Em 2018, eu lecionava na Escola Luiz Leite, em São José dos Campos. Nesse período, tive a oportunidade de conhecer o professor Ricardo (nome fictício), um veterano da escola que estava prestes a se aposentar.
Residente em Taubaté, ele percorria diariamente a Rodovia Dutra até a escola no Galo Branco. Ricardo demonstrava interesse pelas lendas e narrativas que eu contava na sala dos professores. Em uma ocasião, ele compartilhou dois relatos de sua infância em Taubaté.

As histórias a seguir são dramatizações.
O Bebê e o Banho
Era madrugada quando o choro do meu filho recém-nascido me acordou. Minha esposa foi até a cozinha esquentar o mamá e deixou o bebê deitado na cama, enrolado no que os antigos chamavam de “cueiro”.
Enquanto ela descia até a cozinha, fui tomar banho, pois já estava na hora de eu sair para o trabalho.
Durante o banho, porém, o choro do bebê recomeçou. Saí correndo do banheiro, mas, para minha surpresa, não o encontrei na cama.
“Será que minha esposa já voltou e pegou o bebê?”, pensei.

Olhei ao redor e fui até o guarda-roupa. Levei um susto: o bebê estava no chão, enrolado no cueiro, exatamente como minha esposa o havia deixado.
Chamei-a e perguntei: — Você está ficando maluca, mulher? — Por que você deixou o bebê no chão?.
Ela negou, rebatendo: — Do que você está falando? — Estive o tempo todo na cozinha...
Sendo professor de matemática, não pude evitar usar a física para calcular as probabilidades de o bebê cair da cama no chão:
“Como um bebê sai de um ponto X, o qual é a cama, e vai parar no ponto Y, o chão; ainda mais com o cueiro perfeitamente enrolado?”
O Desfecho da História

Todos os cálculos matemáticos que empreendi nesse foram refutados no dia em que minha esposa e eu decidimos visitar um centro espírita pela primeira vez.
Nessas reuniões, a médium não decide o participante que vai receber a psicografia, já que é a alma dos parentes que toma a iniciativa.
Minha esposa segurou forte no meu braço quando a médium falou: — Carta para as famílias Moretti e Rossi. Era uma mensagem do meu falecido avô. Ela leu a carta ao vivo na sala:

Querido Neto,
Escrevo-lhe do outro mundo, onde estou em paz ao lado de nossos entes queridos. Naquela noite, fui eu quem pegou o bebê do berço, tentando acalmá-lo, mas o deixei no chão na pressa de não assustá-los.
Peço desculpas pela confusão e quero que saibam que estou sempre por perto, zelando por vocês com muito amor.
Com carinho, Seu avô.
Outro Relato do Professor: O Quase Lobisomem da Família

No passado, circulava uma lenda em Taubaté que dizia: quando seis filhos homens nasciam seguidos em uma mesma família, o sétimo, se também fosse homem, se transformaria em lobisomem; e se fosse mulher, em bruxa (Cuca).
Diziam também que, para reverter esse anátema, era preciso batizar a criança o mais rápido possível ou benzê-la com a água da Bica do Bugre.
E essa tarefa, de batizar e passar adiante a crendice, que na época era coisa muito séria, cabia aos avós.
Em uma família de Taubaté (a minha), o raio caiu duas vezes no mesmo lugar: nasceram sete filhos homens em sequência, e aconteceu de minha avó esquecer de batizar meu irmão caçula.
Minha avó só lembrou do batismo perto da Quaresma. Desesperada, procurou o padre.
O costume antigo previa que o sétimo irmão deveria ser batizado pelo primogênito, para que a maldição fosse quebrada.

Providenciaram a cerimônia o mais rápido possível, efetuando-se o sacramento um dia após o término do prazo, com a água da Bica do Bugre.
Passados alguns anos, com meu irmão já crescido, minha avó notou que ele não apresentava o menor sinal de que viraria lobisomem.
Contudo, um detalhe físico chamava a atenção de todos e também era motivo de zombaria entre os familiares: meu irmão havia nascido com um dedo a mais nos pés.
Eles brincavam: “Faltou só o dedinho, literalmente, para você virar lobisomem.” Segundo a avó, isso era fruto da maldição, que fora quebrada com um dia de atraso.
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