Em 1972, o lobisomem apareceu para assombrar o quintal da casa da minha avó. Meu pai tinha apenas sete anos e morava na região do Banhado, em São José dos Campos. Levavam uma vida simples, tirando da terra o que precisavam — principalmente mandioca — e cuidando das galinhas e dos porcos.

Quando era viva, minha avó adorava contar histórias sobre as manifestações da parentela do satanás. Nos anos 70, quando meu pai ainda era criança, tios, primos e netos se reuniam ao redor do fogão a lenha para ouvir esses causos sobrenaturais.
Nota: Eu morria de medo das histórias que minha avó contava e, por isso, rezava ave-marias todas as noites antes de dormir para espantar as assombrações do meu quarto.
Uma dessas histórias, contadas ao pé do fogão pela minha avó, era sobre o homem do porto de areia.
Segundo o relato, esse homem era o oitavo filho de uma família com sete mulheres — fato que alimentava o imaginário popular das lendas e narrativas dos antigos moradores de São José dos Campos, ainda da época de José de Anchieta, fundador da cidade —, rumor segundo o qual o oitavo filho se tornaria lobisomem caso os ritos de batismo na Igreja Católica não fossem realizados corretamente.
Na história, os meus tios e o meu pai ainda eram pequenos, e minha vó acordava com o som dos latidos no quintal. Era noite de lua cheia, e os vira-latas rosnavam em direção ao pé de ameixa, como se estivessem vendo algo.
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Um dos meus tios, ainda pequeno na época, também acordava assustado, e minha avó o via olhando pelo vidro da cozinha. Então, ela o segurava na porta e sussurrava em seu ouvido:
— É um lobisomem, moleque! Fique aqui quieto, senão ele te pega!
A princípio, eles pensavam que era um ladrão pulando a cerca. Mas meu avô pegava a espingarda e ia verificar, com minha avó curiosa logo atrás.
Minha avó saia no quintal, segurando o lampião, enquanto meu avô apontava a espingarda e dizia:
— Vai de retro, satanás! Aqui não tem nada para você cheirar!
Segundo a crença apostólica da minha avó, ao ouvi-la rezar o Pai-Nosso (e por estar com a confissão em dia), o lobisomem corria assustado em direção à mata.
Formas De Se Tornar Um Lobisomem
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| Maldição de nascimento | O sétimo filho homem consecutivo estaria condenado à transformação. Em algumas regiões, a maldição poderia ser evitada se fosse batizado pelo irmão mais velho. |
| Maldição lunar | A transformação ocorreria nas noites de lua cheia, muitas vezes de forma involuntária, com perda de memória do que foi feito durante o transe. |
| Castigo divino / pecado grave | A maldição seria punição por pecados considerados graves, como incesto, blasfêmia, desrespeito aos pais ou promessas religiosas quebradas. |
| Pacto ou feitiço | A pessoa se tornaria lobisomem por pacto com o diabo, feitiçaria ou uso de objetos encantados (unguentos, cintos ou peles). |
| Mordida ou ferimento | Em algumas versões, a maldição seria transmitida ao ser mordido, arranhado ou ferido por outro lobisomem. |
| Rituais noturnos | No folclore brasileiro, o homem realizaria rituais como correr por sete encruzilhadas, rolar nu na terra e uivar à lua antes da transformação. |
Locais de Avistamentos e Manifestações do Sobrenatural em São José dos Campos
| Bairro de SJC | Lenda Urbana Típica | Resumo da Lenda |
| Eugênio de Melo (Distrito) | O Lobisomem Amarrado | Um homem se transformava em lobisomem todas as noites no galinheiro, saindo para assombrar. Foi amarrado por um homem corajoso. |
| Alto da Ponte | O Lobisomem do Alto da Ponte | Em uma época em que o Rio Paraíba era limpo, um lobisomem gigantesco, de cerca de dois metros, foi avistado por uma criança e sua mãe na ponte do rio. |
| Santana | Fantasma do Cine Santana | No antigo Cine Santana (bairro Santana), onde uma atriz morreu em um curto-circuito na coxia, seu fantasma aparece no espelho do camarim para atrizes da nova peça, com o rosto terrivelmente queimado. |
| Buquirinha (Zona Norte) | A Carroça Assombrada | Em noites frias de inverno, com neblina, moradores ouviam barulhos e viam uma carroça que andava sozinha, sem cavalo ou condutor, carregada de objetos barulhentos. Dizem que era o espírito de um carroceiro morto pelo cavalo que maltratava. |
| Banhado | O Lobisomem do Banhado | Lenda urbana sobre uma criatura lobisomem que assombra a área do Banhado. |
| Banhado | O Corpo Seco do Túnel do Banhado | História sobre o Corpo Seco (um corpo de um rapaz que maltratou a mãe e foi desenterrado, tornando-se lenda) associada ao túnel do Banhado. |
| Novo Horizonte | O Castigo da Festa do Novo Horizonte / A Lista Mortuária do Novo Horizonte | Um relato de terror associado a uma festa no bairro Novo Horizonte onde acontece um “castigo” ao profanar “ebós” na rua e uma lenda sobre uma lista de pessoas que iriam morrer colada atrás da parede da paróquia Coração Eucarístico. |
Ficha Técnica do Lobisomem
| Aparência | Não é um lobo puro, mas uma figura híbrida, semelhante a um cão grande e deformado; orelhas grandes e caídas; olhos avermelhados ou muito brilhantes; pelos ralos e irregulares; postura encurvada, às vezes ereta por instantes. |
| Comportamento | Evita locais iluminados e símbolos religiosos; nem sempre uiva — rosna ou respira pesadamente; corre em trajetos circulares; age por impulso, mas sente vergonha ao retornar à forma humana. |
| Consciência e memória | Geralmente não escolhe a transformação; pode não se lembrar de tudo o que fez, apenas de fragmentos; acorda com sensação de cansaço extremo. |
| Origem da maldição | Pode ser castigo divino, maldição de nascimento ou resultado de rituais e feitiços; muitas vezes ligada ao destino familiar, não a uma escolha pessoal. |
| Detalhes pouco conhecidos | Feridas sofridas como animal reaparecem no corpo humano; costuma esconder as roupas antes da transformação; enfraquece ao ser chamado pelo nome; ataca mais animais do que pessoas; aparece entre meia-noite e três da manhã. |
| Relação com o espaço | Circula por estradas, cercas, encruzilhadas e margens de vilas; em algumas lendas, passa por cemitérios, mas não permanece neles. |
| Quebra da maldição | Ferir até sangrar sem matar; bênção religiosa ou confissão; traçar uma cruz no chão ou invocar o nome de Deus; a prata não é elemento universal no folclore brasileiro. |
| Diferença do cinema | No folclore é uma figura trágica, não um vilão consciente; não controla a transformação; a lua cheia nem sempre é obrigatória nas versões mais antigas. |
FIM