O texto que você vai ler é uma dramatização de um atentado ocorrido no ano de 2023 em uma escola no interior do estado de São Paulo.
Dia 27 de Março de 2023
Eu estudo em uma escola comum, onde nada de emocionante acontece. Minha rotina é sempre a mesma: pela manhã, jogo bola na rua ou visito algum colega; à tarde, vou ao colégio e retorno para casa.
Essa história aconteceu em uma primavera, na terceira aula, época da semana de provas, e eu sempre achei essa época entediante…

Após terminar a prova, pedi para ir ao banheiro, e a professora deixou. Eu saí da sala, atravessei os longos corredores vazios, entrei em uma das cabines do banheiro e a tranquei.
Quando me preparava para usar, porém, ouvi a porta se abrindo.
Não ouvi ninguém entrar, em vez disso, uma voz perguntou: — Tem alguém aqui?
Na hora eu travei, não conseguia soltar o xixi. Eu fiquei confuso, afinal, era um banheiro com várias cabines, por que alguém faria essa pergunta?
Eu não respondi, e fingi que não havia ninguém no banheiro. Após dois ou três segundos, a porta foi fechada, e a pessoa que estava lá fora, saiu. Provavelmente um professor, pensei.
Enquanto lavava as mãos, ouvi o anúncio do sistema de som da escola informando que estávamos em uma emergência, e era para trancarmos as portas e não sairmos das salas.

Lembro-me de terem dito que não era um treinamento, o que me deixou nervoso. Talvez por isso perguntaram se havia alguém no banheiro.
Depois do aviso, eu não sabia o que fazer: 1) ficar no banheiro, 2) voltar para a sala de aula? Só pensava na minha professora assinando a advertência por conta do meu sumiço, e por isso decidi retornar à sala o mais rápido possível.
Saí do banheiro apressado e ouvi passos vindo em minha direção, mas como não queria que ninguém me visse, acelerei o passo. Ao chegar no corredor, porém, percebi que ainda estava vazio, e senti um clima estranho, um silêncio fúnebre.
Continuei caminhando até a sala, e a medida que me aproximava, ouvia passos rápidos de alunos se distanciando; havia também uma movimentação esquisita nas salas: gritinhos de meninas, meninos falando “Para cara!”, contudo, os passos continuavam vindo na minha direção. Algo me dizia que eu deveria fugir e me esconder.
Dei meia-volta e tentei correr, apesar das minhas pernas estarem tremendo. Olhei ao redor e procurei qualquer lugar para me esconder. Vi uma porta entreaberta.

Entrei e fechei ao trinco. Nos primeiros dois minutos, não conseguia enxergar nada, mas quando a vista clareou, consegui ver que estava em uma sala pequena; talvez um depósito; havia materiais escolares e caixas.
Fiquei em completo silêncio, e segurei a respiração. A calmaria foi interrompida quando ouvi passos se aproximarem da porta. Eles pararam, e alguém estava do lado de fora olhando pela fresta da fechadura; mas não podia me ver, devido à escuridão. Fiquei aliviado quando essa pessoa continuou andando pelo corredor.
Os passos se afastaram, tornando-se cada vez mais distantes. Depois de alguns minutos, sai do estado de desespero, e pensei em me retirar daquele armário.

Enquanto refletia, ouvi um ruído atrás de mim, vindo de dentro. Virei-me, e o meu coração parecia uma bomba-relógio prestes a explodir.
Eu não consegui distinguir os detalhes do vulto, devido à escuridão do local, mas vi que estava de roupa branca. “Seria os tios da limpeza?”, pensei.
Entrei em pânico, abri a porta do armário o mais rápido que pude, e corri na direção do corredor.
Felizmente, a porta estava próxima. Abri-a, e corri sem olhar para trás. No caminho, encontrei a minha professora, que estava com um olhar desesperado.
Disse a ela que alguém havia tentado entrar no armário que eu estava, e a professora arregalou os olhos. A professora foi virando lentamente a cabeça na direção da sala ao lado, e eu a acompanhei a sua visão.
No chão, um adolescente de aproximadamente 13 anos era imobilizado pela professora de educação física. O jovem usava uma máscara de caveira e tinha as roupas manchadas de sangue. Próximo a ele, uma professora idosa estava caída em meio a uma poça de sangue, acompanhada por colegas que se encontravam no mesmo estado.
A professora me abraçou e correu comigo até a entrada da escola.

Já havia anoitecido, e uma multidão de pais desesperados com lágrimas nos olhos estava do lado de fora; contei quatro carros de polícia com sirenes ligadas e duas ambulâncias fechando a entrada da escola.
Uma colega, que estudava na escola e que eu só conhecia de vista, estava concedendo uma entrevista para um repórter local:
— Você conhecia o assassino?
— Sim. Várias vezes tentei defendê-lo.
— Qual foi a última vez que você o viu?
— Foi há dois dias, na saída da escola. Ele implorou para eu faltar hoje, e eu recusei, pois tinha que encontrar meu namorado. Depois, ele me procurou ontem no intervalo e me deu dois ingressos de cinema. Por isso, faltei hoje…
Eu voltei para casa naquele dia e dormi cerca de doze horas. Minha mãe disse que é assim que o corpo reage quando se enfrenta um trauma.
Não sei quanto tempo permaneci naquele armário, mas foi o tempo necessário para que o adolescente que adentrou a escola cometesse os crimes. No dia seguinte, alunos, professores e funcionários se despediram dos colegas e da professora idosa, que não resistiu aos ferimentos causados pelos golpes de faca e faleceu em decorrência de uma parada cardíaca.
Autor: Diego Del Passo
Resumo Das Ações Até a Descoberta do Crime, Seguida da Correlação Entre os Eventos
| 1. Rotina Escolar | O narrador relata sua rotina comum de escola, jogos e convivência com amigos. |
| 2. Semana de Provas | Em uma primavera, durante a semana de provas, o narrador considera a situação entediante. |
| 3. Pedido para Ir ao Banheiro | Após terminar a prova, o narrador pede permissão à professora para ir ao banheiro e segue pelos corredores vazios. |
| 4. Voz Estranha no Banheiro | No banheiro, o narrador ouve uma voz perguntando se há alguém, mas decide não responder e finge não estar presente. |
| 5. Anúncio de Emergência | O sistema de som da escola anuncia uma emergência, pedindo que todos se trancem e não saiam das salas, aumentando a tensão. |
| 6. Dúvida sobre o que fazer | O narrador hesita entre ficar no banheiro ou voltar à sala de aula, preocupado com a professora. |
| 7. Movimento Estranho nos Corredores | Ao voltar, o narrador percebe passos rápidos de alunos se afastando e ouve gritos e sussurros, sentindo a necessidade de se esconder. |
| 8. Encontro com o Armário | O narrador encontra um armário entreaberto, decide entrar e fecha a porta, ficando em silêncio. |
| 9. Silêncio e Passos no Corredor | Ele ouve passos se aproximando do armário, mas a pessoa se afasta, permitindo que ele respire aliviado por um momento. |
| 10. Vulto no Armário | Ouve um ruído dentro do armário e vê um vulto de roupa branca, causando pânico e levando-o a abrir a porta e correr. |
| 11. Encontro com a Professora | Ao sair, o narrador encontra a professora, que parece desesperada. Ele relata que alguém tentou entrar no armário. |
| 12. Descoberta do Crime | Juntos, eles veem um adolescente caído no chão, com uma máscara de caveira e sangue na roupa. |
| 13. Saída Apressada da Escola | A professora o abraça e corre com ele para a entrada da escola, onde há uma multidão de pais e a presença da polícia e ambulâncias. |
| 14. Entrevista com Colega | Uma colega revela em uma entrevista que conhecia o agressor e menciona ter ignorado seus pedidos para faltar à escola. |
| 15. Consequências do Trauma | O narrador volta para casa e dorme intensamente, refletindo sobre o trauma vivido. |
| 16. Luto pela Professora | O dia seguinte traz luto na escola, com alunos, professores e funcionários se despedindo da professora que não sobreviveu ao ataque. |
Correlações entre os Eventos
- Tensão Crescente: A rotina comum do narrador é interrompida por um evento inesperado (semana de provas e emergência), criando um clima de incerteza.
- Isolamento e Medo: O ato de se esconder no armário simboliza a tentativa de escapar de um perigo iminente, refletindo o medo coletivo presente na escola.
- Reação à Emergência: O anúncio de emergência e a decisão do narrador de voltar à sala demonstram uma resposta instintiva ao pânico.
- Conexão com o Agressor: A colega que conhecia o agressor ilustra a complexidade das relações e como a falta de atenção às necessidades emocionais pode ter consequências trágicas.
- Impacto do Trauma: O narrador e a comunidade escolar enfrentam as repercussões emocionais do atentado, levando a um luto coletivo e a reflexões sobre a saúde mental.
Esses eventos e suas correlações revelam como um dia comum pode rapidamente se transformar em uma tragédia, afetando todos ao redor.
Dados da Notícia que Inspirou o Miniconto

No dia 27 de março de 2023, um aluno de 13 anos esfaqueou quatro professoras e dois alunos na Escola Estadual Thomazia Montoro, localizada na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo.
A professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, não resistiu aos ferimentos e faleceu. As demais vítimas sofreram ferimentos leves e foram encaminhadas a hospitais locais.
O agressor foi contido por uma professora de educação física e apreendido pela polícia.
Relatos indicam que o ataque pode ter sido motivado por uma discussão anterior envolvendo ofensas racistas. O governo estadual decretou luto oficial de três dias e a escola foi temporariamente fechada.
Resumo do Ataque – Escola Estadual Thomazia Montoro
| Data | 27/03/2023 |
| Local | Vila Sônia, São Paulo – Escola Estadual Thomazia Montoro |
| Vítimas | 1 professora morta (Elisabeth Tenreiro, 71 anos); 3 professoras e 2 alunos feridos |
| Agressor | Aluno de 13 anos, 8º ano |
| Motivação | Suspeita de bullying e influência de fóruns violentos em redes sociais; possível imitação de ataques anteriores |
| Consequências | Escola fechada temporariamente; luto oficial de 3 dias; agressor apreendido |
Bullying e Influência de Fóruns em Redes Sociais

Casos como esse levantam um alerta sobre o impacto do bullying escolar, que pode causar traumas profundos e, em situações extremas, resultar em reações violentas. O bullying pode ser verbal, físico ou psicológico, e frequentemente atinge jovens em momentos de formação emocional e social.
Além disso, a internet tem sido usada como ambiente de incentivo à violência por meio de fóruns anônimos e grupos em redes sociais.
Nesses espaços, discursos extremistas são normalizados, e jovens vulneráveis podem ser influenciados a planejar ataques, imitando casos anteriores. Muitas vezes, esses fóruns celebram autores de atentados, criando uma espécie de culto à violência.
FIM