Miniconto de Terror: A Boneca Que Dei Para Minha Filha

Vocês sabiam que, na era vitoriana, os cabelos das bonecas eram feitos com fios de cabelo de crianças? A intenção era que os brinquedos se parecessem ao máximo com uma “irmãzinha” para as meninas.

Naquele tempo, quando uma menina falecia, sua boneca era enterrada junto com ela. Anos mais tarde, ao exumarem o corpo ou transferirem o túmulo, a família vendia essas bonecas para colecionadores.

Por serem brinquedos de crianças falecidas, haveria algum problema em possuí-las? (Desculpe o trocadilho.) — Vocês teriam uma boneca dessas no quarto de vocês?

Alguns médiuns afirmam que as bonecas, por terem uma aparência humana, poderiam atrair ou facilitar a entrada de espíritos ou encostos; e que esses brinquedos sugariam as energias das crianças, podendo até possuir a alma de alguém, como no filme ‘Annabelle’.

Sei lá… Vamos para a história.

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A Boneca Que Dei para Minha Filha

Em 2007, eu morava com minha filha e meu marido em uma casa simples, em São Paulo. Embora fôssemos uma família muito humilde, isso não nos impediu de receber nossas primas de Vila Velha como visitas.

Eu sempre dizia à minha prima que, apesar de simples, nossa casa era acolhedora. Desse modo, dois meses após o convite, elas se hospedaram na nossa casa. Como nossas primas tinham uma condição financeira melhor do que a nossa, trouxeram vários presentes.

Elas distribuíram os presentes; contudo, um brinquedo chamou a atenção da minha filha: uma boneca com a qual a filha da minha prima estava brincando.

A situação foi constrangedora porque a boneca não era um presente. Minha filha chorou e fez birra, mas consegui distraí-la até o último dia da visita das minhas primas, e tudo terminou bem.

Depois que elas foram embora, minha filha fez um inferno para eu comprar uma Barbie parecida. Só que eu estava sem dinheiro, e a boneca era cara.

Nossa, vocês nem imaginam, minha filha chorou muito, não comia, não queria tomar banho e até ficou doente por causa dessa boneca

Na semana seguinte, fui ao centro da cidade procurar uma Barbie, mas as únicas bonecas baratas que encontrei eram falsificadas, e minha filha não as queria.

Andamos pelo calçadão quando ela parou de súbito diante da vitrine de uma loja estranha de objetos usados, onde aquela boneca de pano estava exposta ao lado de vários panos de prato manchados.

Ela olhava hipnotizada para o mostruário. E o mais estranho é que, ao ao ver aquela boneca de pano, ela mudou de opinião imediatamente e disse que não queria mais saber da Barbie.

Perguntei à vendedora o valor; a boneca custava na época R$ 20, e como estava barata, comprei.

Chegamos em casa, e minha filha brincou por horas com essa boneca de pano – ela dizia que era a filha dela.

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Com o passar dos dias, percebi que minha filha estava conversaando com a boneca. Não achei nada demais; afinal, uma menininha de seis anos conversando sozinha é normal.

Porém, de madrugada, ela falava com a boneca, baixinho, debaixo do cobertor, e andava pela casa arrastando aquele fantoche pelo braço.

Eu ouvia tudo, já que precisava descer as escadas para ir ao banheiro. Até que, todas as noites, ela não dormia mais, passando a madrugada inteira conversando com a boneca.

Assustei-me com a cena e contei para meu marido. Ele julgou que fosse apenas minha imaginação, e então, por vergonha, deixei o assunto de lado.

Um dia, porém, minha filha roubou objetos meus e do meu marido. Peguei-a no flagra e questionei: “Por que você esta pegando meu batom vermelho?!” A única resposta que ela me deu, foi: “Mãe, ela vai usar isso!” E saiu correndo. Como o batom era velho e eu não o usava mais, deixei passar.

Na noite seguinte, quando me levantei para ir ao banheiro, meu marido também havia acordado, foi então que ouvimos nossa filha conversando sozinha com a boneca:

— E agora? O que devo pegar? Mas e se ela nos ver? Posso contar com você? Você realmente vai vigiar? Tudo bem, não vou falar para ninguém…

Imediatamente, levantamos e fomos ao quarto de nossa filha. Chegamos lá, e ela estava sentada no chão conversando com a boneca de pano.

Meu marido então brigou com ela, dizendo que era para parar de conversar com essa boneca à noite, pois era hora de dormir. Minha filha, no entanto, respondeu em tom sério:

— Ela não gostou nem um pouco das suas palavras!

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Não acreditei que minha filha de seis anos estivesse dizendo aquilo com tanta clareza e com uma expressão tão séria.

Porém estava tarde. Demos uma bronca nela e fomos dormir.

No outro dia, um cheiro de carne podre começou a se espalhar pela casa, e não conseguíamos identificar de onde vinha o odor.

Em seguida, minha filha começou a aparecer com manchas muito roxas nos braços e pernas.

Levei-a ao hospital, e o médico afirmou que alguém a estava beliscando. Achei a situação muito estranha e desconfiei da boneca. Detalhe: ela havia parado de conversar com a boneca, e, na noite seguinte, as manchas apareceram.

Dois dias depois, minha filha não queria mais dormir no quarto de jeito nenhum! Ela aparecia de repente no meu quarto chorando e apavorada, falando que a boneca queria pegá-la. E assim, durante esses dias, deixamos ela dormir conosco.

No dia seguinte, ouvi minha filha chorando e alguém estava falando com ela, e essa pessoa tinha uma voz grossa e assustadora:

— Sua pirralha sirigaita, quantas vezes eu preciso repassar o plano para que você possa aprender?! — Como assim você não conseguiu completar a missão, sua anta quadrúpede?! Me aguarde, apenas aguarde o meu castigo…”

Entrei no quarto imediatamente, mas não tinha ninguém! Apenas a boneca e minha filha. Peguei a boneca pelos cabelos e joguei na lixeira que ficava na calçada.

Naquela tarde, a boneca sumiu e, provavelmente, alguém da rua a levou. Fiquei aliviada.

Os dias se passavam, e o cheiro de carne estragada ia ficando cada vez mais forte. Na semana seguinte, ao abrir a caixinha do correio encontrei uma carta redigida com caligrafia infantil em cores preta e rosa, cheia de corações ao redor, com os dizeres:

“Eu ainda estou aqui, sua sirigaita!”

Entrei em desespero total e alertei meu marido, pois estava com medo, mas ele não podia fazer nada. Então, quatro semanas depois, tudo ficou quieto. As mensagens pararam, e o cheiro de carne podre sumiu.

Foi então que o terror voltou novamente com força.

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Minha filha ficava parada na porta do quarto dela olhando para o final do corredor com uma cara estranha.

E na hora de dormir, ficava petrificada em frente a porta do guarda-roupa. Esses eventos estranhos duraram quatro dias.

Foi então que ela caiu da escada.

Certamente a cena mais terrível que presenciei em toda minha vida! Sai correndo da cozinha e vi a boneca sentada no último degrau. Ela olhava para a minha filha, e o mais assustador era que o rosto da boneca estava diferente.

Peguei minha filha no colo e a coloquei no sofá. A minha sorte é que ela havia caído do segundo degrau e não se machucou muito.

Fiquei com tanta raiva daquela boneca parada ali no último degrau da escada, com o rosto diferente, com a boca aberta, como se estivesse sorrindo, que peguei ela pelo braço, joguei dentro de uma lata de tinta vazia, e a queimei no quintal.

Também falei para o meu marido procurar uma casa para alugar porque eu não queria ficar nem mais um dia naquela casa.

Depois que a boneca foi queimada, ficamos em paz. Passamos a rezar o Terço da Misericórdia e, um mês depois, nos mudamos. Já na nova casa, ao entrarmos na sala, encontramos uma caixa grande em cima da pia da cozinha. Dentro dela havia vários objetos. Adivinha o que estava no fundo?

Contexto da Era Vitoriana em relação às bonecas e temas de terror:

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AspectoEra VitorianaDias de Hoje
Significado das BonecasRepresentavam pureza, domesticidade e “ensino” de comportamentos femininosSão vistas como brinquedos comuns, mas também objetos de terror e mistério
Material das BonecasFeitas de porcelana, com expressões realistas e aparência frágilVariedade de materiais, como plástico; bonecas vintage ganham um ar assombrado
Simbolismo no HorrorBonecas vitorianas são associadas a sentimentos de saudade e perdaBonecas são símbolo de terror em filmes, séries e lendas urbanas
Percepção PúblicaRepresentavam a vida familiar idealizada, não eram vistas como assustadorasBonecas antigas são frequentemente associadas a histórias de horror e mistério
Influência CulturalReflexo da moralidade rígida e papel feminino idealizado da épocaExploram a nostalgia e o medo do desconhecido, popularizadas na cultura pop

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