Dossiê: Os Corpos Secos de São José dos Campos

Por que a cidade de São José dos Campos é infestada de relatos de corpo seco, especialmente nos bairros do Galo Branco/Eugênio de Melo e Limoeiro? Ficou curioso? Façamos então um dossiê a respeito dessa entidade maligna.

Ficha Técnica do Corpo Seco

Nome da EntidadeCorpo Seco
OrigemFolclore Brasileiro
Descrição FísicaAparência raquítica e esquelética, pele seca e grudada aos ossos, semelhante a um cadáver ambulante.
HábitosSe esconde em matas virgens ou áreas remotas, assustando e atacando pessoas que se aventuram nessas regiões.
Histórias ComunsEncontros assustadores em fazendas e áreas rurais, onde o Corpo Seco é visto jogando pedras ou aparecendo inesperadamente.
Causa da CondiçãoDiz-se que o Corpo Seco é a alma de uma pessoa extremamente má, rejeitada pela terra e pelo céu após a morte.
LocalizaçãoRegiões rurais e florestais do Brasil, especialmente no interior.
ComportamentoAssustador e agressivo, faz ruídos e aparece de repente para amedrontar os vivos.
Proteção/PrevençãoEvitar matas virgens à noite e respeitar as lendas locais.
Significado CulturalServe como aviso sobre os perigos do comportamento cruel, reforçando valores de moralidade e respeito.

Os Tapas da Criatura Ruim

Em 2004, fui passar o réveillon no sítio de um amigo, no bairro Eugênio de Melo. Era uma tarde nublada quando nos dirigimos ao pasto, naquele dia 31 de dezembro.

Antes de montarmos os cavalos, o dono da casa nos avisou: “Tomem cuidado, pois, na noite anterior, um peão foi perseguido pelo corpo seco...” Ele dizia isso como alerta, enquanto encilhava os animais.

Então, depois de um tempo, virou-se para nós e prosseguiu com o relato, mas dessa vez com olhar sério:

“Um peão saiu ontem no fim da tarde para cortar lenha, mas ao dar o primeiro golpe de facão, percebeu que a árvore não era realmente uma árvore…”

Conforme o relato, o que parecia um galho seco subitamente ganhou vida e avançou contra o rapaz, desferindo-lhe uma sequência de socos e tapas.

NOTA: A poucos metros dessa casa (sítio) está localizado o Cemitério Distrital do bairro Eugênio de Melo — e esse detalhe poderia explicar a presença dessas criaturas umbralísticas, visto que um corpo seco só surge quando nem a terra nem o céu aceitam receber o corpo ou a alma de uma pessoa ruim.

O Tronco Vivo de Santana

Em 1978, a realidade era dura para os moradores da zona norte de São José. Naquela época, era comum que as famílias dependessem da mata para obter lenha ou caçar pequenos animais para o sustento.

Contam que, certo dia, uma moradora saiu com a filha para cortar lenha. Era fim de tarde, quase anoitecendo. Depois de um tempo de caminhada, as duas avistaram um tronco seco.

— Este está bom para queimar, mãe. Vamos levar? — Vamos! — A mãe respondeu limpando o suor do rosto.

Mas o objeto não era apenas madeira. Assim que a filha desferiu o primeiro golpe de facão, o tronco ganhou vida e começou a tremer. As duas recuaram assustadas, trocando olhares de pavor.

O que parecia ser um tronco girou 180 graus e começou a avançar na direção delas. Elas correram desesperadas e, ao alcançarem o final da estrada, avistaram um vizinho que passava a cavalo.

— Mas o que aconteceu? — perguntou o rapaz assustado. — Acabamos de ver o corpo seco! — responderam elas, também assustadas.

Contam que o rapaz colocou a mais nova no cavalo e saiu em disparada. Na confusão, porém, os dois caíram. A mãe chegou logo em seguida, ofegante, e socorreu a filha.

Depois desse incidente, vários relatos envolvendo uma figura raquítica começaram a ser disseminados na região, inclusive de pessoas que não conseguiram fugir e acabaram apanhando do corpo seco.

O Corpo Seco do Rio Comprido

No Limoeiro, apareceu o primeiro corpo seco de São José dos Campos. Sendo o bairro mais antigo da cidade, dizem que foi lá que a entidade começou a se manifestar, ainda na época dos índios guaianases.

O Relato

Em uma estradinha na saída da UNIP, onde antigamente havia um pasto, vivia uma família de agricultores.

O marido era alcoólatra e, todos os dias após a lida da roça, passava na adega, embriagava-se e agredia a esposa ao chegar em casa. Cansada das agressões, ela teria planejado sua morte.

Com a ajuda de uma vizinha, essa mulher agredida teria amarrado o marido a uma árvore e ateado fogo. Dizem que, depois daquela noite, o que sobrou do marido virou um corpo seco e passou a assombrar os moradores da região.

As Flores do Mal

Residia antigamente em São José um homem extremamente avarento e mesquinho. Ele vivia economizando em tudo: usava sabugo de milho na higiene, coava café no pó usado, entre outras avarias.

Essa conduta, no entanto, estava desgastando seu casamento. Um dia, após uma discussão, a esposa o expulsou de casa.

Ele aprontou a trouxa, amarrou-a em um pau (pois considerava um desperdício comprar uma bolsa) e foi passar uns dias na casa da mãe. Depois de um tempo, a progenitora também não o aguentou, e o encorajou a ir embora.

Nessa mesma noite, o homem voltava da casa da mãe seguindo por uma rua escura e deserta do bairro Eugênio de Melo — que na época era chamada de “rua torta”, mas hoje atende por “Benedita dos Santos” —, Enquanto pensava em como convencer a mulher a aceitá-lo de volta, viu algo que deu a ele uma ideia.

Em um cruzamento cheio de eucaliptos gigantes que desembocava na rua do cemitério, (que na época tinha um muro baixo), ele avistou um jazigo com um vaso de flores em cima de uma tumba.

Já em casa, momentos mais tarde, a esposa se deparou com um presente sobre a mesa. O marido havia arranjado o ramalhete de flores no vaso retirado do cemitério, finalizando o conjunto com um laço da gaveta de costura dela.

Naquela noite, o casal teve uma conversa séria e, depois de muita discussão, a esposa aceitou o marido de volta. Mais tarde, foram dormir.

Contudo, o sono do homem foi interrompido por um pesadelo: em sua quimera, quatro vultos entravam na cozinha e lançavam ao chão o vaso furtado do cemitério.

Depois de gritos de pavor e sobressaltos na cama, o homem acordou encharcado de suor e com o coração acelerado. A esposa, curiosa, perguntou sobre o sonho, já que era espírita e queria entender se havia algo sobrenatural acontecendo: — Onde você pegou aquelas flores?

O marido fez uma cara de culpa. A esposa, porém, não falou mais nada, virou-se de mau humor e voltou a dormir. No dia seguinte, porém, quando ele acordou, não encontrou mais a esposa; ela tinha feito a mala e ido embora, para nunca mais voltar.

Muitos anos, talvez décadas, se passaram desde que a esposa deixou o homem, e não foi só ela que partiu. Aos poucos, os animais da propriedade começaram a sumir misteriosamente — galinhas, cachorros e outros. No fim, ele acabou sozinho e envelhecido.

Contam os mais antigos que, após sua morte, nem a terra aceitara o seu corpo.

— Esse caso teria marcado o começo da lenda do Corpo Seco na cidade de São José dos Campos.

Segundo os rumores, o cadáver raquítico havia se juntado com espíritos que o assombraram no sonho com o vaso de flores.

Criaturas Folclóricas Que Apresentam Equivalência ao “Corpo Seco” ao Redor do Mundo:

GashadokuroJapãoEsqueleto gigante que vaga à noite em busca de vítimas para devorar.
YureiJapãoEspíritos vingativos que não conseguiram descansar em paz e assombram os vivos.
JikininkiJapãoEspíritos de pessoas gananciosas transformados em monstros devoradores de cadáveres.
JiangshiChinaConhecido como “vampiro saltador”; cadáver reanimado que suga a força vital dos vivos.
GuiChinaEspíritos inquietos que retornam para assombrar os vivos, geralmente devido a mortes violentas.
Hungry GhostsChinaEspíritos de pessoas que morreram com desejos insatisfeitos, vagando para saciá-los.

FIM

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