Guaratinguetá é uma cidade histórica localizada no Vale do Paraíba, entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Fundada em 13 de junho de 1630, com a edificação de uma capela em homenagem a Santo Antônio, a cidade é o berço de Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro, nascido em 1739. Foi também em suas águas que, em 1717, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi encontrada.
Ficha Técnica
| Fundação | 13 de junho de 1630 |
| Na Região | Município mais antigo do Vale do Paraíba |
| Localização | Vale do Paraíba, estado de São Paulo |
| Importância Histórica | Uma das cidades mais importantes durante o Brasil imperial, devido à cultura de cana-de-açúcar, café e leite. |
| História Religiosa | Em 1739, nasceu em Guaratinguetá Antônio Galvão de França, o Frei Galvão, primeiro santo católico brasileiro. |
| Turismo Religioso | Importante ponto turístico de caráter religioso; desenvolveu o Circuito da Fé junto com Aparecida e Cachoeira Paulista. |
| Cultura e Educação | Na época da monarquia, era a cidade com a cultura mais efervescente da região; possuía teatros, escolas, cursos de odontologia, comércio; casas de espetáculos, Clube de Regatas, Derby, Jóquei clube… |
| Origem do Nome | Origem tupi; “Guaratinguetá” significa “muitas garças” (gûyrá: pássaro, ting: branco, garça: literalmente, “pássaro branco”). |
| Carnaval | Famoso por seu carnaval e suas escolas de samba: “Bonecos Cobiçados” e “Embaixada do Morro”. |
A Passagem de Dom Pedro I por Guaratinguetá

Em 1822, Dom Pedro I, então príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, percorria as cidades do Vale do Paraíba em busca de apoio político e militar, poucos dias antes de proclamar a Independência do Brasil, em 7 de setembro, com o famoso grito às margens do riacho Ipiranga.
No dia 19 de agosto de 1822, o grupo liderado por Dom Pedro chegou à cidade de Guaratinguetá, que, à época, constituía o núcleo econômico do império, devido à sua expressiva produção de café.
Em Guaratinguetá, Dom Pedro hospedou-se na residência do capitão-mor Manoel José de Melo. O imóvel que serviu de alojamento a Dom Pedro não existe mais.
Na cidade, a comitiva do príncipe teria aumentado com a adesão de novos seguidores, formando uma espécie de guarda de honra.
Dom Pedro também tinha um compromisso público de grande relevância em Guaratinguetá: a visita à capela de Nossa Senhora Aparecida, situada no atual município de Aparecida.
A capela era um importante ponto de peregrinação católica, pois o pequeno templo havia sido construído para abrigar a imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada na região em 1717 e, posteriormente, proclamada padroeira do Brasil.
Dom Pedro rezou na capela e fez uma promessa: se tudo corresse bem, ele declararia Nossa Senhora Aparecida padroeira do Brasil independente.
Entretanto, a memória do príncipe não parecia ser das melhores, pois, após ascender ao trono como imperador, escolheu São Pedro de Alcântara como seu padroeiro.
A Passagem de Dom Pedro II por Guaratinguetá

Em 1884, Dom Pedro II viajava com a família pelas cidades do Vale do Paraíba. O Imperador buscava apoio em meio ao descontentamento dos nobres com o regime monárquico, devido às leis que apontavam para o fim definitivo da escravidão, entre elas: Lei Eusébio de Queirós (1850), Lei do Ventre Livre (1871) e Lei dos Sexagenários (1885).
Às 14h40, do dia 6 de novembro de 1884, Dom Pedro II, a Imperatriz Thereza Cristina, a Princesa Isabel e o marido Conde D’Eu chegavam a Guaratinguetá, onde foram recepcionados brevemente na estação de trem e seguiram para o palacete do Visconde de Guaratinguetá, onde jantaram ao som de uma banda.
Após o jantar, visitaram a igreja Matriz e a Santa Casa de Misericórdia. A Imperatriz desejava visitar a capela de Nossa Senhora Aparecida, mas Dom Pedro II recusou, talvez por precisar embarcar para São Paulo.
O Visconde de Guaratinguetá expressou sua decepção pela negativa, especialmente porque havia preparado a igreja para a recepção imperial.
A visita foi breve e menos pomposa do que o esperado, o que frustrou o Visconde, que não pôde presenciar uma segunda visita do Imperador em 1886 devido à sua morte em 1879.

Circuito da Fé: Aparecida, Cachoeira Paulista e Guaratinguetá

A cidade de Guaratinguetá faz parte de um importante circuito da fé católica do Brasil. Esses centros de peregrinação incluem: o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil; o Museu do Frei Galvão, primeiro santo brasileiro nascido em Guaratinguetá; a Comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista, um dos maiores movimentos de evangelização do país; e o Santuário Diocesano de Santa Cabeça, dedicado ao turismo religioso e à intercessão por enfermidades relacionadas à cabeça.
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Frei Galvão
Antônio de Sant’Anna Galvão nasceu em Guaratinguetá em 1739, em uma família rica e religiosa. Filho do capitão-mor da cidade e influenciado pela mãe devota, ele estudou com jesuítas na Bahia aos 13 anos e, ao voltar para Guaratinguetá aos 20, ingressou na ordem franciscana.

Dedicou-se ao amor ao próximo e, embora tenha nascido em Guaratinguetá, passou a maior parte da vida em São Paulo, onde ganhou fama de santidade.
Frei Galvão é conhecido por seus milagres envolvendo “pílulas” – pequenos papéis com orações de Maria Imaculada. Uma história famosa é a de um homem com cálculos renais que, após tomar essas pílulas, se recuperou da dor.
Ele foi canonizado em 2007 pelo Papa Bento XVI, no Campo de Marte, em São Paulo, tornando-se o primeiro santo brasileiro e o primeiro canonizado fora do Vaticano.
As Lendas
Procissão das Almas

Segundo os espiritualistas, a alma das pessoas que morreram sem ter tempo para resolver seus litígios costuma vagar errante pelo mundo.
No entanto, em Guaratinguetá, as almas dos mortos não vagam sozinhas; por algum motivo escatológico, elas se juntam e saem em procissão.
No bairro conhecido como Alto das Almas (nome sugestivo), há rumores sobre um cortejo invisível, no qual as almas penitentes percorrem as ruas após as três da madrugada.
A conhecida folclorista Thereza Camargo Maia relata sobre a lenda:
“De longe, é possível escutar o murmúrio das orações dessa procissão sem música, sem cantos, sem sinos… — Na noite alta, sem data precisa, a procissão sobe as ladeiras dos bairros Morro das Almas e São João.
O cortejo fúnebre pode ser ouvido, mas nunca visto, como relataram os antigos moradores de Guaratinguetá.”
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| Questionamentos |
|---|
| 1. Pelo fato de Guaratinguetá ser uma cidade com laços fortes com a Igreja Católica, estariam essas almas obliterando algum recurso etéreo a fim de apartar-se da região conhecida como “purgatório”? |
| 2. Se a procissão das almas passa pelas ruas da cidade, o que poderia acontecer se alguém encontrasse uma dessas almas? |
| 3. Se as almas não podem ser vistas, mas podem ser ouvidas, isso significa que existem coisas que podemos sentir ou perceber, mas nunca ver? |
A Missa das Almas

Na Matriz de Santo Antônio, igreja conhecida por ter alocado o primeiro cemitério de Guaratinguetá, dizem que acontece uma missa secreta — e para participar dessa celebração, a pessoa deve ter sido submetida ao juízo particular e estar em estado de purgatório – essas missas são chamadas “Missa das Almas”.
Essa igreja, hoje pertencente à Arquidiocese de Aparecida, ainda guarda em seu chão os primeiros moradores da Vila de Guaratinguetá.
Esse costume de enterrar os mortos na igreja remonta ao Brasil colonial; no entanto, apenas as pessoas ricas podiam usufruir dessa prática.
O principal depoimento a respeito dessa “Missa das Almas” foi do conhecido Monsenhor Filippo (1845-1928), que residia na sacristia da igreja e chegou a testemunhar o fenômeno: acordou no meio da noite com a igreja iluminada e ao som de cantorias e orações.
Achou que havia perdido a hora das matinas, mas, ao chegar ao altar, percebeu que as pessoas e religiosos se afastavam (sem colocar os pés no chão). A luz aos poucos se apagava, e, de repente, ele se viu só, na igreja escura e vazia.
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Maria Agusta

Filha de Francisco de Assis Oliveira Borges, o famoso Visconde de Guaratinguetá, Maria Augusta faleceu aos 26 anos em Paris, no ano de 1891.

Conta a história que Maria Augusta foi obrigada pelo pai a se casar aos 14 anos com o Conselheiro do Império, o senhor Francisco Antônio Dutra Rodrigues, 21 anos mais velho.
Contudo, após alguns meses casada, Maria Augusta fugiu com outro homem para a Europa – este mais jovem e bonito –, e igualmente titular do império.
Ela vivia feliz na França com o amado, e frequentava a alta sociedade, até cair enferma e falecer de pneumonia aos 26 anos.
Seu corpo, embalsamado, foi transportado para o palacete da família, local onde, mais tarde, funcionaria o Instituto de Educação Conselheiro Rodrigues Alves. Como o seu mausoléu demoraria a chegar, o corpo ficou na casa aguardando, com direito a orações e rosários recitados pela família ao lado do caixão.

Segundo a lenda, na noite do velório, Maria Augusta apareceu em sonho para a irmã pedindo para ser enterrada o quanto antes. Seu desejo foi atendido assim que chegou à capela tumular, e seu corpo foi transladado para o Cemitério dos Passos.
Apenas o corpo, pois sua alma continuaria a vagar pelo antigo palacete. A primeira vez que foi vista estava percorrendo de branco as cinzas de um incêndio ocorrido na casa onde morava, que hoje se transformou na Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves.
Alunos, professores e funcionários colecionam histórias arrepiantes sobre Maria Augusta perambulando pelos corredores e deixando as torneiras das pias abertas. Dizem que esse é um dos caminhos noturnos de sua alma, afinal, ela morreu com sede e febre alta.
PS: Os alunos dessa escola associam essa história à lenda da loira do banheiro.
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Madame D’ Aguerre

Quando a cidade Aparecida ainda era uma vila pequena e bucólica que fazia parte de Guaratinguetá, uma misteriosa senhora recém-chegada da França instalou-se próximo à igreja de Nossa Senhora.
Ela passou a residir no “Hotel d’Arlindo”, onde, mais tarde, funcionaria o “Hotel Recreio”.
Sabe-se muito pouco sobre essa senhora, exceto que era uma excelente pianista. Na lápide branca de seu túmulo, no antigo cemitério de Aparecida, ainda se lê:
“Eterna Saudade de sua Amiga M. de Paula” — inscrição quase apagada, datada de 1910.
No mesmo local onde ficava o Hotel d’Arlindo, foi instalado o primeiro Seminário Santo Afonso, com a chegada dos padres redentoristas. É do falecido Pe. José Pereira que vêm os relatos assustadores.
Ele conta que, inúmeras vezes, viu os seminaristas acordarem apavorados com o som de um piano vindo do salão. Como os meninos morriam de medo, o Padre Diretor aspergia água benta e rezava com eles pela alma da pianista falecida.
Inês Theodora

Nascida em 1773, Inês casou-se aos 15 anos com o Capitão Vitoriano José da Costa, teve dez filhos e ficou viúva em 1811.
A partir de então, dedicou-se exclusivamente a atividades religiosas e educacionais.
Devota de Santa Rita de Cássia, não demorou a se empenhar na construção de uma igreja em homenagem à santa, inaugurada em 1846, que até hoje se destaca, imponente, no bairro de Santa Rita, em Guaratinguetá.
Dois anos após a inauguração da igreja, Inês Theodora faleceu e foi sepultada em uma catacumba na parede lateral da sacristia da igreja que ajudou a construir. Um detalhe curioso desse sepultamento foi o fato de ela ter sido “amortalhada” com o hábito de Irmã Terceira de São Francisco.
Contam os antigos que, em certas noites, os moradores do bairro acordam com o ruído de uma carruagem percorrendo suas ruas. Os mais velhos já sabem: é Inês Theodora voltando de sua antiga chácara para descansar na igreja que construiu.
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Em Sua Passagem Pelo Vale do Paraíba, Dom Pedro Fez Esse Itinerário:
| Data | Ano | Localização | Paragem |
|---|---|---|---|
| 14 de agosto | 1822 | Rio de Janeiro, Rio de Janeiro | O príncipe Dom Pedro I saiu da Quinta da Boa Vista. |
| 14 de agosto | 1822 | Santa Cruz, Rio de Janeiro | Primeira parada na Fazenda de Santa Cruz, casa de veraneio da família imperial, apenas para pernoitar. |
| 15 de agosto | 1822 | Bananal, São Paulo | Parada na Fazenda Três Barras, que pertencia ao capitão Hilário Gomes de Almeida. |
| 17 de agosto | 1822 | São José do Barreiro, São Paulo | Parada na Fazenda Pau D’Alho, pertencente ao capitão Hilário Gomes de Almeida, que estava doente e recebeu o imperador na cama. |
| 17 de agosto | 1822 | Areias, São Paulo | Hospedou-se na casa do capitão-mor Domingos da Silva, enquanto os soldados pernoitaram fazendo guarda aos pés de uma figueira. |
| 18 de agosto | 1822 | Cachoeira Paulista, São Paulo | Parada rápida apenas para almoço. |
| 18 de agosto | 1822 | Lorena, São Paulo | Parada importante do ponto de vista político, hospedou-se na casa do capitão-mor Ventura José de Abreu; cumpriu agenda pública na cidade, plantou uma palmeira, visitou a Casa de Câmara e Cadeia e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. |
| 19 de agosto | 1822 | Guaratinguetá, São Paulo | Hóspede do capitão-mor Manoel José de Melo; aumento da comitiva com novos seguidores; visitou a capela de Nossa Senhora Aparecida, onde fez uma promessa. |
| 20 de agosto | 1822 | Pindamonhangaba, São Paulo | Hospedou-se no sobrado do monsenhor Ignácio Marcondes de Oliveira Cabral; na cidade, muitos se ofereceram para integrar a guarda de honra do príncipe, homenageados com um monumento na praça central e um panteão na igreja de São José. |
| 21 de agosto | 1822 | Taubaté, São Paulo | Recebido na casa do cônego Antônio Moreira da Costa; moradores esconderam suas filhas devido à fama de mulherengo do monarca. |
| 22 de agosto | 1822 | Jacareí, São Paulo | Impaciente, atravessou o rio a cavalo, trocou as calças molhadas com um morador local; hospedou-se na casa do capitão-mor Cláudio José Machado. |
| 23 de agosto | 1822 | Mogi das Cruzes, São Paulo | Hospedou-se na casa do capitão-mor Francisco de Mello; assistiu à missa na Igreja de Sant’Ana, hoje catedral. |
| 24-25 de agosto | 1822 | Penha de França, São Paulo | Dormiu ali na noite de 24 para 25 de agosto; assistiu à missa na igreja matriz. |
| 25 de agosto (manhã) | 1822 | São Paulo, São Paulo | Recebido por vereadores, religiosos e a população em frente à Igreja do Carmo. |
| 7 de setembro | 1822 | São Paulo, São Paulo | Dia histórico em que a Independência do Brasil foi proclamada. |
FIM