Pequena em população, mas gigante em história, São José do Barreiro é uma daquelas cidades do Vale do Paraíba onde você encontra o merecido descanso ou o inesperado susto ao se deparar com uma assombração em um casarão histórico.
A cidade integra o circuito turístico conhecido como Vale Histórico, que inclui as cidades de Queluz, Silveiras, Areias, Arapeí e Bananal. Esse eixo das Cidades Mortas do Vale do Paraíba ainda preserva as riquezas de um período áureo da produção de café no Brasil. Daquele tempo, restou um tesouro arquitetônico: casarões e igrejas em estilo neocolonial, tombados como patrimônio da humanidade e assombrados pelos barões do café escravistas que, sem dúvida, não encontraram lugar no céu.
Nota: “Cidades mortas” é um termo criado por Monteiro Lobato para designar antigas cidades do Vale do Paraíba que entraram em decadência após o fim do ciclo do café. Nessas localidades, o progresso cessou, restando apenas a memória de um passado próspero e movimentado.
Ficha Técnica
| Localização | Estado de São Paulo |
| Região | Vale do Paraíba |
| Fundação | 1820 pelo Coronel João Ferreira de Souza; elevada a município em 1859; tornou-se estância turística em 1998 |
| História Econômica | Foi uma das cidades mais ricas do Brasil durante o ciclo do café |
| Origem do Nome | Deriva do nome do santo (São José) e do termo “barreiro”, referente ao atoleiro causado pelas cheias do rio na região, dificultando a passagem dos tropeiros |
| História do Município | Surgiu com a formação das fazendas de café e a construção do Caminho Novo da Piedade, que ligava a Capitania de São Paulo à do Rio de Janeiro |
| Patrimônio Histórico | A Casa de Cadeia e Fórum locais foram construídos pelo esccritor Euclides da Cunha |
Primórdios da Cidade E A Passagem De Dom Pedro I

No dia 17 de agosto de 1822, a comitiva de Dom Pedro I fez uma parada na Fazenda Pau D’Alho, localizada em São José do Barreiro.
A estadia nesta propriedade se tornou notória, pois, segundo registros da época, antes de chegar à fazenda, Dom Pedro teria desafiado os demais membros da comitiva para uma corrida.
E, por esse motivo, chegara mais cedo e sozinho à fazenda do coronel João Ferreira, onde foi recebido pela esposa dele.
A história mostra que os moradores, empregados e escravizados da casa, assim como a esposa do coronel, não o reconheceram e pediram que o monarca comesse na cozinha com os escravos, já que a sala de jantar estava sendo preparada para o Príncipe Regente, que era, na verdade, ele.
Dom Pedro, nesse dia, se satisfez com uma variedade de assados e guisados, cercado pela presença de escravas e mucamas, como registrado nas crônicas da época.
Fazenda Pau D’Alho: História

Com o fim do ciclo do ouro, no final do século XVIII, e a abertura do Caminho Novo, muitas famílias mineiras migraram para o Vale do Paraíba.
O fazendeiro João Ferreira Guimarães foi um deles, que junto à sua família se estabeleceu em de São José do Barreiro, depois de adquirir duas sesmarias.
Nessa propriedade, ele construiu um engenho e um rancho para acomodar as tropas. Faleceu em 1803, e seu filho mais velho, João Ferreira de Souza, figura importante na história de São José do Barreiro, fez da Fazenda Pau D’Alho uma das maiores produtoras de café da região.
Em 1817, inicia-se então o plantio do café na fazenda. Já em 1822, com o cafezal plantado, João Ferreira recebe a visita de Dom Pedro I, na ocasião da viagem em que proclamaria a independência do Brasil. João e seu filho Antônio teriam seguido viagem compondo a guarda de honra do Imperador.
As Lendas

A Escrava Bonita: A história relata que, ao passar pelas cidades do Vale do Paraíba, Dom Pedro I não foi reconhecido pela população.
As roupas simples e a mula em que estava montado não correspondiam à imagem nobre do monarca montado em um cavalo branco que existia no subconsciente dos brasileiros, muito menos tinha relação com a cena representada na pintura Independência ou Morte, de Pedro Américo.
Contam que, ao não ser reconhecido na Fazenda Pau D’Alho, Dom Pedro I, famoso por seu autoritarismo, cogitou mandar prender a esposa do coronel João Ferreira por não tê-lo identificado.

No entanto, conteve-se ao ver uma jovem escrava escondida atrás da porta da sala observando a cena, e teria fingido não ser o Imperador apenas para ir até a cozinha conhecer a moça bonita.
O Relógio Parado: Diz a lenda que o relógio da sala principal da Fazenda Pau D’Alho parou exatamente na hora em que Dom Pedro partiu após sua visita.
Desde então, o relógio só volta a funcionar em setembro, mês em que Dom Pedro visitou as cidades do Vale do Paraíba.
Fazenda Catadupa

A Fazenda Catadupa foi assentada em 1831, no início do Ciclo do Café, e pertenceu a um fazendeiro conhecido como Sr. Roque. A fazenda recebeu esse nome devido a uma cachoeira com queda dupla formada pelo rio Formoso.

Nos dias de hoje, a fazenda Catadupa está inserida no roteiro turístico da cidade de São José do Barreiro.
Dentro desse casarão antigo, encontram-se as memórias da época, com móveis, objetos, livros antigos e a senzala.
O que os turistas não imginam são as histórias sobrenaturais relacionadas a esse casarão…
As Lendas
O Sr. Roque Álvares Magalhães (1831-1865), dono da fazenda Catadupa, era filho de um homem conhecido na região como o Sr. de Lavras, alcunha dada aos donos de minas de ouro na região das “Minas Geraes”.
Com o fim do ciclo do ouro, os filhos desse explorador teriam recebidos sesmarias do governo de Portugal na região que hoje fica a cidade de São José do Barreiro e investido o “cabedal” herdado em fazendas e escravos.
Rumores do do Ciclo do Café: Os Aldebrás do Casarão

O Brasil Imperial possuía uma arquitetura particular. Os casarões construídos em estilo neo-colonial possuíam, nessa época, batentes das portas em formatos de mão, chamados de aldebrás, que serviam como campainhas manuais, e eram geralmente feitas de ferro ou bronze.
Contam que havia na porta do casarão do Sr. Roque um desses aldebrás no formato de uma mão de criança feita de ferro (segurando uma bola).
A maçaneta funcionava ao mesmo tempo como abridor e campainha; dentro da casa, havia uma redoma de vidro com uma mão que, segundo relatos antigos passados de boca em boca, teria pertencido a um jovem branco que roubou o ouro do próprio pai e foi castigado pelo Sr. Roque, quando este morava em Minas Gerais, durante o ciclo do ouro.
Os negros contavam uma história ainda mais absurda — diziam que a violência contra os escravizados era tão extrema que os senhores de engenho agiam assim com aqueles que bebiam leite ou roubavam comida da fazenda.
Segundo esse rumor, o aldebrás da porta teria sido moldado com a mão de uma criança escravizada, cortada após ser acusada pelos carpinteiros, durante a construção do casarão, de roubar ferramentas.
O Saci

Ao caminhar pela área externa do casarão da Fazenda Catadupa, onde antes se localizavam o quintal da família Magalhães e o pátio destinado à secagem do café, é possível encontrar placas que alertam para a presença de uma figura bastante temida nas fazendas do Vale do Paraíba, conhecida por azucrinar a todos, negros, brancos e indígenas: o Saci Pererê.
Em tempos passados, o diabinho da cornuália era conhecido por acompanhar capitães pelo mato e assustar os cavalos ao arrancar cipós e golpeá-los nos lombos dos animais; quando o roceiro menos esperava, já estava estendido no chão.
Alguns caboclos mais esconjurados, no entanto, faziam amizade com o saci e convenciam o demoninho trabalhar para eles. O único préstimo do saci era o de alertar em forma de assobio da presença de pessoas.
Esses caboclos afirmavam que o pagamento exigido pelo saci era o fumo e, segundo eles, ao baforar o cachimbo, o saci colocava a língua para fora e deitava fumaça pelos olhos vermelhos como a de uma lebre.
A Ficha Criminal do Capetinha
| Gorar ovos | O Saci fazia os ovos estragarem de propósito, deixando as cozinheiras escravas desesperadas com medo dos castigos após a perda dos alimentos. |
| Comer o piruá das pipocas | Ele se escondia para comer o piruá que sobravam das pipocas que não estouravam |
| Roubar espigas | O Saci furtava espigas nas lavouras, prejudicando os escravos que plantavam e colhiam o milho. |
| Quebrar pés de milho | Ele quebrava os pés de milho, enfurecendo os caboclos encarregados da lavoura. |
| Sumir com objetos | Ferramentas dos escravos sumiam misteriosamente, atrasando o trabalho nas plantações de café. |
| Queimar o feijão | O Saci queimava o feijão, deixando as sinhazinhas iradas |
| Desfazer o crochê | Ele desmanchava o crochê das mulheres e escravas, que passavam horas refazendo o trabalho |
| Beber a cachaça dos barris | O Saci bebia a cachaça dos barris, deixando os caboclos e trabalhadores da fazenda sem a bebida. |
| Fumar o cachimbo do caboclo | Ele roubava e fumava o cachimbo dos caboclos, que o encontravam vazio e sempre culpavam a travessura do Saci. |
A Fazenda da Barra
A Fazenda da Barra foi erguida em 1851 para a produção de café pelo Tenente Francisco Álvares de Magalhães, irmão do Sr. Roque Magalhães, proprietário da Fazenda Catadupa. Durante o Ciclo do Café, o tenente utilizou mão de obra escravizada e prosperou, assim como outros fazendeiros da região.

Após a abolição da escravidão, porém, a fazenda enfrentou dificuldades de produção e foi arrematada. No século XX, passou por mudanças, tais como a de proprietários, e houve transição para a pecuária e a agricultura.
Uma Cidade Morta, Uma Fazenda Morta e Uma Sinhá Solitária
No começo do século XIX, a Fazenda da Barra era um lugar bastante movimentado. Nos tempos em que o tenente Francisco Magalhães ainda era vivo, o fluxo de escravizados e colonos que saíam da fazenda e circulavam pela Estrada Real Caminho Novo da Piedade, ligando a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade (atual Lorena) à Fazenda Real de Santa Cruz, dos jesuítas (atual Santa Cruz, RJ), era enorme.

Escravos e colonos, montandos no lombo de mulas, saiam da fazenda da barra em direção ao entreposto de Mabucaba, local de embarque do café. Contudo, alguns acontecimentos fizeram a fazenda morrer, no melhor sentido de “cidades mortas” de Monteiro Lobato, e os motivos foram:

Método de plantio errôneo: Na fazenda, o café era plantado em linhas subindo o morro, contrariando as recomendações de cultivo em curvas de nível, talvez para facilitar o controle dos escravos nas lavouras.
O método de plantio favorecia a ocorrência de enxurradas e, consequentemente, a degradação das lavouras, que eram constantemente substituídas por novas.
Morte do tenente Magalhães: Já em 1890, quando do falecimento de Francisco Magalhães, a fazenda dispunha de 324 mil pés de café em 314,5 alqueires de terra; e nenhum escravizado para cultivar a terra.
Abolição da Escravatura em 1888: Após a Lei Áurea, nenhum escravizado ficou na Fazenda da Barra para contar história. (cri cri cri).
Solidão de Uma Sinhá Escravista

Marianna Magalhães, viúva do Tenente Francisco e conhecida por manter cativos escravos que cuidavam de todas as tarefas da fazenda — desde cozinhar, limpar, lavar roupas, fazer compras, conduzir a carroça, buscar leite, vesti-la e cuidar dos animais — viu sua vida mudar de repente. Com a assinatura da Lei Áurea em 1888, ela se viu sozinha em uma imensa e improdutiva propriedade.
Ela permaneceria na Fazenda da Barra até o seu falecimento, em 1894, quando os herdeiros venderam a propriedade ao Visconde de São Laurindo, fazendeiro de Bananal.
As Lendas: Dizem que, no período em que esteve sozinha na fazenda, dona Marianna Magalhães foi assombrada pelos vultos mais sangrentos do passado da Fazenda da Barra, recordando-se dos préstimos das pessoas escravizadas, que a trataram com doçura e cordialidade, enquanto os brancos retribuíam com a demonização da cor de suas peles, cabelos e religião.
Dizem que a idade traz sabedoria e um novo significado para a vida, mas a história mostra que algumas pessoas apenas evidenciam ainda mais seu lado ruim com o passar do tempo. Por isso, jamais saberemos o que se passou na mente de Mariana Magalhães nos últimos dias.
FIM
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