22 Dicas de Aristóteles Para Escrever Uma Boa História

Os trechos a seguir foram extraídos do livro ‘Poética’, do filósofo grego Aristóteles. Escrito entre 323 a.C. e 335 a.C., o alfarrábio é um conjunto de anotações de suas aulas sobre o tema POESIA.

O que você verá são abstrações, contextualizadas para escrita em PROSA; como aquele livrinho que fez sucesso nos anos “90 Minutos de Sabedoria”, no qual você sorteava uma página e lia a mensagem.

Talvez Aristóteles desenrole a sua produção literária… Stephen King te abençoe, amém!

Gre007c.png

I – Na produção literária nunca mostre pessoas boas passando do estado de PLENITUDE para o de infelicidade/INFORTÚNIO. Essa composição pode produzir uma impressão desagradável no leitor. Não convêm, por exemplo, representar homens maus passando do crime à prosperidade.

II –  Na composição de um personagem, seguir sempre uma posição intermediária — O homem mesmo não reconhecido por sua superioridade e justiça não é mau nem perverso. Mas cai no infortúnio em consequência de algum erro que cometeu.

III –  Suscitar o terror e a compaixão

IV – Fatos que merecem compaixão do público são aqueles em que há crime entre familiares.

V –  O escritor, ao retratar um personagem da vida real que seja incoerente, deve ter a coerência de retratá-lo incoerentemente.

VI – Pintar os personagens sendo melhores do que seríamos, ou com características superiores a de um cidadão médio. Os personagens devem ser pintados mais belos do que o normal. Compor personagens descuidados e irados; bem como outros defeitos análogos de caráter.

VII – Criar RECONHECIMENTO na Obra. O reconhecimento, como o nome indica, faz passar da ignorância ao conhecimento; mudando o ódio em amizade ou inversamente nas pessoas votadas à infelicidade ou ao infortúnio. São os sinais que indicam uma ação e induzem o leitor a ir percebendo o desenrolar da trama. Fazendo-os reconhecer algum discurso, objeto, etc. A vista de um objeto evocando sensações anteriores nos personagens…

VIII – Criar silogismos, que podem ser entendidos como raciocínios baseados na dedução, consiste em formular duas premissas ou proposições (maior e menor) das quais se obtém uma conclusão. Por exemplo: “Todos os homens são mortais. Antônio é homem. Logo, Antônio é mortal.”

IX – Escrever a história, a priori, curta, como um conto de fadas ou uma sinopse. Só depois iniciar o romance; adicionando a estética; observando qual o melhor formato estético (gênero textual) a ser empregado na estrutura da Obra. Sem isso você apenas juntará um emaranhado de palavras em um texto. Um escritor é reconhecido pelo domínio da técnica do formato. (Esta dica não é de Aristóteles, é minha. Escrevi sem querer aqui e manterei).

X – Em todas as histórias há o nó e o desenlace. Nó inicia-se desde o começo da história até se desenrolar em uma SORTE ditosa, que é o DESENLACE.

XI – Muitos escritores tecem bem as intrigas, mas se saem mal no DESENLACE. No entanto para ser aplaudido é necessário conjugar os dois méritos.

XII – Há três tipos de histórias:

1 – Constituído de PERIPÉCIA e RECONHECIMENTO (As mais complexas)

2 – Peças PATÉTICAS

3 – Tragédia de caracteres

1a) PERIPÉCIAS: São ações simples onde os escritores alcançam maravilhosamente o fim que se propõe a alcançar — A emoção e os sentimentos de humanidade. A peripécia é a mudança da ação no sentido contrário ao que parecia indicado, sempre em conformidade com o verossímil e o necessário.

1b) RECONHECIMENTO: O reconhecimento, como o nome indica, faz passar da ignorância ao conhecimento, mudando o ódio em amizade ou inversamente nas pessoas votadas à infelicidade ou ao infortúnio.

2 – O patético é devido a uma ação que provoca a morte ou sofrimento, como a das mortes em cena, das dores agudas, dos ferimentos e outros casos análogos.

3 – Nas Obras de caracteres há grandes personagens que ocupam todo o enredo da história. Os caracteres permitem qualificar o homem, mas é da ação que depende sua infelicidade ou felicidade. Os personagens devem ser de boa qualidade; ser corajosos, coerentes consigo mesmo. 

Tanto na representação dos caracteres como no entrosamento dos fatos, é necessário sempre ater-se à necessidade e à verossimilhança, de modo que a personagem, em suas palavras e ações, esteja em conformidade com o necessário e verossímil, e que ocorra o mesmo na sucessão dos acontecimentos.

XIII – Dependendo do público deve-se evitar figuras de linguagem complexas, como metáforas e palavras dialetais, pois podem afastar o público tornando a história enigmática ou bárbara (barbarismo semântico).

Lembremos que grande obras da literatura apresentaram metáforas complexas, como no “Pequeno Príncipe”. E outras utilizaram as expressões dialetais abundantemente, como em Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.

Se em vez de utilizarmos vocabulários estranhos, com metáforas e outras figuras de linguagem, e usarmos palavras correntes, ver-se-á que falamos a verdade.

XIV – Evitar vulgaridades e trivialidades. Quando tiver que utilizá-las, a fim de reforçar alguma ideia na história, utilizar metáforas; que também são dispensáveis, a priori.

XV – Para evitar a vulgaridade e produzir um texto com clareza de ideias deve-se utilizar alongamentos de explicação ou as APÓCOPES. Entende-se por apócopes como supressão de letras ou sílabas no final de uma palavra. Ex: mármor por mármore. Ao sair da banalidade da explicação de alguns termos sai-se da rotina e muda-se a fisionomia dos termos.

XVI –O escritor deve dialogar com o leitor o mínimo possível e, quando o fizer, precisa ter pleno domínio da técnica — como no caso de Machado de Assis, que a dominava tão bem a ponto de xingar o leitor.

XVII – O reconhecimento (da ignorância da história ao conhecimento) pode ser realizado por meio de PARALOGISMOS. Entende-se ‘paralogismos’ como Raciocínio falso, feito de boa fé por falta de consciência de sua falsidade. Ou aplicação de semântica em referência as determinadas formas de raciocínios não lógicos, mas com aparência de lógica. Que na essência acarretam-se inconsistências transformando a forma explicativa em falsidade ou no que denominamos de sofismas, o que no fundo define em formação de paradoxos.

XVIII – O escritor deve mascarar o absurdo por meio de subterfúgios

XIX –  O autor deve tratar com cuidado as partes de ação, não usando muita eloquência. Quando chegar nesse ponto evitar aplicação de caracteres complexos, pensamentos avançados e um estilo demasiadamente fulgurante.

XX – O escritor é como um copiador que utiliza glosas, metáforas e várias modificações de termos. Glosa é entendida como um tipo de anotação usada em um texto para explicar o significado de uma palavra ou esclarecer um trecho; também pode ser uma composição poética, muitas vezes improvisada, em que os versos do mote dado se repetem como parte da estrofe ou para finalizá-la.

XXI – Um autor que retrata a história com ausência de verdades é porque representou as coisas como elas deveriam ser.

XXII – É preferível o impossível CRÍVEL, do que o impossível INCRÍVEL.

Gre007c

Correlação Entre os Princípios de Aristóteles a Obras Literárias Famosas

PrincípioObra LiteráriaCorrelação
I – Evitar transições negativas em personagens“O Grande Gatsby” de F. Scott FitzgeraldGatsby, um personagem bom, acaba em infortúnio, o que pode causar desconforto ao leitor.
II – Personagem em estado intermediário“Crime e Castigo” de Fiódor DostoiévskiRaskólnikov oscila entre bondade e maldade, refletindo a complexidade da natureza humana.
III – Suscitar terror e compaixão“A Metamorfose” de Franz KafkaA transformação de Gregor Samsa provoca terror e compaixão na sociedade que o rejeita.
IV – Crime entre familiares“O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily BrontëOs conflitos entre personagens familiares geram compaixão e sofrimento ao longo da narrativa.
V – Retrato de personagens incoerentes“O Estrangeiro” de Albert CamusMeursault é retratado de forma incoerente, desafiando a lógica e a moralidade da sociedade.
VI – Personagens superiores à média“Orgulho e Preconceito” de Jane AustenElizabeth Bennet e Darcy são retratados como ideais de virtude e moralidade, desafiando as normas da sociedade.
VII – Criar reconhecimento na obra“O Rei Lear” de William ShakespeareO reconhecimento de Lear sobre suas ações é central para a transformação da narrativa.
VIII – Criar silogismos“A lógica do Cisne Negro” de Nassim TalebA obra utiliza silogismos para explicar conceitos complexos, mostrando relações lógicas.
IX – Estruturar a história antes de desenvolver o romance“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García MárquezA narrativa é cuidadosamente estruturada, entrelaçando histórias de várias gerações.
X – Ação e desenlace“Romeu e Julieta” de William ShakespeareO nó da história é a proibição do amor, e o desenlace ocorre com a trágica morte dos amantes.
XI – Conjugar intrigas e desenlace“O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily BrontëA construção da trama culmina em um desenlace emocional e poderoso, que ressoa com os personagens.
XII – Tipos de histórias“Hamlet” de William ShakespeareA tragédia de Hamlet envolve peripécia e reconhecimento, transformando a narrativa em uma complexa intriga.
XIII – Evitar complexidade excessiva na linguagem“Dom Casmurro” de Machado de AssisEmbora utilize complexidade, a obra mantém um estilo acessível e cativante.
XIV – Evitar vulgaridades, usar metáforas quando necessário“O Guarani” de José de AlencarAs metáforas enriquecem a narrativa, evitando vulgaridades e mantendo a poesia do texto.
XV – Clareza de ideias“O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-ExupéryA obra utiliza simplicidade e clareza para transmitir mensagens profundas.
XVI – Dialogar com o leitor de forma controlada“Memórias Póstumas de Brás Cubas” de Machado de AssisO narrador interage com o leitor de maneira irônica e consciente.
XVII – Paralogismos“1984” de George OrwellA lógica do totalitarismo é retratada através de paralogismos que questionam a verdade.
XVIII – Mascarar o absurdo“Alice no País das Maravilhas” de Lewis CarrollO absurdo é central à narrativa, mas é apresentado de maneira lúdica e encantadora.
XIX – Cuidado com a eloquência nas partes de ação“Moby Dick” de Herman MelvilleA prosa varia entre passagens descritivas e diálogos diretos, evitando excessos.
XX – Glosa e adaptação de termos“Ulisses” de James JoyceJoyce utiliza glosas e múltiplas referências para construir um texto denso e intertextual.
XXI – Ausência de verdades“Fahrenheit 451” de Ray BradburyA obra retrata uma realidade distorcida, onde a verdade é manipulada.
XXII – Preferência pelo impossível crível“O Senhor dos Anéis” de J.R.R. TolkienEmbora envolva fantasia, a construção do mundo e personagens é crível e coesa, mantendo a suspensão da descrença.

AUTOR: DIEGO DEL PASSO

FIM

Um comentário em “22 Dicas de Aristóteles Para Escrever Uma Boa História”

Adicione o seu

Deixe um comentário

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

Descubra mais sobre Nas Trilhas do Vale

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo