Há muito tempo, quando a colina da Igreja Matriz estava começando a ser habitada, havia um túnel que ligava o morro do Banhado à Igreja de São Benedito.

Segundo Agê Júnior, um historiador antigo da cidade, o túnel foi esculpido ainda na época dos jesuítas, para servir como rota de fuga em caso de um possível confronto com os índios Tamoios, que naquela época haviam expulsado os moradores do primeiro núcleo de povoamento da vila de São José da Parayba, na antiga aldeia do Rio Comprido.
No pé do morro, começavam a ser erguidas as primeiras casinhas de taipa. Do alto do Banhado, era possível ver a fumaça saindo dos fogões à lenha do mar do Banhado.
Havia naquele povoado uma família que sofria muito com a bebedeira do pai. Os filhos pequenos presenciavam diariamente o pai agredindo a mãe.
O filho mais velho ficava indignado com as cenas tétricas que via e queria matar o pai, mas era impedido pela mãe, que mandava ele e os irmãos irem para o quarto.
Numa tarde, porém, o irmão mais velho voltou mais cedo da roça porque a chuva apertou. No caminho, ouviu o grito da mãe e, já entendendo o motivo, saiu correndo com o facão que usava no trabalho.
Atravessou a cerca e ouviu outro grito. Dentro de casa, a mãe estava no chão machucada.
O garoto encontrou o pai na varanda e, sem pensar duas vezes, tentou desferir vários golpes de facão, mas não conseguiu, pois a mãe interveio para impedi-lo. Pai e filho se encararam no meio da chuva.
O pai, acuado, entrou no buraco no morro do barranco do Banhado e ficou escondido. Ele não sabia, mas havia anos que a saída do morro do Banhado, antiga rota de fuga dos índios que ficava na Matriz, havia sido concretada após a reforma da igreja.
Contam que, não achando a saída, o pai tentou voltar, mas foi impedido pela forte chuva que desbarrancou a boca do túnel, deixando-o preso no morro.
E a partir desse dia, como castigo, a alma do velho não conseguiu descansar em paz e se transformou no corpo seco do túnel do Banhado.

FIM
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