Lenda Urbana – O Cavaleiro Fantasma

Eventos estranhos, que até mesmo o coisa-ruim duvida, são comuns nas vielas e praças obscuras do bairro Dom Pedro, em São José dos Campos. É nessas madrugadas frias do mês de junho que moradores afirmam ouvir, repetidamente, o som contínuo de um cavalo trotando próximo à praça do Caique, embora ninguém nunca o veja.

Segundo a lenda local, durante o período de Finados, e até mesmo na Quaresma, o espírito de um traficante morto na praça percorre as ruas e assombra os moradores. O relato mais comum conta que esse espectro para diante de uma casa aleatória do bairro, à espera de que alguém saia, como se os antigos vizinhos ainda pudessem protegê-lo de seus algozes de morte.

O texto a seguir é o relato de um casal morador do bairro Dom Pedro

Nos anos 90, Toninho cavalgava pelas ruas do Dom Pedro, despertando temor nos moradores. Dizem que ele era pestilento e que seus olhos estavam sempre avermelhados.

Todas as tardes ele subia o morro para soltar pipa no meio da criançada, aterrorizando-os.

Porém, quando um pirralho cortava sua pipa, ele não aceitava, e seguia a linha até encontrar o dono da rainha, agredindo a pessoa fisicamente e, em seguida, desferindo-lhe tapas na cara e pontapés.

O destino, no entanto, não seria favorável a Toninho, e teria o seu ato final revelado quado, certa noite, duas meninas conversavam na calçada na rua onde moravam no Bairro Papa João Paulo, quando elas perceberam um alvoroço esquisito na praça do Caique.

Como elas eram as maiores “zé povinho” daquela região, apesar da pouca idade, correram para ver o que estava ocontecendo.

Ao chegarem ao local, encontraram um cadáver estirado no chão, e não se assustaram, uma vez que já haviam presenciado outros defuntos desovados nos matagais da região.

“Agora ele vai roubar no inferno!” — Praguejou a senhora evangélica, aproximando-se da aglomeração. Ela tinha um sotaque nordestino e usava um vestido jeans até os calcanhares.

As duas meninas também perceberam que uma delas tinha buço. Os curiosos iam se aglomerando ao redor do cadáver, e só foram embora quando a viatura do IML chegou.

Após o rabecão retirar o cadáver, as meninas sentaram em um banco na praça e conjecturaram os motivos da execução, fazendo inveja a Conan Doyle.

Tecendo a genealogia dos delinquentes e identificando quais indivíduos tinham rixa com eles, chegaram à conclusão de que o assassino era um ex em comum delas.

Nesse momento, a mãe de uma delas gritou do outro lado da rua: “Tá na hora de entrar!”

— Não enche!! — Vociferou a garota, fazendo uma cara azeda — Não obedecendo a progenitora.

Elas continuariam até tarde na rua, perambulando vestidas de piriguetes.

Contudo, há um ditado que afirma que o mal atrai o mal. E até mesmo uma agulha será cobrada no dia do juízo final, em uma anátema etérea que abre brecha para operar em nossas vidas.

Um ano depois da cena na praça, as duas meninas estavam de novo na rua, exatamente no lugar onde o corpo havia sido deixado.

Já se passava da meia-noite quando uma delas esfregou e assoprou as mãos. As duas tinham entrado em um velho bar e se encolheram atrás da mureta.

Elas gritavam e davam gargalhadas. Em um momento da conversa, porém, ficaram estáticas, pois um ruído de galope se aproximando chamou a atenção delas. Elas trocaram olhares assustados.

Quando o ruído dos cascos ficou mais sonoro, elas ergueram a cabeça e viram algo que as paralizou: uma figura carrancuda atravessava a Rua Francisco Teixeira. Ao passar perto do bar, porém, o espectro deu um grito sonoro para elas, semelhante ao do apito asteca e sumiu na neblina.

Uma das meninas desmaiou.

No outro dia, a história do defunto andando a cavalo se espalhou pelas cercanias do Caique feito cocaína em mesa de viciado. Os moradores, embora evangélicos, acreditam que a aparição é a falange do rapaz que morreu na praça.

 Segundo eles, o fantasma ressurge nas madrugadas do Dia de Finados, quando as portas do inferno se escancaram para ele e outros demônios assombrarem as almas ainda em estado de carne.

Atualização da História

O trecho a seguir foi inserido anos depois, após a fonte revelar mais detalhes sobre o caso.

Aterrorizadas com o que presenciaram nas ruas do Dom Pedro, as duas garotas buscaram auxílio em um centro espírita local. Lá, o médium as recebeu e revelou, através do seu suposto “dom do discernimento de conversar com os espíritos“, a natureza sombria daquela afronta espiritual, a qual chamou de quebrante. Ele contou que o mundo espiritual exige legalidade para agir, e fez essa revelação com entonação na voz, enquanto estava de olhos fechados, com as mãos sobre as cabeças das jovens:

A profecia do médium: “Minhas filhas, como Toninho foi para o umbral e agora serve aos espíritos inferiores, ele cedeu sua identidade às legiões para que possam agir sem medo entre os vivos. Essas almas descobriram os segredos e pecados sombrios de vocês e usaram isso para afrontá-las naquela noite, debaixo da mureta. Esse PECADO, que abriu uma brecha para eles, é um ato de desrespeito que começa dentro de casa de vocês, quando se ignoram os conselhos das mães, tratando-a com grosseria e desconsideração.

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ElementoRelatoResumo
O Protagonista: ToninhoUm rapaz de olhos vermelhos que cavalgava pelo bairro Dom Pedro.O “Bad Boy” das antigas. Se você visse um cara de olhos vermelhos montado num cavalo, não era conjuntivite, era o Toninho vindo cobrar o aluguel da alma.
A Pipoca e a VingançaEle soltava pipa e batia em quem cortava a linha dele.O Toninho não sabia perder. Se você desse “relo” na pipa dele, era melhor pedir asilo em Jacareí, porque o contra-ataque era físico e imediato.
O Crime na PraçaEle foi encontrado morto com dois furos na camisa polo e um boné da “U”.Morreu no estilo “pirata”: tênis da feirinha e boné de marca duvidosa. O “U” no boné devia ser de “Uai, morri”.
As Testemunhas “Sherlock”Duas meninas que ficaram fofocando sobre o cadáver.O “CSI Dom Pedro”. Enquanto o rabecão não chegava, elas já tinham traçado a genealogia do crime e decidido que o assassino era o ex-namorado delas.
A Praga da VizinhaUma senhora nordestina disse: “Agora ele vai roubar no inferno!”.A vizinha sincerona. No Dom Pedro não tem essa de “virou anjinho”: se o cara era ruim, a vizinhança já carimba o passaporte dele direto para o andar de baixo.
A Aparição AnualO fantasma aparece uma vez por ano, quando “as portas do inferno se abrem”.O Toninho tem o “passe livre” do submundo. Uma vez por ano ele ganha um vale-transporte espiritual para assombrar as meninas que ficam na rua vestidas de “piriguete”.
O Galope FantasmaMoradores ouvem o som dos cascos, mas não veem nada.O cavalo dele deve ter o modo “Stealth” (invisível). Você ouve o pocotó-pocotó, mas se olhar, só vê o vácuo e a neblina.

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