Lendas de Itaguaí

Itaguaí é um município do estado do Rio de Janeiro, situado na Região Metropolitana Oeste Fluminense. Localizado às margens da Baía de Sepetiba, ocupa uma posição estratégica entre o litoral e o interior, com forte vocação portuária, industrial e logística.

A história e a cultura de Itaguaí estão fortemente ligadas às tradições indígenas.

Durante os períodos Colonial e Imperial do Brasil, a cidade teve grande importância geográfica e estratégica, e funcionou como ponto de parada para viajantes que percorriam os caminhos reais que ligavam a capital do império às prósperas cidades mineiras.

Além disso, Itaguaí carrega histórias assustadoras de quando foi um importante ponto de partida para viajantes que percorriam a Rota do Ouro, assim como para aqueles que seguiam do Rio de Janeiro em direção a São Paulo.

Um exemplo marcante desse passado sombrio é a Rota da Independência, um antigo caminho indígena por onde Dom Pedro I partiu de Itaguaí para proclamar o famoso “Grito do Ipiranga”.

Data de Fundação da cidade5 de julho de 1818
Origem do NomeO topônimo “Itaguaí” tem origem na antiga língua tupi e significa “rio da enseada da pedra”, através da junção dos termos itá (pedra), kûá (enseada) e ‘y (rio).

Origens e Primeiros Habitantes

A região de Itaguaí começou a ser explorada no século XVII pelos índios Jaguaremenon. Conta-se que a tribo viveu um período de prosperidade, durante o qual selou a paz com os jesuítas.

Contudo, a tribo acabou entrando em conflito com os bandeirantes. Em um desses embates, um jovem indígena foi capturado e recebeu o nome de batismo José Pires Tavares.

Já adulto, José Pires Tavares viajou a Portugal em busca de proteção régia para sua aldeia.

No entanto, mesmo com o apoio da rainha Dona Maria I, os colonos aproveitaram sua ausência para atacar a aldeia e exterminar os nativos de sua tribo.

Após retornar, Tavares lutou pela posse das terras até sua morte em 1805, mas o território foi ocupado por colonos, incluindo Antônio Gomes Barroso, o primeiro alcaide-mor da região.

1688Fundação do aldeamento jesuíta em Itaguaí.
1700-1850Desenvolvimento do aldeamento com subsistência, engenhos de açúcar e plantações de café.
1840População de Itaguaí atinge mais de 17 mil habitantes, superando cidades como Maceió e Santos.
1850-1900Declínio devido ao esvaziamento do porto, epidemias e abandono de áreas cultivadas.
Século XXRecuperação econômica com diversificação e aumento populacional.

Formação da Vila e Papel no Caminho do Ouro

Esse trajeto era preferido por sua segurança e facilidade em relação à rota marítima, que sofria com ataques de corsários na Ilha Grande.

Marco Histórico: Parada de Dom Pedro I

Durante sua jornada para declarar a Independência do Brasil, Dom Pedro I fez uma pausa na vila de Itaguaí com o intuito de descansar e alimentar os cavalos.

O local onde se pernoitou é, atualmente, conhecido como Praça Dom Luís Guanela, situado nas proximidades da Igreja Matriz de São Francisco Xavier.

Dom Pedro I, então Príncipe Regente, partiu de Itaguaí pela famosa Estrada da Calçada, seguindo em direção a São Paulo, onde proclamaria a Independência do Brasil.

A Estrada Real da Serra da Calçada foi o primeiro caminho construído em 1822 pela corte portuguesa para ligar o Rio de Janeiro a São Paulo. Localizada em Raiz da Serra, talvez seja uma das mais antigas estradas do país.

A estreita via é revestida com pedras pé-de-moleque que foram transportadas até o local por escravos. Ela leva até um local que hoje é conhecido como Mirante do Imperador, um importante ponto turístico de Itaguaí.

Dom Pedro a usava com frequência em suas viagens à capital paulista. A sinuosidade da estrada é acompanhada por lindas árvores nativas e pelo ar fresco da floresta.

Seguindo pela Estrada da Calçada, há, ao longo do caminho, um local chamado Mirante do Imperador, de onde se pode apreciar uma vista deslumbrante.

Mais adiante, encontra-se a Pedra de Santo Antônio, que possui uma inscrição em letras de bronze com os dizeres:

“Prezidência de Província – 1822”

A inscrição faz referência ao trajeto percorrido por Dom Pedro I em sua viagem a São Paulo, que resultou na proclamação da Independência do Brasil.

Infelizmente, muitas letras de bronze foram furtadas ao longo dos anos, mas as marcas remanescentes ainda preservam o registro histórico desse marco.

Após dar o grito da independência às margens do Rio Ipiranga, Dom Pedro I, juntamente com sua comitiva, voltaram para Itaguaí, sendo novamente proclamado Imperador do Brasil e aclamado em praça pública, na Praça da Aclamação, no Centro.

Expansão e Desenvolvimento Econômico

Em 1844, foi criado o distrito de Seropédica, destacando-se pela produção de seda, que resultou na instalação da primeira fábrica de tecidos de seda do Brasil. Isso marcou o início de uma nova era de desenvolvimento econômico na região.

OrigemAldeamento jesuíta fundado em 1688.
Atividades EconômicasCulturas de subsistência, engenhos de açúcar, café, porto comercial.
População no Século XIXMais de 17 mil habitantes em 1840, destaque em comparação a outras cidades da época.
DeclínioPerda do porto, epidemias e abandono de áreas cultivadas no final do século XIX.
RecuperaçãoDiversificação econômica e crescimento no século XX, aproveitando sua localização estratégica.

Visita de Maria Grahan à Vila de Itaguaí

Sábado, 23 de Agosto de 1823

Depois do café, cavalgamos pela estrada calçada, que cruza a planície de Santa Cruz, até a aldeia indígena de São Francisco Xavier de Itaguaí, geralmente chamada Taguai, fundada pelos jesuítas não muito tempo antes da expulsão.

A situação da aldeia e da igreja é muito bela; no cume de um morro, domina uma rica planície, banhada por um rio navegável e cercada de montanhas.

Entramos em várias cabanas de índios que compreendi serem da nação guarani. Perguntei a uma das mulheres em cuja cabana me sentei se sabia de onde tinha vindo sua tribo.

Ela disse que não, que ela havia sido trazida, quando simples criança, de uma grande distância de Taguaí, pelos padres da Companhia, que seu marido morrera quando ela era moça; e que ela e suas filhas sempre haviam morado ali; mas que seus filhos e netos, quando os padres da Companhia se foram, haviam voltado para seu país, com o que ela queria dizer que haviam reassumido a vida selvagem.

Isto não causa surpresa. Os índios aqui precisam trabalhar para outros e tornarem-se criados, situação que eles dificilmente distinguem da escravidão.

Além disso, há escravos bastantes, e o negro é mais resistente que o índio, seu trabalho é mais rendoso; portanto, um índio desejoso de trabalhar nem sempre encontra senhor.

O produto de seu pequeno terreno, ou de sua pescaria, é raramente suficiente para a família, e sem a ajuda do padre, cuja principal proteção consistia em obter-lhe ocupação permanente, o selvagem semi-domesticado desanima, e volta de novo para a liberdade de sua floresta, para sua caça e para sua pesca descontrolada.

Os índios chilenos raramente, ou nunca, voltam às florestas uma vez organizadas suas aldeias, mas isto depende de circunstâncias que nada têm de comum com o estado do Brasil.

Muitas das mulheres índias casaram-se com os portugueses crioulos; os casamentos entre mulheres crioulas e índios são mais raros.

As crianças de tais uniões são mais belas e parecem mais inteligentes do que as de raça pura de qualquer dos índios.

As cabanas indígenas de Taguaí são muito pobres, escassamente suficientes, nas paredes e teto, para defender do clima, e dotadas de pequenas redes para dormir e utensílios de cozinha.

Contudo, por toda parte éramos convidados a entrar e sentar. Todos os chãos estavam varridos com limpeza e havia geralmente um cepo de madeira, ou um banco rude, para assento do estrangeiro, enquanto os próprios habitantes se acocoravam no chão.

Ao pé do morro de Taguaí há um belo engenho vendido por D. João VI a João de Barros; os cilindros são movidos por uma roda d’água horizontal de cerca de vinte e dois pés de diâmetro, acionada pelo pequeno rio Taguaí.

A quantidade de açúcar fabricado em um dado tempo é pouco maior do que a produzida pelo engenho a vapor da Mata Paciência, sendo igual o número de escravos empregados.

Após haver admirado bastante a limpeza do engenho e a beleza da situação, deixamos Taguaí para voltar a Santa Cruz e passamos novamente o rio Guandu, onde há uma guarda a cavalo junto à ponte.

Lendas

A Lenda de Quiva e Laiá: A Origem Mítica de Itaguaí

No século XVII, três padres jesuítas trouxeram cerca de 400 indígenas do Espírito Santo para fundar a Aldeia dos Itingas, no território onde hoje está Itaguaí.

O local escolhido foi o morro “Cabeça Seca”, entre os rios Itingaçu e Itaguaí, onde ergueram uma cruz e estabeleceram a sede da aldeia, atual Igreja de São Francisco Xavier.

Como parte das tradições indígenas, foi realizada uma cerimônia para eleger o líder da tribo e sua companheira.

Quiva, o guerreiro mais forte e audaz, e Laiá, a jovem mais bela, foram escolhidos. Após o ritual, o casal percorreu e demarcou as terras da aldeia, que totalizavam 725 km². Na volta, foram recebidos com celebrações, mas o momento foi interrompido por sentinelas que alertaram sobre uma invasão de colonos brancos.

Quiva liderou os guerreiros indígenas em uma batalha feroz às margens do rio Itaguaí, obrigando os invasores a recuar. Durante o conflito, Laiá foi envenenada.

Para salvá-la, o pajé revelou um ritual de cura: alguém deveria beber o sangue de Laiá misturado com uma erva e, em seguida, oferecer o próprio sangue para ela beber.

Consciente de que o sacrifício seria fatal, Quiva prontificou-se a realizar o ritual. Ele salvou sua amada, mas tombou morto logo depois.

Desolada, Laiá cobriu o corpo de Quiva com flores e se refugiou na mata, onde prometeu guardar-se para sempre. Após sua morte, os dois tornaram-se símbolos da aldeia e de sua luta.

A profecia do pajé, contudo, se cumpriu. Anos depois, colonos realizaram um massacre contra os indígenas, destruindo a Aldeia dos Itingas. Com isso, a memória de Quiva e Laiá transformou-se em uma lenda que ecoa até hoje, como símbolo de resistência e identidade cultural de Itaguaí.

O Mergulhador Preso

Essa história é conhecida por todos os caiçaras do litoral de Itaguaí. Contam que um pescador mergulhou em uma fenda na rocha para capturar um enorme baiacu-arara que estava escondido.

Quando o pescador inseriu o braço no buraco, o peixe inflou e prendeu a sua mão. A lenda narra que o homem tentou por vários minutos se desvencilhar da rocha até perder o fôlego e morrer.

Em outras versões, o pescador usa uma faca para cortar a própria mão e se libertar. Outra variação da história descreve um homem que caça polvos nas fendas ao longo da parte rasa da costa, e quando o polvo se infla, ele fica preso e desmaia. Em seguida, a maré sobe e ele morre afogado.

FIM

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