O mistério de uma cidade submersa: São João Marcos, de uma próspera vila do Período Colonial, a um povoado reduzido a ruínas na década de 1940.

A construção da represa de Ribeirão das Lages em 1904 foi um projeto destinado a gerar energia elétrica e abastecer a capital fluminense, mas resultou na destruição da cidade de São João Marcos.
Quais seriam os verdadeiros interesses por trás da destruição de uma cidade inteira? E o que sobrou de seu legado?
A História
Antes de se chamar São João Marcos, o local possuía a alcunha de São João do Principe, e em homenagem ao príncipe regente Dom João VI, recém-chegado ao Brasil em 1808.
Na imagem em enexo, um mapa antigo indicando a localização exata da vila São João Marcos
Com o advento da República, Decreto Estadual nº 115 de 15 de agosto de 1890 a eleva à categoria de cidade com a primitiva denominação de São João Marcos.
Resumo Cronológico
| Localização | Estado do Rio de Janeiro, próximo a Itaguaí |
| População total no século XIX | 14 000 habitantes |
| 1829 | Em 13 de junho de 1829 foi criada uma agencia postal “São João do Príncipe |
| 1739 | Construção da capela dedicada a São João Marcos pelo fazendeiro João Machado Pereira. |
| 1850 | Auge do Ciclo do Café: São João Marcos atinge 18 mil habitantes, com 8 mil escravizados. |
| 1939 | Cidade é tombada como patrimônio histórico pela sua importância cultural e arquitetônica. |
| 1940 | Destombamento por decreto de Getúlio Vargas; cidade é desocupada, demolida e inundada. |
| 1857 | Com a expansão da cultura cafeeira, a vila possuía um florescente ambiente intelectual e era ligada ao porto de Mangaratiba por uma das primeiras rodovias pavimentadas do Brasil, construída em 1857. |
| Motivo: Ampliação do reservatório de Ribeirão das Lajes para construção da Usina de Fontes Nova, estratégica para o parque elétrico nacional e o desenvolvimento industrial. | |
| 1990 | Tombamento das ruínas de São João Marcos e da Ponte Bela pelo Inepac. |
| 2008 | Inauguração do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. |
Uma Cidade Apagada Pela História

Fundada em 1739 por João Machado Pereira, São João Marcos floresceu como um importante centro cafeeiro no século XIX, com infraestrutura que incluía teatro, hospital, clubes e escolas.
A prosperidade, porém, começou a ruir no início do século XX, quando a concessionária canadense The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power construiu a represa de Ribeirão das Lajes, inundando parte do território e causando epidemias, como a malária, que dizimaram a população.

Em 1939, a cidade foi tombada como patrimônio histórico, mas, em 1940, um decreto de Getúlio Vargas destombou o local, desapropriando suas terras para ampliar a represa.
A demolição foi marcada pela explosão da Igreja Matriz, um símbolo da cidade. Em 1943, os últimos moradores foram deslocados para municípios vizinhos.
Hoje, as ruínas de São João Marcos são preservadas em um parque arqueológico às margens da rodovia RJ-149, um testemunho silencioso da história e do impacto das decisões políticas e econômicas na vida de uma cidade.
A Fazenda que Marcou o Caminho Para a Independência
Na tarde de 15 de agosto de 1822, Dom Pedro I fez uma parada estratégica que marcaria a história da cidade. Na então Fazenda de Santo Antônio da Olaria, localizada onde hoje é o município de Rio Claro (RJ), o príncipe encontrou o proprietário Hilário Nogueira e seus dois jovens filhos, Luiz e Cassiano Ramos Nogueira. O objetivo era claro: recrutar reforços para sua improvisada Guarda de Honra. No dia seguinte, os irmãos seguiram com Dom Pedro em direção a São Paulo, onde ele realizaria o plano que mudaria os rumos do país – a Proclamação da Independência.

A fazenda, um ponto discreto mas crucial, estava localizada na Vila de São João do Príncipe, que na época começava a despontar como um centro de prosperidade. Não demorou para que o vilarejo se transformasse na cidade de São João Marcos, um dos maiores produtores de café do Brasil e uma peça-chave no eixo econômico entre Rio de Janeiro e São Paulo.

Com infraestrutura que incluía hospital, clubes e até um teatro que recebia nomes de peso como João Caetano, São João Marcos não era apenas um ponto de passagem, mas um símbolo do apogeu do ciclo do café.

No entanto, como tudo na história, o brilho de São João Marcos teria seu preço, e o mesmo progresso que a fez crescer acabaria por selar seu destino.
Imperadores e nobres, além dos posteriores figurões da República, se reuniam no local, especialmente na Fazenda Olaria, que depois passou à propriedade de Joaquim Breves – então o homem mais rico do país – que também integrou a Guarda de Honra de Dom Pedro I e presenciou o grito da Independência.
Terror Silenciado: A Tragédia Real de São João Marcos

O drama de São João Marcos começou muitos anos antes quando, em 1907, a The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power, co.Ltd (hoje apenas Light) começou as obras da represa de Piraí. Rios foram desviados e parte da cidade de São João Marcos foi inundada.

Feita sem nenhum planejamento, a represa, em 1909, inundou terrenos e fazendas em São João Marcos, destruiu plantações e matou tal quantidade de animais que o mau cheiro infestou a vizinhança por meses, em virtude do material orgânico.
Em seguida veio o flagelo: a malária, em virtude da desorganizada inundação.
Mais da metade da população foi contaminada. Em uma cidade que não registrava dez óbitos por ano, morreram 770 pessoas só em 1910.
Depoimentos Históricos Registram As Cenas Trágicas
“Valas coletivas foram abertas no cemitério e muita gente ainda viva foi para a cova com os defuntos. Nos arredores encontravam-se cães devorando cadáveres. Em uma das casas, uma mulher morta tinha em seu colo uma criança que ainda mamava, e a seus pés outra que chorava.

Os moradores pediam socorro: enviaram cartas às autoridades implorando por médicos. Nenhuma ajuda veio, nem do governo e nem da Light. O poderio da Light colocava todos a seu favor. Imprensa, políticos e até cientistas.
Osvaldo Cruz, sem sequer pisar em São João Marcos, disse que a inundação não era a responsável pela epidemia.
A população de São João Marcos, que era de 18.000 habitantes em 1898, caiu para 7.400 em 1922 chegando a 4.600 em 1941 – ano em que o governo e a Light completariam o plano de sua completa destruição.”
Fonte: Diário do Vale
O Destino Selado de São João Marcos
Após a devastação inicial causada pela inundação e a epidemia de malária, os 4.600 sobreviventes de São João Marcos viviam sob a sombra de um plano maior da Light: ampliar a represa e destruir o que restava da cidade.

Os fazendeiros mais influentes anteciparam-se e negociaram suas terras e propriedades com a empresa em 1939, lucrando antes mesmo da aprovação oficial do projeto. Enquanto isso, a população pobre foi deixada à mercê de indenizações irrisórias.
No mesmo ano, surgiu um fio de esperança. O recém-criado SPHAN tombou São João Marcos como patrimônio histórico e cultural, impedindo qualquer demolição. A cidade comemorou a decisão com festas que coincidiam com o bicentenário de sua fundação.

Porém, em 3 de julho de 1940, a esperança foi esmagada. O presidente Getúlio Vargas assinou um decreto-lei que revogava o tombamento, concedendo à Light o direito de desapropriar e demolir o que fosse necessário.
O destino de São João Marcos estava selado, marcando o fim de uma luta desigual entre a população e o poder econômico.
Redescoberta
A cidade de São João Marcos não foi totalmente erradicada. Embora tenha sido amplamente destruída, as ruínas que sobreviveram à demolição foram redescobertas no século XXI, pois a Usina Hidrelétrica de Fontes Novas, ainda em operação, não a cobriu por completo.

Gradualmente, os vestígios das construções passadas recuperaram seu valor histórico e se transformaram em importantes artefatos, refletindo diferentes momentos da história brasileira. Atualmente, a memória desse local é preservada no Parque Arqueológico e Ambiental de São Marcos, que está aberto ao público para visitação.
Cronologia e Fatos Históricos da Cidade de São João Marcos: Do Apogeu ao Esquecimento
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| Aspecto | Detalhes |
| Localização | Estado do Rio de Janeiro, situada entre os atuais municípios de Rio Claro e Itaguaí. |
| Origem e Nome | Fundada em 1739 por João Machado Pereira; inicialmente chamada de São João do Príncipe em honra a D. João VI. |
| Apogeu (Séc. XIX) | Grande polo do Ciclo do Café, possuía infraestrutura avançada para a época, com teatro, hospital, clubes e escolas. |
| Importância Política | Recebeu D. Pedro I em 1822; foi um dos maiores produtores de café do Brasil e símbolo da riqueza imperial. |
| Crise Sanitária | Em 1907, a construção da represa pela Light causou inundações desordenadas e uma epidemia de malária que dizimou a população. |
| O Fim da Cidade | Em 1940, o presidente Getúlio Vargas decretou o “destombamento” histórico para permitir a ampliação do reservatório de Ribeirão das Lajes. |
| Demolição e Êxodo | Entre 1940 e 1943, a cidade foi evacuada e as suas estruturas (incluindo a Igreja Matriz) foram implodidas ou demolidas. |
| Legado Atual | As ruínas que não foram totalmente submersas compõem hoje o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. |
FIM
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