Lendas de Paraty

A cidade de Paraty é reconhecida como o berço de caiçaras, quilombolas e da Trilha do Ouro. Além de sua rica herança cultural, a cidade também se destaca pelo seu passado sombrio. Neste texto, você descobrirá o que faz dessa cidade um verdadeiro patrimônio histórico e se surpreenderá com seu folclore atávico.

Ficha Técnica

CidadeParaty
Fundação28 de fevereiro de 1667
EstadoRio de Janeiro
Origem do NomeDo tupi antigo, que significa rio dos paratis (o nome de um peixe); pela junção de parati (parati) e ‘y (rio).
Primeiros NomesVila de São Roque (até 1667), depois, Villa de Nossa Senhora dos Remédios de Paratii.
Reconhecimento pela UNESCOIntegra a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria Gastronomia.
Tombamento HistóricoPelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1958.
5 de julho de 2019A cidade colonial de Paraty e a Ilha Grande foram declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco

A História

Desde o início do século XVI, os portugueses vindos da Capitania de São Vicente se estabeleceram na região de Paraty. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, o lugar tornou-se um destino essencial para quem partia do Rio de Janeiro em direção às Minas Gerais.

O Caminho dos Guaianases foi uma trilha utilizada pelos indígenas antes da chegada dos europeus. Foi reativado em meados do século XVII para permitir a ligação entre o litoral e o planalto paulista sem passar por São Vicente. Também era conhecido como Caminho da Serra do Facão ou, posteriormente, Caminho Velho. Partia de São Paulo, passava por Taubaté, Pindamonhangaba, Guaratinguetá e cruzava a Serra do Mar (via Cunha), até alcançar a baía da Ilha Grande.

Paraty surgiu em 1660, impulsionada por essa trilha e pelo transporte de mercadorias, cujo trajeto prosseguia a partir dali por via marítima até o Rio de Janeiro. Em 1667, foi elevada à categoria de vila.

O povoado de Paraty era a única passagem pela Serra do Mar, com uma antiga trilha usada pelos índios Guaianás, que conectava ao Vale do Paraíba (Taubaté – Pindamonhangaba – Guaratinguetá) e proporcionava acesso aos sertões mineradores.

Martim Correia de Sá, descendente do governador Salvador de Sá, percorreu esse caminho à frente de uma expedição composta por 700 portugueses e 2.000 índios Tamoios.

NomeMartim Correia de Sá
Nascimento1575, Rio de Janeiro
Falecimento1632
OcupaçãoExplorador e político no Brasil Colonial
Governador da CapitaniaCapitania do Rio de Janeiro: 1602-1608 e 1623-1632
FamíliaFilho de Salvador Correia de Sá
AtividadesParticipou e liderou expedições de exploração e captura de indígenas para escravização.

O primeiro núcleo de povoamento de Paraty surgiu em um morro ao norte do rio Perequê-Açu.

No início do século XVII, colonos provenientes de São Vicente estabeleceram-se neste local e construíram a Capela de São Roque.

Posteriormente, seus moradores transferiram-se para local mais favorável e construíram, por volta de 1646, uma capela em homenagem a Nossa Senhora dos Remédios.

A vila foi movida para a baixada, na margem direita do rio Perequê-Açu, perto do mar, onde foi erguida a nova Igreja Matriz Nossa Senhora dos Remédios. Assim, formou-se um dos núcleos da futura povoação, que se desenvolveu de forma lenta, alcançando as ilhas próximas.

Em 1660, o povoado foi elevado à categoria de vila e, no mesmo ano, por ordem do governador Benevides, foi aberto o primitivo Caminho dos Guaianás, único trajeto para o sertão e as minas na serra acima..

O capitão Domingos Gonçalves de Abreu, natural de Paraty, rebelou-se contra a Vila de Angra dos Reis, na Ilha Grande, à qual o povoado de Paraty estava subordinado.

Ele solicitou diretamente ao capitão-mor da Capitania de São Vicente a elevação do povoado à categoria de vila e ergueu o Pelourinho, símbolo de autonomia e autoridade.

Quando Domingos Gonçalves de Abreu nasceu em agosto de 1668, em Campanário, Ribeira Brava, Madeira, Portugal, seu pai, Pedro Rodrigues, tinha 37 anos e sua mãe, Maria de Abreu, tinha 34 anos.

Ele casou-se com Maria Rodrigues Pita em 18 de novembro de 1691, em Sé, Funchal, Madeira, Portugal. Eles tiveram pelo menos 4 filhos e 5 filhas.

Durante sete anos, a Câmara de Angra dos Reis lutou contra esse ato de rebeldia e, em 1667, a Coroa Portuguesa reconheceu a autonomia conquistada pelos revoltosos de Paraty.

O capitão Francisco do Amaral Gurgel, organizou e custeou um reforço de 500 homens e 80 escravos em defesa da cidade do Rio de Janeiro, atacada e ocupada pela esquadra francesa do corsário René Duguay-Trouin (1711).

Gurgel negociou o resgate exigido pelos franceses para se retirarem, no valor de 610 mil cruzados, mil caixas de açúcar e 200 bois. 

Graças a sua situação de caminho único para o Vale do Paraíba e Minas Gerais, para quem vinha do norte, a povoação prosperou rapidamente.

Os paulistas do vale desciam a serra com os produtos de sua lavoura para negociá-los e ali adquirir os artigos de que necessitavam.

O Porto de Paraty era muito frequentado, com grande comércio de café, arroz, milho, feijão, aguardente e farinha.

Por ali, escoava-se grande parte do ouro de Minas, tanto que uma Carta Régia,  em 1703, criou, no local, um Registro de Ouro, extinguindo todos demais, salvo o Registro do Porto de Santos.

O Registro de Ouro de Paraty tinha como função calcular os impostos e examinar os passageiros, evitando o contrabando, e fundir o minério em barrotas com o cunho real, sinal do quinto que se pagava a Portugal.

Casas de FundiçãoEram instituições portuguesas onde o ouro e a prata eram fundidos no Brasil Colonial.
Função principalArrecadação de tributos sobre a mineração e controle do ouro e da prata.
Primeira casa de fundiçãoEstabelecida em São Paulo, por volta de 1580, para o ouro extraído das minas do Jaraguá.
Processo realizadoRecolhiam o ouro, purificavam-no e o transformavam em barras com cunho oficial.
Tributo coletado“Quinto”, correspondente a 20% do ouro extraído.

A proibição subsequente da passagem de viajantes pela região das minas causou um grande impacto, resultando na redução da área cultivada e até mesmo da área edificada.

Em 1715, diante da grita geral do povo paratiense, o primitivo caminho foi reaberto ao tráfego e, em 1722, ocorreu a fundação da primeira Capela de Santa Rita, junto ao rio Patitiba. 

Após a abertura do novo caminho do Rio de Janeiro para Minas Gerais, durante a segunda década do século XVIII, Paraty sofreu o primeiro declínio.

A jornada passou a ser realizada pela Serra dos Órgãos, entre Paraíba do Sul e Borda do Campo (Barbacena), reduzindo para 15 dias o trajeto até os sertões do ouro.

Mesmo assim, a cidade continuou sendo um importante porto marítimo, até fins do século XIX, onde as caravelas que vinham da Europa faziam escala quase obrigatória. 

Século XVIIIncremento no cultivo de cana-de-açúcar e início da produção de aguardente em Paraty.
1702Determinação do governador da Capitania do Rio de Janeiro para que mercadorias ingressem na Colônia via Rio de Janeiro e sigam para Minas Gerais via Paraty.
1707 Abertura do Caminho Novo: Redução do movimento na vila de Paraty devido à nova rota direta do Rio de Janeiro às Minas Gerais.
1710Proibição do transporte de ouro pela estrada de Paraty, gerando rebelião dos habitantes. A medida foi revogada e depois restabelecida.
Século XVIIIProdução de aguardente alcança 250 engenhos em Paraty, consolidando a cachaça como importante produto da vila.
1820Registros de 150 destilarias em atividade em Paraty.

O Início da Cidade

Paraty foi anexada à Capitania do Rio de Janeiro em 1827, e elevada à categoria de vila em 1836. Em 1853, o distrito de São João Batista de Mamanguá passou a denominar-se Paraty Mirim e foi elevado à cidade com a denominação de Paraty, em 1844.

Companhias líricas europeias se apresentavam no teatro local, além de atores nacionais como João Caetano, e continuavam a chegar imigrantes às suas terras férteis. Na década de 1860, ainda existiam 12 engenhos e 150 fábricas de aguardente, na região. 

Nome CompletoJoão Caetano dos Santos
Nascimento27 de janeiro de 1808, Itaboraí, Brasil
Falecimento24 de agosto de 1863, Rio de Janeiro, Brasil
Contribuição PrincipalConsiderado o “pai do teatro brasileiro”
Feito MarcantePrimeiro ator brasileiro a interpretar Shakespeare (Otelo e Hamlet)
InfluênciaTraduções realizadas por Domingos José Gonçalves de Magalhães, baseadas em Jean-François Ducis
Tradição LingüísticaPeças inicialmente encenadas em português lusitano
Marco da Tradução no BrasilPrimeira tradução brasileira de Shakespeare publicada em 1933 por Tristão da Cunha (Hamlet)

Decadência

Com a abolição da escravatura, em 1888, houve o colapso de sua economia, baseada no trabalho escravo e na cultura da cana-de-açúcar e do café.

O isolamento geográfico durou cerca de cem anos e resultou na sua estagnação econômica.

Somente no século XX, na década de 1970, com a construção da rodovia Rio–Santos, Paraty voltou a se integrar à nova economia da região. A rodovia permitiu o acesso do público a um dos mais íntegros sítios históricos brasileiros e à maior área contínua preservada da Mata Atlântica, em todo o Brasil. 

Fonte: IPHAN

Casarões Antigos em Paraty

Em Paraty, a influência maçônica é visível nos casarões do centro histórico. Essas construções refletem a arquitetura colonial com traços únicos, como janelas e portas com molduras decoradas e detalhes geométricos que remetem aos símbolos da Maçonaria, como o esquadro e o compasso.

Além disso, muitos edifícios apresentam discretas referências a valores maçônicos, como a harmonia e o equilíbrio, integrados ao urbanismo e à estética da cidade.

Paraty preserva esses casarões como parte de sua identidade cultural, ressaltando a ligação entre o passado colonial e os ideais da maçonaria em sua história arquitetônica e social.

A Mãe do Escritor Thomas Mann

Júlia da Silva Bruhns Mann, mãe do escritor alemão Thomas Mann, nasceu em Paraty em 1851, filha de uma brasileira e um imigrante alemão.

Ela passou parte da infância em um casarão do século XVIII em Paraty, rodeado pela Mata Atlântica.

O casarão está atualmente abandonado, mas simboliza a conexão de Thomas Mann com o Brasil, já que a herança cultural de sua mãe influenciou sua vida e obra.

Os Maçons

Os maçons têm uma origem que remonta à Idade Média, surgindo das guildas de pedreiros que construíam grandes catedrais na Europa.

Com o tempo, essas associações deixaram de ser exclusivamente operativas, envolvendo-se em questões filosóficas, espirituais e sociais, formando a Maçonaria especulativa.

A organização promove ideais como liberdade, igualdade, fraternidade e a busca pela iluminação intelectual e moral. Ela se estruturou como uma sociedade discreta que reúne indivíduos com diferentes crenças, mas com objetivos comuns de autodesenvolvimento e melhorias

As Lendas

A Serpente da Matriz

A lenda mais conhecida e de caráter religioso de Paraty é a da Serpente da Matriz. Segundo a narrativa, uma criança, fruto de uma relação extraconjugal, foi deixada viva sob os pés da imagem de Nossa Senhora dos Remédios, padroeira da cidade.

Por meio de um encantamento, essa criança transformou-se em uma grande serpente, cuja forma estaria localizada no rio Perequê-Açu.

Acredita-se que a retirada da imagem do local resultará na libertação da serpente, que, ao se movimentar, trará a destruição à cidade.

Há ainda uma versão alternativa da lenda que afirma que, caso a cobra seja libertada, ela se alimentará nos seios da santa e de todas as mulheres que estão em fase de amamentação.

Por fim, uma terceira versão declara que o encantamento só será quebrado se a criança-serpente for amamentada por uma virgem.

A Noiva da Santa Rita

Contam que uma moça da cidade, às vésperas de seu casamento, amanheceu morta sem explicações. Ela foi enterrada vestida de noiva na Igreja de Santa Rita, onde se casaria.

O fato chocou a cidade e deixou o noivo tão desolado, que não quis sair do jardim da igreja.

À noite, o rapaz estava chorando quando viu sair um vulto vestido de noiva da Igreja para beber água no chafariz da praça. Aproximando-se e percebendo que era sua noiva, ele lhe perguntou o que fazia ali àquela hora.

A noiva respondeu-lhe que foi beber água, pois havia morrido com sede, e sumiu no ar. Desesperado o noivo procurou os pais da moça e as autoridades para lhes contar o ocorrido e suas suspeitas de que ela havia sido enterrada viva.

Pela manhã, todos resolveram verificar o fato e abriram o caixão da falecida. Encontraram o corpo de bruços, comprovando a suspeita do noivo.

O Tesouro de Trindade

Conta a lenda que, na região da Trindade, foi enterrado por piratas ingleses um fabuloso tesouro e que sua localização estaria indicada em estranhas inscrições nas pedras junto a praia do Caixadaço.

No século passado, muitas pessoas munidas de mapas e informações orais, vasculharam a região à procura do Tesouro, não conseguindo encontrá-lo.

Fonte: Flizona

A Canoa de Trinta

Esta lenda foi contada por um senhor no ponto de Ônibus da Praia Grande, a praia mais próxima da Ilha do Araújo.

O Seu Paulo (da ilha do Araújo) e o Seu Jacir (da Graúna/Paraty-Mirim), moradores do Lar dos Idosos, confirmaram a existência da lenda.

Sabe-se que os pescadores gostam mais de pescar de madrugada, quando está tudo mais silencioso e tranquilo. Pois conta-se que quando os pescadores da região da Ilha do Araújo vão pescar de noitinha quando ainda está tudo escuro e tudo fica quieto e tranquilo.

Então começam a escutar uma conversa, muita gente conversando em uma língua que não é possível reconhecer.

Forçando a vista, o pescador vê, ao longe, uma canoa compriiida, com 30 pessoas remando, todos juntos, fazendo todos o mesmo movimento e conversando muito, as vezes até cantando juntos.

Se o pescador resolve remar até a canoa, não alcança. Se estiver em um barco com motor e ligar, não alcança. Não importa a potência do motor ele vai ficar perseguindo a canoa até amanhecer.

Ou até ela entrar em um vão nas pedras da Ilha Comprida, uma ilha pequena que tem lá perto da Ilha do Araújo. Há relatos de que essa Canoa de Trinta também foi vista no Mamanguá.

Fonte: Lendas de Paraty

FIM

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