A escritora, pintora e historiadora Maria Graham acompanhou seu esposo, Thomas Graham, em sua missão no Brasil entre 1821 e 1823. Enquanto ele comandava a fragata inglesa Dóris para resguardar os interesses britânicos na região, ela registrava o país sob sua perspectiva única.

Durante sua estadia, o Brasil iniciava o processo de independência de Portugal. Nesse período, Maria registrou em um diário suas observações minuciosas sobre a sociedade carioca do século XIX.
Em uma das passagens de seu diário, mais especificamente a do dia 1º de janeiro de 1822, em um de seus passeios pelo Rio de Janeiro, ela conheceu um antigo general de Napoleão Bonaparte, conhecido como Conde Hogendorp, que se exilara no Brasil.
| Nome completo | Dirk van Hogendorp (Diderik van Hogendorp) |
| Título | Conde de Hogendorp |
| Local e data de nascimento | Heenvliet, Holanda, 3 de outubro de 1761 |
| Local e data de falecimento | Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1822 |
| Profissões | Militar, político e administrador colonial |
| Destaque | Visão anticolonialista e defesa dos direitos dos povos autóctones nas antigas Índias Holandesas (atual Indonésia) |
| Alinhamento político | Aderiu à causa napoleônica |
| Consequência do alinhamento político | Após a derrota de Napoleão, foi impedido de regressar à Holanda |
| Exílio | Exilou-se na fazenda do Novo Sião, nos arredores do Rio de Janeiro, onde faleceu |
Relação com Napoleão Bonaparte

Dirk van Hogendorp foi um apoiador leal de Napoleão Bonaparte, servindo-o como governador de Nantes durante o período dos Cem Dias.
Após a derrota de Napoleão em Waterloo, sua ligação com o imperador dificultou seu retorno à Holanda, forçando-o a exilar-se no Brasil. Contudo, sua fidelidade foi reconhecida com uma menção no testamento de Napoleão.
Os Feitos do Conde de Hogendorp
Conhecido por suas propostas de reforma colonial na Indonésia, Dirk van Hogendorp buscou modernizar o governo e melhorar as condições dos nativos.
Trabalhou para a Companhia das Índias Orientais, participou de debates sobre o papel das potências coloniais e atuou como diplomata e militar durante o período napoleônico.
Suas ideias, influenciadas pelo Iluminismo, geraram controvérsia, mas marcaram os debates sobre colonização e modernização.
O Exílio no Brasil

Após a queda de Napoleão, ele regressou à Holanda. Contudo, em 1815, quando Napoleão retornou ao poder, voltou a servi-lo, sendo nomeado governador da cidade de Nantes.
Ligado ao período napoleônico, após a derrota na Batalha de Waterloo, ele não conseguiu retornar à sua terra natal, sendo forçado a partir para o exílio.
Em 1816, estabeleceu-se no Brasil, em uma pequena fazenda em Novo Sion, nos arredores do Rio de Janeiro, onde, na companhia de um criado, dedicou-se ao cultivo de café e laranjas. Faleceu nessa fazenda em 29 de outubro de 1822.
Diário de Maria Graham, Terça-feira, 1.º de janeiro de 1822

Fui pagar uma segunda visita a um ilustre exilado, o conde Hogendorp, um dos generais do Imperador Napoleão; minha primeira visita foi acidental.
Uma manhã, na semana passada, andando a cavalo com dois de nossos guardas, chegamos a uma agradável casa de campo de aspecto simpático, no alto da encosta do Corcovado.
À porta vimos uma figura muito impressionante, à qual imediatamente pedi desculpas por invadir seus terrenos, dizendo que éramos estrangeiros, e que havíamos chegado ali por acaso.
Ele imediatamente, com modos que denotavam não ser uma pessoa ordinária, saudou-nos e perguntou-nos o nome, e ao sabê-lo disse que ouvira falar de nós e que, se não estivesse doente, ter-nos-ia procurado.

Insistiu em que apeássemos, visto que se aproximava uma carga d’água, e que nos abrigássemos sob seu teto. Por esse tempo percebi que ele era o conde Hogendorp e perguntei se havia acertado na minha adivinhação.
Ele respondeu que sim e juntou algumas palavras significando que os seguidores de seu chefe, mesmo no exílio, conservavam qualquer coisa consigo que os distinguia dos outros homens.
O conde é uma ruína de um outrora belo homem; mas não perdeu o ar marcial. É alto, mas não magro demais; os olhos cinzentos brilham de inteligência e a linguagem pura e enérgica é ainda transmitida em voz clara e bem timbrada, ainda que um pouco gasta pela idade.
Conduziu-nos a uma varanda espaçosa, onde passa a maior parte do dia, e que é mobiliada com sofás, cadeiras e mesas.

Mandou então que o criado nos trouxesse almoço. Tivemos café, leite e manteiga fresca, tudo…E ao sentarmo-nos, assistimos à passagem do aguaceiro por nós e depois através do vale que conduz a vista à baía lá em baixo.
O general entrou francamente em conversa não só durante o almoço como enquanto durava a pancada d’água, falando quase incessantemente de seu Imperial Senhor.
Entrara para o exército muito moço, como soldado aventureiro, sob o comando de Frederico da Prússia. De volta à terra natal, a Holanda, foi aproveitado pelos Estados sucessivamente como governador da parte oriental de Java e como enviado a uma das cortes germânicas.

Durante a residência em Java, visitou muitos dos estabelecimentos ingleses em terra firme da Índia e aprendeu o inglês, que falava bem.
Quando da anexação da Holanda à França, entrou a serviço dos franceses no posto de coronel.
Teve sempre as preferências de Napoleão a quem sua honestidade e desinteresse em matéria de dinheiro pareceram preciosas, à medida que estas qualidades escasseavam entre seus seguidores.

A devoção do conde a Napoleão é excessiva, eu diria mesmo inexplicável, se ele não me tivesse mostrado uma carta que lhe foi escrita do próprio punho do Imperador, sobre a morte de seu filho, na qual, além de uma amabilidade rotineira, há realmente uma nota de carinho que eu não esperava encontrar.
Durante a desastrosa expedição à Rússia, Hogendorp foi incumbido do governo da Polônia e manteve sua corte em Wilna. Seu último serviço público foi prestado na defesa de Hamburgo onde era lugar-tenente governador.
Ele teria acompanhado gostosamente o Imperador ao exílio. Mas como não conseguiu permissão, veio para aqui, onde com a maior economia, e, penso eu, com algum auxílio do príncipe, que tem por ele grande respeito, vive principalmente da produção de sua pequena fazenda.
Exílio de Napoleão

O exílio de Napoleão Bonaparte ocorreu em duas fases após suas derrotas. Primeiro, em 1814, ele foi enviado para a ilha de Elba, no Mediterrâneo, após abdicar do trono.
Durante seu tempo lá, manteve certa autonomia administrativa, mas fugiu em 1815, retornando ao poder na França por um breve período conhecido como os Cem Dias.
Após sua derrota final na Batalha de Waterloo (1815), Napoleão foi exilado novamente, desta vez para a remota ilha de Santa Helena, no Atlântico Sul, sob vigilância britânica.
Lá, viveu até sua morte em 1821, isolado e cercado por um pequeno círculo de seguidores. Durante esse período, dedicou-se a escrever memórias e refletir sobre sua vida e legado.
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| Primeiro Exílio | Ilha de Elba | 1814 | 1815 | Abdicação após derrota militar | – Mantinha autonomia administrativa.- Governou cerca de 12 mil habitantes.- Planejou sua fuga para retornar ao poder. |
| Segundo Exílio | Ilha de Santa Helena | 1815 | 1821 | Derrota na Batalha de Waterloo | – Sob rígida vigilância britânica.- Isolamento extremo no Atlântico Sul.- Escreveu memórias e reflexões sobre seu legado.- Faleceu em 5 de maio de 1821. |
Continuação da carta
“Muitas destas circunstâncias aprendi dele próprio, enquanto descansava e me abrigava da chuva, que durou quase uma hora. Ele mostrou-me então a casa, que é de fato pequena, consistindo apenas de três peças, além da varanda; seu escritório com poucos livros, em que dois ou três modelos de antigos baixos-relevos e alguns mapas e gravuras indicavam o retiro de um cavalheiro.
Seu quarto de dormir, de gosto caprichoso, era pintado de preto e exibia, sobre esse fundo escuro, esqueletos de tamanho natural em todas as atitudes alegres, lembrando a Dança da Morte de Holbein.

Um terceiro quarto era ocupado com barris de vinho de laranja e potes de licor feito de grumixama, pelo menos tão gostoso como a aguardente de cerejas, com a qual se parece. Esses são os produtos de sua fazenda, cuja venda, juntamente com o seu café, ajuda sua pequena renda.

O general, como ele gosta de ser chamado, conduziu-nos em torno de seu jardim e exibiu com orgulho seus frutos e suas flores.
Louvou o clima, mas culpou o povo, que pela negligência e falta de indústria, desperdiça metade das vantagens que Deus lhe deu.
Ao voltar à casa, apresentou-me seu velho criado prussiano, que tomou parte com ele em muitas campanhas, e seus negros, que ele libertou ao comprar.
Ele induziu uma mulher a usar uma joia no nariz, à moda de Java, o que lhe parece trazer um prazer especial. Fiquei triste por ter de deixar o conde, mas fiquei com medo que em casa se alarmassem a nosso respeito e por isso disse-lhe adeus.

Esta tarde, fiz-lhe outra visita e encontrei-o descansando na varanda após o jantar. Tivemos uma boa conversa sobre o estado deste país, do qual, com prudência, muito de bom se pode esperar.
Disse-me então o conde que estava empenhado em escrever suas memórias, de que me mostrou um trecho, dizendo-me que tencionava publicá-las na Inglaterra.
Não tenho dúvida de que serão escritas com fidelidade e fornecerão um capítulo interessante da história de Napoleão. Fiquei triste por ver o velho sofrendo tanto. Sua idade e enfermidades parecem ameaçá-lo com rápida terminação de sua vida ativa.”

Post Scriptum
O conde Hogendorp morreu quando estava no Chile. Napoleão deixou-lhe em testamento cinco mil libras esterlinas, mas o velho não viveu bastante para ter conhecimento desta prova de gratidão de seu antigo chefe.
Ao aproximar-se do seu fim, o Imperador Dom Pedro deu-lhe assistência e a sua atenção. Que sua posição o permitia, e havia dado ordens relativas ao enterro.
Verificou-se, porém, ao morrer, que ele era protestante, e um dos consulados protestantes, portanto, promoveu o seu conveniente enterro no cemitério dos ingleses.
Ao despi-lo, após a morte, viu-se que seu corpo estava tatuado como os dos nativos das ilhas orientais. Nunca mais vi o conde depois do primeiro de janeiro.
FIM
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