Muitos brasileiros talvez não percebam o impacto de clicar e compartilhar uma notícia falsa, mas a família de Fabiane Maria de Jesus sentiu na pele o que isso significa. Em 2014, ela foi alvo de uma mentira espalhada no Facebook e acabou linchada até a morte, após ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças.

Por isso, é fundamental identificar corretamente os gêneros textuais das histórias que recebemos digitalmente e nunca tratar como jornalística uma lenda urbana absurda que circula nas redes sociais, como ocorreu durante a pandemia.
Sendo assim, o conteúdo que você vai ler é um treinamento.
Os textos a seguir são lendas urbanas, ou seja, narrativas contemporâneas, frequentemente falsas ou exageradas, que se espalham como se fossem reais.
PS: Os textos e as imagens podem dar gatilhos.
A Mulher Desaparecida

Antes de a pandemia de COVID-19 ser declarada oficialmente pelo governo brasileiro, uma mulher e sua filha ficaram retidas em um hotel em Manaus.
Nos primeiros dias da quarentena, a mulher adoeceu e foi removida por paramédicos cobertos da cabeça aos pés com EPIs brancos.
A visão apocalíptica da mãe sendo levada por pessoas totalmente paramentadas assustou a garota, que, até aquele momento de 2019, não sabia o que era uma pandemia.
Os médicos levaram a menina para uma hospedagem dentro de uma instalação militar até a mãe se recuperar.
Um mês depois do ocorrido, a menina retornou ao hotel, mas não encontrou a mãe.

Além disso, descobriu que o quarto onde se hospedaram estava irreconhecível, pois claramente haviam trocado a decoração e os móveis durante sua ausência.
O gerente e a equipe afirmaram nunca tê-la visto, e os nomes dela e de sua mãe não estavam registrados.
Em algumas variantes dessa lenda, a menina descobre que o governo, após identificar a contaminação por COVID-19, tenta esconder da mídia qualquer prova ou informação que evidenciasse o início da pandemia no país.
O Carro Errado da Tia do Zap
Contam que uma idosa foi convencida por influenciadores de internet a ter uma arma na bolsa para a sua proteção. No dia em que aconteceu o nosso relato, a senhora estava em um shopping.

Quando estava indo embora, ela encontrou dois homens negros dentro do veículo dela no estacionamento, e foi nessa hora que ela louvou os digital influencers, pois estavam corretos: armas protegem você até de um apocalipse zumbi.
A senhora se aproximou dos dois homens apontando a arma e ordenou que eles saíssem do carro. Ela se sentiu poderosa ao ver os homens afrodescendentes fugirem.
Contudo, ao tentar dar partida no carro, percebeu que a chave não encaixava na ignição.
A história não acaba aqui. Dizem que a senhora foi até a sala de segurança do shopping para relatar o problema com o carro.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, o segurança afirmou que não tinha tempo para ouvir, pois havia uma velha maluca no estacionamento, armada, mandando as pessoas saírem de seus carros.
Música e Lendas Urbanas

Rumores disseminados por fundamentalistas evangélicos afirmam que mensagens “satânicas” são codificadas por meio de músicas.
As lendas mais populares afirmam que essas mensagens foram gravadas ao contrário em discos e, ao girá-los de trás para frente, o ouvinte aparentemente reconheceria mensagens subliminares que podem levar crianças e adolescentes a ter comportamentos maléficos e suicidas.
Há vários desses rumores envolvendo a apresentadora Xuxa, segundo os quais ao tocar uma determinada música ao contrário, é possível ouvir uma saudação a satanás.

Outra lenda afirma que a apresentadora fez pacto com o diabo para se tornar rica e famosa, e quando ela se arrependeu e quis reaver sua alma, o cenário do programa “Xuxa Park” pegou fogo.
Apesar de várias músicas da Xuxa insinuarem alguma palavra ou frase com significado satânico quando tocadas ao contrário, encontramos mensagens aleatórias saudando qualquer coisa em qualquer música (inclusive no hino nacional).
O problema é que os indivíduos que fazem esse tipo de montagem são fundamentalistas religiosos, e, evidentemente, eles não vão analisar nenhuma música gospel tocada ao contrário.
O Ingrediente Secreto

Em junho de 2024, uma discussão no Congresso Brasileiro surpreendeu a todos pelo nível medieval dos argumentos. Na época, debatia-se a equiparação do aborto ao crime de homicídio, mesmo em casos de estupro.
O argumento de um senador evangélico proponente desse projeto de lei foi o de que “fetos abortados são utilizados na fabricação de cosméticos”.
Ao ler essa notícia, fiquei perplexo e não pude conter o riso, pois, nesse dia, estava lendo um texto na “Enciclopédia Americana de Lendas Urbanas” que abordava precisamente esse boato infundado.
Naquele momento, refleti sobre como a religião pode levar uma pessoa, em pleno ano de 2024, de volta à Idade das Trevas. Por esse motivo, decidi compartilhar um trecho dessa lenda aqui:
A Lenda Urbana

Nas décadas de 1970 e 1980, espalhou-se a história, especialmente entre grupos cristãos fundamentalistas nos Estados Unidos, de que colágeno retirado de fetos de bebês abortados estava sendo usado na fabricação de cosméticos.
Alegava-se que esses produtos “preservadores da juventude” dependiam do abate de milhões de bebês não nascidos anualmente em países estrangeiros e que os produtos de beleza resultantes eram amplamente vendidos nos Estados Unidos.
A avalanche de panfletos, cartas para jornais e programas de rádio e televisão que faziam essa alegação do ingrediente secreto tornou-se tão intensa que, em 1985, a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) emitiu um comunicado negando os rumores e histórias, explicando que, embora substâncias proteicas às vezes sejam coletadas de placentas (“o pós-parto do parto normal”) ou de animais, não havia documentação do uso de fetos humanos como fonte, nem nos Estados Unidos, nem no exterior.

Instigada pelos leitores, a colunista de conselhos Ann Landers escreveu três colunas desmentindo a história do ingrediente secreto em 1985.
Sua conclusão amplamente lida de que a história carecia de “um pingo de verdade” e era “lixo puro” provavelmente conseguiu extinguir as alegações de uma vez por todas.
Decálogo de Lenin

Esta “fake news” refere-se a uma lista de dez regras para a implantação do comunismo no Ocidente, que foi disseminada por militantes de extrema-direita no Brasil, geralmente associados a “Orvalho de Cavalo” e “Quenga Vive” (nomes modificados).
Segundo esses militantes, a lista foi ora escrita em “Dusseldorf”, ora atribuída a “Lenin”.
Longe de ser um documento oficial, as “10 Regras Comunistas” originaram-se de uma publicação britânica de 1946, de um jornal chamado “New World News”.
Esse texto circula nos Estados Unidos desde o início do século XX, e inclusive o presidente americano de extrema-direita Ronald Reagan teria mencionado essa lista em um de seus discursos, sendo desmentido em seguida pelos jornais “The New York Times” e “The Washington Post”.
O livro “They Never Said It” investigou não só essa, mas também outras “fake news” disseminadas pela extrema-direita.
Os itens da lista referem-se ao declínio da religião, ao aumento do interesse pelo sexo, à realização de greves pelos sindicatos, ao registro de armas de fogo e a outros temas que são caros aos corações dos fanáticos de extrema-direita.
Uma “regra” falsamente atribuída nesta lista diz: “Destrua a fé do povo em seus líderes naturais…”.
Ainda assim, mesmo em 2024 e apesar do colapso do comunismo em todo o mundo, publicações de extrema-direita continuam a disseminar as “10 Regras Comunistas” nas redes sociais.
O mais irônico é que parece que a extrema-direita está aplicando essa lista (à sua maneira).
FIM
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