Personagens
Iago
Mulher de capuz preto
Descrição da cena: Iago caminhava perdido em uma avenida da qual não se lembrava onde ficava, quando parou para conversar com uma senhora desconhecida.
IAGO: Eu estou caminhando há horas, não consigo calcular o tempo…
Mulher de capuz preto: Acostume-se!
IAGO: Acostumar-me com o escuro?
Mulher de capuz preto: Não, com a relatividade do tempo.
IAGO: Não entendo nada do que você diz, ou o que está acontecendo…
Mulher de capuz preto: Fiz uma analogia com a passagem do tempo, que aqui passa diferente, porém, você nunca foi um bom aluno… Sente-se nesse meio-fio que eu vou te lembrar de algumas cenas da sua vida que que assisti…
IAGO: Como poderia me assistir?
Mulher de capuz preto: Você entenderá, por hora, ouça: Você dormiu e sonhou com uma luz…
IAGO: Espere, como sabe o meu sonho?
Mulher de capuz preto: Digamos que seja um “sonho padrão”. Ouça: , Você caminhou até que ela te ofuscasse. Quando acordou, estava deitado à beira de um lago, mas não se lembrava do que aconteceu, e percebeu algo: as pessoas fingiam que você não existia. Você cumprimentava os amigos na rua, mas eles te olhavam como se você não estivesse ali.
IAGO: Estou lembrando…
Mulher de capuz preto: Você seguiu até a sua casa e viu o portão aberto. Entrou, e encontrou sua mãe e seus tios chorando na garagem. Tentou conversar com eles, mas ninguém te respondia. Enquanto seu tio trancava a porta, eles entraram em um carro. Você entrou junto, mas seus familiares continuavam fingindo que você não existia.
IAGO: Como você pode saber, se não estava no carro?
Mulher de capuz preto: Eu estava lá. Apenas ouça! O carro estacionou em um local que parecia a rodoviária velha, cheio de quiosques quadrados, com pessoas sentadas nos bancos do lado de fora. Você seguiu a sua mãe e entrou em uma das salinhas. De súbito, ela caiu no chão. Os seus tios tentaram levantar a sua mãe. Ela berrava e soluçava. No impulso, você também tentou ajudá-la, mas parou assustado, pois, no meio da sala, encontrava-se um caixão.
IAGO: Lembrei! Havia também cadeiras, e, no canto inferior, uma mesinha com um pacote de bolachas e uma garrafa de café.
Mulher de capuz preto: Sim, você caminhou até o caixão e não acreditou no que viu: era você ali deitado com algodão no nariz.
(O personagem levanta desesperado com as mãos na cabeça olhando o vazio, e volta depois de um tempo)
IAGO: Continue, por favor!
Mulher de capuz preto: Vai demorar para você aceitar esse novo contexto, fique tranquilo… Eu continuarei a minha elucidação. Após se ver no caixão, você correu, tentou fugir, mas dessa sina não há escpatória. Quando se viu no féretro, você saiu em disparada, e desde de então está perdido tentando acordar de um pesadelo eterno.
IAGO: Lembrei-me. Acordei na margem do lago que ficava no meu bairro, na rua ao lado da escola onde eu estudo – ou estudava, né!

Mulher de capuz preto: Exato.
IAGO: Mas eu não entendo como vim parar nesse local escuro.
Mulher de capuz preto: O purgatório? Deixe-me terminar de contar…
Autor: Diego Del Passo
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