Resenha: Saci Pererê, o Resultado de um Inquérito — Monteiro Lobato

Esses relatos, na visão de Lobato, descortinavam a cultura do país, até então desconhecida pelos brasileiros. Naquele tempo, essa era justamente a crítica do autor: o desprezo intencional pela cultura brasileira e a valorização excessiva da cultura europeia.

Monteiro Lobato acreditava que, para o Brasil se desenvolver, deveria saber quem era (identidade) — como na frase do Gato de Cheshire: “Quem não sabe o que é, não sabe o que quer, e quem não sabe o que quer, não chega a lugar nenhum.”

As histórias enviadas pelos leitores do jornal eram relatos ouvidos de seus avós, resgatando memórias que remontam aos primórdios da colonização do Brasil.

Em 1921, ao publicar o livro infantil ‘O Saci’, Lobato adaptou essas histórias para uma perspectiva infantojuvenil. Os relatos originais, porém, não foram ignorados e acabaram se tornando um compêndio folclórico, publicado posteriormente com o título “Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”.

Este é o texto que iremos abordar aqui.

Nota 1: Além da resenha deste compêndio, elaborei fichas técnicas que detalham as espécies de sacis, seus comportamentos e hábitos folclóricos..

Nota 2: Não quero nem vou dar importância a qualquer declaração polêmica de Monteiro Lobato, pois as histórias narradas pelo sobrancelhudo são valiosas demais para serem esquecidas.

As aventuras do Sítio do Picapau Amarelo permanecem vivas na memória dos brasileiros e, mesmo após cem anos, continuam sendo contadas, seja na sala de aula ou no aconchego de um quarto.

Ainda sentimos a mesma empolgação de Pedrinho, contando os dias para as férias escolares e planejando a visita ao sítio da avó em Taubaté. Lá, ele vai reencontrar a prima Narizinho, saborear os quitutes da Tia Nastácia e dar boas risadas com as histórias de Emília.

O Título do Livro

Çaa Cy Perereg

Estranhou o nome com cê-cedilha? Pois saiba que essa é a verdadeira alcunha relacionada ao diabrete conhecido como ‘Saci Pererê’, ícone do folclore brasileiro. O nome tem origem no Tupi-guarani e significa “olho mau saltitante” (Çaa Cy – olho mau; Perereg – saltitante).

O personagem, que inicialmente era um mito indígena, incorporou traços das três culturas que formaram o Brasil: o duende europeu, o Erê africano e o ‘Çaa Cy’ (uma espécie de curupira) dos povos indígenas brasileiros.

Origem do mitoPrimeira aparição na fronteira do Brasil com o Paraguai
Natureza do mitoMito indígena sincretizado com duente europeu e Erê africano
Termos relacionadosçaa çy (olho mau), perereg (de onde vem o nome da rã perereca, que significa: saltitante)
Pesquisa de Monteiro LobatoRealizada na edição vespertina do jornal “O Estado de São Paulo”, chamada “Estadinho”
Motivação de Monteiro LobatoIncomodado com o “desenraizamento” da intelectualidade do Brasil, por estarem concentrados na cultura europeia
Descoberta de Monteiro LobatoO Saci era conhecido nas áreas rurais do interior de São Paulo, Rio, Minas, etc.
Contexto da sondagem sobre o SaciLançada por Monteiro Lobato durante a 1ª Guerra Mundial para atenuar os horrores das nações ditas civilizadas
Significado do SaciManifestação autêntica da alma do povo brasileiro trolador que ri das desgraças e aleijamentos
Importância de conhecer a figura do SaciAjuda a buscar elementos para autoconhecimento do povo brasileiro

Preâmbulo Saci

O saci ficou famoso nacionalmente após aparição nas histórias de Monteiro Lobato, interagindo com o personagem Pedrinho; ajudando-o a se livrar da Cuca. 

Mas a descrição do sobrancelhudo de Taubaté não condiz com o que o saci personificava; muito menos o pavor e o “esconjuro” que ele provocava (ou provoca) no povo da roça. O verdadeiro ‘Çaa Cy Perereg’, segundo os antigos, não era ‘flor que se cheire’. Vamos entender o porquê.

Gênese do Saci 

Os primeiros africanos que vieram para o Brasil contavam que, há muito tempo, houve uma festança no inferno. O diabo e os outros seres das trevas passaram semanas comemorando (sabe-se lá o quê); e até mesmo o porteiro participara da festa.

Este, por sua vez, ficou tão bêbado que não percebeu a fuga dos demônios. O Diabo ficou furioso e ordenou a captura dos fugitivos. Os Sacis Pererês, porém, não puderam ser localizados, pois eram tão espertos que inventavam subterfúgios, sumindo em redemoinhos de vento ou no oco das árvores.

Dizem que a carapuça vermelha ajudou o Saci a escapar do diabo, pois, este objeto, donativo de um anjo etéreo, deixou-o invisível aos olhos do diabo.

Espécies de Saci, Segundo a Pesquisa de Monteiro Lobato:

Saci “taterê”É caseiro e gosta de tentar as moças. É parecido com o saci tradicional, porém maior; fica “petequeando” uma brasa que cai de um furo da mão (pois ele tem furos na palma das mãos).
Saci “Sacerê”Essa espécie usa calças de algodão e entra na água sem se molhar.
Saci “siriri”Este possuía uma perna maior que a outra e tinha o corpo pendido para o lado. Tinha também os braços curtos, como o de um anão; e gostava de se esconder debaixo das pontes.
Saci-fogoEssa espécime solta fogo pelas narinas e boca. É muitas vezes confundido com o boitatá.
Saci SaderêAparece nas encruzilhadas assustando os notívagos.

A Aparência do Saci Segundo a Cultura Popular

A aparência do saci varia conforme o grau de medo que a natureza noturna inspira no roceiro.

Segundo a tradição popular, o saci teria aproximadamente um metro e meio e não possuía uma das pernas; perdida após queda no poço, enquanto escapava de uma vovó furiosa.

Gostava de pitar o cachimbo — E ai de quem não pagasse a oferenda do fumo…!— era atormentado pelo ‘demoninho’. Tinha a pele escura como a noite, os olhos pequenos como o de uma cobra e vermelhos como o de um rato branco.

Tinha nariz de socó, língua de palmo, ‘pincésinho no queixo’, barriga de maleiteiro, umbigo de chorão, rastro de criança, mão furada, orelha de morcego.

“O mardito” era visto com carapuça de cuia e calção de baeta, ambos vermelhos. Ele não usava camisa e a sua pele emanava um forte cheiro de enxofre.

Provérbio“O mal vem a cavalo e vai embora pulando com um só pé.”
Atividades do Saci– Trançar a crina dos cavalos
– Chupar o sangue dos cavalos à noite, deixando-os cansados
Perturbações causadas pelo Saci– Gorara ovos
– Comer o piruá das pipocas
– Roubar espigas
– Quebrar pés de milho
– Sumir com objetos
– Queimar o feijão
– Desfazer o crochê
– Beber o vinho dos barris
– Fumar o cachimbo preparado pelo caboclo
Ações durante viagens– Acompanhar cavaleiros no mato
– Arrancar cipós
– Assobiar para avisar a presença de pessoas
– Colocar a língua para fora e deitar fumaça pelos olhos
Locais onde se esconde– Grotões
– Fundo de poços
– Tocas de tatus
– Ocos das árvores
– Qualquer lugar escuro
Métodos para capturar o Saci– Jogar uma peneira no centro de um redemoinho
– Entrar no vórtice com uma garrafa marcada com um sinal da cruz na rolha
– Jogar um rosário de caiapiá
Outras maneiras de lidar com o Saci– Rezar uma novena para espantar o diabinho

Crenças Populares Relacionadas ao Saci:

Não se fazia rosca doce, biscoito ou pão caseiro, de sexta para sábado, pois o Saci azedava o pão e o biscoito não crescia.
Dizem que o saci assalta os viajantes incautos que se aventuram pelo sertão. Se você estiver peregrinando a noite e vir o saci, e não tiver fumo e fogo para dar ao Saci, fuja, pois ele te esbofeteará.
Nos sítios, quando um caipira ouve um assobio estridente vir da mata, diz-se que é o saci Pererê se comunicando com a caterva na mata; maquinando as próximas diabruras.
Dizem para se livrar do saci basta fazer o sinal da cruz no chão onde está o seu redemoinho; e logo em seguida jogar um Rosário benzido no meio. O redemoinho some e o saci fica preso até meia-noite, depois desse horário, o diabo, seu pai, aparece para pedir o resgate.
O Saci aproveita os dias de vento para atirar areia nos olhos humanos.
Acredita-se que quando as folhas secas bailam tangidas pelo vento, descrevendo espirais, se se jogar um Rosário Bento ao redemoinho, ter-se-á laçado o Saci; pois é ele quem agita as folhas no ar.
O Saci tem medo de lobisomem.
Tem predileção por monjolos, moinhos, engenhos; bem como a cozinha das casas grandes e sambas do crioulo-doido.
O Saci substituía os ovos de galinha choca por ovos de Gavião.
O maior castigo que se podia infligir a um Saci era dar-lhe uma surra de Rosário.
Dizem que se o Saci for expulso por um bispo, ou alguém do mais alto clero, ele perde a magia e vira um pássaro. E o canto desse pássaro lembra o seu nome: “Saci sererê… Saci cererê…!”
Piraquara não tem coragem de ir no meio da mata à noite e gritar “Que noite escura!” Por que o Saci responde: “Mais escura estará a tua alma no inferno!”
Quando alguém ouve o Saci assoviando perto é sinal de que está longe, e quando assobia longe é porque está perto.

O livro “Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito” está cheio de relatos; no entanto, as histórias a seguir foram selecionadas seguindo um critério pessoal, de acordo com o que funciona em minhas aulas. Uma dica: histórias folclóricas do tipo Saci e Cuca só funcionam com alunos até a 3ª série.

A DANÇA FUNESTA

Certa feita, um advogado e seu assistente foram ter uma audiência em uma cidade do interior do Vale do Paraíba. Eles haviam parado em uma fazenda para descansar e se alojaram em um galpão.

Na hora de dormir, o assistente (que era muito religioso) começou a rezar o terço com um Rosário de contas e, durante a prece, entrou em uma modorra (aquela sonolência que precede o sono).

Foi nesse momento que ele viu uma falange de sacis entrar no local e esvaziar os barris de refresco. O assistente olhou para o patrão, mas este já contava faunos com Pã e não via nada; em seguida, os diabretes iniciaram uma ciranda funesta. Quando terminaram a coreografia, foram aos barris e regurgitaram a bebida nos tonéis novamente.

A TRAVESSIA

Dizem que o saci não pode encostar na água, pois é um ser do fogo; e também porque Deus o proibiu. Mas, certa vez, o saci driblou essa maldição.

Era meia-noite quando um agricultor conhecido por “nhô Joaquim” ouviu alguém gritando o seu nome, para lá das bandas do rio: 

” Seu Joaquim, seu Joaquim!! (…).” 

O caipira ficou curioso e aprumou a sua canoa e atravessou o rio. Mas chegando no local do bramido não encontrou ninguém. 

“Será que eu tô ouvindo voz de assombração?”. Pensou. 

Enquanto remava, Joaquim percebeu que o barco estava mais pesado; e foi com grande esforço que ele chegou do outro lado.

Quando o barco alcançou a margem, um saci se transfigurou na frente de Nhô Joaquim, pulando da canoa, e dando gargalhadas; em seguida sumiu no breu da mata. 

Nhô Joaquim descobriu aquela noite que um saci acabara de lhe pregar uma peça.

A REZA INFINITA

Habitava antigamente em Pindamonhangaba, em tempos que a Princesa passeava no bosque, uma senhora muito distinta.

Dona Zulmira era extremamente religiosa, e tinha por hábito rezar todas as noites. A devoção era cumprida sistematicamente, na mesma hora, no mesmo local e na mesma posição: sentada na rede e de cócoras. 

A sua idade avançada, somada à monotonia da reza, exercia sobre ela um efeito narcótico, e fazia com que Zulmira sempre adormecesse no meio da oração; sem ultimar a contagem dos tentos do Rosário. 

Para livrar-se desse pecado mortal, a boa velhinha sempre que acordava, começava tudo novamente. E assim ficava, até altas horas da noite tentando concluir a oração. 

Certa noite Dona Zulmira não havia rezado meia dúzia de contas quando entrou numa modorra. Em seu estado entre os dois mundos, ela via um sacizinho no quarto, muito pretinho, com a pele reluzente, pulando com uma perna.

O saci veio em sua direção e puxou a gola do seu vestido; em seguida o seu Rosário. A velha, aflita, já suava em bicas, e após o Saci dar-lhe um peteleco no nariz, conseguiu fôlego para gritar pela empregada: 

” Isaura!… Isaura!… Olha o Saci, Isaura!! Toque ele, Isaura! Toque! Toque!

O saci, ao fugir do quarto, deu uma solene bofetada em dona Zulmira, derrubando-a da rede. Os gritos da velha acordaram a casa inteira. Interrogada sobre o incidente, a velha contou que havia visto um Saci entrar no quarto, e que ele a teria derrubado da rede.

A história foi confirmada pela empregada, que afirmou ter visto o pestinha na cozinha; e que ele teria dito que a ela que a sua diabrura serviria como uma lição, para a sinhá aprender a nunca mais dormir durante as rezas. E a parir desse dia, Dona Zulmira nunca mais ‘modorriou’ durante as rezas.

OURO DE TOLO

Uma negra chamada Catarina contava que antigamente as pessoas prendiam o saci em um Rosário de capim a fim de lhe exigir riquezas:

“Não te solto daí cabritinho. Enquanto não me fizer isto!”

Elas lhe roubavam a carapuça, cuja posse constituía condição “sine qua non” do poder sobrenatural do Saci.

Certa vez, um cavalheiro, viajando fora de hora, foi assolado pelo Saci. O Saci enganchou em sua garupa e guiou a sua montaria pela escuridão.

O homem, conhecedor do ponto vulnerável do Saci, esperou o momento mais oportuno e lhe roubou a carapuça. O Saci pôs-se a suplicar pela devolução do artefato mágico, chorando bicas e se prostrando no chão.

E o homem, muito astutamente, exigiu do diabrete uma pilha de ouro, e imediatamente uma pilha de ouro começou a tinir no chão.

O homem, num afã de riqueza, saltou do animal a fim de guardar o tesouro, mas quando tiniu a mão na moeda, ela se dissipou. O Saci, já com a sua carapuça, evaporou soltando uma gargalhada estridente. E o homem lembrou que deveria ter benzido o ouro.

O PADRE E O SACI

Um padre contou que uma vez o saci “montou” em suas costas para o atormentar.  

O sacerdote, para se livrar do peralta, agarrou um Rosário Bento e chicoteou o dorso de suas costas de um lado para o outro; enquanto o Saci se esquivava dos golpes, dizia:

“Saci perere, que no…tem mê…!”

ÊTA FUMINHO BOM…

Nos arredores de uma grande fazenda de café do Vale do Paraíba, residia um casal de escravos libertos. Todas as noites, antes de irem para a roça, eles preparavam cachimbos de barro com fumo e os deixavam em cima do fogão para fumar de manhã.

Contudo, na semana anterior à quaresma, encontraram os cachimbos cheios de estrume de vaca. Assim passou-se muito tempo, até que uma noite, Nhô Joaquim ficou irritado e resolveu descobrir o autor da travessura.

Ele ficou de tocaia em um canto da cozinha até de madrugada, quando não conseguiu mais manter os olhos abertos e entrou em uma modorra, aquele estado intermediário entre o sono e a vigília.

Ele despertou com um barulho e viu, com grande espanto, um menino negro, completamente nu, sentado na taipa do fogão, com o cachimbo na boca, fumando muito sossegadamente.

O medo foi tanto que a pressão de Nhô Joaquim caiu, e ele só acordou no outro dia com o galo cantando.

Desde então, o velho nunca mais deixou o cachimbo em cima do fogão, trancava-o numa gaveta e pregou uma cruz de madeira atrás da porta para espantar o saci.

O CABOCLO

Certa noite, um caboclo se esquentava do frio em frente a um fogão à lenha quando notou um vulto escuro no canto da porta. A criatura estava olhando fixamente para um cachimbo que estava em cima do fogão.

“Só pode ser um saci”, pensou o caboclo. O diabrete estava esperando a oportunidade para roubar os objetos. Sendo uma criatura do inferno, que gosta de fumo e fogo, foi fácil para o caboclo entender suas intenções.

O caboclo, astuto, disfarçou, foi até o armário e pegou um rosário de contas. Voltou para a cadeira, desta vez fingindo uma modorra.

O diabinho, aproveitando a oportunidade, veio pulando e estendeu a mão para roubar o cachimbo. Foi nesse momento que o caboclo lhe atirou o rosário, prendendo-o no laço. Em seguida, retirou a fonte de todo o seu poder: a carapuça.

O saci esperneou, tentou se desvencilhar, mas foi em vão; o rosário era forte, pois havia sido benzido por um padre jesuíta. O caboclo disse em tom profético:

“Saci, saci, só te darei a carapuça quando o meu desejo você consentir. — “Quando vancê enchê a minha guia de café, atopetá o meu paió de mio, e me trouxer vinte quilos de ouro em pó…” 

E em menos de uma hora o Saci havia consentido todos os desejos do caboclo. E até hoje dizem que foi assim que os Galvão fizeram fortuna na região. 

SEU CHICO DE PAULA

Chico de Paula, dono do sítio “Toca Feia”, estava atrasado com o roçado. Seguindo o costume dos moradores do mato, organizou um mutirão com os vizinhos para concluir o trabalho.

E para isso teve que fazer alguns gastos, comprando um capado e o cargueiro de pinga para servir aos ajudantes após a conclusão da tarefa.

Na véspera do mutirão, nuvens escuras começaram a se formar no céu, anunciando uma forte tempestade. Chico de Paula foi até o quintal, observou o céu carregado e teve a impressão de que seria impossível trabalhar no dia seguinte.

Chamou a mulher e disse: 

“Veja mulher, que desgraça! Fizemos tanto gasto e não poderemos aproveitar…”

A mulher aquiesceu. Ele continuou: 

“A chuva vem aí. Ora, se Deus não quis nos ajudar, quem sabe o Diabo não o fizesse!?”

Essa anátema de seu Chico de Paula fora como um “Abra-te Sésamo”. Quando a noite caiu, um som de flauta tiniu longe na mata. Quando a música cessou, os animais do sítio começaram a fazer um berreiro. Em seguida um vulto pulando em uma perna só entrou dentro da casa de seu Chico, dissipando-se no ar.  

Desde então, na casa de seu Chico, os moradores passaram a ouvir barulhos de panelas, galinhas voando alvoroçadas, tulhas de feijão sendo derramadas, seguidos de uma risadinha maliciosa.

Seu Chico de Paula levantava-se de madrugada e não via nada, pensando: “Será que é tudo ilusão ou estou ficando louco?” Mas o pior era quando ele estava dormindo: o Saci derrubava objetos no quarto e, quando estava calor, cobria os moradores.

Essa história se espalhou pelo arraial onde seu Chico morava, e rezas e orações foram feitas em sua casa, a fim de expulsar o demoninho, mas nada funcionou. 

Foi então que um valente da cidade (Tião) resolveu passar uma noite na casa para confrontar a assombração. Ele deitou perto do fogão à lenha e deixou uma faca grande de lado.

Durante a noite o Saci apareceu e derrubou as panelas no chão, acordando o homem. Tião sacou a sua peixeira, mas como o Saci estava invisível, não o viu.

O saci começou a atirar em Tião tições de lenha, enquanto dava gargalhadas. E assim o Tião ‘valente’ sumiu do “Arraial da Veia Torta” para nunca mais ser visto.

A PAPADA DO SACI

Nessa mesma noite, perdido pela mata, surpreendeu-se com uma caterva de Sacis dançando ao pé de uma figueira. Os diabinhos cantavam:

“Segunda, terça e quarta

é dia de badernação

E o resto dos dias da semana

São de penitência 

consagrados ao cristão”

Como Quim-cara não tinha nada a perder, esqueceu o medo e pôs-se a dançar com a sacizada:

“Segunda, terça e quarta

é dia de badernação

E o resto dos dias da semana

São de penitência 

consagrados ao cristão”

Os Sacis perceberam Quim no meio deles e começaram a murmurar: “Quem é este companheiro tão bom que hoje nos aparece?”

Acrescentou um terceiro: “Vamos curá-lo do papo?

Um Saci segurou Quim pela cabeça e o outro puxou com força, desprendendo a papada; lançando-a no alto de uma figueira.

Prosseguiram com a dança macabra, e, ao término, Quim voltou para a cidade feliz da vida. O povo olhava bastante admirado para ele. Tinha ficado bonito sem a protuberância no queixo, e recebeu olhares de várias moças. 

Entre os curiosos que vieram cumprimentar Quim contava Zeca paneleiro, que sofria do mesmo mal. Quim passou os esquemas para o papudo, e no outro dia estava ele ao pé da figueira.

Quando os Sacis iniciaram a dança, Zeca começou a tremer de medo, mijando nas calças. Os Sacis perceberam a presença do papudo e começaram a se perguntar: “Quem é este Diabo tão ruim que nos aparece hoje?”

“É um papudo, disse um segundo” “vamos colocá-lo mais um papo, disse o terceiro?”

E imediatamente um Saci subiu na figueira, tirou o papo de Quim, e colocou em Zeca Paneleiro, anexando a segunda papada na nuca. 

De acordo com a lenda, Zeca foi procurar os Sacis nos dias em que eles eram liberados para atazanar as pessoas (segunda, terça e quarta).

Nesses dias, os Sacis estavam proibidos pela lei etérea de praticar qualquer travessura, já que a quinta-feira era dedicada ao Santíssimo Sacramento, a sexta à morte de Jesus, o sábado à Nossa Senhora e o domingo à ressurreição de Cristo.

Como Quim surgiu nesse período, contou com a misericórdia dos demoninhos, enquanto Zeca Paneleiro enfrentou apenas os contratempos.

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