Escolas Assombradas: Olympio Catão

A E. E. Olympio Catão é a escola mais antiga de São José dos Campos. Fundada em 1896, com o propósito de reunir as instituições de ensino que funcionavam de maneira isolada em diferentes locais do município, sua criação respondeu às necessidades educacionais da cidade, em um contexto de precariedade das condições de ensino e de profundas transformações políticas impulsionadas pela Proclamação da República, em 1889.

A escola também marcou a formação de personalidades importantes da cultura brasileira, como o poeta Cassiano Ricardo, que publicou seu primeiro poema enquanto era aluno da instituição.

Segundo o professor e jornalista Jairo César de Siqueira, a escola Olympio Catão foi o berço da cultura joseense.

Em um dos capítulos do livro em que reúne suas reminiscências, ele recorda seus tempos de estudante na escola e deixa escapar observações que, hoje, poderiam ser interpretadas como relatos de lendas urbanas.

Desse modo, o texto a seguir reúne algumas dessas passagens que ajudam a compreender o imaginário sobrenatural em torno da escola.

As Lendas Urbanas

A Primeira Escola da Cidade

Embora o Grupo Escolar Olympio Catão, fundado em 1896, seja popularmente reconhecido como a primeira escola de São José dos Campos, há documentos que apontam a existência de escolas isoladas anteriores à sua criação.

Isso abre espaço para uma pergunta capciosa: existiria alguma escola esquecida, escondida nos antigos bairros rurais, que teria sido, na verdade, a primeira escola da cidade?

Não quero afirmar nada, mas fica a pergunta: ao extinguir as antigas escolas isoladas e reuni-las em um único Grupo Escolar, haveria o receio de que alguns de seus professores fossem favoráveis à monarquia, em um período ainda marcado pela recente Proclamação da República?

Ou, ainda, existiriam escolas que professassem uma religião diferente da católica?

A unificação também poderia ser uma forma de centralizar o controle sobre o ensino?

E o que aconteceu com as instituições que desapareceram dos registros e da memória dos joseenses?

Diante disso, talvez a maior lenda da cidade seja a de que o ensino em São José dos Campos começou com o Grupo Escolar Olympio Catão, uma narrativa possivelmente construída pela elite local.

Como as escolas anteriores eram precárias, rurais e pouco visíveis para o centro urbano, a história oficial pode ter contribuído para apagá-las da memória coletiva, exaltando o novo prédio luxuoso e republicano, como o verdadeiro marco inicial da educação e do progresso na cidade.

Fonte: ROQUE, Zuleika Stefânia Sabino. A educação e o cotidiano escolar em São José dos Campos (1889-1930). 2007. 179 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Pós-Graduação em História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), São Paulo, 2007.

Nota: Ao que tudo indica, a grafia Olympio, com “Y”, é utilizada para se referir à antiga escola, enquanto Olimpio, com “i”, designa a instituição atual.

Matando Aula

Segundo as memórias de Jairo César de Siqueira, durante sua época de estudante na escola Olympio Catão, o diretor posicionava dois funcionários para vigiar a movimentação na saída dos alunos na saída do período da tarde: o servente, Sr. Zeca Bicudo, ficava em uma das esquinas do Largo da Cadeia, enquanto o Sr. Zé Marcondes ocupava a outra.

O próprio diretor permanecia no portão principal do edifício, atento à movimentação dos estudantes, a fim de evitar correrias, arruaças e brigas.

Considerando que o Banhado ficava logo abaixo da escola Olympio Catão, é possível imaginar que alguns estudantes aproveitassem a ausência dos funcionários para matar aula e nadar em suas águas.

Em uma cidade ainda pequena, onde professores e inspetores conheciam as famílias dos alunos, a notícia dessas escapadas poderia chegar rapidamente aos pais, seja por meio de visitas às casas, seja pelos comentários que circulavam pelas ruas. 

Assim, a vigilância na saída da escola ganha outro significado: além de evitar a desordem, poderia refletir a preocupação em impedir que os estudantes desaparecessem pelo caminho antes de chegar em casa.

Para Ser Aceito no Grupo Escolar

O texto a seguir é uma lenda, mas não por ser um relato falso, exagerado ou baseado apenas em rumores, como costumam ser as lendas, pois ele é verdadeiro. O que o torna uma lenda é o fato de que a realidade de um tempo pode ser assustadora.

Não que houvesse um “apartheid” formalizado em lei que proibisse os negros de frequentar os Grupos Escolares no início da República. No entanto, historiadores apontam que a exclusão e a segregação ocorriam de forma sutil, dissimulada e estrutural, utilizando critérios socioeconômicos e culturais — como a exigência de uniformes, calçados e materiais didáticos — como barreiras invisíveis de acesso.

Na escola Olympio Catão não era diferente. Nos Grupos Escolares da Primeira República, exigia-se que os alunos estivessem uniformizados, limpos e, crucialmente, calçados., e como a população negra recém-liberta foi empurrada para a extrema pobreza, sem qualquer política de integração ou indenização pós-abolição, a imensa maioria não tinha condições financeiras de arcar com roupas padronizadas, sapatos ou livros. 

Nas fotografias dos alunos no começo do século XX, (abaixo) também não há nenhuma criança ou professora negra, e o único que aparece sentado, que poderia ser identificado como aluno de pele negra, poderia ser devido a luz incidindo na fotografia preto-e-branco, ou mesmo ao envelhecimento da imagem.

Dessa forma, as regras de decoro e vestimenta funcionavam como um filtro de seleção social e racial.

A – Prof. Afonso César de Siqueira (pai dele)
B – Sargento Deodato Ramos

1 – Pedro Faria
2 – Nadir Crespo Barros
3 – ??
4 – Antoninho Nunes de Paula
5 – Benedito Alves de Souza
6 – ??
7 – Mario Nunes de Assis
8 – Geraldo Vieira de Moura
9 – ??
10 – ??
11 – João Galdino
12 – ??
13 – ??
14 – José Benedito Portela
15 – ??
16 – Afonso B. Tarantino
17 – Vicente Nunes de Assis
18 – Alcides Nunes de Assis
19 – Antoninho Bonilha
20 – Tony Moraes Barros
21 – Benedito Silva Pontes
22 – ??
23 – Mauro Pereira Barreto
24 – Felício (da Casa Confiança)
25 – Irineu Nunes de Paulo
26 – Afonso Bráulio de Mello
27 – Jairo César de Siqueira
28 – Zezinho Bueno da Cruz
29 – Osvaldo Bueno da Cruz
30 – José Bispo
31 – Paulo Madureira Lebrão
32 – Manuelzinho Mascarenhas
33 – Benedito Corrêa
34 – Octacílio Moreira
35 – Danilo Monteiro
36 – ??
37 – Bindo Guida Filho
38 – Osmar de Oliveira
39 – Benedito M. de Figueiredo
40 – Sylvio Madureira Lebrão
41 – Lécio Ramos de Souza

Caridade Ostentação

Como vimos no texto anterior, não era todo mundo que tinha condições de estudar na escola Olympio Catão, ou que poderia ser aceito. Porém, em 1920, fundou-se a Associação Protetora das Crianças Pobres.

Esse grupo era responsável por fornecer auxílio material às crianças pobres que não poderiam frequentar o Grupo Escolar.

No entanto, a caridade não saía de graça, e os “benevolentes” apareciam com grande frequência em pequenas notas da Imprensa — o que era uma maneira encontrada para angariar fundos para eles mesmos ao se autopromover.

Além de transformarem um direito público em um ato de caridade privada e ostentação.

A Lenda do “Prédio Planejado” no Centro

Ao contrário do imaginário de que os Grupos Escolares funcionavam em palacetes construídos especialmente para esse fim pelo governo, a Escola Olympio Catão passou décadas instalada em prédios adaptados.

Inicialmente, funcionou na residência dos Mascarenhas e, posteriormente, foi transferida para o Palacete dos Baracho, ambos situados no centro da cidade.

Locais Onde o Grupo Escolar Olympio Catão Funcionou

Período / Ano de InauguraçãoLocal de FuncionamentoDetalhes e Contexto
1896Antiga residência da Família MascarenhasPrimeiro prédio alugado, localizado ao lado da Igreja Matriz de São José.
1910Palacete / Mansão do Dr. José Pedro de Paiva BarachoPrédio próprio adquirido e restaurado pelo governo estadual; funcionou até ser interditado em 1954.
1954Outras escolas da cidadeTransferência provisória dos alunos após a interdição da mansão por estado precário.
1959Novo prédio construído pelo Governo do EstadoErguido no mesmo local da antiga mansão (que foi demolida em 1957) e inaugurado em 23 de maio de 1959.

O Esqueleto do Olympio Catão

Nas memórias do professor e jornalista Jairo César de Siqueira, o antigo Grupo Escolar Olympio Catão guardava, em um quartinho sob a escada, um esqueleto humano utilizado nas aulas de anatomia.

O cômodo também servia como depósito e, em determinadas ocasiões, como castigo para os alunos mais travessos.

O que deveria inspirar medo, porém, acabou se tornando objeto de brincadeiras: os estudantes passaram a retirar pequenos ossos do esqueleto, que se transformaram em peças disputadas em trocas e negociações.

Jairo recorda, inclusive, o caso de um menino que passou anos carregando uma faquinha cuja lâmina estava presa a um cabo feito de parte da tíbia do esqueleto. O antigo guardião do quartinho, antes temido pelos alunos, havia se transformado em motivo de zombaria.

Com o tempo, entretanto, o diretor proibiu o uso do cômodo como castigo, tanto pelos danos causados ao esqueleto quanto pelo desaparecimento de materiais e pelas inscrições que cobriam as paredes.

É a partir desse episódio que surge uma versão mais sombria da história. Segundo um rumor que teria circulado entre antigos estudantes, a retirada dos ossos não teria sido uma simples travessura: cada fragmento levado para casa carregaria consigo algo da presença daquele que um dia fora dono do esqueleto.

O menino que guardava a faquinha de tíbia humana teria sido o mais afetado. No início, nada parecia fora do comum, mas, conforme envelhecia, seu comportamento teria se tornado cada vez mais estranho.

Já idoso, teria perdido a razão e passado seus últimos anos internado no Sanatório Francisca Júlia.

A história não terminaria com o fechamento do quartinho. Décadas depois, quando o antigo prédio do Olympio Catão foi demolido, a decisão provocou indignação entre aqueles que consideravam o edifício parte importante da memória histórica da cidade.

Para os que alimentavam a antiga superstição, aquela demolição teria sido mais do que a perda de um patrimônio: seria a destruição do último lugar ao qual a presença do esqueleto ainda estaria ligada.

A partir daí, uma nova versão do rumor teria ganhado força. Sem o prédio para confiná-la, a alma do antigo esqueleto estaria livre para vagar pelos arredores, manifestando-se em ruídos, sombras e aparições atribuídos à escola desaparecida.

Alguns diriam que a maldição acompanhou os ossos roubados; outros, que a demolição apenas rompeu o último vínculo entre os restos mortais e o lugar onde permaneceram por tantos anos.

Afinal, se até mesmo os ossos de um esqueleto escolar foram transformados em amuletos, quem poderia garantir que ninguém levou consigo um fragmento que jamais deveria ter saído dali?

O Patrono da Escola

Olympio Catão nasceu em Lorena, em 4 de fevereiro de 1850. Foi professor, inspetor escolar, jornalista, dramaturgo e comediógrafo.

Lecionou em São Paulo, Descalvado e Lorena e, em 1892, foi nomeado inspetor escolar da região de Taubaté, onde realizou diversas reformas no ensino.

Em 1896, seu nome foi dado ao Grupo Escolar fundado em São José dos Campos, em homenagem à sua atuação na educação. Faleceu em 31 de outubro de 1908, após um período de doença.

FIM

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

Descubra mais sobre Nas Trilhas do Vale

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo