Lendas de Jacareí

Ficha Técnica da Cidade

LocalizaçãoEstado de São Paulo, região do Vale do Paraíba
Origem e Data de FundaçãoJacareí se desenvolveu ao redor da capela de Nossa Senhora da Conceição, e foi elevada à categoria de vila em 22 de novembro de 1653
Formação TerritorialJacareí foi formada a partir de terras que pertenciam a Mogi das Cruzes, de uma pousada para os tropeiros que iam para Minas Gerais
Nome Antigo da CidadeNossa Senhora da Conceição da Paraíba
LegadoA terceira cidade do Vale do Paraíba a se formar e a décima terceira da Capitania de São Paulo
Em 1895, é criada a Cia. Luz Elétrica JacareienseJacareí foi a primeira cidade do Vale a ter iluminação elétrica nas vias públicas.

A Passagem de “demonão” por Jacareí

Uma antiga narrativa jacareíense afirma que, até o início do século XIX, existiu em frente à Igreja Matriz um sobradinho simples, com duas portas e duas janelas, onde, supostamente, Dom Pedro I “posava” quando estava de passagem para São Paulo. Acredita-se que a casa fosse a residência do capitão-mor Cláudio José Machado, que não existe mais nos dias atuais.

Nota: O termo “posar” surgiu na época dos tropeiros que vinham do sul de Minas Gerais e passavam pelas cidades do Vale do Paraíba para vender seus produtos, sendo “posar” derivado de “repousar”.

Nota 2: “Demonão” era uma alcunha atribuída a Dom Pedro I, em referência ao seu temperamento explosivo e às suas atitudes extremas, ou até mesmo um apelido de cunho erótico que ele usava nas cartas trocadas com a sua amante Marquesa de Santos.

A Viagem de Independência

No dia 22 de agosto de 1822, Dom Pedro I fez uma parada estratégica em Jacareí durante sua viagem de Independência.

Vindo do Rio de Janeiro, montado em uma mula, ele seguia pela Estrada Real, também conhecida como Caminho Velho dos Paulistas.

O objetivo da viagem era angariar apoio político das elites locais do Vale do Paraíba antes da proclamação da Independência do Brasil.

Contam que, na altura de Jacareí, o príncipe precisava atravessar um trecho do Rio Paraíba do Sul, mas a balsa encontrava-se do outro lado.

Sem pensar duas vezes, entrou na água montado em seu cavalo e foi ovacionado pela população, que o aguardava ansiosamente.

Ao chegar à outra margem, estava com as calças completamente molhadas e pediu para trocar de roupa com um taubateano que estava ali, Adriano Gomes Vieira de Almeida.

O príncipe prometeu que voltaria para devolver as calças, mas ninguém sabe se isso realmente aconteceu.

As Lendas Tradicionais

O Castigo Divino

No ano de 1850, Jacareí foi castigada por uma forte tempestade de verão que durou 15 dias, e fez o Rio Paraíba transbordar.

A força da água foi tão avassaladora que, após o recuo do rio caudaloso, a população se organizou em multirão para alterar o seu curso, desviando o leito, cujas águas chegaram próximas à parte de trás da Igreja Matriz.

O antigo trecho inundado e enlameado foi apelidado pelos moradores de “Esmaga Sapo”. Posteriormente, a área foi aterrada e deu origem à atual Praça dos Três Poderes.

Gomes Leitão, nessa época, tinha 45 anos e estava no auge de seu despotismo. Era temido por todos e, segundo os relatos, não acreditava em Deus.

Durante aquelas semanas de chuva incessante, ele se queixava continuamente, afirmando que o aguaceiro estava prejudicando sua plantação.

Seus escravizados diziam que a chuva vinha de Deus, mas ele não acreditava e ordenou que todos pegassem suas armas e atirassem contra o céu.

Os escravizados se recusaram, e apenas Gomes Leitão permaneceu atirando sem parar, como se pudesse desafiar a própria chuva.

Nota: Na verdade, Gomes Leitão acreditava em Deus até demais; é bem provável, inclusive, que o autor dessa lenda desconhecesse por completo o contexto histórico do período da escravidão.

O coronel Leitão, assim como todos os outros ricos fazendeiros, costumavam se apoiar em argumentos religiosos para justificar o comércio humano — possivelmente fundamentando-se nas bulas papais Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1455), ambas amplamente manipuladas, descontextualizadas e já condenadas pela Igreja.

Nota 2: De acordo com a Igreja Católica, Dum Diversas e Romanus Pontifex foram bulas emitidas em um contexto histórico bastante específico, motivadas por disputas políticas e territoriais da época, e restringiam-se a uma região da África habitada por árabes sarracenos.

Nota 3: Na época das polêmicas bulas papais, o mapa mais utilizado na Europa era o de Ptolomeu, cujo limite territorial se estendia apenas até a Etiópia.

Abaixo dessas linhas fronteiriças (correspondentes à metade da África que conhecemos hoje), não existia nada além de figuras angelicais com as bochechas infladas, que sopravam vento na terra.

O Final da Vida do Coronel

O traficante de escravos Gomes Leitão, após comercializar dezenas de milhares de pessoas, morreu como benfeitor, depois de doar quantias exorbitantes de dinheiro para a Santa Casa, a Igreja Matriz… 

Em 1872, ele tentou suicídio com um tiro na cabeça, motivado por uma paralisia, provavelmente resultante de um derrame.

Porém, não teve êxito e passou a ser deixado aos cuidados do Dr. Luís Pereira Barreto, médico casado com uma de suas netas.

No ano seguinte, em 1873, escreveu um testamento no qual libertava parte de seus escravos cativos.

Em 1879, faleceu e foi sepultado no Cemitério do Avarehy. Em seus inventários, constavam mais de 300 escravos.

O Desvio do Leito do Rio Paraíba

Registros das atas da Câmara Municipal de Jacareí, do século XIX, apontam as discussões dos vereadores e os apelos da população após a grande enchente que assolou o centro de Jacareí em 1850. Antes de sua transposição, o Rio Paraíba do Sul passava muito próximo aos fundos da Igreja Matriz, e a força de suas águas inundavam as áreas mais baixas de suas margens. O recuo da enchente sempre deixava um grande brejo lamacento atrás da igreja.

Esse local passou a ser chamado pelos moradores de “Esmaga-Sapo”. Anos mais tarde, essa região foi aterrada e urbanizada, dando origem à atual Praça dos Três Poderes.

No imaginário popular e na literatura folclórica local, a alteração do leito do rio é atribuída ao influente e abastado escravocrata João da Costa Gomes Leitão.

Segundo a tradição, a mudança ocorreu após os protestos do 1º Barão de Jacareí, visto que as águas do Paraíba passavam originalmente pelos fundos de sua residência — imóvel onde hoje está localizada a agência do INSS.

Gomes Leitão teria utilizado a mão de obra de centenas de escravizados para desviar o curso do rio.

Nota: O rio Paraíba foi desviado em cerca de 400 metros.

A Lenda da Cobra Grande

Nesse período de temporais e de medo de que o rio engolisse a Igreja Matriz, surgiu a Lenda da Cobra Grande.

Dizia-se que uma serpente gigante vivia no subsolo, entre a paróquia Imaculada Conceição e o Rio Paraíba, e que seus movimentos faziam a terra tremer, sendo essa criatura a responsável pelo desmoronamento da encosta do rio Paraíba próximo à igreja.

A história acabou se incorporando ao folclore de Jacareí e permanece viva na memória da cidade, que ainda hoje a reconta por meio do tradicional Cortejo da Cobra Grande, uma procissão que preserva essa antiga tradição popular, realizado pela “Fundação Cultural de Jacarehy José Maria de Abreu”, e que é encenado pelo “grupo Batucaia”.

Jacareí: Local de Origem da Imagem de Nossa Senhora de Aparecida?

O registro de um colapso ecológico no século XVII pode ajudar a explicar como a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi parar no fundo do rio e chegou até Guaratinguetá. De acordo com o livro Jacareí – Sua História, de autoria do historiador e professor Benedicto Sérgio Lencioni, em meados dos anos 1700, o barranco da margem direita do Rio Paraíba — que passava próximo aos fundos da Igreja Matriz de Jacareí — começou a se esfacelar, corroído pela força das águas.

– Hoje sabemos que essa corrosão se trata de um fenômeno natural típico de rios de planície, mas, à época, foi interpretada como um fenômeno espiritual, atribuído ao “inimigo”, personificado na figura de uma cobra.

Os moradores, amedrontados, recorreram então ao Padre da Paróquia da Imaculada Conceição que, para acalmá-los, realizou uma cerimônia religiosa chamada “procissão de rogativas”, com uma imagem de barro de Nossa Senhora da Conceição erguida à beira do barranco, pedindo a Deus proteção diante das calamidades naturais.

Ao final do ato, a imagem foi lançada ao rio e levada pela correnteza, como se, ao submergir, expulsasse a cobra gigante. O desfecho dessa história todos conhecemos: nessa mesma época, especificamente em 1717, pescadores encontraram a imagem de terracota de Nossa Senhora Aparecida próximo a Guaratinguetá.

Seria a mesma imagem?

Nota: A literatura histórica local registra que o curso do rio foi de fato alterado (ou estendido) para proteger a Vila de Jacareí das constantes erosões e cheias.

Argumentos a favor e contra a origem jacareiense da imagem de Nossa Senhora Aparecida

a favorcontra
Material e técnica: A imagem é de terracota, material compatível com as Paulistinhas produzidas nas oficinas coloniais paulistas, incluindo as da região de Jacareí.Material e técnica: A terracota não comprova a origem em Jacareí, pois era utilizada na produção de imagens sacras em outras localidades.
Autoria: Alguns historiadores atribuem a imagem a Frei Agostinho de Jesus, importante escultor ligado à produção sacra paulista do período.Autoria: A atribuição a Frei Agostinho de Jesus não é consensual, e suas características estilísticas não comprovam que a peça tenha sido produzida em Jacareí.
Geografia: O Rio Paraíba do Sul conecta Jacareí a Guaratinguetá, tornando possível, em princípio, um deslocamento da imagem pela correnteza.Geografia: A distância e as características do rio tornam difícil explicar como uma imagem de terracota, frágil e relativamente pesada, teria percorrido o trajeto sem sofrer danos maiores.
Estado da imagem: A separação entre cabeça e corpo poderia ser consequência de impactos contra pedras ou outros obstáculos durante o deslocamento.Conservação: A preservação de detalhes da imagem seria difícil de explicar após um longo período de atrito com pedras, areia, lodo e outros elementos do rio.
Cronologia: As alterações no curso do Rio Paraíba e os problemas de erosão registrados na região oferecem um contexto cronológico que permite considerar a hipótese até 1717.Falta de provas: Não existe, até o momento, documento contemporâneo que registre o lançamento ou a perda da imagem no Rio Paraíba em Jacareí.
Invocação: Jacareí já possuía uma paróquia dedicada à Imaculada Conceição, mesma invocação representada pela imagem encontrada em 1717.Invocação: A devoção à Imaculada Conceição era amplamente difundida no período, de modo que a coincidência não comprova a procedência jacareiense.
Tradição: A tradição oral e a literatura folclórica local preservaram a possibilidade de que a imagem tenha vindo de Jacareí pelo rio.Circulação: As Paulistinhas também eram transportadas por terra, inclusive por tropeiros, possibilitando que a imagem chegasse à região de Guaratinguetá sem ter passado pelo rio.
Possibilidade: O conjunto de fatores materiais, artísticos, geográficos e cronológicos torna a hipótese de uma origem em Jacareí plausível.Conclusão: A ausência de documentação e as dificuldades físicas do trajeto impedem que a hipótese seja tratada como um fato histórico comprovado.

Leia Também: Lendas de Aparecida do Norte – Nas Trilhas do Vale

A Passagem Secreta

Em Jacareí, relatos antigos mecionam a existência de um túnel subterrâneo que ligaria a Igreja Matriz ao atual Museu de Antropologia. A passagem permaneceria oculta até hoje, sem que ninguém jamais tivesse conseguido localizar o alçapão que daria acesso a ela.

Escavada ainda na época do coronel Gomes Leitão, a passagem seria uma rota de fuga secreta utilizada pelos escravizados quando sofriam maus-tratos.

Para alguns, o túnel também poderia ter sido escavado para que o coronel Leitão burlasse as medidas impostas pela Lei Eusébio de Queirós (Lei nº 581, de 4 de setembro de 1850), que reprimia o tráfico e a importação de africanos.

Segundo essa hipótese, o túnel seria utilizado para conduzir clandestinamente os escravizados, que passariam escondidos pela passagem subterrânea para evitar serem descobertos pelas autoridades.

Outro Versão da História

No luxuoso Solar do coronel Gomes Leitão, localizado na Rua XV de Novembro, no Centro de Jacareí – uma das mais imponentes construções do Ciclo do Café – existem compartimentos subterrâneos secretos onde, segundo dizem, os escravizados eram escondidos para serem negociados com os fazendeiros da região. 

Com a proibição do tráfico de escravizados para o Brasil a partir de 1855, a lenda conta que o Coronel teria passado a ocultá-los nesses porões catacúbicos. Dizem que ele chegou a possuir mais de mil escravizados.

Os porões, porém, tinham, a priori, uma função estrutural: suas aberturas permitiam a circulação de ar, necessária para preservar o casarão, construído em taipa de pilão e pau a pique.

Sem essa ventilação, a umidade poderia comprometer a estrutura da construção.

Avistamentos Noturno no Casarão

Os guardas do Solar de Gomes Leitão narram histórias escalofriantes presenciadas durante suas vigílias noturnas. Risos e conversas no átrio inferior do casarão ecoavam durante seus plantões, e até mesmo o piano tocava sozinho.

Atualmente, três pianos fazem parte do acervo do museu, mas somente um tangia durante as madrugadas. A música que sempre tocava era “Sonata ao luar”.

Presença física ou espiritual eles jamais encontraram no local, contudo, um dos guardas conta que, certa vez, de maneira onírica, descobriu o autor dos barulhos.

Ele estava de folga e havia se deitado para cochilar. Pouco depois, sonhou que estava novamente de uniforme, percorrendo os corredores do casarão. Não estranhou estar ali. Para ele, era apenas mais uma madrugada de trabalho.

Nesse pesadelo que é sonhar que está trabalhando, ouvia novamente as risadas femininas e descia as escadarias para verificar a sua origem. Contudo, dessa vez ele via claramente quem as emitia.

Oculto atrás de uma coluna, ele via a sombra de dois vestidos luxuosos, semelhantes às indumentárias usadas pelas mulheres da elite no século XIX, e, ao espiar, identificava características faciais parecidas com o rosto do homem na pintura pregada na parede do salão principal. 

Sabe-se que os grandes saraus da cidade aconteciam nesse casarão e que as filhas do barão não eram autorizadas a participar – permanecendo trancafiadas em seus quartos.

Contudo, o zelo de Gomes Leitão não adiantaria nada, pois, no futuro desse passado sombrio, uma das filhas engravidaria de um escravizado de sua fazenda.

Nota 2: Esse piano que sempre tocava sozinho, era da marca Essenfelder, e segundo a lenda, a alma de Jesuína, a filha morta e emparedada pelo coronel Leitão, era quem o tocava todas as noites, revivendo eternamente sua tristeza e dor.

A Filha do Barão

A mais antiga lenda urbana da cidade de Jacareí narra a história de um filicídio.

De acordo com os registros genealógicos e folcóricos do século XIX, Jesuína Gomes da Conceição Leitão, nascida em 1839, foi assassinada em 1857 pelo próprio pai, quando tinha 18 anos.

O crime teria ocorrido após João da Costa Gomes Leitão descobrir que ela estava grávida ou apaixonada por um escravizado (ou por um rapaz pobre).

Contam que para esconder o crime e abafar o caso, o coronel Leitão mandou emparedar o corpo da filha na própria residência da família.

O mais assustador e impressionante é que, de 1895 a 1980, o casarão foi reformado e serviu como sede do Grupo Escolar Coronel Carlos Porto, recebendo gerações de estudantes de Jacareí.

A Biografia do Dito-Cujo

NomeJoão da Costa Gomes Leitão
Nascimento1805, em Balazar, Guimarães, Braga, Portugal
Falecimento26 de abril de 1879 (74 anos), em Jacareí, São Paulo, Brasil
SepultamentoJacareí, São Paulo, Brasil
PaisDomingos da Costa Gomes (30 anos no nascimento do filho) e Josepha Maria Leitão (23 anos no nascimento do filho)
Casamento1846, em São Paulo, Brasil, com Dina Maria da Conceição Munhos
FilhosPelo menos 9 filhos (2 filhos e 7 filhas)

O Casarão Que se Tornou Uma Escola Assombrada

O solar de Gomes Leitão se tornaria uma escola em 1895, denominada Escola Carlos Porto — uma das primeiras e mais antigas instituições de ensino de Jacareí.

No entanto, como vimos anteriormente, tem a questão do defunto da filha do coronel emparedado…

Desde tempos imemoriais, os alunos morriam de medo de caminhar sozinhos pelos corredores de teto alto e janelas enormes.

O pavor era geral: professores e funcionários também acreditavam que o lugar era habitado por seres umbralísticos do século passado.

Ecos nos corredores, passos no assoalho velho e sussurros rompiam o silêncio.

Contudo, durante as provas, o som que mais apavorava os alunos era o de correntes sendo arrastadas vindas do porão — como se o passado sombrio se recusasse a ir embora.

A Lenda de Sinhá Adélia

Sinhá Adélia Ferreira Braga de Siqueira foi uma mulher rica que viveu em Jacareí no século XIX e, segundo os relatos, era proprietária de muitos escravizados. Dizem que, por ser considerada feia, maltratava as mulheres cativas que julgava bonitas. Na tentativa de redimir-se de seus pecados e do sofrimento que teria causado a outras pessoas, Adélia teria padecido em seu leito de morte, vindo a morrer na senzala de sua própria fazenda.

Várias são as versões de sua história.

Uma delas afirma que ela era uma mulher gentil com seus escravizados e que foi encontrada morta na cozinha, na mesma posição representada pela escultura em seu túmulo.

Outra diz que, se alguém tocar o nariz da estátua, ela gritaria. Segundo a lenda, Adélia teria sido acorrentada pelo pai na senzala e perdido um dos pés por causa de uma infecção.

Um fato curioso é que o monumento realmente está sem um dos pés. Dizem que, sempre que alguém tentava consertá-lo, o reparo caía inexplicavelmente. Há quem diga que, todas as noites, ela grita e chora.

Alguns acreditam que Adélia morreu de sede e, até hoje, muitos devotos deixam copos com água sobre seu túmulo.

A verdade nunca saberemos. Os registros mostram que Adélia casou com José Martins de Siqueira, com quem teve dois filhos: José Martins de Siqueira Júnior e Malvina de Siqueira. Adélia é cercada de mistérios e milagres.

Seu túmulo não é visitado apenas no Dia de Finados: diariamente, são deixados terços, flores e velas.

Adélia tornou-se um ícone, um verdadeiro altar da memória de Jacareí, assim como tantos outros personagens que fizeram parte da história e do crescimento da cidade.

Atalho Pelo Cemitério

Até a década de 1980, um portão localizado nos fundos do Cemitério de Avareí dava acesso à Rua Santa Cecília, permitindo que as pessoas encurtassem o caminho. É possível que tenha sido desse contexto que emergiram as lendas relacionadas às personalidades históricas ali sepultadas.

Nota: Nesse cemitério estão sepultados: Barão de Jacareí · Barão de Santa Branca · Cônego José Bento · Nogueira da Gama · Dr. Lúcio Malta · Padre Saint Clair · Coronel Carlos Porto · Dona Adélia Braga de Siqueira.

Nessa época, as crianças costumavam correr e brincar de esconde-esconde, ocultando-se entre as tumbas até altas horas da madrugada.

Nunca ninguém viu nada. Porém, é provável que os fantasmas tivessem medo dessas crianças, porque elas “eram o bicho”.

A Passagem Secreta da Igreja

Construída em 1654, a Igreja Matriz Imaculada Conceição é uma das construções mais importantes do município. Até o século XIX, era comum que pessoas de prestígio fossem sepultadas em tumbas dentro dessa igreja (e em outras). Em 1828, porém, durante o reinado de D. Pedro I, uma lei determinou a criação de cemitérios fora dos templos, por razões sanitárias, o que pôs fim nessa prática. 

A igreja, porém, possui até hoje uma cripta onde quatro jacareienses importantes jazem em paz. São eles:

NomeDescrição / Papel
Frederico Cândido de OliveiraCirurgião-mor
João da Costa Gomes LeitãoFilho mais novo do Barão
Innocêncio Dias de MoraesEx-juiz municipal
Anna Antônia de Paula MachadoMãe do Coronel Joaquim de Paula Machado

As tumbas secretas desta igreja se encontram atrás de uma santa, em uma porta ‘camuflada’ no canto direito, como pode ser visto na foto anexada.

O Lobisomem de Jacareí

Antigamente, na Vila Mário Vieira, um dos primeiros bairros residenciais do centro da cidade, todos tinham muito medo de um senhor que vivia por lá.

Na época, o lugar tinha ruas de terra batida e nenhuma iluminação pública.

De acordo com os mais velhos, aquele homem era visto como uma figura estranha que, nas madrugadas de Lua Cheia, transformava-se em lobisomem.

As crianças que brincavam na rua de noite, quando ouviam um uivo de cachorro, corriam desesperadas para dentro de casa.

Lendas urbanas: dos anos 90 até os dias atuais

Festas Lisérgicas

No início dos anos 2000, em Jacareí, acontecia um evento chamado “Pharm Fests”. Organizado por adolescentes pela extinta rede social Orkut, o polêmico encontro tinha como proposta reunir jovens para o consumo de substâncias psicoativas.

O nome “pharm” refletia a essência desses eventos, nos quais os participantes consumiam medicamentos de tarja preta, drogas e álcool. As festas ocorriam sempre em uma lan house localizada no centro de Jacareí.

Dizem que um adolescente que trabalhava na lan house onde o evento ocorreu pela primeira vez tinha a chave do local e, durante a madrugada, levava alguns amigos para usar drogas e participar de corujões.

A primeira menção dessas festas teria surgido em um comunidade do Orkut em 2008.

As fontes que relatam essas festas, contudo, são, em geral, anedóticas, anônimas ou baseadas em boatos, mesmo quando há a identificação de um porta-voz.

Justiça Poética

Um funcionário aposentado do Departamento de Serviço Funerário da Prefeitura de Jacareí narra uma história escabrosa que aconteceu no dia 12 de julho de 1998, data da final da Copa do Mundo.

Conforme relatado por ele, nesse dia, várias chamadas simultâneas haviam sobrecarregado o setor de logística da Prefeitura de Jacareí, e, para continuar atendendo aos munícipes, o chefe do Departamento Funerário da Cidade sugeriu que os funcionários improvisassem outro meio de transporte, além do carro oficial do IML da prefeitura.

Conforme argumenta o funcionário da prefeitura, como na época não havia celular com câmera ou mesmo um telefone de “disk-denúncia” para os reclames, não houve nenhum receio por parte deles em executar a ordem superior.

Para esse fim alternativo, o motorista do rabecão e ele decidiram improvisar um meio de transporte peculiar: um automóvel convencional.

O veículo selecionado foi um Gol 1000, de uso exclusivo do setor administrativo, que dispunha de bagageiro no teto.

O ex-Agente de Serviço Funerário conta que, no primeiro atendimento daquele dia, quando chegaram na casa da senhora falecida, perceberam que haviam esquecido o saco mortuário e, sem alternativas, pois já estava quase na hora do início do jogo da seleção brasileira, sugeriram ao filho da falecida uma maneira improvisada de levá-la ao necrotério.

O filho concordou, já que o IML ficava a poucos minutos de distância. Eles então embrulharam a falecida em plástico filme e, logo em seguida, a envolveram em papel pardo, para não chamar a atenção dos transeuntes.

Contudo, ao estacionarem no pátio do Instituto Médico Legal, tiveram um surpresa.

Isto porque, logo após o filho da defunta ir até a recepção resolver os trâmites burocráticos do óbito, e de os funcionários da Prefeitura de Jacareí voltarem para buscar a maca e o saco mortuário, o corpo da defunta havia desaparecido.

Conforme relatado pelo funcionário, no momento em que todos estavam dentro do prédio, dois ladrões retiraram o “embrulho” do carro e o levaram.

Ao perceber o sumiço do corpo da mãe, o filho, desesperado, acionou a polícia que, meia hora depois, encontrou o cadaver abandonado do outro lado do quarteirão.

No local da desova, os policiais e legistas levantaram uma hipótese inusitada: os bandidos, em sua pressa de roubar e fugir com o “embrulho“, teriam confundido o pacote mortuário com uma “valiosa” encomenda do Sedex.

Contexto: Cemitérios e lendas Urbanas

Cemitérios são locais perigosos, e não estou considerando aqui os traumas relacionados ao plano espiritual.

Antes da pandemia de COVID-19, o mundo enfrentou diversas epidemias, como a Peste Negra no século XIV, que devastou a Europa, e a Gripe Espanhola em 1918.

Desde os tempos mais antigos, as pessoas acreditavam que os mortos podiam contaminar os vivos, e por isso criaram várias regras para o manejo dos corpos.

Uma dessas crenças dizia que o falecido deveria ser enterrado a sete palmos do chão.

Contudo, com o avanço da ciência, descobriu-se que os antigos estavam certos: a decomposição dos corpos poderia contaminar os lençóis freáticos com o líquido cadavérico.

Atualmente, os sepultamentos seguem critérios sanitários rígidos, e as urnas funerárias são enterradas a pelo menos meio metro do chão.

Em Jacareí, uma história envolvendo cemitério corrobora com esse argumento, leia:

Limpando o Túmulo do Avô

Em 2022, uma reportagem passou a circular no TikTok e rapidamente ganhou repercussão ao relatar a morte trágica de uma mulher grávida, ocorrida após uma visita ao cemitério no Dia de Finados.

O caso, cercado de detalhes perturbadores, despertou comoção e levantou questionamentos sobre as circunstâncias do falecimento.

Segundo o relato, uma mulher havia ido ao cemitério para realizar a manutenção do túmulo do avô.

No entanto, no dia anterior à visita, ela havia machucado um dos dedos do pé e, por esse motivo, para facilitar a limpeza da sepultura, optou por usar apenas um chinelo Havaianas durante a lavagem — um detalhe que, conforme a narrativa, pode ter sido decisivo para o desfecho fatal.

Alguns dias após a limpeza, porém, a mulher percebeu que o ferimento no pé não cicatrizava e, somente após muita insistência da família, decidiu procurar o pronto-socorro.

Contam que ela não saiu mais de lá: foi internada e diagnosticada com uma infecção generalizada; e, durante a anamnese, os médicos não conseguiam identificar a origem da infecção.

Uma semana havia se passado, e a mulher continuava sendo mantida em coma induzido.

Foi então que os médicos decidiram conversar com as tias da mulher, que revelaram naquele momento que a única atividade incomum que ela havia realizado fora limpar a sepultura do avô no Dia de Finados.

Os médicos ficaram indignados, pois essa informação chegara tarde demais, e não havia mais tempo para que os antibióticos fossem administrados com eficácia.

Desse modo, dez dias após a limpeza do túmulo, a mulher faleceu em decorrência de uma infecção generalizada.

Nota: A mulher mostrada no GIF não corresponde à personagem da história; trata-se apenas de uma imagem ilustrativa, sem relação direta com a narrativa.

Nota 2: Sabe aquelas árvores de frutas dos cemitérios? Nunca coma, pois a poeira revolvida dos sepultamentos pode estar contaminada com “cadaverina”.

O Vestido Envenenado

Uma adolescente de Jacareí passou mal durante o seu baile de 15 anos e precisou ser levada para fora do salão de festas para respirar um pouco de ar fresco.

Depois de algum tempo se recuperando, ela voltou ao salão e foi direto ao banheiro lavar o rosto. Porém, não saiu mais de lá com vida.

Foi um evento funesto, que apavorou a todos os convidados e participantes do baile. A polícia e os bombeiros foram acionados e todo o perímetro foi isolado.

Após confirmar a morte, ouvir as testemunhas e analisar as imagens das câmeras do baile, a Polícia Civil concluiu, com base em anos de experiência, que apenas o laudo do IML poderia esclarecer o caso.

Contudo, os médicos legistas não compreenderam por que havia altas doses de formaldeído no organismo da jovem, uma substância usada por tanatopraxistas no embalsamamento de corpos.

Os médicos então examinaram o vestido da garota e descobriram a causa da morte: cadaverina em quantidades que, teoricamente, necessitaria que ela tivesse morrido duas vezes para alcançar tal concentração.

Nota: Cadaverina é uma substância produzida como resultado da decomposição de cadáveres.

Mesmo após a identificação da “causa mortis”, o trabalho da polícia ainda não havia sido concluído.

Na mesma semana, dois investigadores procuraram a família da adolescente envenenada e a interrogaram sobre a origem do vestido, descobrindo que ele havia sido adquirido em um brechó evangélico no centro de Jacareí.

Na loja, a proprietária contou que havia comprado o vestido de um rapaz do bairro. Os policiais, após analisarem as imagens das câmeras de segurança, confirmaram a versão da vendedora.

A polícia descobriu, então, a identidade do rapaz e o investigou por uma semana. A partir das imagens das câmeras de segurança do bairro, constataram que o ladrão havia furtado lápides do cemitério de Jacareí em diversas ocasiões.

Esse Foi o Relatório Final Da Polícia:

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TipificaçãoOs FatosClassificação
Incidente InicialViolação de sepultura e subtração de vestimenta diretamente do corpo.Vilipêndio a Cadáver
Agente InfecciosoPresença de fluidos cadavéricos e bactérias de decomposição no tecido.Risco Biológico / Contaminação
Destinação do ObjetoVenda do vestido em brechó sem procedência ou higienizaçãoReceptação / Crime Sanitário
Exposição da VítimaUso imediato da peça contaminada durante um baile.Imprudência / Contágio
Consequência FinalEvolução de infecção bacteriana severa para óbito.Morte por Causa Exógena

Relatório de Conclusão de Inquérito Policial: O inquérito detalha o furto de um vestido mediante a violação de sepultura e vilipêndio de cadáver. A peça, impregnada por agentes patogênicos da decomposição, foi vendida em um brechó sem a devida higienização. Uma jovem adquiriu e utilizou a vestimenta contaminada em um baile, sem lavá-la previamente. O contato direto com o tecido infectado causou uma infecção sistêmica aguda na vítima secundária. O quadro evoluiu rapidamente, resultando no óbito da jovem, confirmado por exames periciais no IML.

O Rato Mutante de Jacareí

No início dos anos 1970, os moradores de Jacareí ainda se lembravam da espuma que, em alguns períodos, chegava a ultrapassar o piso da ponte Nossa Senhora da Conceição, resultado dos resíduos do processamento de celulose lançados no Rio Paraíba. No final daquela década, a fábrica passou a investir em tecnologias de recuperação da lixívia, reduzindo o impacto dos resíduos no rio.

Foi nesse contexto de poluição, transformações industriais e preocupação com o Rio Paraíba que surgiu uma das lendas urbanas mais curiosas de Jacareí: o Rato Mutante.

Uma senhora caminhava pelas margens do Rio Paraíba quando avistou um vira-lata do tipo estopinha. O cão estava fraco e doente, e ela decidiu levá-lo para casa.

Com o passar dos dias, a senhora percebeu que o animal tinha hábitos estranhos: gostava de revirar o lixo e de pular dentro do vaso sanitário.

Certo dia, ao retornar para casa, encontrou seu outro cachorro atacando e mordendo o Estopinha. Desesperada, correu ao veterinário com o que restava do animal.

Foi então que recebeu uma revelação inesperada: segundo o veterinário, aquilo não era um cachorro, mas sim uma mutação de rato.

Outras Lendas de Jacareí

FolcloreDescrição
O Jacaré GiganteNos tempos antigos, os moradores acreditavam que um enorme jacaré apareceu na cidade, sendo expulso após uma procissão.
O Corpo do JacaréHá uma lenda de que o corpo desse jacaré atravessa todo o Vale do Paraíba.
Dragão ou Jacaré?Os mais antigos acreditavam que o enorme jacaré poderia ser, na verdade, um dragão.
Aparições de Nossa Senhora de FátimaNo bairro Campo Grande, no dia 7 de cada mês, os moradores afirmam ver aparições de Nossa Senhora de Fátima.
A Serpente na Igreja MatrizOs vitrais da igreja Matriz contam a história de uma serpente que quase engoliu a cidade, sendo expulsa pela imagem de Nossa Senhora.

3 comentários em “Lendas de Jacareí”

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