Relato de Terror: O Mal Não Se Engana

No meu primeiro dia de catequese, fui surpreendido por uma história perturbadora que deixou meus amigos e eu assustados.

Antes de começar a aula de catequese, rezamos três Ave-Marias, um Pai-Nosso e a oração “Vinde”. Sinésio, nosso catequista invocou a proteção de São Paulo, o patrono da Paróquia, sentou-se e deu o papo reto:

“Eu já vi alguns de vocês no morro do Santa Inês em horário de aula – não sei o que estavam fazendo, mas sei que não era certo.

Ficamos assustados, contudo, o professor continuou a narrativa:

“Por isso, antes de iniciar a catequese, vou contar uma história assustadora que aconteceu comigo há pelo menos uma década, e faço isso porque sinto que devo ensiná-los alguns valores. Já digo de antemão que essa história pode assustar alguns:

“Nos finais da década de 90, eu tinha a idade de vocês e morava no Santa Maria. Todos os dias, por volta das 11h30, quando terminava os desenhos da Globo, eu subia por um atalho no morro até a escola Ruth Coutinho Sobreiro, no Santa Inês II, onde estudava.”

Eu tinha 11 anos quando essa história aconteceu. Nesse tempo, eu costumava faltar às aulas para soltar pipa no morro.

Eu fingia que ia estudar e passava as tardes correndo atrás das pipas que rodavam; e quando o relógio marcava 17h15, eu voltava para casa despretenciosamente, como se nada tivesse acontecido…

Eu sempre me deslocava por uma trilha escondida num bambuzal, que usava como subterfúgio para não ser detectado pelos vizinhos. Seguia por um atalho em uma clareira, onde escondia a mochila em um arbusto.

Nessas incursões, era comum eu cruzar com um velho conhecido como “milagroso”. Ele era um bêbado conhecido na região por pequenos feitos necromânticos, como prever resultados de jogos, temporais, etc.

Certo dia, milagroso me chamou: “Faça um favor, meu filho.” Voltei-me para o velho com medo: “Diga à minha esposa que eu estou esperando por ela…” E passou as coordenadas de sua casa, que também ficava ao pé do morro.

Eu fui até o local indicado e entreguei o recado à esposa do homem. No entanto, a senhora ficou atônita por alguns segundos: — Mas meu marido morreu há três meses…

Ela olhou para fora da cerca e disse para si mesma: — Ele sempre dizia que nunca iria sozinho…

Então, voltou-se para mim e me contou como o Milagroso havia falecido e descreveu onde encontraram seu corpo:

— Ele foi achado desmaiado na clareira, debaixo do bambuzal, roxo por causa da geada, coitado… Enquanto a senhora narrava a história, meu coração acelerava ao me lembrar que era exatamente o mesmo local onde eu o havia visto.

Aquela história da senhora me inquietou ao longo do dia e nas semanas seguintes.

Naquela tarde, porém, eu transpunha o morro, com as pernas trêmulas, refletindo sobre a história, com medo de encontrar a alma do velho.

Até considerei voltar para casa, mas, no relógio ainda marcava 15h40, eu teria que explicar à minha avó por que havia voltado mais cedo — e corria o risco de apanhar.

O medo era tanto que me fez me juntar a outros moleques que soltavam pipa no morro. Eu morria de medo deles, pois eram maiores e tinham cara de bandidos. Inventei qualquer assunto para permanecer ao lado deles até às 17h15, horário em que terminava a aula no período da tarde na minha escola.

Na volta, tive que passar pela clareira onde havia visto o velho, e aumentei o passo, com medo, pois o sol já começara a se pôr.

Quando cruzei o bambuzal, entretanto, encontrei algo que não tinha notado antes: uma cruz fincada no chão. Não deu outra, saí correndo, assustado.

Na época, esse incidente fantasmagórico foi para mim um sinal etéreo, pois, analisando a minha vida até então, percebi que aos poucos me desviava do caminho certo.

Eu até voltei a fazer catequese na época, e fiz a Primeira Comunhão na Paróquia São Paulo Apóstolo, aqui nessa sala.

Para concluir a minha história, durante a primeira confissão antes da Primeira Comunhão com o padre Chicão (o mesmo padre com o qual vocês farão a confissão), ao finalizar o meu relato, ele fixou o olhar em mim e resumiu essa história do milagroso com um provérbio: “De fato, meu filho, a mentira abre as portas para o pai da mentira se manifestar em sua vida…”

Quando Sinésio terminou o relato, todos os adolescentes naquela sala ficaram com um olhar constrangido, como se a carapuça lhes tivesse servido, pois a maioria ali costumava matar aula no morro.

Sentados em nossas cadeiras de plástico, nos levantamos quando o catequista propôs que rezássemos uma Ave-Maria antes de encerrar a catequetese.

Enquanto repetíamos a jaculatória, meu olhar se voltava para a janela, de onde eu via o altar da Paróquia São Paulo Apóstolo. Eu pensava que, “se o mal estava tentando me emboscar nas encruzilhadas e nos morros, então eu me refugiaria na Igreja Católica, de onde ele não tinha a chave para entrar…”

Caro leitor, você acha que a visão do milagroso representava o mal personificado na forma de um ser humano? Seria essa uma tentativa de confrontar o jovem que mentia para a avó e matava aula? Ou, de fato, seria a essência da alma de Milagroso? É importante ressaltar que este relato é narrado por um indivíduo católico.

FIM

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