Conto de Terror: O Espírito da Minha Paciente

Depois dos cemitérios, talvez o ambiente com maior manifestação do oculto sejam os hospitais. Enfermeiros, médicos, técnicos em enfermagem, faxineiras, já nem ligam quando ouvem um barulho, veem um vulto, sombra escura, assombração branca ou rosa, vindas da UTI.

Também estão acostumados a ver crianças entrando correndo nas pediatrias, e quando vão checar, não encontram ninguém — tudo dentro da normalidade — assim como ver palhaços em circo.

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O Espírito da Minha Paciente

“Sou enfermeira, e vou contar um relato que aconteceu no hospital onde trabalho. Eu amo muito o que faço, e só quem trabalha na área da saúde sabe como é difícil essa missão. Não digo somente pelo esforço físico, mas também pela parte emocional.

Eu amo os meus pacientes, trato cada um como se fossem os meus próprios familiares, e faço questão que a minha equipe também o faça. Certa vezes, estava eu realizando um plantão com pacientes em cuidados paliativos, o meu setor é o oncológico.

Havia uma paciente chamada Maria, que era carinhosa não somente comigo, mas como todos. Suas filhas não eram diferentes, todas muito bem-educadas, e sempre faziam questão de visitar a mãe.

No quarto de cada paciente existe uma campainha, que ao ser acionada, sinalizava com a indicação do quarto no posto de enfermagem.

Essa paciente, em específico, não gostava que fechássemos a porta do seu quarto ao sairmos, pois tinha medo de passar mal e não ser ouvida. E como sempre eu atendia a sua vontade, e deixava a porta entreaberta. Assim, decorriam os dias. A cada plantão, ela evoluía para melhor, em outros dias, para pior…

Naquela tarde, eu assumi o plantão e recebi uma notícia que estragou o meu dia: na noite anterior a Maria havia falecido.

Eu fiquei arrasada! Senti os meus olhos marejarem, mas respirei fundo e continuei a visitar nos quartos dos pacientes, afinal, a morte faz parte da minha profissão.

E o plantão decorreu normalmente, até que uma técnica em enfermagem da noite, do plantão anterior ao meu, me contou que a campainha da senhora Maria não parava de tocar. Lembrando que nesse momento ela já havia falecido.

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Após a técnica em enfermagem terminar o relato, fiquei sem acreditar, e pensei: “A história deve ter impressionado as pessoas, devido ao recente ocorrido…” Então, eu continuei o meu plantão normalmente.

Por volta das 4 da tarde, estava tudo tranquilo no setor, e achei estranho o silêncio, mas aproveitei para colocar documentos em dia. Foi então que o silêncio foi quebrado pelo chamado de uma campainha.

E adivinhem de qual quarto vinha o chamado? Para minha surpresa, quando olhei para o painel, estava indicando o quarto da falecida Maria. Naquele momento, um frio percorreu a minha coluna e eu senti as mãos gelarem. Fiquei com tanto medo que não conseguia falar.

Vocês teriam coragem de ir até esse quarto da falecida Maria?

… não conseguia falar, mas tomei coragem para verificar se, de fato, era do quarto da falecida. Eu não acreditei no que os meus olhos estavam vendo, realmente, a campainha estava sendo acionada do quarto dela…

Observação: esqueci de mencionar, mas as campainhas só podiam ser acionadas, ou desligadas, de dentro do quarto.

Logo, não seria possível alguém estar acionando de fora, pois quando cheguei no quarto ele estava vazio…

Tomei coragem, fui até o lado da cama em que a falecida ficava, e desliguei a campainha.

Saí praticamente correndo de lá. Fechei a porta. Enquanto voltava para o postinho, (expressão de medo e angústia) a campainha voltou a tocar “loucamente”.

Eu sei que é difícil acreditar, mesmo porque, nem mesmo eu, que estava vivendo isso, acreditava. Dei meia-volta, entrei novamente no quarto e desliguei a campainha, mas, desta vez, ao sair, eu deixei a porta aberta, como de costume. E acreditem, a campainha não tocou mais.

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E vocês não vão acreditar, mas toda às vezes que a porta do quarto dela era fechada, a campainha tocava — e isso ocorreu com outros profissionais que trabalhavam lá. Por fim, ninguém queria trabalhar naquele andar — por medo. O técnico de manutenção foi chamado para verificar se havia mal contato na fiação da campainha, mas nada de anormal foi encontrado.

A minha avó morreu de parada cardíaca no UPA do Novo Horizonte, a mãe do meu irmão de complicações de diabetes. Quando tive Covid-19, visitava o UPA a cada 3 dias com falta de ar. Estes dias, fiquei com a garganta inflamada e fui para o mesmo lugar. Você já parou para pensar na quantidade de pessoas que morreram em uma Unidade Pública de Pronto Atendimento? O máximo que um vigilante de escola, vulgo, guardinha, verá são cachorros vira-lata, tipo a pipoca. Eu agora vos pergunto:

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“Teriam coragem de trabalhar como vigia noturno em um UPA?”

Relato: Ele Precisava Aceitar o Fim

Meu nome é Vera e tenho 35 anos. Atuo da área da saúde há 6 anos, e já vivenciei situações de arrepiar os cabelos. Antes de entrar na área da saúde, confesso que nunca acreditei em espíritos, energias, ou qualquer coisa desse tipo — Contudo, após trabalhar 4 anos em uma UPA, essa percepção mudou. Mas saibam de uma coisa: eles acreditam em você.

Minha primeira experiência foi com um jovem de quinze anos, que sofreu um grave acidente na saída da Via Dutra, ocasionando um traumatismo craniano, chegando a PCR, que é parada cardiorrespiratória. Segundo os rumores no hospital, esse jovem haviam roubado uma moto e dado fuga da polícia.

Os médicos tentaram todos os procedimentos, mas o estado desse rapaz era crítico, e ele veio a óbito. Eu, como estava escalada para a sala de emergência, fiquei encarregada de preparar o corpo.

Eu teria que dar uma geral no cadáver do rapaz (tirar o sangue da face, pentear o cabelo, etc.), porque a família ia querer vê-lo, e a mãe já estava em prantos no corredor, enquanto o médico dava a triste notícia.

Arrumei-o. Tirei todos os dispositivos inseridos no corpo dele, os quais usamos para emergência, e logo eu o encaminharia à pedra, também conhecido como necrotério, pois ele precisava ir ao IML.

Eu estava sozinha na sala, quando o meu colega, que é espírita, entrou na sala com um olhar apreensivo, e disse:

“Você não quer sair daí e dar uma volta? Eu fiquei pensativa, e falei: “Não, Marcos, eu preciso arrumar ele. Se a chefe vir que deixei ele aqui sozinho, ela me mata…” E terminei a frase em tom de brincadeira, mas mesmo assim Marcos repetiu sério: 

“Você não me entendeu, SAI DAÍ” Vá para os fundos tomar um café! Mas dá um tempo, eu te peço.” 

Nesse momento eu já havia tirado a mão do cadáver, e entendi que havia alguma coisa errada. Porque vi na cara do Marcos o desconforto de estar ali. Eu também percebi que ele falava comigo ao mesmo tempo que olhava para o lado oposto que eu estava na maca. Então, perguntei quase chorando de medo: 

“Marcos, o que você está vendo?” 

Marcos chegou mais perto, e fez um sinal com o dedo para eu me aproximar, e disse cochichando: 

“O menino está aqui ainda… ali, do lado do corpo. Ele está desesperado. Ele não sabe o que aconteceu; e está mais desesperado ainda com o que você está fazendo. Ele precisa entender, e precisa de um tempo com a parte carnal dele. Dá esse tempo para ele…” (professor fazer cara de pasmo)

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Na hora, eu já tirei a mão do corpo e senti um frio na espinha. Saí imediatamente da sala, deixando o corpo descoberto, e fui falando para o Marcos:

“Veja bem, pare já de me assustar com essas coisas, você sabe que eu tenho medo!”

Então Marcos falou: “Deixe ele sozinho, nem que seja por 15 minutos. Você verá que até o semblante dele vai mudar. Foi o rapaz me pediu isso…”

Na hora eu pensei “eu não volto sozinha lá nem a pau!”

Mas tive que voltar, porém, levei o Marcos comigo. E pasmem, depois que voltamos, o rosto do menino estava sereno, sem o semblante de dor. Porque a testa do garoto estava enrugada, e depois, mudou, ficou com uma aparência mais calma.

Meu amigo sorriu, olhou para o lado, balançou a cabeça, e cochichou comigo: 

“Ele disse obrigado.”

Naquele momento eu não sentia as minhas pernas, e senti dor de barriga. Porém, tudo fazia sentido; porque o rosto daquele menino tão jovem mudou. Talvez ele precisasse se despedir do corpo, e entender que sua missão havia terminado naquele momento.

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