Lendas de Bananal

Ficha Técnica

CidadeBananal
LocalizaçãoEstado de São Paulo, Região do Vale do Paraíba
Fundação10 de julho de 1783
OrigemO nome Bananal vem de “Banani,” dado pelos índios Puris ao rio que cortava a localidade, significando “rio sinuoso.” A cidade foi inicialmente chamada de “Bananá” e, por fim, “Bananal.”
Importância HistóricaFoi um dos municípios mais prósperos do Ciclo do Café. Em 1854 a produção de Bananal era maior que em outras regiões paulistas. O café era comercializado com a Europa e com os EUA. No 2º reinado, Bananal era o centro da economia nacional e a terceira receita municipal do Estado.
RiquezaTão rica a ponto de avalizar empréstimos feitos em bancos ingleses para o Império
CuriosidadeA cidade foi tão rica que, por algum tempo, teve moeda própria
Estância TurísticaBananal é um dos 29 municípios paulistas considerados estâncias turísticas pelo estado de São Paulo

A Passagem de Dom Pedro I por Bananal

Em 1822, Dom Pedro I realizou uma longa viagem pelo Vale do Paraíba, onde se encontrou com os barões do café, figuras poderosas da época.

O objetivo do trajeto era firmar alianças com os fazendeiros e apaziguar a situação política conturbada na província de São Paulo, que enfrentava um princípio de motim promovido por parte da elite, que ameaçava romper com a Quinta da Boa Vista.

A viagem do Príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sobretudo, preparava o terreno para a Independência do Brasil.

No dia 15 de agosto de 1822, a comitiva de Dom Pedro I adentrava a então Fazenda Três Barras, em Bananal, para visitar o capitão Hilário Gomes de Almeida.

De acordo com os historiadores, o fazendeiro estava doente e acamado, e a conversa com o imperador teria ocorrido no próprio quarto do enfermo. Contudo, o capitão Hilário encarregou os filhos de acompanhar o príncipe nas léguas seguintes, reforçando a comitiva.

O Caso Bracuí

Os grandes cafeicultores de Bananal foram protagonistas de um caso emblemático no período do Brasil Imperial. Em novembro de 1831, o tráfico de escravos africanos para o Brasil foi proibido pela primeira vez.

No entanto, os produtores de café do Vale do Paraíba ignoraram a “Lei 581 de 1850” e intensificaram o tráfico de escravos.

Conforme o senso comum da elite daquele período, a nova lei era vista apenas como “para inglês ver”.

O caso começou em 11 de dezembro de 1852, quando a polícia do Brasil Imperial interceptou o desembarque ilegal de 500 africanos vindos de Quelimane e Moçambique no porto do Bracuí, perto de Angra dos Reis, em violação ao ato em vigor.

O evento ficou conhecido como “O Caso Bracuí”. Esse episódio levou a investigações que resultaram na prisão de traficantes e na incriminação de figuras influentes, como o Comendador Luciano José de Almeida, o Major Antônio José Nogueira e Pedro Ramos Nogueira, todos grandes fazendeiros de Bananal.

Apesar de o processo ter sido iniciado, todos os acusados foram absolvidos, evidenciando a resistência da elite rural à aplicação da lei. A imprensa, em sua maioria, apoiou os fazendeiros, vendo a imposição da lei como uma submissão aos interesses ingleses.

O Tesouro Oculto: Após o incidente conhecido como “O Caso Bracuí”, uma narrativa sugere que os proprietários de terras em Bananal, apreensivos com a possibilidade de serem condenados e perderem seus bens, enterraram gamelas com ouro em buracos secretos nas fazendas da região.

As Chamas Azuis de Bananal: Reza a lenda que, nas noites escuras, chamas azuis podem ser vistas flutuando pelos antigos caminhos usados pelos traficantes de escravos no Vale do Paraíba.

Essas chamas seriam os espíritos dos africanos que morreram nos porões dos navios, e aparecem para guiar os viajantes em perigo.

No entanto, se alguém tentar seguir as chamas com intenções egoístas ou maldosas, elas desaparecem, deixando a pessoa completamente perdida.

O Antigo Casarão Assombrado

Manuel de Aguiar Valim, nascido em Bananal em 4 de abril de 1861, foi proprietário do Solar Valim, um importante casarão no centro da cidade, e hoje considerado um importante patrimônio histórico.

Além de uma casa onde a família passava os finais de semana, o casarão foi ponto de encontro dos barões do café durante o período colonial.

Valim foi um dos maiores traficantes de escravos de São Paulo, controlando 80% das terras de Bananal e detendo 1% de todo o papel-moeda do país.

Além disso, era delegado de polícia da Província de Bananal. Mesmo com todo esse poder, ele não conseguir fugir das garras da justiça e foi responsabilizado pelo caso de Bracuí.

A Maldição do Solar Valim: Dizem que o Solar Valim, hoje um importante patrimônio histórico, é amaldiçoada. O casarão guarda segredos sombrios, que sumiram com o vento — de negociatas escusas entre os barões de café, castigos, açoitamento, estupros, que foram praticados ou imputados nesse ambiente.

Dizem que, depois da morte de Manuel Valim, nenhum dono conseguiu permanecer no casarão por muito tempo, por causa do ambiente pesado.

Mapa do Tesouro: Outra lenda afirma que no antigo casarão há um mapa do tesouro escondido.

Até hoje ninguém soube do paradeiro desse pergaminho, contudo, algumas pessoas conjecturam que ele estaria escondido atrás da moldura de quadro antigo, no fundo falso de uma cômoda colonial, ou até mesmo criptografado no desenho de uma pintura da época.

Os moradores antigos, que ouviram dos pais essa história, afirmam que Manuel Valim escondeu o ouro com medo das penalizações referentes ao Caso Bracuí.

O Julgamento Eterno: Segundo uma antiga história, Manuel de Aguiar Valim, apesar de seu poder, riquezas e influência como delegado de polícia da Província de Bananal, nunca conseguiu alcançar o Status de Barão, devido ao escândalo do “Caso Bracuí”, que manchara a sua biografia.

A lenda diz que seu espírito é visto circulando pela câmara dos vereadores de Bananal, pleiteando até os dias de hoje o título de Barão de Bananal.

A história nos relata que Valim teria solicitado o título em 1859; o qual foi negado pelo Ministro Marquês de Abrantes, que indeferiu o pedido em uma carta, datada de 06 de março de 1859, na qual alegou a questão do tráfico negreiro do Bracuí como impedimento.

Vigília dos Barões: Outra lenda conta que o Solar Valim ainda serve como ponto de encontro dos barões do café, mesmo após a morte deles; onde as reuniões nunca têm fim e só terminam quando uma das almas consegue purgar suas penas terrenas.

Nas noites mais escuras, luzes misteriosas iluminariam o interior do casarão, como se os antigos barões ainda se reunissem para discutir negócios obscuros.

Os seguranças e historiadores que cuidam do local afirmam ouvir vozes murmurando em um idioma estranho, misturadas com o som de taças tilintando, enquanto uma presença fria parece observar quem passa por perto.

A Lenda do Olhar de Valim: Manuel Valim, conhecido por seu poder e riqueza, era temido por muitos, e uma das características mais marcantes era o olhar intimidante.

Conta-se que esse olhar não perdeu sua força nem mesmo após a morte.

Após seu falecimento, começou a circular uma lenda sinistra: aqueles que ousam encarar a pintura ou o retrato de Valim no Solar afirmam que os olhos dele começam a se mover, seguindo cada movimento do observador.

Fazenda Resgate

Outra importante propriedade, símbolo do período colonial foi a Fazenda Resgate, localizada no Vale do Paraíba.

Foi adquirida por Manuel Aguilar Valim em 1817. Sob sua administração, a fazenda se tornou um importante centro de produção de café, refletindo o auge da economia cafeeira na região.

Escravidão na Fazenda

Durante sua gestão, a Fazenda Resgate empregou extensivamente o trabalho escravo. Em seu período de maior atividade, a fazenda chegou a manter cerca de 600 escravizados.

Esses trabalhadores enfrentavam condições extremamente severas e desumanas, evidenciando a exploração brutal e o sofrimento associados à vida nas grandes propriedades cafeeiras da época.

Além da exploração brutal dos escravizados, Valim também se destacou negativamente por desobedecer a legislação vigente contra o tráfico de escravos. Em 1831, ignorou a lei e continuou a trazer pessoas escravizadas.

O Canto do Escravizado: Dizem que ao caminhar pela fazenda durante a noite, é possível ouvir um canto triste e solitário vindo da antiga senzala, semelhante a um lamento de vozes distantes.

Olhos na Escuridão: Há também a lenda dos olhos vermelhos. Conta-se que, ao cair da noite, na antiga senzala, surgem olhos vermelhos que observam os arredores da fazenda. Segundo a lenda, esses olhos pertencem aos espíritos dos capatazes que, devido aos abusos cometidos contra os escravizados, não conseguiram ascender aos céus após a morte.

Outras pessoas acreditam que esses olhos pertençam ao Saci Pererê, criatura da mitologia brasílica que tem uma perna só e possui olhos vermelhos.

A Botica do Brasil Imperial

Em Bananal, existe a farmácia mais antiga do Brasil. Inaugurada em 1830 com o nome de “Pharmácia Imperial” pelo francês Tourin Domingos Mosnier, o local abriga hoje uma farmácia comum, descaracterizada do projeto original de Tourin. Veja como era e como está:

O boticário francês liderou o negócio por 30 anos, até vender a farmácia ao coronel Valeriano José da Costa. Em 1889, com a Proclamação da República, surgiu uma pressão política para que o estabelecimento trocasse de nome, já que fazia alusão ao extinto Império.

E foi assim que em 1889 a “Pharmacia Imperial” deu lugar à “Pharmacia Popular”, nome que perdurou até o encerramento das atividades.

Com a morte do proprietário em 1918, a farmácia mudou novamente de dono, sendo adquirida pelo Coronel Graça.

Este, por sua vez, transferiu a propriedade para seu filho, Ernani Graça, que logo seria eleito prefeito de Bananal por dois mandatos.

Após o falecimento de Ernani, a farmácia passou para seu filho, Plínio Graça, que também foi prefeito da cidade por dois mandatos.

Plínio foi o último proprietário da farmácia em funcionamento, vindo a falecer em 2011. Os móveis e objetos antigos da farmácia foram vendidos a colecionadores, uma vez que o filho de Plínio precisou de fundos para manter o local e custear o tratamento do pai.

Histórico da Pharmácia

1830Inauguração com o nome Pharmacia Imperial
1860Coronel Valeriano José da Costa adquire a farmácia de seu antigo proprietário
1889O estabelecimento passa a se chamar Pharmacia Popular
1918Coronel Graça compra a farmácia e a repassa a seu filho, Ernani Graça
1956Plínio Graça assume a farmácia
2011Em 30 de junho, Plínio Graça morre aos 87 anos
2011Pouco depois do falecimento de Plínio Graça, a farmácia é fechada e surgem rumores de venda do acervo

Lenda: Roubo da Sabedoria Ancestral: A lenda narra que Mosnier, influenciado pela riqueza que o café brasileiro proporcionava, chegou à cidade de Bananal disposto a tornar-se um barão do café.

Porém, ao fazer uma visita às terras que pretendia comprar em Bananal, teria conhecido o pajé “Araribóia” que lhe mostrou alguns remédios ancestrais, que eram muito mais eficazes que os “emplastos” e tratamentos absurdos usados pelos Europeus na idade média. Entre esses tratamentos antiquados e absurdos, em comparação com os dos indígenas da América do Sul, encontravam-se:

SangriasRemoção de sangue para “equilibrar os humores” do corpo.
Clisteres (Enemas)Uso de enemas com ingredientes bizarros, como mercúrio ou fumaça de tabaco.
Uso de Fezes e UrinaAplicação de fezes de vaca ou urina em feridas como cataplasmas.
TrepanaçãoPerfuração do crânio para “liberar espíritos malignos” ou aliviar a pressão cerebral.
Uso de Arsênico e ChumboUso de ingredientes tóxicos como arsênico e chumbo em medicamentos.

Contam que, fascinado com a receita indígena, o farmacêutico abandonou o sonho de ser fazendeiro, e viu uma oportunidade de fazer fortuna com a venda de remédios na Europa.

Mosnier ofereceu grandes somas de dinheiro em troca da receita do remédio de Araribóia. O curandeiro, porém, recusou, afirmando que o conhecimento não poderia ser vendido.

Inconformado, Mosnier teria pagado para outro índio espioná-lo e fazer anotações da receita.

No entanto, a lenda diz que Mosnier não conseguiu aplicar corretamente os ingredientes à fórmula dos fármacos. Irado, o farmacêutico consultou o índio que havia espionado o pajé.

O índio, entretanto, informou-lhe que os ingredientes só funcionariam após o ritual espiritual de fumaça realizado pelo pajé. Enganado, o farmacêutico pediu o dinheiro de volta, mas o indígena se recusou a devolver, dizendo: “Você pediu a receita e eu a dei.”

A Paisagem mais Bonita do Brasil

Já imaginou contemplar, do alto de uma cachoeira em São Paulo, as praias do Rio de Janeiro? Depois de uma trilha de uma hora pela Mata Atlântica, na Serra da Bocaina, você chega à Cachoeira do Bracuí, em Bananal.

A cachoeira possui uma piscina com “borda infinita” e oferece uma vista absurda da Baia de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro.

A Lenda: Segundo alguns relatos antigos, os índios Puri subiam essa trilha para vigiar a chegada das caravelas dos invasores portugueses. Ao detectar as embarcações, os índios emitiam sinais de fumaça para alertar as outras tribos, que se preparavam para o ataque.

Em sua passagem pelo Vale do Paraíba, Dom Pedro Fez o Seguinte Itinerário:

14 de agosto1822Rio de Janeiro, Rio de JaneiroO príncipe Dom Pedro I saiu da Quinta da Boa Vista.
14 de agosto1822Santa Cruz, Rio de JaneiroPrimeira parada na Fazenda de Santa Cruz, casa de veraneio da família imperial, apenas para pernoitar.
15 de agosto1822Bananal, São PauloParada na Fazenda Três Barras, que pertencia ao capitão Hilário Gomes de Almeida.
17 de agosto1822São José do Barreiro, São PauloParada na Fazenda Pau D’Alho, pertencente ao capitão Hilário Gomes de Almeida, que estava doente e recebeu o imperador na cama.
17 de agosto1822Areias, São PauloHospedou-se na casa do capitão-mor Domingos da Silva, enquanto os soldados pernoitaram fazendo guarda aos pés de uma figueira.
18 de agosto1822Cachoeira Paulista, São PauloParada rápida apenas para almoço.
18 de agosto1822Lorena, São PauloParada importante do ponto de vista político, hospedou-se na casa do capitão-mor Ventura José de Abreu; cumpriu agenda pública na cidade, plantou uma palmeira, visitou a Casa de Câmara e Cadeia e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
19 de agosto1822Guaratinguetá, São PauloHóspede do capitão-mor Manoel José de Melo; aumento da comitiva com novos seguidores; visitou a capela de Nossa Senhora Aparecida, onde fez uma promessa.
20 de agosto1822Pindamonhangaba, São PauloHospedou-se no sobrado do monsenhor Ignácio Marcondes de Oliveira Cabral; na cidade, muitos se ofereceram para integrar a guarda de honra do príncipe, homenageados com um monumento na praça central e um panteão na igreja de São José.
21 de agosto1822Taubaté, São PauloRecebido na casa do cônego Antônio Moreira da Costa; moradores esconderam suas filhas devido à fama de mulherengo do monarca.
22 de agosto1822Jacareí, São PauloImpaciente, atravessou o rio a cavalo, trocou as calças molhadas com um morador local; hospedou-se na casa do capitão-mor Cláudio José Machado.
23 de agosto1822Mogi das Cruzes, São PauloHospedou-se na casa do capitão-mor Francisco de Mello; assistiu à missa na Igreja de Sant’Ana, hoje catedral.
24-25 de agosto1822Penha de França, São PauloDormiu ali na noite de 24 para 25 de agosto; assistiu à missa na igreja matriz.
25 de agosto (manhã)1822São Paulo, São PauloRecebido por vereadores, religiosos e a população em frente à Igreja do Carmo.
7 de setembro1822São Paulo, São PauloDia histórico em que a Independência do Brasil foi proclamada.

3 comentários em “Lendas de Bananal

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  1. Boa noite, prezado Professor Diego,

    Fiquei encantado com o texto sobre as lendas da cidade de Bananal. Meu nome é Luiz Alfredo, sou natural de Lorena/SP e moro em Bananal desde 2017, onde atuo como servidor municipal. Desde que me mudei para cá, tenho me maravilhado com o potencial turístico e histórico desta bela cidade.

    Atualmente, mantenho um stand na feira dos produtores e artesãos da cidade, onde comercializo produtos personalizados, como cartões postais, ímãs de geladeira, entre outros. Ao ler seu post, imaginei que esse material poderia se transformar em uma publicação impressa. Você já considerou a ideia de publicar esses textos em um encarte?

    Acredito que seria um produto de grande valor histórico e cultural para todos que visitam Bananal. Deixo aqui minha sugestão e meu interesse em oferecer este material no meu stand.

    Atenciosamente,
    Luiz Alfredo Rizato

    1. Boa noite, Luiz Alfredo,

      Fico muito contente em receber um retorno positivo, ainda mais de alguém que aprecia a nossa cultura “valeparaibana”. O texto que publiquei faz parte de uma pesquisa maior que estou desenvolvendo para um livro sobre a cultura do Vale do Paraíba. Fiquei muito honrado com sua sugestão de transformar esse material em uma publicação impressa e com o interesse em levá-lo ao seu stand.

      Se quiser utilizar os textos, peço apenas que mencione meu nome como autor/pesquisador. Isso contribuirá para o pedido, que farei futuramente, de financiamento junto à prefeitura da minha cidade (São José dos Campos) para a publicação do meu livro.

      Muito obrigado novamente pelo contato e pela sugestão.
      Abraço,
      Professor Diego

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