monteiro Lobato para criar a personagem Cuca.

Dizem que, em Arapeí, existia uma antiga lenda sobre a Gruta do Alambary, onde vivia uma idosa indígena que praticava suas bruxarias por um preço acessível. Curiosamente, ela era descrita como tendo um rosto de jacaré.

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